sábado, 21 de novembro de 2015

O saibro do Mercado 2 de Maio de Viseu*

* O texto que se segue foi publicado no Jornal do Centro há exactamente 12 anos, em 21 de Novembro de 2003



Manda quem pode

1. No domingo passado, foi inaugurado o Estádio do Dragão. Nessa noite, Luís de Matos derrotou o Barcelona por dois a zero. Custa-me, mas a verdade tem que ser dita: este estádio é mais bonito que o Alvalade XXI, do meu Sporting. O arquitecto Manuel Salgado desenhou um estádio magnífico para o Futebol Clube do Porto. Linhas puras, equilíbrio, harmonia.

Manuel Salgado desenhou também o Multiusos de Viseu, mas neste caso não esteve na sua melhor forma. O Pavilhão Multiusos de Viseu é um volume sem graça e paquidérmico. Para tornar as coisas piores, a esquina poente do edifício está amolgada pelo que há meses que o Pavilhão Multiusos parece um contentor esbarrado.

2. Foi pavimentada a Praça das Magnólias, no Antigo Mercado 2 de Maio. Onde havia saibro há, agora, paralelos de granito. 


Fotografia Olho de Gato
Tanto devem ter chagado a cabeça de Siza Vieira que o homem cedeu. Foi pena. O problema deste espaço do nosso Centro Histórico, como repetidamente tenho afirmado, não é de hardware, é de software. Estar lá saibro, ou estarem lá paralelos, no ponto de vista de apelo às pessoas, é igual.

Pavimentar a Praça das Magnólias foi um triplo erro: 
(i) um erro técnico porque aumentou a aridez do espaço ao perder-se a plasticidade e o comportamento térmico do saibro; 
(ii) um erro estético porque acentuou a artificialidade daquele polígono; 
(iii) um erro financeiro já que isentou o anterior empreiteiro das suas responsabilidades contratuais: se o saibro que lá estava era uma porcaria devia ter sido lá posto um em condições.

O facto das pessoas não irem ao Antigo Mercado 2 de Maio não é, nem nunca foi, da responsabilidade de Siza Vieira mas sim da Câmara. A Câmara fez aquela obra sem nenhuma ideia comercial e de lazer para aquele espaço. Pensou em pedras, não pensou em pessoas. Foi como comprar um computador multimedia de última geração e design arrojado (o hardware) e durante dois anos, durante mais de setecentos dias, não ter conseguido abrir sequer um ficheiro (o tal software). Incompetências.

Agora, depois desta pavimentação a granito da Praça das Magnólias, as coisas ficaram piores. Temos agora um espaço menos equilibrado e mais árido. E sem gente na mesma.

Assim se desbarata dinheiro. A ordem é rica e os frades são poucos.

3. O Artº 21º da Proposta de Lei do Orçamento para 2004 prevê uma nova taxa para os municípios: taxa de “instalação de antenas parabólicas”. Se não houver vergonha, temos mais um pretexto para as câmaras irem ao nosso bolso. Para já, conforme informação recolhida em http://jumento.blogdrive.com, ainda não está previsto o regresso das licenças dos isqueiros e respectivos fiscais. Pelo andar da carruagem, lá chegaremos. Talvez para o ano.

4. Este ano, José Maria Aznar veio a Portugal duas vezes. A primeira foi em 16 de Março, na Cimeira dos Açores, a Cimeira que deu origem à Guerra do Iraque. Durão Barroso, Bush, Blair e Aznar fizeram aquele encontro pateta e patético, em que aldrabaram o mundo com as armas de destruição maciça no Iraque. Que não há maneira de aparecerem, as desgramadas.

Já este mês, no dia 8, Aznar esteve outra vez em Portugal, na Figueira da Foz, na Cimeira Ibérica. Aí foram decididas as linhas de TGV. Vejamos um extracto do Comunicado do Governo Espanhol sobre esta Cimeira: “En el año 2010 se pondrá en marcha la conexión Madrid-Lisboa, que atravesará Badajoz, algo que reivindicó el Ejecutivo español. En 2009 estará en funcionamiento la línea que unirá Vigo y Oporto, mientras que para 2015 se cree que será posible que esté en marcha la conexión Salamanca-Aveiro.”

Percebe-se que o TGV vai por Badajoz porque pode quem manda – e quem manda é o senhor Aznar; percebe-se também que a ligação a Vigo é prioritária porque manda quem pode – e quem pode é o senhor Aznar; e percebe-se ainda que vai acontecer à linha Aveiro-Salamanca o mesmo que aconteceu às armas de destruição maciça do Iraque: não vão aparecer nem os carris.

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Notas:
Concurso de Ideias para o Mercado 2 de Maio (detalhes aqui)
Consulta pública a decorrer (pode e deve dar o seu contributo aqui)

Textos sobre este assunto neste blogue:
"Os arquitectos super-estrelas", texto de 8/Maio/2002
"Os arquitectos super-estrelas #2texto de 30/Outubro/2015

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