segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Os seus vestidos pretos fechados [Maria do Rosário Pedreira 3]

Fotografia de Ali Gandomi



Os seus vestidos pretos fechados
no armário lançam uma sombra
funesta nos meus dias. A sua voz
eterna na fita do telefone é outro
espinho cravado no meu silêncio.
Roubei-lhe, sem saber, todas as

palavras que te disse — porque,
num beijo meu, são ainda os seus
lábios que procuras, é dela o corpo
que abraças quando me abraças.

Se adormecer ao teu lado mais
esta noite, sei que os seus olhos
hão-de pousar gelados nas minhas
pálpebras, roubando-me a secreta

ilusão desse repouso. E amanhã,
se por acaso saíres antes de mim,
vão esses olhos perseguir-me pelos
corredores, como a expulsar-me

para sempre desta casa. O tempo
é implacável com quem aguarda
em segredo o esquecimento de
uma morte. Deixa-me, por isso,

aguardá-lo contigo; e, entretanto,
basta que me mintas, sim, mente,
mas nunca me digas o seu nome.
Maria do Rosário Pedreira



domingo, 8 de dezembro de 2019

De que me serviu ir correr mundo? [Maria do Rosário Pedreira 2]

Fotografia de Kyle Broad

De que me serviu ir correr mundo,
arrastar, de cidade em cidade, um amor
que pesava mais do que mil malas; mostrar
a mil homens o teu nome escrito em mil
alfabetos e uma estampa do teu rosto
que eu julgava feliz? De que me serviu

recusar esses mil homens, e os outros mil
que fizeram de tudo para eu parar, mil
vezes me penteando as pregas do vestido
cansado de viagens, ou dizendo o seu nome
tão bonito em mil línguas que eu nunca
entenderia? Porque era apenas atrás de ti

que eu corria o mundo, era com a tua voz
nos meus ouvidos que eu arrastava o fardo
do amor de cidade em cidade, o teu nome
nos meus lábios de cidade em cidade, o teu
rosto nos meus olhos durante toda a viagem,

mas tu partias sempre na véspera de eu chegar.
Maria do Rosário Pedreira


sábado, 7 de dezembro de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#246)

The testosterone sound

First comment on the video: 
"So that's what 12 testicles sounds like"

Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim [Maria do Rosário Pedreira 1]

Fotografia de Yoann Boyer

Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foi
verdade — que não amei ninguém depois de ti nem
o meu corpo procurou nunca mais outro incêndio
que não fosse a memória de um instante junto
do teu corpo; e que deixei de ler quando partiste
por não suportar as palavras maiores longe da tua boca;
e que tranquei os livros na despensa e tranquei a despensa,
acreditando que, se não me alimentasse, acabaria
por sofrer de uma doença menor do que a saudade, mas
a que os outros, pelo menos, não chamariam loucura.

Se alguém me perguntar, direi que foi assim, e não de
outra maneira, como alguns parecem supor — que permiti,
bem sei, que outros homens me amassem e me aquecessem
a cama, mas em troca lhes dei apenas um nome diferente
do que tinham e os vi partir desesperados a meio
da noite sem sentir maior dor que a de saber que, afinal,
também eles não existiam para além de ti; e que no dia
seguinte dava comigo a trautear sem querer essa canção
que amavas (como se ela, sim, se tivesse deitado
no meu ouvido), mas que a sua melodia, em vez
de me alegrar como antes, me escurecia mais a vida.

Se alguém me perguntar, nada desmentirei, nem negarei
que os frutos todos que me deram a provar na tua ausência
me pareceram demasiado azedos ao pé dos que explodiam
em sumo nos teus lábios; e que, por isso, nunca mais quis
um beijo de ninguém, nem sequer inocente, e não voltei
também a aceitar as flores que me traziam por me lembrar
que, em mãos assim, tão grandes para o afecto, o seu
perfume anunciava invariavelmente a chegada do outono.

E contarei por fim, se alguém quiser saber, que o teu silêncio
foi de tal densidade, de tal espessura, que não consegui
escutar nenhuma das vozes que vieram depois de ti e, pior
do que isso, me esqueci com indiferença das mais antigas,
pelo que as minhas noites se tornaram uma tão longa
e solitária travessia que ainda esta manhã acordei ao lado
da tua sombra e respondi baixinho, mesmo sem ninguém
me perguntar, que há coisas que uma mala nunca leva.
Maria do Rosário Pedreira


sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Circo — episódio 2*

* Hoje no Jornal do Centro

1. António Costa acaba de nos confrontar com um “déjà vu”: espalhou três secretarias de estado pelo território, uma em Castelo Branco, outra em Bragança e outra na Guarda.

