segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Laguna blues

Daqui



It’s Saturday afternoon at the edge of the world.
White pages lift in the wind and fall.
Dust threads, cut loose from the heart, float up and fall.
Something’s off-key in my mind.
Whatever it is, it bothers me all the time.

It’s hot, and the wind blows on what I have had to say.
I’m dancing a little dance.
The crows pick up a thermal that angles away from the sea.
I’m singing a little song.
Whatever it is, it bothers me all the time.

It’s Saturday afternoon and the crows glide down.
Black pages that lift and fall.
The castor beans and the pepper plant trundle their weary heads.
Something’s off-key and unkind.
Whatever it is, it bothers me all the time.
Charles Wright




domingo, 24 de novembro de 2019

Se eu pudesse dormiria abraçada com elas

Fotografia de Oswaldo Ibáñez


se eu pudesse dormiria abraçada com elas
todas as noites
por exemplo
no dia seguinte viraria para o lado e me fingiria de viva
não tenho que lidar com pedras que não são minhas
eu só quero dormir com elas sem ter que recolhê-las
sem ter que dar-lhes um nome um dinheiro para passagem de volta
se eu pudesse eu manteria distância de discursos
que me impõem uma responsabilidade por pedras
que não são minhas
a do peito
a dos rins
a do sapato
essas sim
eu carrego diariamente minhas próprias pedras sem nome
que é para não desenvolver algum vínculo
para não aparecer remorso na hora de jogá-las
de atirá-las
num rio
num rosto
num buraco que precisa ser tapado e só minhas pedras cabem
eu carrego diariamente minhas pedras
por ruas sujas e curiosamente ausentes delas
às vezes algumas me acertam a nuca
num movimento de destreza eu as capturo no meio das minhas costas
e digo: por aí só passa mão língua ou pomada relaxante muscular
se eu pudesse eu daria a algumas pessoas da minha vida
suas próprias pedras para desenvolverem responsabilidade
por algo realmente seu
se eu pudesse eu fingiria que essas mesmas pessoas não existem
nem elas
nem suas pedras
nem seu afazeres que não me dizem respeito
as pedras que às vezes surgem no caminho
não turvam a vista
não cansam os modos
eu as recolho
uma a uma
e dou pro moço que pesa objetos superestimados na esquina
para ver se eu descolo algum dinheiro
às vezes não valem nada
nem sequer pesam
mas alguém diz que pesa
que prende na garganta
que ataca o peito
eu apenas recolho
para evitar bagunça
para ver se eu consigo trocar por algodão doce
feito se fazia com panelas velhas em 1999
se eu pudesse eu comeria tuas pedras para saber o gosto que tem
ser tua pedra
andar no teu bolso
no teu anel
no teu pescoço
mas nunca te pesar o peito.
Ágnes Souza

sábado, 23 de novembro de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#244)

I love you [one exclamation point]

I must have you [two exclamation points]

You are everything to me [three exclamation points]


Quando eu for grande (carta aos meus netos)

Fotografia de Larm Rmah

Quando eu for grande quero ser
Um bichinho pequenino
P'ra me poder aquecer
Na mão de qualquer menino

Quando eu for grande quero ser
Mais pequeno que uma noz
P'ra tudo o que eu sou caber
Na mão de qualquer de vós

Quando eu for grande quero ser
Uma laje de granito
Tudo em mim se pode erguer
Quando me pisam não grito

Quando eu for grande quero ser
Uma pedra do asfalto
O que lá estou a fazer
Só se nota quando falto

Quando eu for grande quero ser
Ponte de uma a outra margem
Para unir sem escolher
E servir só de passagem

Quando eu for grande quero ser
Como o rio dessa ponte
Nunca parar de correr
Sem nunca esquecer a fonte

Quando eu for grande quero ser
Um bichinho pequenino
Quando eu for grande quero ser
Mais pequeno que uma noz

Quando eu for grande quero ser
Uma laje de granito
Quando eu for grande quero ser
Uma pedra do asfalto

Quando eu for grande...
Quando eu for grande...

Quando eu for grande quero ter
O tamanho que não tenho
P'ra nunca deixar de ser
Do meu exacto tamanho
Manuela de Freitas




sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Uma rolha*

* Hoje no Jornal do Centro


Há exactamente dois meses, em 22 de Setembro, o grande Bernardo Silva decidiu brincar com o seu colega de ofício Benjamin Mendy e publicou, no Twitter, uma imagem deste em criança ao lado do boneco dos Conguitos. 
Uma brincadeira. Coisa entre amigos. Em tempos idos, haveria uma “retaliação” bem humorada de Mendy e a coisa ficava-se por ali.

Em tempos idos era assim, mas agora não. Uma chusma de ofendidinhos-politicamente-correctos começou logo a acusar o jogador de racismo. Este, perante aquela reacção, ainda retirou o tuíte, mas de nada lhe valeu. Levou com um jogo de castigo, 58 mil euros de multa e, pasmo dos pasmos, ficou obrigado a uma “acção educacional”.

Este caso merece reflexão. Repare-se: ninguém de boa fé poderá ver naquela fotografia mais do que uma brincadeira entre amigos. Mendy riu-se. Os colegas riram-se. Os treinadores riram-se. A própria federação reconheceu que o que ali houve foi uma brincadeira. Como é que tanta unanimidade no mundo do futebol resulta num castigo tão estúpido?

