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sábado, 30 de novembro de 2019
Convite
A terra abre suas pálpebras
e oceano e céu são um convite ao fim do mundo
os seus cílios são brancos cúmulos na dissolução da tarde
há um incêndio de sombras e sangue púrpuro,
sem qualquer ruído
é apenas o sol deposto e a passagem do dia,
um estremecimento forte da pele, um respiro
mais fundo e as velhas questões acossando
tua consciência irredutível de estar vivo agora
e não depois
então diz adeus, despe a tua condição de forasteiro
deixa que a tua matéria seja a água e o esquecimento
do gosto acre da saliva deglutindo a seco
o contacto incómodo com a existência
os dias que foram, os dias que virão
teu medo mais derradeiro
tua angústia mais inominável
deita-os na coluna de espuma
enquanto o corpo é envolvido pela escuridão,
que não te pede absolutamente nada,
a não ser o silêncio profundo da tua alma
e das tuas obsessões calidamente cultivadas
escuta só o corpo latejando na concha
fria do universo, reverberando abandonos
e o êxtase da solidão
escuta esta canção de muito longe,
que todos os homens, em todas as épocas,
já ouviram, sentindo a escassez infinita
de si ante o pálio frio e espectral das estrelas
este ar, este mar não te saúdam
mas te recebem
se tu deixas a ti mesmo para trás
Laís Aquino
sexta-feira, 29 de novembro de 2019
O chupismo centralista*
* Hoje no Jornal do Centro
1. Continuamos atolados no pântano que António Guterres anunciou antes de se ter escapulido, pântano que tem duas características:
— mistura a política com os negócios: os boys têm pressa de enriquecer, fazem ajustes directos por tudo e um par de botas e assinam contratos que são um maná para os rentistas;
— é hiper-centralista: usa a necessidade do controlo do défice como pretexto para concentrar todo o poder de decisão em Lisboa, com consequências nefastas no resto do país, especialmente no interior.
As pessoas ficam indignadas com as negociatas mas encolhem os ombros perante o centralismo. Cada vez mais, o país é Lisboa e o resto é paisagem.
Isso é mau, facilita a vida à corrupção e fica muito caro ao país. Um exemplo: até ao governo do engenheiro Guterres, as escolas e os hospitais compravam os consumíveis localmente, depois este tipo de aquisições passou a ser feito em centrais de compras em Lisboa. Não fica mais barato ao estado, mas serve para passar para as mãos de grandes operadores amigos do poder aquilo que sempre fora para os pequenos e médios negócios locais.
2. Os governos levam para Lisboa todo o poder e todos os recursos que podem. Agora até já só fazem obras da sua responsabilidade nos territórios se as câmaras ajudarem a pagar.
A requalificação da escola Grão Vasco de Viseu foi feita com fundos comunitários mas a comparticipação nacional de 195 mil euros teve que ser paga pelo município. O dono da escola, o ministério da educação, baldou-se.
A saturada e perigosa estrada que liga Viseu ao Sátão, que dá acesso a todo o norte do distrito, precisa de obras urgentes, orçadas em 3,3 milhões de euros, mas o governo, dono da estrada, diz que só as faz depois de chupar um milhão de euros à câmara de Viseu e 400 mil à câmara do Sátão.
E os dois presidentes de câmara estão dispostos a aceitar esta chantagem. E a ANMP, dirigida pelo fraquíssimo presidente da câmara de Coimbra, aceita estas chantagens.
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| Daqui |
— mistura a política com os negócios: os boys têm pressa de enriquecer, fazem ajustes directos por tudo e um par de botas e assinam contratos que são um maná para os rentistas;
— é hiper-centralista: usa a necessidade do controlo do défice como pretexto para concentrar todo o poder de decisão em Lisboa, com consequências nefastas no resto do país, especialmente no interior.
As pessoas ficam indignadas com as negociatas mas encolhem os ombros perante o centralismo. Cada vez mais, o país é Lisboa e o resto é paisagem.
