sexta-feira, 31 de maio de 2013

Programe-se para a roda viva de amanhã — VISEU A 01 DO 06




(mais 3 sessões nos dias seguintes, bilhetes no teatro)

No Rossio — 10:00 às 19:00, borlix


No Parque — 16:00 às 17:00, borlix

Na Praça D. Duarte — 18:00 às 19:00, borlix

No Adro da Sé  — 21:00 às 21:30, borlix

No Soldado Desconhecido — 22:30 às 24:00, borlix

Teus olhos entristecem



Teus olhos entristecem
Nem ouves o que digo.
Dormem, sonham esquecem...
Não me ouves, e prossigo.

Digo o que já, de triste,
Te disse tanta vez...
Creio que nunca o ouviste
De tão tua que és.

Olhas-me de repente
De um distante impreciso
Com um olhar ausente.
Começas um sorriso.

Continuo a falar.
Continuas ouvindo
O que estás a pensar,
Já quase não sorrindo.

Até que neste ocioso
Sumir da tarde fútil,
Se esfolha silencioso
O teu sorriso inútil.
Fernando Pessoa



Tudo o resto pode ser nocivo, problemático, o que acontece aos dezoito segundos não é mau, de maneira nenhuma



Via Delito de Opinião

quinta-feira, 30 de maio de 2013

(I'll Love You) Till the End of the World

Imagem de Denis Rouvre



Nem sempre o corpo se parece com
um bosque, nem sempre o sol
atravessa o vidro,
ou um melro canta na neve.
Há um modo de olhar vindo
do deserto,
mirrado sopro de folhas,
de lábios, digo.
Eugénio de Andrade


Damian Cabaud, João Pedro Brandão e Marcos Cavaleiro




Cortar na casaca


Ó Fernando Figueiredo, lembra-te deste facto básico: o cortar na casaca pode ser bom  ou pode ser mau, pode ser boa publicidade pode ser má.

Depende de quem maneja a tesoura.

A entrevista

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. Como já aqui foi referido, um dos tópicos incontornáveis destas eleições autárquicas em Viseu é o legado do dr. Ruas e o candidato que precisa de se demarcar mais dele é António Almeida Henriques. 

É por isso que não surpreende o mantra do candidato do PSD — “novo ciclo” / “ciclo novo” / “equipa nova” (mantra repetido ao longo da entrevista que deu a este jornal há duas semanas). A forma como ele começou a entrevista foi muito bem conseguida. Disse ele: “Viseu teve um surto de progresso nos últimos trinta anos e importa neste momento dar-lhe um novo ciclo.”

Nesta simples frase, o candidato do PSD amalgamou os 24 anos do dr. Ruas com os mandatos anteriores e entregou-os à história, ao “antigo ciclo”. Nesse “antigo ciclo”, naturalmente, eles acompanham o “progresso” alcançado nos anos de Engrácia Carrilho.
Com esta referência a trinta anos, Almeida Henriques pretende alcançar dois objectivos: (i) colocar mais depressa o dr. Ruas nas prateleiras da história e (ii) disputar a Hélder Amaral o eleitorado centrista.

2. O candidato do PSD, nesta entrevista, anunciou que a sua campanha vai ter figuras de “referência nacional”. A primeira foi Augusto Mateus, um dos gurus do “aeromoscas” de Beja, que veio cá falar sobre “logística e transportes”. 

Chegado cá, o homem propôs um “centro logístico” para Viseu. Os media locais fizeram de pé-de-microfone, mas a nossa blogosfera gozou com o facto de Augusto Mateus não ter defendido para aqui o mesmo que para Beja: uma plataforma para a exportação de peixe.

Caro António Almeida Henriques: que tal fazer uma visitinha aos 96 hectares da “Plataforma Logística de Iniciativa Empresarial da Guarda (PLIEG)”? Aproveite a visita para tentar convencer os accionistas privados da PLIEG a investirem também no tal “Centro Logístico de Viseu” proposto, com tanta “originalidade”, pelo seu convidado.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

O Mentor, de Paul Thomas Anderson, em sessão extra no CCV

6ª feira 31/5, às 21H45, no IPJ de Viseu


Tempo *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 29 de Maio de 2009.



O tempo leva os corpos de novos para velhos. 

