Falácia do custo irreparável*
* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 22 de Maio de 2015
1. Tomei pela primeira vez conhecimento do pensamento de Rolf Dobelli num artigo do Guardian em que ele explica por que razão não é bom estar sempre ligado ao fluxo noticioso porque o que agora se chama “notícias” faz ao espírito o que a fast-food faz ao corpo. É um texto libertador, facilmente achável na internet, intitulado “News is bad for you – and giving up reading it will make you happier”.
Em “A Arte de Pensar Com Clareza”, Dobelli recenseia 52 erros comuns de raciocínio e, entre eles, o da “falácia do custo irreparável”: a pulsão que nos faz agarrar às coisas só porque nelas já investimos muito tempo, energia, dinheiro, amor, …
Ficar a ver até ao fim um filme intragável não adianta nada, o dinheiro do bilhete já foi gasto em vão. O avião supersónico Concord nunca seria rentável mas a Inglaterra e a França continuaram, ano após ano após ano, a enterrar dinheiro nele, incapazes de acabarem com o projecto. Não é por acaso que a “falácia do custo irreparável” também é conhecida por “efeito Concord”.
Mais situações: «já percorremos um caminho tão longo....», «já li tantas páginas deste livro...», «já dediquei dois anos a este curso...»
Explica Dobelli: “há bons motivos, e são muitos, para investir na conclusão do que foi iniciado. E há um mau motivo: pensar no que foi investido. (...) O que conta é o presente e a avaliação que somos capazes de fazer quanto ao futuro.”
2. O AO90, o dito “acordo ortográfico”, é um flagrante exemplo de “falácia do custo irreparável”.
No presente o que temos é caos ortográfico e crispação (fervem os insultos entre “acordistas” e “desacordistas”). No futuro vamos continuar a ter uma escrita “à-vontade-do-freguês” e, enquanto todos os outros países lusófonos vão arrastar os pés, Portugal vai ficar no patético papel de lebre “acordista”.
Haverá algum político de topo capaz de perceber o erro e com coragem para fazer abortar o AO90?
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| Rolf Dobelli |
Em “A Arte de Pensar Com Clareza”, Dobelli recenseia 52 erros comuns de raciocínio e, entre eles, o da “falácia do custo irreparável”: a pulsão que nos faz agarrar às coisas só porque nelas já investimos muito tempo, energia, dinheiro, amor, …
Ficar a ver até ao fim um filme intragável não adianta nada, o dinheiro do bilhete já foi gasto em vão. O avião supersónico Concord nunca seria rentável mas a Inglaterra e a França continuaram, ano após ano após ano, a enterrar dinheiro nele, incapazes de acabarem com o projecto. Não é por acaso que a “falácia do custo irreparável” também é conhecida por “efeito Concord”.
Mais situações: «já percorremos um caminho tão longo....», «já li tantas páginas deste livro...», «já dediquei dois anos a este curso...»
Explica Dobelli: “há bons motivos, e são muitos, para investir na conclusão do que foi iniciado. E há um mau motivo: pensar no que foi investido. (...) O que conta é o presente e a avaliação que somos capazes de fazer quanto ao futuro.”
2. O AO90, o dito “acordo ortográfico”, é um flagrante exemplo de “falácia do custo irreparável”.
No presente o que temos é caos ortográfico e crispação (fervem os insultos entre “acordistas” e “desacordistas”). No futuro vamos continuar a ter uma escrita “à-vontade-do-freguês” e, enquanto todos os outros países lusófonos vão arrastar os pés, Portugal vai ficar no patético papel de lebre “acordista”.
Haverá algum político de topo capaz de perceber o erro e com coragem para fazer abortar o AO90?


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