Isso é mau, facilita a vida à corrupção e fica muito caro ao país. Um exemplo: até ao governo do engenheiro Guterres, as escolas e os hospitais compravam os consumíveis localmente, depois este tipo de aquisições passou a ser feito em centrais de compras em Lisboa. Não fica mais barato ao estado, mas serve para passar para as mãos de grandes operadores amigos do poder aquilo que sempre fora para os pequenos e médios negócios locais.
2. Os governos levam para Lisboa todo o poder e todos os recursos que podem. Agora até já só fazem obras da sua responsabilidade nos territórios se as câmaras ajudarem a pagar.
A requalificação da escola Grão Vasco de Viseu foi feita com fundos comunitários mas a comparticipação nacional de 195 mil euros teve que ser paga pelo município. O dono da escola, o ministério da educação, baldou-se.
A saturada e perigosa estrada que liga Viseu ao Sátão, que dá acesso a todo o norte do distrito, precisa de obras urgentes, orçadas em 3,3 milhões de euros, mas o governo, dono da estrada, diz que só as faz depois de chupar um milhão de euros à câmara de Viseu e 400 mil à câmara do Sátão.
E os dois presidentes de câmara estão dispostos a aceitar esta chantagem. E a ANMP, dirigida pelo fraquíssimo presidente da câmara de Coimbra, aceita estas chantagens.
Os cobardes
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| #kafkaemserralves #joanavasconcelosépirosa Fotografia Olho de Gato |
La belleza no es un lugar donde van a parar los cobardes.
Antonio Gamoneda
Talvez venhas a morrer perto
violentado pela luz, pelo assombro
de uma vida pensada junto ao fogo
mas de onde nunca trouxeste nada
A vida é tanto mais pesada
se te não fere a violência de um deus
se regressas da solidão com o mesmo porte
com as mãos abertas e laceradas
como praças descobertas para a morte
Bruno M. Silva
quinta-feira, 28 de novembro de 2019
Exército zombie
quarta-feira, 27 de novembro de 2019
Estilo
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| Fotografia de Avi Naim |
na orelha uma argola de pirata petulante
o andar afectado de quem anda nas alturas
espreitando do bolso um folheto com torturas
ou então um volume de cozinha libertária
que ninguém percebia ao fazer a culinária
todo o dia a jogar a um jogo de charadas
entre copos de absinto e mistelas inaladas
recitamos poemas em delírio fonético
inventamos dadá em registo frenético
e depois já cansados vamos todos para a cama
numa orgia colectiva que não vinha no programa
é preciso é estilo! não cansamos de dizer
num verniz de desdém que nos dá muito prazer
assumindo o deboche cada vez mais descarado
insurrectos em graça adorando o acto ousado
somos fãs da desbunda do deleite permanente
e assim passa o tempo e com ele nova gente
é preciso é estilo em delírio fonético
é preciso é estilo adorando o acto ousado
é preciso é estilo de pirata petulante
é preciso é estilo vamos todos para a cama
é preciso é estilo em deleite permanente
é preciso é estilo de quem anda nas alturas
Adolfo Luxúria Canibal
Boris Pasternak *
* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 27 de Novembro de 2009
1. Em 1937 realizou-se um congresso dos escritores soviéticos onde só se ouviram hinos de louvor ao “pai dos povos”, José Estaline. Era então aquela a partitura oficial em todos os actos públicos naquele país.
Claro que Boris Pasternak, o mais aclamado dos poetas russos, esteve presente no congresso. Ele não queria tocar a música do regime pelo que tinha o seguinte dilema: ou falava e era preso ou não falava e era preso na mesma.
No último dia do congresso, Pasternak levantou-se. Fez-se silêncio. Silêncio sepulcral. Sem sair do lugar, o escritor russo disse um número. Todos perceberam. Era o número que tinha o soneto de Shakespeare “Quando sinto a lembrança das coisas passadas” numa colectânea que Pasternak traduzira para russo. Então, duas mil vozes recitaram aquele soneto em coro.
