sexta-feira, 31 de agosto de 2012

"And Now For Something Completely Different" (#85)

Agradecimento a Santa Marta pela salvação de uma doença grave.



O respeito por esta tradição, impedem este blogue de tirar partido — pelo menos para já — de todo o potencial metafórico desta cerimónia.

Por isso,  
depois dos 5—0 de ontem
Sá Pinto fica dispensado de ir à Romaria dos Ataúdes, em As Neves, Pontevedra, Galiza.

Ele e ela (II)*

* Para encerrar este querido mês de Agosto, hoje no Jornal do Centro foi republicado o Ele e Ela de 1.8.2008


Imagem daqui

— Querida, este jantar é especial…
— É um jantar normal.
— …não vês? É o melhor restaurante da cidade. Abriu na semana passada.
— Almocei cá ontem com o meu chefe…
— Agora andas sempre ocupada. Sempre ao computador. Sempre ao telemóvel. Lá estás tu outra vez. Deixa lá as mensagens! Vamos conversar…
— Podíamos ter ficado em casa. Estou sem apetite.
— …em casa não falamos. Agora nunca falamos.
— Não há nada para dizer.
— Está aqui a ementa. Peixe ou carne?
— Escolhe tu qualquer coisa. Já te disse. Não tenho apetite…
— Uma dose de dourada grelhada, por favor, e um alvarinho branco fresco. Pode ser de Monção. Viste a carta do banco? Vamos pagar mais 12 euros na prestação.
— Estamos a ficar como o país: mais pobres e mais azedos.
— Olha, o indiano das flores! Por favor, uma vermelha… Para ti, querida. A tua cor.
— Escusavas. Nunca pensas no futuro. És sempre o mesmo!
— Tristezas não pagam dívidas.
— Dívidas não apagam tristezas.
— Não sejas assim! Porque andas assim?
— Assim como?!
— Ponha aqui a travessa, por favor. Cuidado com a flor! Posso servir-te?
— Não, eu sirvo-me.
— A dourada está boa.
— Assim-assim.
— A noite ainda é uma criança. Podíamos ir vadiar…
— Não. Quero ir para casa. Tenho que mandar uns mails.
— Guias tu ou guio eu?
— Guia tu.
— Deixaste a tua flor vermelha em cima da mesa…


* A série "Ele e ela" saiu nos verões de 2008, 2009, 2011 e 2012 no Jornal do Centro.



quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Publicidade descarada


Después de todo

Fotografia de Isabel Muñoz


Después de todo — pero después de todo -
sólo se trata de acostarse juntos,
se trata de la carne,
de los cuerpos desnudos,
lámpara de la muerte en el mundo.

Gloria degollada, sobreviviente
del tiempo sordomudo,
mezquina paga de los que mueren juntos.

A la miseria del placer, eternidad,
condenaste la búsqueda, al injusto
fracaso encadenaste sed,
clavaste el corazón a un muro.

Se trata de mi cuerpo al que bendigo,
contra el que lucho,
el que ha de darme todo
en un silencio robusto
y el que se muere y mata a menudo.

Soledad, márcame con tu pie desnudo,
aprieta mi corazón como las uvas
y lléname la boca con su licor maduro.

Jaime Sabines


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Genial!



Pela primeira vez na 
sua história, 
a RTP 
está na oposição ao governo.



Parabéns, Miguel Relvas!

Para que conste: B Fachada hoje na Feira de S. Mateus


Visão distante

Fotografia de Mario Cravo Neto




Vi-te passar, longe de mim, distante,
Como uma estátua de ébano ambulante;
Ias de luto, doce, tutinegra,
E o teu aspecto pesaroso e triste
Prendeu minha alma, sedutora negra;
Depois, cativa de invisível laço,
(o teu encanto, a que ninguém resiste)
Foi-te seguindo o pequenino passo
Até que o vulto gracioso e lindo
Desapareceu, longe de mim, distante,
Como uma estátua de ébano ambulante.
Caetano da Costa Alegre

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Portugal versus Rússia

Como bem avisou, no seu Facebook, em 24 de Agosto o grande José Milhazes, a partir de Moscovo:
«nuvens negras pairam sobre as idílicas relações entre Portugal e a Rússia»:
Correio da Manhã, hoje
Convém não esquecer os melindres do calendário: 
em 12 de Outubro a selecção nacional vai jogar à Rússia. 
Mais uma vez se cita José Milhazes:
«no Estádio Lujniki, os adeptos russos poderão optar por gritar: "Irina!", "Irina!", em vez de "Messi!", "Messi!"»