O tempo põe musgo nas pedras e depois ele - o tempo - seca o musgo. Pode-se lutar contra o tempo mas ele acaba sempre por ganhar. 

O tempo põe o ontem antes do hoje, e põe o hoje antes do amanhã. Depois de amanhã logo se há-de ver… 

Só a imaginação dos homens consegue fugir a estas implacáveis leis e é capaz de colocar os relógios a andarem para trás. Vê-se isso em dois filmes recentes:

1. A história de “O Estranho Caso de Benjamin Button” é bem conhecida. Benjamin Button nasceu num corpo velho e fez a viagem da vida de trás para a frente. 

Os anos tiraram-lhe a artrite e o reumatismo e deram-lhe vigor. Morreu com corpo de bebé, pequenino, consolado, ao colo do seu amor.

Foi a imaginação de F. Scott Fritzgerald que escreveu o conto “The Curious Case Of Benjamin Button”, nos anos de 1920, agora adaptado ao cinema por David Fincher.

2. Em “Uma Segunda Juventude”, o professor de linguística Dominic Matei, já com mais de 70 anos, sente-se incapaz de terminar a obra da sua vida sobre a origem da linguagem humana. 

No dia em que se ia suicidar, foi atingido por um raio e acordou no hospital 30 anos mais novo e capaz de falar todas as línguas do mundo. Aquela faísca deu a Dominic uma nova vida para poder partilhar com a mulher da sua vida (também “abençoada” por um relâmpago).



Esta história, adaptada ao cinema por Francis Ford Coppola, saiu da imaginação de Mircea Eliade. 

Este filósofo das religiões romeno esteve em Viseu, no Outono de 1941, a estudar os quadros de Grão Vasco. Será que foi ao olhar para aqueles quadros mágicos que Mircea Eliade foi atingido pela faísca da ideia para esta história extraordinária?

domingo, 26 de maio de 2013

Todo o amor é fantasia

Fotografia de Jorge Colombo



Todo o amor é fantasia
- ele inventa o ano, o dia,
a hora e a melodia;
inventa o amante e, mais,
a amada. Não prova nada,
contra o amor, que a amada
não existisse nunca.
Antonio Machado

sábado, 25 de maio de 2013

Deux Maisons — le coq + o galo

Hoje, 23H00




Conferência "As Freguesias Têm Futuro?"


À esquerda Diamantino Santos, presidente da junta da Freguesia de Coração de Jesus, organizador da conferência




Armando Vieira, presidente da Anafre, no uso da palavra

«O Conselho Executivo da Anafre não aprova nenhum boicote às eleições, isso seria uma vergonha para esta instituição, mas vão surgir boicotes por "geração espontânea", e eu compreendo a razão que leva a que isso vá acontecer.»
Armando Vieira



Cândido de Oliveira, docente na Universidade do Minho, no uso da palavra


«A riqueza que tem uma freguesia é ser  uma estrutura de proximidade, os nossos municípios são grandes para poderem fazer isso.»

«Não é nossa tradição fazer eleições para freguesias não instaladas e nós vamos fazer eleições para freguesias que só existem no papel.»

«Eu não concebo uma freguesia que não tenha um site na internet actualizado.»
Cândido de Oliveira




O deputado João Figueiredo (PSD) a interpelar Armando Vieira


Na interacção final com o público, o deputado e também presidente de junta João Figueiredo interpelou  Armando Vieira com brio e levou o respectivo troco — foi um momento divertidíssimo, com dois altos responsáveis do PSD às voltas com a reforma Relvas, reforma que foi, ao longo da noite, qualificada pelos palestrantes como "irracional" e "absurda".

A intervenção do candidato do PSD à câmara de Viseu, António Almeida Henriques foi de uma pobreza franciscana. O que ele disse, ironizando mas não muito, foi uma coisa tipo: "o-que-lá-vai-lá-vai-e-o-que-importa-é-os-passarinhos-a-fazerem-os-ninhos-nas-árvores-de-Boaldeia-e-nos-beirais-de-Cepões".

São noites — ontem à noite, António Almeida Henriques estava em baixo. Acontece.

Como na sala toda a gente que estava a falar era do PSD — à excepção do competente moderador, Bruno Simões, jornalista do Jornal de Negócios — houve uma tentativa canhestra de colar José Junqueiro à reforma "irracional" e "absurda" de agregação de freguesias. 

