sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Uma rolha*

* Hoje no Jornal do Centro


Há exactamente dois meses, em 22 de Setembro, o grande Bernardo Silva decidiu brincar com o seu colega de ofício Benjamin Mendy e publicou, no Twitter, uma imagem deste em criança ao lado do boneco dos Conguitos. 
Uma brincadeira. Coisa entre amigos. Em tempos idos, haveria uma “retaliação” bem humorada de Mendy e a coisa ficava-se por ali.

Em tempos idos era assim, mas agora não. Uma chusma de ofendidinhos-politicamente-correctos começou logo a acusar o jogador de racismo. Este, perante aquela reacção, ainda retirou o tuíte, mas de nada lhe valeu. Levou com um jogo de castigo, 58 mil euros de multa e, pasmo dos pasmos, ficou obrigado a uma “acção educacional”.

Este caso merece reflexão. Repare-se: ninguém de boa fé poderá ver naquela fotografia mais do que uma brincadeira entre amigos. Mendy riu-se. Os colegas riram-se. Os treinadores riram-se. A própria federação reconheceu que o que ali houve foi uma brincadeira. Como é que tanta unanimidade no mundo do futebol resulta num castigo tão estúpido?

É que as alcateias das redes sociais têm sede de sangue e o presidente da federação inglesa de futebol viu-se compelido a fazer o papel de um sumo sacerdote asteca e ofereceu-lhes Bernardo Silva em sacrifício. É mesmo isso: a esquizofrenia do politicamente correcto está a tornar-nos primitivos, está a roubar-nos o oxigénio da liberdade e a transformar o humor num exercício perigoso.

Achado no FB sem indicação de autoria
Que fazer? Votar na direita identitária é pior a emenda que o soneto. Se os identitários de esquerda não gostam da liberdade de expressão, os identitários de direita gostam ainda menos.

Temos que ser livres. Não nos podemos deixar calar pelos novos “chuis da linguagem”. Perante alguém que nos venha, injustamente, com os agora costumeiros «racista!, homofóbico!, machista!», respondamos-lhe logo no melhor vernáculo. Perante alguém que venha com o agora costumeiro «estou ofendido com o que dizes», respondamos-lhe com um «mete uma rolha!».

The haircut

Fotografia de Jonathan Borba


A woman came down the hill from her farm
with her two little children
to have her neighbor cut
her long, dazzling, strawberry blonde hair.
The center of things
was the round oaken kitchen table.
She sat on a stool
with a sheet up to her neck
while the two year old boy
nestled between her legs
and the baby girl slept
on a friend's shoulder.
The neighbor began to cut
a decade's growth of tresses,
passing the snips to her daughter
who laid them out on the morning paper.
The woman consulted her mirror
from time to time,
smiling with a mild terror.
When the neighbor was finished
the woman beamed with her new short haircut.
I feel like someone else, she said,
gathering up her children,
whereupon the parcel of severed hair
rose from the table
and followed them up the hill.
George Bogin





quinta-feira, 21 de novembro de 2019

A mulher da loja em frente

Fotografia de Victoria Strukovskaya

A mulher da loja em frente traz consigo
algo das antigas deusas. Das possuídas
sibilas. E, com seu olhar flamejante
senta-se num banco esconso, como

quem ordena o mundo: quinquilharia,
pedaços pintados de moluscos, lascas
envernizadas de crustáceos. Depois.
Bem... depois reforça o ódio que nos tem

com epigramas mal amanhados
num enegrecido papel de embrulho.
Reforça a perigosidade dos poetas
sempre a infectar gentes, ilhas, rotas

ancestrais. E que o bem houvera sim,
na ditadura dos generais, onde a ordem
fora ordem, sem abcessos a estorvar
o destino. Nem o jovem e belo rei,

Constantino, tão jovem e tão rei,
abraçara tal imprudência, quanto
mais este viver com laivos
de altivez e foros de demência.
Victor Oliveira Mateus


quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Fura-greves e adesivos*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 20 de Novembro de 2009



1. Há 40 anos, Coimbra fervia de agitação estudantil. A ditadura salazarosa, já muito apodrecida, servia-se da polícia política e da censura para se segurar no poder.

Em 17 de Abril de 1969, o então presidente da república, na altura dizia-se “a veneranda figura do chefe de estado”, foi a Coimbra inaugurar o departamento de Matemática. Alberto Martins, líder dos estudantes, pediu a palavra. Américo Tomás não lha deu e terminou a cerimónia de forma abrupta.

Seguiu-se repressão e prisões. Os estudantes resistiram de todas as maneiras. Fizeram greves maciças às aulas que culminaram numa greve aos exames.

Fazer greve aos exames acarretava um grande custo pessoal: para além do atraso no curso significava também poder ser enviado para as piores frentes da guerra em África.

Não é difícil perceber a angústia interior que aqueles jovens viveram e a pressão familiar a que eles estiveram sujeitos. Mesmo assim, foram poucos os que foram fazer exames. Foram poucos os fura-greves. E os fura-greves ficaram muito mal vistos.