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Ainda que mal

Fotografia de Lorenzo Castore

Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor. 
Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Ele e Ela (XIV)*


* Publicado hoje no Jornal do Centro


Estou banzo...
Então?
Acabo de ver um Mercedes SLK estacionado com um “PROCURO NOVO DONO” colado no vidro e um número de telemóvel...
Qual é o espanto?
Isso é lá maneira de vender um Mercedes?! Um papa-reformas ou um Corsa podem andar à procura de um novo dono, um SLK não ...
Mas porquê?
Não percebes nada de carros, está visto! Estamos a falar de um Mercedes descapotável...
E daí?!
Ora, ora! Por definição, um carro desses tem um dono com uma loura sentada ao lado...
És um machista...
— … um SLK nunca procura um novo dono, pode andar é à procura de uma nova loura...
— … nem pões a hipótese do carro ser da loura...
És capaz de ter razão... só uma loura burra é que tentava vender assim um carrão daqueles...

Desvergonhado...
Espera lá... afinal, acertaste... bingo! É isso mesmo: não é o carro que anda à procura de um novo dono, é mas é a loura do SLK que anda à procura de dono novo...
És um machista enrustido...
Raio! Porque é que não apontei o número do telemóvel da gaja?
Hey! Lembra-te que estás a falar com a tua mulher... que começa a ficar cheia, mas mesmo muito cheia das tuas idiotices...
Calma!
Calma nada! És um bronco!
Onde está o teu sentido de humor?
Sempre com piadas a rebaixar as pessoas...
Que queres dizer com isso?
Estou farta de te aturar. Querias o telemóvel da gaja, era?! Querias ser o novo dono da gaja, era?
Calma!
Sabes que te digo? Quem vai pôr um anúncio de “PROCURO NOVO DONO”, para toda a gente ver, sou eu!
Então?! Tem calma!
Ficas a saber: vou pôr um código de barras tatuado aqui neste braço...

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A barbárie continua



Silly season


Os subsídios de férias dos assessores do governo.


A tralha socrática do PS.


O militante do CDS, sr. Jacinto Leite Capelo Rego.


Jerónimo de Sousa aos papéis.


A águia de duas cabeças do bloco.

Ficções

Fotografia de Magdalena Fischer

Torna-se cada vez mais vago
distinguir
memória de imaginação.

Lembro-me de coisas que nunca aconteceram
e recupero cenas que jamais vivi.
Quando ouço coisas que dizem
que fiz, que vi e vivi
então é um meigo espanto.

Está difícil compatibilizar as fotos
com as versões dos fatos
que eu pensei ou fiz.

Acho que inventei
também o meu país.
Affonso Romano de Sant'Anna



quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O PS do Baixo Alentejo está pouco seguro




 A auto-estrada do Baixo Alentejo também.

Desobedeci às minhas paixões

Fotografia de Tania Leshkina

Desobedeci às minhas paixões quando era jovem
mas depois que o tempo me feriu com as cãs e a velhice,
contrariamente ao hábito, obedeci à paixão.
Prouvera a Deus que começasse por velho
para depois me tornar jovem.
Ibne Ayyas Alieburi

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Política de Viseu em Agosto

Enquanto em Lisboa
a coligação do governo não parece abrir brechas, 
em Viseu, o PSD e o CDS entretêm-se:
Diário de Viseu, hoje

     Como o PS tem todas as condições políticas para ganhar, e por muitos, as autárquicas de 2013, os partidos do governo, em apuros, tenderão a cerrar fileiras e fazerem coligações, especialmente nas capitais de distrito.
     É por isso que estas amenidades de Agosto entre o CDS e o PSD locais não são para levar muito a sério e elas não inviabilizam uma AD em Viseu nas próximas autárquicas.

"And Now For Something Completely Different" (#83)

Vai passar a ser modalidade olímpica 
no Rio de Janeiro em 2016

Filhos de Putin!

Libertem Nadezhda Tolokonnikova, 
Maria Alekhina e Yekaterina Samutsevich!