Ora, no tempo do governo de Pedro Santana Lopes já tinha havido o mesmo filme, ...
Fotografia daqui
... o que motivou um Olho de Gato, em 30 de Julho de 2004, intitulado “Circo”.

Perante a repetição, o melhor é ser ecológico, poupar energia, e transcrever para aqui, no ponto seguinte, exactaqualmente o texto de há quinze anos.

2. Pedro Santana Lopes espalhou seis Secretarias de Estado por seis cidades do país. Alguns tenores da direita chamam a esta medida descentralização, outros chamam-lhe desconcentração. Dizer isto é um erro de palmatória. Não se descentraliza nada quando se alugam uns escritórios em Braga ou em Évora ou em Santarém; anima-se é um bocadinho o mercado imobiliário local.

Descentralizar é passar competências e recursos para quem está mais perto dos problemas das populações, por exemplo para as autarquias. Descentralizar não é mandar uns figurões de fatos e carros escuros para mais perto dos indígenas.

Espalhar membros do governo pelo país não é, tão pouco, desconcentrar. Desconcentrar é passar competências e recursos dos serviços centrais para os serviços periféricos do Estado, por exemplo para direcções regionais ou distritais ou concelhias.

Mandar para a província uns figurões de fatos e carros escuros, mais o seu séquito, não serve para nada: só vai atrapalhar o tráfego.

Mas se isto não é descentralizar, se isto não é desconcentrar, então o que é isto? A resposta é fácil: isto é circo.

Vai haver mais nos próximos tempos.

3. Como se sabe, meses depois, o menino guerreiro e o seu circo foram despedidos, com justa causa, por Jorge Sampaio.

Já a geringonça #2, por mais circo que faça, antes de 2021 não vai ter problemas com o presidente Marcelo. Este quer o apoio do PS para a sua reeleição. E está mais para isso do que outra coisa.

Black coffee

Fotografia de Radu Florin



I'm feeling mighty lonesome
Haven't slept a week
I walk the floor and watch that door
And in between I drink
Black coffee
Love's a hand me down brew
I've never know a Sunday
In this weekday room

I'm talking to the shadows
from 1 o'clock til 4
And lord, how slow the moments go
When all I do is pour
Black coffee
Since the blues caught my eye
I'm hanging out on Monday
My Sunday dreams to dry

Now a man is born to go a lovin'
A woman's born to weep and fret
To stay at home and tend her oven
And drown her past regrets
In coffee and cigarettes

I'm moaning all the morning
and mourning all the night
And in between it's nicotine
And not much heart to fight
Black coffee
Feelin' low as the ground
It's driving me crazy just waiting for my baby
To maybe come around...











quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Com que voz chorarei meu triste fado,

Fotografia de Edwin Andrade


Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura prisão me sepultou,
que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado?

Mas chorar não se estima neste estado,
onde suspirar nunca aproveitou;
triste quero viver, pois se mudou
em tristeza a alegria do passado.

Assi a vida passo descontente,
ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima o pé que o sofre e sente!

De tanto mal a causa é amor puro,
devido a quem de mi tenho ausente
por quem a vida, e bens dela, aventuro.
Luís Vaz de Camões


quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Paraíso*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 4 de Dezembro de 2009

N 40.74817; W 8.04267.
Estas são as coordenadas do Paraíso. É na N16. Viseu - S. Pedro Sul. O Paraíso fica antes de S. Pedro do Sul. Não há que errar. O Paraíso tem placa rodoviária.
Eu já estive no Paraíso. George Clooney também. Mas noutro Paraíso, bem entendido.

O Paraíso de George Clooney é todo branco. Para se lá chegar – ao Paraíso de George Clooney – é preciso subir uma escada muito, muito branca e muito, muito íngreme. Tantos demasiados degraus brancos.

Subir a escada branca do Paraíso é um inferno. Ao menos se se ouvisse, durante aquela escalada, o “Stairway to Heaven” dos Led Zeppelin. Mas nada, silêncio branco, degraus brancos, custosos, muitos, muito brancos.

Ainda por cima, apesar da fadiga de todo aquele para cima, a pesar no braço um saco de compras e nele uma máquina da Nespresso. Um tropeço aquela subida branca. Um cansaço extenuado.