Muitas décadas depois do que aconteceu em Coimbra, em cavaqueira de amigos, mal foi referido o nome de uma determinada personalidade, ouvi logo vernáculo do grosso: “essa besta foi um dos que furou a greve aos exames…”


2. Embora não com o dramatismo dos estudantes de há 40 anos, a avaliação engendrada por Maria de Lurdes Rodrigues colocou os professores também perante dilemas éticos: 

“Entrego os objectivos, não entrego os objectivos?” 

“Peço aulas assistidas, não peço aulas assistidas?»

Todo o professor que quis aproveitar o campo livre para obter um “excelente” na avaliação não ficou bem no retrato.

Vai-se ouvir muitas vezes no futuro:

“essa besta foi um dos adesivos da marilú…”

Rock is dead


Dortmund, fotografia de Robert Anasch


(...)
Now listen, listen, listen, listen, listen
Now I dont want to hear no talk about no revolution
And I swear to God I dont want to hear
No talk about no constitution
And in my frame of mind I am in no mood for
No talk about no cremation
The only thing Im interested in
I wanna have a good time
I dont wanna hear no talk about no riots
No demonstrations, no calcitritions, no impablermations
Theres only one thing I want to see
Thats some dancin, were gonna have some fun
Were gonna have a good time, lets roll
(...)
Jim Morrison




terça-feira, 19 de novembro de 2019

José Mário Branco, 25.5.1942 — 18.11.2019

Se tivesse que escolher uma música de JMB era esta:


Se tivesse que escolher uma homenagem que JMB adoraria, era esta:


ETHNO Portugal Orquestra 2018 - "Nevoeiro" de José Mário Branco e "Baile das Oliveiras" de Roncos do Diabo

Gravado em Castelo de Vide, Portalegre, a 28 de Julho de 2018
Realização e Som: Tiago Pereira e Ana Beatriz de Jesus

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

domingo, 17 de novembro de 2019

Homeostasia




É impossível encontrar as palavras quando em retirada.
Esvaziamos os significados quando aceitamos o movimento.
Talvez esse seja o segredo da dança,
Recuperamos o equilíbrio no momento em que abdicamos dele.
Denise Pereira



sábado, 16 de novembro de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#244)

“This non-materialistic lounge suite.”

The poet of ignorance




Perhaps the earth is floating,
I do not know.
Perhaps the stars are little paper cutups
made by some giant scissors,
I do not know.
Perhaps the moon is a frozen tear,
I do not know.
Perhaps God is only a deep voice,
heard by the deaf,
I do not know.

Perhaps I am no one.
True, I have a body
and I cannot escape from it.
I would like to fly out of my head,
but that is out of the question.
It is written on the tablet of destiny
that I am stuck here in this human form.
That being the case
I would like to call attention to my problem.

There is an animal inside me,
clutching fast to my heart,
a huge crab.
The doctors of Boston
have thrown up their hands.
They have tried scalpels,
needles, poison gases and the like.
The crab remains.
It is a great weight.
I try to forget it, go about my business,

cook the broccoli, open and shut books,
brush my teeth and tie my shoes.
I have tried prayer
but as I pray the crab grips harder
and the pain enlarges.

I had a dream once,
perhaps it was a dream,
that the crab was my ignorance of God.
But who am I to believe in dreams?
Anne Sexton



sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Sindicatos dos tempos modernos*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Charles Chaplin interpretou pela última vez a sua personagem de chapéu de coco, bengala e andar à pinguim, no filme “Tempos modernos”, de 1936. Nele, Charlot faz de operário fabril a fazer gestos repetitivos numa linha de montagem implacável.

Oitenta anos depois, nos actuais “tempos modernos”, muito trabalho penoso foi substituído por maquinaria, mas ainda há muita gente extenuada e cheia de tendinites nas estufas da agricultura intensiva, ao volante de camiões com ou sem matérias perigosas, em call-centers, nas fábricas, nas caixas dos hipermercados, nas obras, nas cozinhas dos restaurantes, nas limpezas.

2. Nos anos da primeira geringonça, as únicas lutas laborais com impacto foram impulsionadas por sindicatos independentes e críticos da CGTP e UGT.

A formação de um novo sindicato de professores, o STOP, obrigou Mário Nogueira a deixar-se de frescuras com o ministro da educação. As novas formas de financiamento das greves dos enfermeiros e a eficácia dos motoristas de matérias perigosas protagonizaram conflitos muito duros, diferentes do ramerrame dos sindicatos tradicionais.

A resposta do poder, como de costume, foi à bruta: auditorias manhosas à Ordem dos Enfermeiros, tropas a guiar camiões privados, ameaças de extinção do sindicato de motoristas, campanhas negras nos media e nas redes sociais...
Editada a partir de uma fotografia de Tatiana Costa e outra de Rui Gaudêncio
... contra a bastonária dos enfermeiros e o advogado do sindicato dos motoristas.

3. E agora, nos anos da segunda geringonça, o que é que vai ser feito pelos políticos para tentarem neutralizar estes sindicalismos modernos mais combativos?

A direita, claro, quer uma nova lei que restrinja o direito à greve. O CDS já manifestou essa vontade e Rui Rio não fechou a porta a essa hipótese. Mas a esquerda, apesar de estar com alguns tiques autoritários, vai ter vergonha de fazer isso. Vai optar por medidas legislativas e burocráticas que tornem mais difícil e labiríntica a criação e a vida destes sindicatos independentes.