Como Realiza o Corpo este Exercício da Queda



Como realiza o corpo este exercício
da queda no súbito conhecimento
do espanto, quando os olhos estão vencidos,
cerrados pela transparência e pela luz
ofuscante da alva? À medida que o corpo
seca e se aplacam os seus, outrora, amáveis
dons, se ensombram os ossos, míseras as mãos
emagrecidas e se desnuda a carne
no fundo fôlego das águas, aumenta
o assombro da claridade. Só a vida
gerou o tempo, eis que ausente, ao resplendor
inesperado da luz descida. Onde vai
o humilde corpo, se corpo resta ou se outro,
receber a miraculosa mudança
de nada existir a não ser o profundo
bando do grito terrível de todos
os mortos? Ah, que estupor sela os músculos,
enrijece as unhas e aspira a voz,
resfria o suor e nos conduz, inertes
e cegos, ao núcleo da luz deslumbrante?
Ó mar de que futuro, rumor volúvel,
sopro claro, envolve-nos de compaixão!
Orlando Neves

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Ele e Ela (XIII)*


* Publicado hoje no Jornal do Centro

- Que te aconteceu nas férias? Estás diferente...
- Ontem estava bem melhor, à beira-mar, com uma paisagem linda. Hoje estou aqui neste gabinete onde a paisagem, há seis anos, é sempre a mesma: tu! Tu que não me ligas nada...
- Nunca te tinha visto assim tão vamp... é uma camisa de seda?
- Sim... 
- Finalmente mostras o bronze de maneira que se veja... Estas férias mudaram-te... Que andaste a fazer?
- Eu?! O costume: casa-praia, praia-casa, dormir, ler...
- Arranjaste um amor de Verão, confessa...
- Incrível! Há seis anos aqui a trabalharmos e ainda não me conheces... fiz o que faço todos os anos...
- Que leste nestes dias?
- As Cinquentas Sombras de Grey.
- Também tu?! Todas as mulheres andam a ler esse livro. Até se diz que, daqui a nove meses, vai aumentar a taxa de natalidade...
- Então, mas porquê?!
- Ora, ora, as aventuras eróticas de Anastasia Steele põem as leitoras de todo o mundo a fim de umas palmadinhas preliminares... e do resto...
- Também o leste?
- Em e-book. Essa saia, com essa racha, se não é Fátima Lopes, imita muito bem... 
- É, é, comprei-a já há uns anos, no tempo em que ainda havia subsídio de férias...
- Nunca ta tinha visto...
- É a primeira vez que a uso...
- O best-seller deste Verão fez-te muito bem... a tua saia nova é bem provoquente...
- Não é nova, já te disse. Comprei-a no ano em que vim trabalhar para aqui... 
- Seis anos para estreares essa belezura? O livro da E L James soltou-te, desvendou a tua pele.
- Não sejas parvo...
- Estás um deslumbre!
- Só agora é que deste conta?
- Queres jantar hoje comigo?
- Estou há seis anos à espera desse convite...
- Verdade? Mas tu mostraste-te sempre tão distante... Sabes que te digo? É literatura de aeroporto, mas começo a gostar de E L James...
- Acho que preferes Fátima Lopes...

sábado, 11 de agosto de 2012

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Ele e Ela (XII)

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


- Olá!
- Estás a chegar da praia, menino do peito rapado? Agora há cada mania...
- É, agora tiram-se os pêlos públicos... e os não públicos também...
- És um engraçadinho mas não chegas aos calcanhares do Catroga a falar de pentelhos nas televisões... quem faz a barba ao corpo todo são os gajos do futebol, essa mania ainda não chegou aos desportos de homem... não viste as axilas farfalhudas dos remadores nos jogos olímpicos?
- Pareciam macacos... o seu primeiro marido fez remo, não foi?
- Esse era um atleta com os defeitos todos: caça, pesca, jogo... era um mulherengo... tenho saudades daquele bigodudo de voz grossa, cheio de testosterona... derreteu a fortuna na roleta e depois deu um tiro nos miolos...
- Mas, quando isso aconteceu, já não estava casada com ele...
- Já estava a viver com o meu segundo marido. Bom homem, era professor universitário, todo virado para a política. Tinha voz de tenor. Usava-a, com sucesso, nas aulas e nos comícios. Só não chegou ao governo por causa daquele TIR fora de mão em Espanha...
- A notícia deu em todos os telejornais... uma tragédia! E que se passou com o seu terceiro?
- Um erro... como é que eu me  fui meter com um delicadinho de voz aflautinada?! Apanhei-o agarrado ao secretário. No acordo de divórcio limpei-lhe metade da massa dos offshores e o Rolls que tu passarás a guiar se aceitares ser o meu Jarbas...
- No próximo casamento acerta...
- Próximo quê?!?! Vê lá se queres que te despeça ainda antes de começares... uma vez fizeram essa mesma provocação à mãe do Gore Vidal, sabes o que ela respondeu?
- Não...
- Disse ela: «o meu primeiro marido tinha três tomates, o segundo dois, o terceiro um; até eu sei que é melhor não desafiar a sorte.» 