Lá tive de lembrar que esta asneira "absurda" e "irracional" não respeita nem a letra nem o espírito do memorando de entendimento da troika, que a agregação de freguesias não poupa um cêntimo ao estado que era o que a troika pretendia e o que o país precisa, lá tive que lembrar que os oradores tinham toda a razão em qualificar esta asneira de "absurda" e "irracional", lá tive que lembrar que a agregação de freguesias tem três (i)rresponsáveis políticos: o doutor Miguel Relvas, o dr. Pedro Passos Coelho e o dr. Paulo Portas.

Podem andar para aí a espalhar mentirolas, mas é aquele trio que é a cara deste desconchavo.

Fica a síntese do que foi dito naquela sala cheia de gente responsável do PSD, gente que votou em assembleias municipais e na assembleia da república a favor da "reforma Relvas":

1 — as freguesias, estruturas eleitas de proximidade, terão tanto mais futuro quanto mais próximo forem capazes de responder aos cidadãos;

2 — o doutor Relvas, o dr. Passos e o dr. Portas fizeram  uma reforma administrativa "absurda" e "irresponsável";

3 — donde: "é preciso fazer a reforma da reforma";

4 — como o que foi feito, foi-o à bruta e a mata-cavalos, existem problemas legais, administrativos e logísticos complicados para as próximas eleições autárquicas;

5 — há fortes possibilidades de acontecerem boicotes eleitorais em 22 de Setembro (se se confirmar a data avançada no domingo pelo professor Marcelo na TVI).

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Hoje, trio Cuviello-Davis-Rosso



Luciano Cuviello (bateria); Jeffrey Davis (vibrafone); Alvaro Rosso (contrabaixo)


Realiza-se pela última vez a "Semana da Freguesia do Coração de Jesus"

E ser a última vez deve-se a uma única razão: o doutor Relvas e o PSD e o CDS — em vez de diminuirem o boyismo municipal e as clientelas partidárias — preferiram meter-se com o "elo mais fraco": as freguesias.




Deitado frente ao mar


Lingoa proletária do meu pobo
eu fáloa porque si, porque me gosta,
porque me peta e quero e dame a ganha
porque me sai de dentro, ala do fondo
dunha tristura aceda que me abrangue
ao ver tanto patufos desleigados,
pequenos mequetrefes sin raíces
que ao pôr a garabata xá non saben
afirmarse no amor dos devanceiros,
falar a fala nai,
a fala dos abós que temos mortos,
e ser, co rostro erguido,
marinheiros, labregos do língoaxe,
remo i arado, proa e relha sempre.

Eu fáloa porque si, porque me gosta
e quero estar cos meus, coa xente minha,
perto dos homes bós que sofren longo
unha historia contada en outra lingoa.

Non falo pra os soberbios,
non falo pra os ruís e poderosos,
non falo pra os finchados,
non falo pra os estúpidos,
non falo pra os valeiros,
que falo pra os que agoantan rexamente
mentiras e inxusticias de cotio;
pra os que súan e choran
un pranto cotidián de volvoretas,
de lume e vento sobre os olhos núos.
Eu non podo arredar as minhas verbas
de tódolos que sofren neste mundo.
E ti vives no mundo, terra minha,
berce da minha estirpe,
Galícia, doce mágoa das Espanhas,
deitada rente ao mar, ise caminho...
Celso Emilio Ferrero

Encerrados no presente*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

     
A vida de Henry Gustave Molaison não foi nada boa. Na lotaria que é este “estar cá”, ele teve muito azar. Aos 10 anos teve o primeiro episódio de epilepsia. Os ataques tornaram-se cada mais frequentes e mais fortes, pelo que em 1953, tinha Henry 27 anos, fizeram-lhe dois buracos no crânio, um de cada lado, e removeram-lhe parte da massa encefálica.
     
Depois da cirurgia, Henry ficou muito melhor da epilepsia mas aconteceu-lhe uma catástrofe: a operação retirou-lhe a memória da sua vida e a capacidade de formar novas evocações. Henry ficou encerrado no presente — o seu campo de consciência ficou reduzido a trinta segundos.