Foi um momento mágico. Até os esbirros perceberam que podiam entrar em todo o lado menos dentro das cabeças dos homens. Pasternak acabou por não ser preso.
Há momentos assim que são epifanias. Como se cada dilúvio decretado pelos deuses trouxesse já consigo a arca da salvação.
George Steiner já contou várias vezes esta história e referiu-se mais uma vez a ela esta semana no Instituto Piaget de Viseu.
2. Miguel Ginestal toma posse hoje como governador civil de Viseu. Esta é uma boa notícia para o distrito. Ginestal vai ser um excelente governador civil. Ele vai prosseguir sem sobressaltos o bom trabalho realizado por Acácio Pinto e sua equipa.
Já para o concelho de Viseu esta é uma notícia péssima. Fernando Ruas está no último mandato. Ora, como é sabido, os últimos mandatos são os que mais precisam de ser escrutinados. Era necessária uma oposição socialista com liderança política forte e competente na câmara de Viseu. E, agora, não há.
1. Em 1937 realizou-se um congresso dos escritores soviéticos onde só se ouviram hinos de louvor ao “pai dos povos”, José Estaline. Era então aquela a partitura oficial em todos os actos públicos naquele país.
Claro que Boris Pasternak, o mais aclamado dos poetas russos, esteve presente no congresso. Ele não queria tocar a música do regime pelo que tinha o seguinte dilema: ou falava e era preso ou não falava e era preso na mesma.
No último dia do congresso, Pasternak levantou-se. Fez-se silêncio. Silêncio sepulcral. Sem sair do lugar, o escritor russo disse um número. Todos perceberam. Era o número que tinha o soneto de Shakespeare “Quando sinto a lembrança das coisas passadas” numa colectânea que Pasternak traduzira para russo. Então, duas mil vozes recitaram aquele soneto em coro.
Foi um momento mágico. Até os esbirros perceberam que podiam entrar em todo o lado menos dentro das cabeças dos homens. Pasternak acabou por não ser preso.
Há momentos assim que são epifanias. Como se cada dilúvio decretado pelos deuses trouxesse já consigo a arca da salvação.
George Steiner já contou várias vezes esta história e referiu-se mais uma vez a ela esta semana no Instituto Piaget de Viseu.
2. Miguel Ginestal toma posse hoje como governador civil de Viseu. Esta é uma boa notícia para o distrito. Ginestal vai ser um excelente governador civil. Ele vai prosseguir sem sobressaltos o bom trabalho realizado por Acácio Pinto e sua equipa.
Já para o concelho de Viseu esta é uma notícia péssima. Fernando Ruas está no último mandato. Ora, como é sabido, os últimos mandatos são os que mais precisam de ser escrutinados. Era necessária uma oposição socialista com liderança política forte e competente na câmara de Viseu. E, agora, não há.
terça-feira, 26 de novembro de 2019
O pau sondava o tambor
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| Fotografia de Isaiah McClean |
O pau sondava o tambor
O tambor seduzia o pau
Com o véu a encobrir o arco-íris
Música vibrante do seu arco
Coxas latejantes
No feitiço de emprenhar som e fantasia
No ritual propósito de gerar
Fecundar
Crescer
Revoltar
Soltar-se
No apelo para a dança
O pau vergava sob a ânsia
Do tambor
A fêmea era a Terra
Alimentadas as mãos do homem
Umbigos arfantes
Aspirando sémen e suor e sangue e música
Nos espasmos
Contracções da terra
Expelindo lava
Sugando o poema primeiro
Continuando nos gestos que iriam renascer
Na ansiedade de novas descobertas.
Daniel Medina
segunda-feira, 25 de novembro de 2019
Laguna blues
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| Daqui |
It’s Saturday afternoon at the edge of the world.
White pages lift in the wind and fall.
Dust threads, cut loose from the heart, float up and fall.
Something’s off-key in my mind.
Whatever it is, it bothers me all the time.
