vi os homens no carro celular, os cães fodidos
vi os homens no carro celular, os cães fodidos. por cima de mim estava o ramo, havia céu, estrelas. mas os cães ladravam à minha passagem, acossados. no tempo em que me interrogava, no tempo em que tinha uma ânfora, azeite e cereal, fixava a atenção na iridescência. a cristaleira à minha frente era um espelho. mas sou agora um homem só. os cães fodidos ladram na distância, ladram, ladram desabridamente. e o brilho, assim translúcido, é agora a minha maior pena, o meu maior desgosto. vi os homens no carro celular, a neblina cinzenta. às vezes Deus esmaga-nos o peito, reclama-nos. o que gela é escuro como uma torrente de gritos. meu amor, tremo de frio, a noite é vasta. os cães fodidos. o barco, a viagem. nada espera. de novo o carro celular volta ao lugar em que a semente estiola e a boca arde. não sei de ti, de mim, da nossa sombra. noutros lugares o aceno é o sinal da transposição do limite. a nuvem abre-se ao sulco tracejante, ocre ou grená. e é possível ver fazer chover. aqui, assim...