Nos 55 anos seguintes — Henry morreu em 2008 -, ele foi o caso de amnésia mais estudado no mundo, foi sujeito a todo o tipo de testes, a imagiografia do seu cérebro figurou em todos os manuais da especialidade. 
     
O seu caso é descrito em “Permanent Present Tense: The Unforgettable Life of the Amnesic Patient H. M.”, um livro acabado de editar no Estados Unidos, da autoria de Suzanne Corkin, a médica que o acompanhou e o protegeu, impedindo que ele fosse tratado como um fenómeno de feira.
     
Li a recensão deste livro no dia em que as televisões estiveram a fazer um estardalhaço com o relatório da OCDE entregue, em Paris, por Angel Gurria a Pedro Passos Coelho. 

Angel Gurria, secretário-geral da OCDE
Nas televisões ninguém recordou às pessoas que, em Setembro de 2010, a menos de um ano da nossa bancarrota, o mesmo Angel, com a mesma cara-de-pau, apareceu nas televisões a entregar um outro relatório salvador da pátria, então a Teixeira dos Santos. Tanto em 2010 como agora seguiram-se, depois, os intermináveis enche-chouriços do costume dos comentadores televisivos.
     
O fluxo de notícias é cada vez mais os trinta segundos de Henry Molaison. Uma coisa sem passado e sem futuro, encerrada no presente, a fingir que está a informar o público.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Viseu está cheio de sorte — Augusto Mateus esteve cá hoje e...

... não propôs  que a cidade de Viriato se tornasse num entreposto para exportação de peixe como fez para Beja...



Parando

Fotografia de Quinn Jacobsen

nem todo vazio é nada
nem todo nada é zero
nem todo zero é número
nem todo número é dois
nem todo dois é par
nem todo par é chinelo
nem todo chinelo é chão
nem todo chão é terra
nem toda terra é mundo
nem todo mundo é branco
nem todo branco é papel
nem todo papel é livro
nem todo livro é história
nem toda história é passado
nem todo passado é pisado
nem todo pisado é caminho
nem todo caminho é pedra
nem toda pedra é parede
nem toda parede é fim
nem todo fim é vazio
nem todo vazio é nada
Fernando Cereja


Olhares

Fotografia daqui

Direitos de autor*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 22 de Maio de 2009


     1. Alegre decidiu ficar no PS, o que é bom para Sócrates mas ainda melhor para Louçã. Um partido alegrista fazia muito mais estragos eleitorais ao Bloco que ao PS.
     Foi importante Manuel Alegre ter lutado contra o autoritarismo e a insensatez marilurdista na educação. Teve a coragem que faltou ao rebanho de deputados do PS que também são professores.

     2. Bob Geldof, em 12 de Maio, entrou em vídeo numa conferência de imprensa em Portugal. Foi uma incursão na política portuguesa que pode ser vista em www.gdaie.pt.
     Em causa está o seguinte: o parlamento europeu aprovou a extensão dos direitos de autor das gravações sonoras de 50 para 70 anos (nos Estados Unidos a protecção é de 95 anos). Essa directiva precisa de ser ainda aprovada no conselho da UE e o ministro da cultura português era um dos seis a bloqueá-la.
     Nesse notável vídeo, Bob Geldof lembra que falar da arte ou falar da alma de um país é a mesma coisa.
     Por isso, o músico irlandês termina o vídeo a “bombardear” o ministro José António Pinto Ribeiro: “Portugal precisa de apoiar os seus artistas, precisa de apoiar a sua cultura e, se não o fizer, deve livrar-se do seu ministro da cultura.”
     Não vai ser preciso. Cinco dias depois deste “raide irlandês”, o ministro mudou de ideias e Portugal, agora, já aceita o novo limite dos 70 anos.

     3. Ouvi esta história numa entrevista a Miriam Gómez, viúva do premiado escritor cubano Guillermo Cabrera Infante.
     A ditadura castrista perseguiu o mais que pôde o autor de “Três Tristes Tigres” mas declarou-o “património nacional de Cuba”.
     Esse cinismo serviu para o poder cubano publicar sem autorização toda a sua obra e, ainda por cima, não pagar direitos de autor.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Canção de Amor

Fotografia de James Friedman


Se estivesses a afogar-te, vinha acudir-te,
embrulhava-te num cobertor e dava-te chá quente.
Se fosse xerife, prendia-te
e fechava-te numa cela com aloquete.

