quarta-feira, 3 de junho de 2015

Uma sumptuosa morada

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I

Uma sumptuosa morada, as aves por janelas.
(Cor de floresta virgem, aroma raiado de embriaguez de asa.)

A noite está na concha da mão. (E também no brilho dos olhos.)

Limites do universo: cada um é germe de infinito.

(Deitada, ela escutava, num ruído de água que se quebra, por cima do seu leito, a onda desenrolando as suas correntes e lançando sobre a praia os sóis decaídos da liberdade ofendida.)

Ao respirar fazemos sombra.

(Em menina, transtornavam-na as manhãs sem mãos, no meio da roda, com a sua imperícia de aleijadas.

Da terra, lembrar-se-á do riso do arco esbaforido, oscilando no caminho, e do suspiro das cortinas poeirentas que erguia até à aurora?)

A pouco e pouco as paredes afrouxam o seu abraço, porque não há amor eterno entre as pedras. Uma a uma redescobriram, nas ruínas, o anonimato do seu destino.



II

Os passos são telhados esperados. Ao andar, privo de calor o chão que os meus pés abandonam.



III

Avancei mais do que me permitiam as pupilas. (Lá onde a obscuridade se torna em degraus gratuitos, vertigem roubada à vigilância.)

A idade da transparência habita a memória dos homens. As guerras contribuem para o seu prestígio.

O teu cabelo é o halo alongado do meu desespero. (Será o teu rosto o astro de que a manhã nasceu?)

As mãos trepavam, selvagens, até à boca do abismo de que ninguém suspeita ao passar, distraído pelas dobras ondulantes das horas iluminadas que estriam o céu.



IV

(Há que admitir a nossa ausência do mundo, a nossa confortável segurança perante as marionetas inspiradas com que as crianças sonham. Há que admitir a nossa irrealidade que respeita as deambulações dessas criaturas incómodas.)



V

Encontrei-te no caminho imaculado que leva para além dos cumes.

Sabíamos nós, no topo das nossas forças, que devíamos deixar-nos cair, dolorosos diamantes, na água regeneradora?



VI

A chuva martela o ventre redondo do amor.
(A tempestade é cheia de censuras.)

De pé, bem seguro nas pernas, o homem desafia o raio.

Entre o dedo do pé e o indicador erguido, o sol ensina a ver.
Edmond Jabès

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