George Clooney não concorda nada com aquilo. Ainda não é o tempo dele. Ainda não é o tempo de ele ir para o Paraíso. Ele não quer o Paraíso lá de cima. Ele tem o paraíso cá em baixo. Tanta mulher a olhar para ele cá em baixo. Tanto paraíso cá em baixo.

Perante o facto consumado, que fazer?

Lá, no cimo, de branco como os brancos degraus, John Malkovitch, porteiro do Paraíso:

«Olá, George!»
«Onde é que estou eu?»
«Não é difícil de adivinhares…»
«Ainda não é o meu tempo…»

John Malkovitch, a olhar um olhar significativo para o saco com a máquina de café, atira:
«Talvez nós pudéssemos chegar a um acordo…»

Pois.
Há tráfico de influências no Paraíso.



Nota de culpa: eu arguido me confesso, a ideia deste triângulo John Malkovitch / George Clooney / “tráfico de influências” vi-a eu a um dos 344 génios que sigo no Twitter. Qual deles foi? Já não sou capaz de dizer.

Faz de conta

Fotografia de Analise Benevides


Faz de conta
que comer uma maçã é
só isto
sem bicho
sem pântano de fino dedo sobre
a pele a eriçar a suspeição de
gastar o fôlego
em chama medianeira

encosta-te ao muro do lote
do lado de lá cinco
metros abaixo
alguém pare um filho
o choro é real contra a erva
e se as janelas estão de
costas para o
lugar logradouro
o choro só pode ser agouro
de uma obstinação luminosa
rasteira
da marginália

escrevi:

era um problema de hermenêutica
o dos dedos no teclado e o das
fronteiras

o linguajar do par de jarras
em ti pousado como múmias
evidentes

mesmo se com o sotaque reluzente
de enrolar rebuçados
que ainda ouço

era um problema de geografia
entre estar aí ou aqui
vim por isso para dentro

recebo a corrente de ar
mas sei que sou estes ossos
e mais adulta me inteiro livre

se a mão se abre e o dizer se
encaramela, peito
aberto à bala húmida que vem,

se a rua sobrevive a saber o
que revolve no caroço do
quarteirão,

então o rufar que agora
ouço a chegar à minha própria
vista saguão
existe, de facto
existe

e nada disto é estanque
pode entrar chuva por todo
o lado mas também

pode transformar-se
sim,
só não assim

não com a camuflagem
do ego sob a carpete,
assim não

talvez com dedicação
e uma peneira dos
intensos agoras

e saber disto
foi um raio de sol
de alívio

e descarregue dos sacos
para facilitar a gestação do gesto
do arejar completo


terça-feira, 3 de dezembro de 2019

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Solitary animal

Fotografia de Adrien Olichon


The solitary animal walks alone. She has no uterus. She has no bone.
She slithers around dark bars and libraries. She carves
a beautiful girl on the cave wall. She dances with Aurora Borealis,
but goes home alone.

We are 7.5 billion. Thrust onto Earth together, we are not alone.
We shout at the stars, perhaps a Martian is listening, she/he/they
with ten thousand antennae, transversal labia quivering, searching for love.

Your half-drawn monolid eyes are most tantalizing, may I take you home?
Slime you with a green kiss? Breathe magma into your bones? Claw rainbows
onto your lips? Redecorate your home?

Our vertebrae are vibrating, signally: we are not alone. Sacrificed by a greedy
admiralty, we shall live forlornly, and be devoured, headfirst, by reptilian clones.

Inch back into your fern pods, why don’t ya! Baby, I call you, but you are not home. Somewhere in the cosmos, our lies are reverberating. Fake news is sad news. Shrapnel calcifying

into bone. Each day we begin on Earth as a dying person, each breath is one less
than yesterday, we shall die alone.
Marilyn Chin


domingo, 1 de dezembro de 2019

Frogless

Fotografia de JR Korpa

The sore trees cast their leaves
too early. Each twig pinching
shut like a jabbed clam.
Soon there will be a hot gauze of snow
searing the roots.

Booze in the spring runoff,
pure antifreeze;
the stream worms drunk and burning.
Tadpoles wrecked in the puddles.

Here comes an eel with a dead eye
grown from its cheek.
Would you cook it?
You would if.

The people eat sick fish
because there are no others.
Then they get born wrong.

This is not sport, sir.
This is not good weather.
This is not blue and green.

This is home.
Travel anywhere in a year, five years,
and you’ll end up here.
Margaret Atwood