Se fosses uma ave rara, gravava um disco
e ficava a ouvir a noite inteira o teu trilo agudo.
Se fosse o sargento, serias a minha recruta,
e, rapaz, garanto-te, ias adorar a instrução.

Se fosses chinesa, aprendia a língua,
queimava pilhas de incenso, vestia roupas esquisitas.
Se fosses um espelho, invadia as “Senhoras”,
dava-te o meu bâton e punha-te pó-de-arroz no nariz.

Se gostasses de vulcões, seria a lava, em
irrupção contínua da minha secreta fonte.
E se fosses a minha mulher, era o teu amante,
porque a Igreja ao divórcio se opõe firmemente.
Joseph Brodsky


Dia longo


segunda-feira, 20 de maio de 2013

Auditório Mirita Casimiro — há coisas que não se fazem

O que aconteceu no sábado na assembleia geral do Centro Cultural Distrital de Viseu (CCDV), a federação de associações culturais que é titular do Auditório Mirita Casimiro, foi uma triste tristeza.

O solitário "presidente" residual da direcção residual do CCDV (só apareceram dois nomes a dar a cara por aquela sala fechada há anos) entregou ao grupo de onze associações que têm um projecto de ressuscitação daquele auditório a lista das associações federadas no CCDV no dia anterior ao fim do prazo.

Em face à assimetria das obrigações estatutárias — lista apoiada pela direcção só precisa da assinatura do presidente cessante, lista nova precisa do apoio de 1/3 dos associados — em 24 horas esse grupo tinha que arranjar o apoio de mais de seis dezenas de associações (entidades colectivas que têm formas de deliberação colectiva nunca mobilizável em 24 horas).

Um truquezito de aparelho destes é um desconchavo que diz tudo de quem o pratica — quem acompanha estas criaturas a preto e branco...

... pelo menos não alegue que não sabe da qualidade da companhia.

A mia senhor, que me foi amostrar




A mia senhor, que me foi amostrar
Deus por meu mal, por vos eu nom mentir,
e que sempr'eu punhei de a servir
muit', houve gram sabor de m'enganar:
ca me falou primeir', u a vi, bem;
e pois que viu que perdia o sem
por ela, nunca m'er quiso falar.

E se m'eu dela soubesse guardar,
quando a vi, punhara de guarir;
mais foi-m'ela bem falar e riir,
e falei-lh'eu; e nom a vi queixar,
nem se queixou que a chamei "senhor"!
E pois me viu mui coitado d'amor,
prougo-lhe muit'e nom m'er quis catar!

E pois me queria desemparar,
quando a vi, mandasse-me partir
logo de si! E mandasse-m'end'ir!
Mais nom lhe vi de nulha rem pesar
que lh'eu dissesse, tam bem me catou!
E pois viu que seu amor me forçou,
leixou-m'assi desemparad'andar.

E deferença dev'end'a filhar
tod'home, que dona fremosa vir,
de mim: e guarde-se bem de nom ir,
com'eu fui log', em seu poder entrar;
ca lh'averrá com'aveo a mim:
servi-a muit', e pois que a servi,
fez-mi aquesto quant'oídes contar!
João Lopes de Ulhoa


domingo, 19 de maio de 2013

Ainda ontem pensava que não era

Fotografia de Niels Van Iperen




Ainda ontem pensava que não era
mais do que um fragmento trémulo sem ritmo
na esfera da vida.
Hoje sei que sou eu a esfera,
e a vida inteira em fragmentos rítmicos move-se em mim.

Eles dizem-me no seu despertar:
" Tu e o mundo em que vives não passais de um grão de areia
sobre a margem infinita
de um mar infinito."

E no meu sonho eu respondo-lhes:
"Eu sou o mar infinito,
e todos os mundos não passam de grãos de areia
sobre a minha margem."

Só uma vez fiquei mudo.
Foi quando um homem me perguntou:
"Quem és tu?"
Kahlil Gibran

sábado, 18 de maio de 2013

Diário do gato triste

Rostro de vos

Fotografia de Imogen Cunningham


Tengo una soledad
tan concurrida
tan llena de nostalgias
y de rostros de vos
de adioses hace tiempo
y besos bienvenidos
de primeras de cambio
y de último vagón.

