Entrar de repente pelos olhos adentro

Entrar de repente pelos olhos adentro e escancarar
as árvores: mas aquilo que amaste perdura.
Junto da água morna os animais aguardam o ruído
vegetal da noite, e as luzes bocejam
a mansidão das pernas esticadas: o amor
não tem tempo, e dura no que amaste.
Dura de repente nos olhos abertos e
a água que respira no flanco dos animais
bocejando devagar a chegada da noite e das
redes e os passos mornos dos caçadores,
e as luzes escancaradas do silêncio. Dura
esticado nas árvores, dura mansamente sem
palavras nem coisas, sem tempo para
aguardar as mãos do caçador e as redes
mornas respirando sobre a água: aquilo
que amaste perdura.
António Franco Alexandre

Comentários

  1. Lembras-me uma marcha de Lisboa
    Num desfile singular
    Quem disse
    Que há hora e momento pra se amar?
    Lembras-me uma enchente de maré
    Com uma calma matinal
    Quem foi, quem disse
    Que o mar dos olhos também sabe a sal
    As memórias são como livros escondidos no pó
    As lembranças são os sorrisos que queremos rever devagar
    Queria viver tudo numa noite
    Sem perder a procurar
    O tempo ou espaço
    Que é indiferente pra poder sonhar
    As memórias são como livros escondidos no pó
    As lembranças são os sorrisos que queremos rever devagar
    Quem foi que provocou vontades
    E atiçou as tempestades
    E Amarrou o barco ao cais?
    Quem foi que matou o desejo
    E arrancou um lábio ao beijo
    E amainou os vendavais?
    As memórias são como livros escondidos no pó
    As lembranças são os sorrisos que queremos rever devagar
    Canção dos Trovante 1987

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