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Gore Vidal (#5)

"'Oh Mr Vidal, your poor mother can't have been as awful as you say [ in your memoirs]'.
She was a lot worse. I don't go after other people's mothers, my own was quite enough to attack."
Gore Vidal to Guardian, 2009

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Brincar com o fogo

     Pedro Passos Coelho decidiu fazer férias no Algarve, no sítio do seu costume: a praia da Manta Rota.
     Este pequeno factóide deu origem a um jogo perigoso na blogosfera e nos media, com toda a gente - televisões incluídas - a criarem suspense acerca do que iria, ou não, acontecer nos areais, qual iria ser a reacção dos banhistas.
     O blogue dos ex-assessores socráticos começou por apostar que o primeiro-ministro não teria coragem de pôr os chanatos na areia e, depois de ele ter aparecido, passou a criticá-lo por ir acompanhado de  "corporações" de guarda-costas.
     Do lado dos apoiantes do governo, "blasfemou-se" contra o secretismo pretérito das férias de Sócrates, gabou-se o desassombro e a coragem de Pedro Passos Coelho em ir molhar os calções, em pleno Agosto, a uma Manta Rota cheia de povo.
     Tanto de um lado como do outro, a mesma lógica estúpida: "o meu político é menos execrado do que o teu", quando não o linear e ainda mais estúpido: "o meu político é adorado, o teu  é execrado."
     Este "pensamento" habita a cabeça dos assessores governamentais presentes, passados e futuros, e os jornalistas de política ou partilham o mesmo universo mental (às vezes parece...) ou precisam destes maniqueísmos de pacotilha para irem enchendo chouriços noticiosos.
       Quem ainda tem paciência para acompanhar a espuma da política portuguesa rapidamente dá conta que há para aí muitas "cabeças" falantes a ansiarem que aconteça algo, a lamentarem porque nunca mais chega às ruas a barbárie anunciada, a prognosticarem que, conforme se diz no belíssimo poema de Cavafis, talvez a chegada dos bárbaros resolvesse alguma coisa.
     Muito se escreve e se diz e teoriza sobre o "conformismo" da rua lusa em contraponto com a "combatividade" da rua grega.
     Ora, tudo o que é dito nesse sentido está a deitar gasolina para o fogo que vai queimando a terceira república.
     A continuar-se assim, num futuro mais próximo do que se julga, nenhum político de nenhum partido poderá sair à rua sem correr o risco de ser molestado. E nem todos vão poder ter guarda-costas.
     Fica uma pergunta final aos aprendizes de feiticeiro: quando os políticos perderem a sua liberdade de movimento, imaginam o que vai acontecer à liberdade de movimento dos cidadãos?

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Gore Vidal (#4)

"[John] Updike was nothing.
 [William] Buckley was nothing with a flair for publicity.
[Norman] Mailer was a flawed publicist, too, but at least there were signs every now and then of a working brain."
Gore Vidal to Guardian, 2009

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Gore Vidal (#3)

[Barack Obama] " wants to be liked by everybody and he thought all he had to do was talk reason.
But remember - the Republican Party is not a political party. It's a mindset, like Hitler Youth. It's full of hatred. 
You're not got going to get them aboard. Don't even try. The only way to handle them is to terrify them.
 He's too delicate for that."
Gore Vidal to Guardian, 2009

domingo, 5 de agosto de 2012

Gore Vidal (#2)