Tengo una soledad
tan concurrida
que puedo organizarla
como una procesión
por colores
tamaños
y promesas
por época
por tacto
y por sabor.

Sin temblor de más
me abrazo a tus ausencias
que asisten y me asisten
con mi rostro de vos.

Estoy lleno de sombras
de noches y deseos
de risas y de alguna
maldición.

Mis huéspedes concurren
concurren como sueños
con sus rencores nuevos
su falta de candor
yo les pongo una escoba
tras la puerta
porque quiero estar solo
con mi rostro de vos.

Pero el rostro de vos
mira a otra parte
con sus ojos de amor
que ya no aman
como víveres
que buscan su hambre
miran y miran
y apagan mi jornada.

Las paredes se van
queda la noche
las nostalgias se van
no queda nada.

Ya mi rostro de vos
cierra los ojos
y es una soledad
tan desolada.
Mario Benedetti



sexta-feira, 17 de maio de 2013

Os The Ray Band depois do concerto para gravação de um DVD...

... vão estar hoje, a partir das 23H00, 
no Lugar do Capitão — Viseu



El pájaro yo

Fotografia daqui


Me llamo pájaro Pablo,
ave de una sola pluma,
volador de sombra clara
y de claridad confusa,
las alas no se me ven,
los oídos me retumban
cuando paso entre los árboles
o debajo de las tumbas
cual un funesto paraguas
o como una espada desnuda,
estirado como un arco
o redondo como una uva,
vuelo y vuelo sin saber,
herido en la noche oscura,
quiénes me van a esperar,
quiénes no quieren mi canto,
quiénes me quieren morir,
quiénes no saben que llego
y no vendran a vencerme,
a sangrarme, a retorcerme
o a besar mi traje roto
por el silbido del viento.
Por eso vuelvo y me voy,
vuelo y no vuelo pero canto:
soy el pájaro furioso
de la tempestad tranquila.
Pablo Neruda

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Leonardo Outeiro Trio




Os paraísos artificiais

Fotografia de Frank Meyl



Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.

Os cânticos das aves - não há cânticos,
mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.
Jorge de Sena

Coisíssima nenhuma*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro
     
«A senhora deputada afirmou que eu fui eleito e a senhora deputada deveria saber que eu não fui eleito coisíssima nenhuma...», atirou em pleno parlamento Vítor Gaspar a Ana Drago.
     
Por causa disto, o homem foi carimbado de “salazarento”. Ora, aquele “não fui eleito coisíssima nenhuma” é um facto indesmentível: Vitor Gaspar não foi a votos. E não é o único: temos tido dezenas de ministros que nunca foram a votos. Isso será bom?
     
Na Inglaterra, na velha democracia inglesa, tal não é possível — um político que não ganhe na sua circunscrição tem que mudar de vida.
     
Este método parece bom: obriga à prestação de contas ao povo e torna mais improvável governos com “engenheiros sociais” que desconhecem a vida real das pessoas. Em suma, um país fica mais ao abrigo de “Vítores-Gaspares”.
     
Na terceira república ninguém é responsabilizado nem presta contas por nada. Veja-se o caso das PêPêPês e das swaps. Os responsáveis destas facadas no interesse público não vão ter dissabores nem na justiça nem na política.
     
Prestar contas políticas faz-se através do voto. Precisa-se de um sistema em que os eleitos tenham que responder perante os eleitores e não perante o chefe que os põe nas listas. Era bom evoluir-se para um sistema eleitoral personalizado, com círculos uninominais e um círculo nacional. Este círculo nacional — para além de recuperar os votos não convertidos em mandatos nos círculos uninominais — deveria incluir as personalidades ministeriáveis (ministros que só poderiam ser recrutados entre eleitos; o saber tecnocrata ficaria para as secretarias de estado).
     
Passos Coelho e António José Seguro não percebem, ou não querem perceber,  ...