É que as alcateias das redes sociais têm sede de sangue e o presidente da federação inglesa de futebol viu-se compelido a fazer o papel de um sumo sacerdote asteca e ofereceu-lhes Bernardo Silva em sacrifício. É mesmo isso: a esquizofrenia do politicamente correcto está a tornar-nos primitivos, está a roubar-nos o oxigénio da liberdade e a transformar o humor num exercício perigoso.

Achado no FB sem indicação de autoria
Que fazer? Votar na direita identitária é pior a emenda que o soneto. Se os identitários de esquerda não gostam da liberdade de expressão, os identitários de direita gostam ainda menos.

Temos que ser livres. Não nos podemos deixar calar pelos novos “chuis da linguagem”. Perante alguém que nos venha, injustamente, com os agora costumeiros «racista!, homofóbico!, machista!», respondamos-lhe logo no melhor vernáculo. Perante alguém que venha com o agora costumeiro «estou ofendido com o que dizes», respondamos-lhe com um «mete uma rolha!».

The haircut

Fotografia de Jonathan Borba


A woman came down the hill from her farm
with her two little children
to have her neighbor cut
her long, dazzling, strawberry blonde hair.
The center of things
was the round oaken kitchen table.
She sat on a stool
with a sheet up to her neck
while the two year old boy
nestled between her legs
and the baby girl slept
on a friend's shoulder.
The neighbor began to cut
a decade's growth of tresses,
passing the snips to her daughter
who laid them out on the morning paper.
The woman consulted her mirror
from time to time,
smiling with a mild terror.
When the neighbor was finished
the woman beamed with her new short haircut.
I feel like someone else, she said,
gathering up her children,
whereupon the parcel of severed hair
rose from the table
and followed them up the hill.
George Bogin





quinta-feira, 21 de novembro de 2019

A mulher da loja em frente

Fotografia de Victoria Strukovskaya

A mulher da loja em frente traz consigo
algo das antigas deusas. Das possuídas
sibilas. E, com seu olhar flamejante
senta-se num banco esconso, como

quem ordena o mundo: quinquilharia,
pedaços pintados de moluscos, lascas
envernizadas de crustáceos. Depois.
Bem... depois reforça o ódio que nos tem

com epigramas mal amanhados
num enegrecido papel de embrulho.
Reforça a perigosidade dos poetas
sempre a infectar gentes, ilhas, rotas

ancestrais. E que o bem houvera sim,
na ditadura dos generais, onde a ordem
fora ordem, sem abcessos a estorvar
o destino. Nem o jovem e belo rei,

Constantino, tão jovem e tão rei,
abraçara tal imprudência, quanto
mais este viver com laivos
de altivez e foros de demência.
Victor Oliveira Mateus


quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Fura-greves e adesivos*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 20 de Novembro de 2009



1. Há 40 anos, Coimbra fervia de agitação estudantil. A ditadura salazarosa, já muito apodrecida, servia-se da polícia política e da censura para se segurar no poder.

Em 17 de Abril de 1969, o então presidente da república, na altura dizia-se “a veneranda figura do chefe de estado”, foi a Coimbra inaugurar o departamento de Matemática. Alberto Martins, líder dos estudantes, pediu a palavra. Américo Tomás não lha deu e terminou a cerimónia de forma abrupta.

Seguiu-se repressão e prisões. Os estudantes resistiram de todas as maneiras. Fizeram greves maciças às aulas que culminaram numa greve aos exames.

Fazer greve aos exames acarretava um grande custo pessoal: para além do atraso no curso significava também poder ser enviado para as piores frentes da guerra em África.

Não é difícil perceber a angústia interior que aqueles jovens viveram e a pressão familiar a que eles estiveram sujeitos. Mesmo assim, foram poucos os que foram fazer exames. Foram poucos os fura-greves. E os fura-greves ficaram muito mal vistos.

Muitas décadas depois do que aconteceu em Coimbra, em cavaqueira de amigos, mal foi referido o nome de uma determinada personalidade, ouvi logo vernáculo do grosso: “essa besta foi um dos que furou a greve aos exames…”


2. Embora não com o dramatismo dos estudantes de há 40 anos, a avaliação engendrada por Maria de Lurdes Rodrigues colocou os professores também perante dilemas éticos: 

“Entrego os objectivos, não entrego os objectivos?” 

“Peço aulas assistidas, não peço aulas assistidas?»

Todo o professor que quis aproveitar o campo livre para obter um “excelente” na avaliação não ficou bem no retrato.

Vai-se ouvir muitas vezes no futuro:

“essa besta foi um dos adesivos da marilú…”

Rock is dead


Dortmund, fotografia de Robert Anasch


(...)
Now listen, listen, listen, listen, listen
Now I dont want to hear no talk about no revolution
And I swear to God I dont want to hear
No talk about no constitution
And in my frame of mind I am in no mood for
No talk about no cremation
The only thing Im interested in
I wanna have a good time
I dont wanna hear no talk about no riots
No demonstrations, no calcitritions, no impablermations
Theres only one thing I want to see
Thats some dancin, were gonna have some fun
Were gonna have a good time, lets roll
(...)
Jim Morrison




terça-feira, 19 de novembro de 2019

José Mário Branco, 25.5.1942 — 18.11.2019

Se tivesse que escolher uma música de JMB era esta:


Se tivesse que escolher uma homenagem que JMB adoraria, era esta:


ETHNO Portugal Orquestra 2018 - "Nevoeiro" de José Mário Branco e "Baile das Oliveiras" de Roncos do Diabo

Gravado em Castelo de Vide, Portalegre, a 28 de Julho de 2018
Realização e Som: Tiago Pereira e Ana Beatriz de Jesus

segunda-feira, 18 de novembro de 2019