"I was like everyone else when Obama was elected - optimistic.
 Everything we had been saying about integration was vindicated, but he's incompetent. 
He will be defeated for re-election."
Gore Vidal to Guardian, 2009

sábado, 4 de agosto de 2012

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Ele e Ela (XI) *

Publicado hoje no Jornal do Centro

- Estamos sempre a discutir, é melhor separarmo-nos...
- Já percebi há muito tempo... queres ir viver com a tua galdéria...
- Escusas de ser ofensiva...
- Uma galdéria reles...
- Se tratarmos do nosso divórcio de maneira civilizada, as coisas correm melhor... a casa fica para ti... 
- Estás mesmo cheio de pressa de ir para o duplex 
que deste à gaja, cabrão...
- Só levo a minha roupa e coisas pessoais....
- Não quero saber...
- Livros profissionais, o DVD autografado pelo Tarantino, o resto fica cá tudo...
- Os teus tarecos não me interessam para nada...
- O BêÉme fica para ti. Levo a mota...
- Para passeares a sem-vergonha agarrada a ti... era bom que marrassem com os cornos num muro!
- Gosto muito do quadro do Tiago Lopes, o da figura pintada em cartão, tu ficas com os outros todos, deixo cá a colecção que andava a fazer de artistas de Viseu, os do Luís Calheiros, os da Alice Geirinhas, os dos irmãos Tudela, os do José Mouga...
- Não quero discutir partilhas. Que pesadelo!
- Depende de nós acabarmos com ele. Se estivermos de acordo, as coisas são rápidas.
- Um inferno...
- Eu levo o gato...
- O Tareco?! Nem sonhes...
- Ele gosta de mim, é no meu colo que ele adormece, a ti não te liga nada. Fui sempre eu que tratei dele, que o levei à veterinária...
- Nem sonhes! Tens de escolher: ou o Tareco ou a gaja...
- Estás a ser egoísta. Estou a dar-te tudo: o carro, a casa, a colecção de quadros...
- Tens de escolher: ou o Tareco ou aquela vaca...

* Os anteriores "Ele e Ela" foram publicados  nos verões de 2009 e 2010 e podem ser lidos aqui neste blogue.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Selecção *

* Texto publicado no Jornal do Centro em 6 de Junho de 2008



Como vi o estágio da selecção:

Viseu é uma cidade aberta, bonita e dinâmica e que sabe receber bem.

Os viseenses estão de parabéns.




      A Câmara Municipal fez bem em alindar a cidade antes da chegada da comitiva; os zunzuns que ouvi a criticar isso foram estúpidos; quando se recebem visitas, prepara-se a casa.




     Não se viu grande jornalismo na cobertura destas duas semanas. Pôr repórteres a espetar o microfone à frente dos transeuntes no Rossio não é fazer jornalismo, é encher chouriços. 
 

     As mesmas histórias passaram de canal para canal, aquecidas e reaquecidas em micro-ondas. 
     Toda a gente ficou a saber de cor o caso dos patuscos do Renault 5 a “trabalharem” para irem à Suíça e o caso da pasteleira que veio de Quioto para ter um autógrafo do Paulo “Fereira”.


     Um estágio precisa de sossego e concentração.      
     Quanto mais próximas queriam estar as pessoas, mais longe precisavam de estar os jogadores. 
     Foi impossível evitar alguma frustração dos adeptos.

     Não devia ter sido permitida a entrada do empresário de Cristiano Ronaldo no estágio. Ele que trate dos seus 10% noutro sítio. A história da ida ou não ida de Cristiano Ronaldo para o Real Madrid perturbou os trabalhos e a cabeça do nosso melhor jogador.



Sou sócio da selecção desde que nasci. 

Percebeu, senhor BES?





     Gilberto Madaíl pôs-se a falar de um putativo novo contrato com Scolari. 




Um jipe estacionou 
junto ao 
Hotel Montebelo com um fardo 
de palha no tejadilho.





Durante uns tempos, as varandas dos apartamentos vão ter mais bandeiras nacionais que placas a dizer “vende-se”.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Verão


Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
à sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.


Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.


Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a cólera que me leva
aos precipícios de agosto, e a mansidão
traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar
palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas.
Cada dia é um abismo atómico.


E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Bate em mim cada pancada do pedreiro
que talha no calcário a rosa congenital.
A carne, asfixiam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos."
Herberto Helder