... o grau de apodrecimento do regime e não fazem nada para o melhorar. Por exemplo, apesar das pressões da troika, o boyismo municipal vai ficar na mesma. Neste aspecto, as autárquicas não vão mudar “coisíssima nenhuma”.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Poema Sujo

Imagens de Liu Zheng
turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma? claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti


bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era...
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas
constelações de alfabeto
noites escritas a giz
pastilhas de aniversário
domingos de futebol
enterros corsos comícios
roleta bilhar baralho
mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está
perdido comigo
teu nome
em alguma gaveta

Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís
do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de febre entre irmãos
e pais dentro de um enigma?
mas que importa um nome
debaixo deste teto de telhas encardidas vigas à mostra entre
cadeiras e mesa entre uma cristaleira e um armário diante de
garfos e facas e pratos de louças que se quebraram já

um prato de louça ordinária não dura tanto
e as facas se perdem e os garfos
se perdem pela vida caem
pelas falhas do assoalho e vão conviver com ratos
e baratas ou enferrujam no quintal esquecidos entre os pés de erva-cidreira

e as grossas orelhas de hortelã
quanta coisa se perde
nesta vida
Como se perdeu o que eles falavam ali
mastigando
misturando feijão com farinha e nacos de carne assada
e diziam coisas tão reais como a toalha bordada
ou a tosse da tia no quarto
e o clarão do sol morrendo na platibanda em frente à nossa
janela
tão reais que
se apagaram para sempre
Ou não?

Não sei de que tecido é feita minha carne e essa vertigem
que me arrasta por avenidas e vaginas entre cheiros de gás
e mijo a me consumir como um facho-corpo sem chama,
ou dentro de um ônibus
ou no bojo de um Boeing 707 acima do Atlântico
acima do arco-íris
perfeitamente fora
do rigor cronológico
sonhando
Garfos enferrujados facas cegas cadeiras furadas mesas gastas
balcões de quitanda pedras da Rua da Alegria beirais de casas
cobertos de limo muros de musgos palavras ditas à mesa do
jantar,
voais comigo
sobre continentes e mares

E também rastejais comigo
pelos túneis das noites clandestinas
sob o céu constelado do país
entre fulgor e lepra
debaixo de lençóis de lama e de terror
vos esgueirais comigo, mesas velhas,
armários obsoletos gavetas perfumadas de passado,
dobrais comigo as esquinas do susto
e esperais esperais
que o dia venha

E depois de tanto
que importa um nome?
Te cubro de flor, menina, e te dou todos os nomes do mundo:
te chamo aurora
te chamo água
te descubro nas pedras coloridas nas artistas de cinema
nas aparições do sonho

- E esta mulher a tossir dentro de casa!
Como se não bastasse o pouco dinheiro, a lâmpada fraca,
O perfume ordinário, o amor escasso, as goteiras no inverno.
E as formigas brotando aos milhões negras como golfadas de
dentro da parede (como se aquilo fosse a essência da casa)
E todos buscavam

num sorriso num gesto
nas conversas da esquina
no coito em pé na calçada escura do Quartel
no adultério
no roubo
a decifração do enigma

- Que faço entre coisas?
- De que me defendo?

Num cofo de quintal na terra preta cresciam plantas e rosas
(como pode o perfume
nascer assim?)
Da lama à beira das calçadas, da água dos esgotos cresciam
pés de tomate
Nos beirais das casas sobre as telhas cresciam capins
mais verdes que a esperança
(ou o fogo
de teus olhos)

Era a vida a explodir por todas as fendas da cidade
sob as sombras da guerra:
a gestapo a wehrmacht a raf a feb a blitzkrieg
catalinas torpedeamentos a quinta-coluna os fascistas os nazistas os
comunistas o repórter Esso a discussão na quitanda a querosene o
sabão de andiroba o mercado negro o racionamento o blackout as
montanhas de metais velhos o italiano assassinado na Praça João
Lisboa o cheiro de pólvora os canhões alemães troando nas noites de
tempestade por cima da nossa casa. Stalingrado resiste.
Por meu pai que contrabandeava cigarros, por meu primo que passava
rifa, pelo tio que roubava estanho à Estrada de Ferro, por seu Neco
que fazia charutos ordinários, pelo sargento Gonzaga que tomava
tiquira com mel de abelha e trepava com a janela aberta,
pelo meu carneiro manso
por minha cidade azul
pelo Brasil salve salve,
Stalingrado resiste.
A cada nova manhã
nas janelas nas esquinas nas manchetes dos jornais

