quarta-feira, 18 de março de 2015

Diplomacias *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 18 de Março de 2005


1. Contrariamente ao que se passa na Europa, o pensamento político da direita é muito forte e influente nos Estados Unidos. A política musculada de Bush resulta muito do trabalho ideológico da tropa neo-conservadora.

No Olho de Gato de 25 de Abril de 2003, chamei a atenção dos leitores para a Weekly Standard, a revista política americana mais influente na Casa Branca. Na altura dizia-se que só o Gabinete do Vice-presidente, Dick Cheney, mandava comprar 37 exemplares desta revista.

Já está disponível, em edição online, a Weekly Standard de 21 de Março. Aí pode ler-se um artigo chamado “Não uso cenouras”, assinado por Stephen F. Hayes, e que se debruça sobre a nomeação de John Bolton para futuro embaixador americano nas Nações Unidas.

O título deste texto cita a resposta dada por John Bolton, então Sub-Secretário de Estado para o Controle de Armamento e Segurança Internacional, quando foi interrogado acerca da continuação da “política de pau e cenoura” para a Coreia do Norte. “Não uso cenouras”, respondeu ele, com secura.

Quanto às Nações Unidas, John Bolton disse, em 1994: “Não existe essa tal coisa chamada Nações Unidas.” Já agora, mais uma pérola: “O edifício da ONU tem 38 andares; se perdesse 10, não faria a mínima diferença.”

Fotografia Olho de Gato
2. Esta última afirmação de John Bolton a “querer” tirar andares ao Edifício da ONU, fez-me recordar o “projecto” da demolição de cinco pisos ao Edifício da Segurança Social, em Viseu. Este gambozino foi inventado em 2001 pelo Presidente da Câmara e desapareceu do mapa mediático enquanto o PSD e o PP estiveram no poder.

Será que a ideia de deitar abaixo parcial ou totalmente o Edifício da Segurança Social vai regressar agora para encher os nossos jornais? Será que vamos ter outra vez o mesmo blá-blá-blá, agora que temos um governo de cor partidária distinta do da Câmara Municipal de Viseu?

3. Regressando ao “Não uso cenouras”, é interessante perceber-se que o contencioso entre os americanos e a ONU não é só num sentido. Os americanos têm boas razões de queixa das Nações Unidas. Basta lembrar que a Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas tem como membros países como Cuba e o Zimbawe. Fidel e Mugabe são, desta forma obscena, promovidos à categoria de democratas.

Mas também é verdade que a ONU tem também um capital de queixa do unilateralismo e arrogância dos Estados Unidos. Em Setembro do ano passado, Boutros Boutros-Ghali, anterior Secretário Geral da ONU, numa entrevista a uma TV egípcia disse que os Estados Unidos são um “regime totalitário”, já que “fora da América, a política americana não é democrática”. Estas são afirmações dum diplomata de topo; são palavras dum ex-número um mundial.

4. Freitas do Amaral foi, sem dúvida, o mais criticado dos novos ministros do Governo de José Sócrates. Muita gente lembrou as palavras duras do nosso novo Ministro dos Negócios Estrangeiros dirigidas a George Bush e à Guerra do Iraque. Por exemplo, Paulo Portas, que pôs Portugal de gatas na Guerra do Iraque, veio agora criticar, com severidade, a escolha de Freitas do Amaral para o Palácio das Necessidades e – como um rapazinho birrento e mal-educado – tratou de tirar o retrato de Freitas da sede do CDS.
Deu para ver que a direita não esconde uma grande “dor de cotovelo” por Sócrates ter conseguido a colaboração dum ministro da qualidade de Freitas do Amaral.

Sócrates tem Freitas. Durão Barroso, há 3 anos, não conseguiu melhor que um Ministro dos Negócios Estrangeiros que, se ficar na história, vai ser por ter posto o nome da filha nas páginas dos jornais por razões bem tristes.

5. “Nem o homem mais rico do mundo consegue comprar um passado.” Disse isto, uma vez, Óscar Wilde.

2 comentários:

  1. Comentário fora de contexto:

    Só agora (dia 18) vi umas imagens das Jornadas Parlamentares do PS em Gaia.
    Fiquei atónito, catatónico, incrédulo e revoltado.

    Já se percebeu que não é fácil para os chefes do PS a herança de Sócrates.
    Também já se entendeu que é inevitável (!?) a inclusão dos seus indefectíveis na entourage de António Costa.
    Mas convenhamos que passar um friso inteirinho dessa plêiade com a integração da personagem que chefiava a confederação de pais nos acordos com Lurdes Rodrigues é uma coisa inimaginável.
    Já o escrevi aqui, cada vez que o PS falar da “herança” de Lurdes Rodrigues perde 10 mil votos e se voltar a colocar na 1ª fila o Albino da Confederação de Pais, perde 20 mil votos.
    Bem Feito!

    “Nem o homem mais rico do mundo consegue comprar um passado.” Disse isto, uma vez, Óscar Wilde. Bem recordado, sr Gato.

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    1. Olá, JB!

      — O Albino é um emplastro, pim!

      — Há dez anos ainda não tinha espreitado o "Vendedor de Passados" de Agualusa e o que se viu então no adesivismo à maioria absoluta socrática dão mais razão ao Agualusa que a Wilde

      Bom assim, ir-se aprendendo

      Abraço

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