It’s hot, and the wind blows on what I have had to say.
I’m dancing a little dance.
The crows pick up a thermal that angles away from the sea.
I’m singing a little song.
Whatever it is, it bothers me all the time.
It’s Saturday afternoon and the crows glide down.
Black pages that lift and fall.
The castor beans and the pepper plant trundle their weary heads.
Something’s off-key and unkind.
Whatever it is, it bothers me all the time.
Charles Wright
domingo, 24 de novembro de 2019
Se eu pudesse dormiria abraçada com elas
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| Fotografia de Oswaldo Ibáñez |
se eu pudesse dormiria abraçada com elas
todas as noites
por exemplo
no dia seguinte viraria para o lado e me fingiria de viva
não tenho que lidar com pedras que não são minhas
eu só quero dormir com elas sem ter que recolhê-las
sem ter que dar-lhes um nome um dinheiro para passagem de volta
se eu pudesse eu manteria distância de discursos
que me impõem uma responsabilidade por pedras
que não são minhas
a do peito
a dos rins
a do sapato
essas sim
eu carrego diariamente minhas próprias pedras sem nome
que é para não desenvolver algum vínculo
para não aparecer remorso na hora de jogá-las
de atirá-las
num rio
num rosto
num buraco que precisa ser tapado e só minhas pedras cabem
eu carrego diariamente minhas pedras
por ruas sujas e curiosamente ausentes delas
às vezes algumas me acertam a nuca
num movimento de destreza eu as capturo no meio das minhas costas
e digo: por aí só passa mão língua ou pomada relaxante muscular
se eu pudesse eu daria a algumas pessoas da minha vida
suas próprias pedras para desenvolverem responsabilidade
por algo realmente seu
se eu pudesse eu fingiria que essas mesmas pessoas não existem
nem elas
nem suas pedras
nem seu afazeres que não me dizem respeito
as pedras que às vezes surgem no caminho
não turvam a vista
não cansam os modos
eu as recolho
uma a uma
e dou pro moço que pesa objetos superestimados na esquina
para ver se eu descolo algum dinheiro
às vezes não valem nada
nem sequer pesam
mas alguém diz que pesa
que prende na garganta
que ataca o peito
eu apenas recolho
para evitar bagunça
para ver se eu consigo trocar por algodão doce
feito se fazia com panelas velhas em 1999
se eu pudesse eu comeria tuas pedras para saber o gosto que tem
ser tua pedra
andar no teu bolso
no teu anel
no teu pescoço
mas nunca te pesar o peito.
Ágnes Souza
sábado, 23 de novembro de 2019
"And Now For Something Completely Different" (#244)
I love you [one exclamation point]
I must have you [two exclamation points]
You are everything to me [three exclamation points]
Quando eu for grande (carta aos meus netos)
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| Fotografia de Larm Rmah |
Quando eu for grande quero ser
Um bichinho pequenino
P'ra me poder aquecer
Na mão de qualquer menino
Quando eu for grande quero ser
Mais pequeno que uma noz
P'ra tudo o que eu sou caber
Na mão de qualquer de vós
Quando eu for grande quero ser
Uma laje de granito
Tudo em mim se pode erguer
Quando me pisam não grito
Quando eu for grande quero ser
Uma pedra do asfalto
O que lá estou a fazer
Só se nota quando falto
Quando eu for grande quero ser
Ponte de uma a outra margem
Para unir sem escolher
E servir só de passagem
Quando eu for grande quero ser
Como o rio dessa ponte
Nunca parar de correr
Sem nunca esquecer a fonte
Quando eu for grande quero ser
Um bichinho pequenino
Quando eu for grande quero ser
Mais pequeno que uma noz
Quando eu for grande quero ser
Uma laje de granito
Quando eu for grande quero ser
Uma pedra do asfalto
Quando eu for grande...
Quando eu for grande...
Quando eu for grande quero ter
O tamanho que não tenho
P'ra nunca deixar de ser
Do meu exacto tamanho
Manuela de Freitas
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