Mas a poesia não existia ainda.
Plantas. Bichos, Cheiros. Roupas.
Olhos. Braços. Seios. Bocas.
Vidraça verde, jasmim.
Bicicleta no domingo.
Papagaios de papel.
Retreta na praça.
Luto.
Homem morto no mercado
sangue humano nos legumes.
Mundo sem voz, coisa opaca.
Nem Bilac nem Raimundo. Tuba de alto clangor, lira singela?
Nem tuba nem lira grega. Soube depois: fala humana, voz de
gente, barulho escuro do corpo, intercortado de relâmpagos




Do corpo. Mas que é o corpo?
Meu corpo feito de carne e de osso.
Esse osso que não vejo, maxilares, costelas
flexível armação que me sustenta no espaço
que não me deixa desabar como um saco
vazio
que guarda as vísceras todas
funcionando
como retortas e tubos
fazendo o sangue que faz a carne e o pensamento
e as palavras
e as mentiras
e os carinhos mais doces mais sacanas
mais sentidos
para explodir uma galáxia
de leite
no centro de tuas coxas no fundo
de tua noite ávida
cheiros de umbigo e de vagina
graves cheiros indecifráveis
como símbolos
do corpo
do teu corpo do meu corpo
corpo
que pode um sabre rasgar
um caco de vidro
uma navalha
meu corpo cheio de sangue
que o irriga como a um continente
ou um jardim
circulando por meus braços
por meus dedos
enquanto discuto caminho
lembro relembro
meu sangue feito de gases que aspiro
dos céus da cidade estrangeira
com a ajuda dos plátanos
e que pode - por um descuido - esvair-se por meu
pulso
aberto

Meu corpo
que deitado na cama vejo
como um objeto no espaço
que mede 1,70m
e que sou eu: essa coisa deitada
barriga pernas e pés
com cinco dedos cada um (por que
não seis?)
joelhos e tornozelos
para mover-se
sentar-se
levantar-se

meu corpo de 1,70m que é meu tamanho no mundo
meu corpo feito de água
e cinza
que me faz olhar Andrômeda, Sírius, Mercúrio
e me sentir misturado
a toda essa massa de hidrogênio e hélio
que se desintegra e reintegra
sem se saber pra quê

Corpo meu corpo corpo
que tem um nariz assim uma boca
dois olhos
e um certo jeito de sorrir
de falar
que minha mãe identifica como sendo de seu filho
que meu filho identifica
como sendo de seu pai

corpo que se pára de funcionar provoca
um grave acontecimento na família:
sem ele não há José Ribamar Ferreira
não há Ferreira Gullar
e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta
estarão esquecidas para sempre

corpo-facho corpo-fátuo-corpo-fato

atravessados de cheiros de galinheiros e rato
na quitanda ninho
de rato
cocô de gato
sal azinhavre sapato
brilhantina anel barato
língua no cu na boceta cavalo-de-crista chato
nos pentelhos
com meu corpo-falo
insondável incompreendido
meu cão doméstico meu dono
cheio de flor e de sono
meu corpo-galáxia aberto a tudo cheio
de tudo como um monturo
de trapos sujos latas velhas colchões usados sinfonias
sambas e frevos azuis
de Fra Angelico verdes
de Cézanne
matéria-sonho de Volpi
Mas sobretudo meu
corpo
nordestino
Mais que isso
maranhense
mais que isso
sanluisense
mais que isso
ferreirense
newtoniense
alzirense
meu corpo nascido numa porta-e-janela da Rua dos Prazeres
ao lado de uma padaria sob o signo de Virgo
sob as balas do 24º BC
na revolução de 30

e que desde então segue pulsando como um relógio
num tic tac que não se ouve
(senão quando se cola o ouvido à altura do meu coração)
tic tac tic tac
enquanto vou entre automóveis e ônibus
entre vitrinas de roupas
nas livrarias
nos bares
tic tac tic tac
pulsando há 45 anos
esse coração oculto
pulsando no meio da noite, da neve, da chuva
debaixo da capa, do paletó, da camisa
debaixo da pele, da carne,

combatente clandestino aliado da classe operária
meu coração de menino
Ferreira Gullar