O vestido cor de salmão

Meninas Exemplares”, de Paula Rego


Ai de mim estreei o meu vestido cor de salmão

no primeiro baile a que fui

durante o baile fiquei sentada numa cadeira

ninguém me convidou para dançar

a uma rapariga importuna

que me perguntou porque é que eu

não dançava

respondi eu não sei dançar

ela insistiu comigo para que eu

bebesse uma taça de champagne

eu acedi

mas não foi dessa vez que bebi champagne

pela primeira vez

porque a rapariga entornou a taça

no meu colo

julgo que propositadamente

com a nódoa o vestido deixou de ser para bom

passou a ser para bater

durante uma viagem curta de comboio (que era a lenha)

queimou-o num punho

foi fácil substituir o punho

porque no Penim onde a minha mãe tinha comprado

o corte de tecido cor de salmão

ainda havia esse tecido cor de salmão

mas durante um passeio à praia

sentei-me numa rocha

e rasgou-se irremediavelmente

ao despi-lo vi que o vestido tinha já

a forma do meu corpo

rasguei-o em pedaços

e guardei os pedaços

na cesta dos trapos

de um dos pedaços fez-se um vestido

para a boneca da minha irmã mais nova

e deste mais tarde fez-se um vestido

para a filha da boneca da minha irmã mais nova

que era uma boneca mais pequena

que caiu a um poço

Adília Lopes



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