sábado, 9 de novembro de 2019

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Mudar a estratégia*

* Hoje no Jornal do Centro


1. António Almeida Henriques (AAH) já gastou metade dos dias que poderá ter como presidente da câmara de Viseu. Tomou posse no dia 22 de Outubro de 2013. Acaba de fazer seis anos à frente da maior câmara do distrito, faltam-lhe outros tantos.


Editada a partir de uma fotografia do Jornal do Centro
É claro que, para atingir a dúzia de anos, AAH tem que vencer as eleições de 2021, tarefa que não se afigura difícil: a sua provável adversária socialista, a líder concelhia Lúcia Silva, além de não ter nenhuma ideia política sobre o que quer que seja, faz tudo para mostrar serviço ao governo de Lisboa de quem depende, mas não mostra igual empenho a mostrar serviço aos viseenses. Isso é fatal para os socialistas e um descanso para o PSD.

2. O país não andou para a frente com a Expo 98 e o Euro 2004, muito pelo contrário. Estratégias de desenvolvimento assentes em eventos são um fiasco.

Infelizmente, o sucessor de Fernando Ruas viu neste atalho “eventoal” um, cito, “papel estratégico na promoção do desenvolvimento local e regional”. Derreteu uns largos milhões de euros com minorias privilegiadas, em festas e festinhas borliantes, encadeadas umas nas outras, ainda por cima sem nenhuma ideia global nem nada distintivo para elas. Um falhanço.

Ao fim de seis anos, não sobrou nada. Obra física nova, usável por todos, não há. Em seis anos, novo no concelho, com potencial para servir todos os munícipes, só os autocarros amarelos da MUV. A cidade e o concelho estão mais sujos, mais barulhentos, mais degradados. O município está a descer nos rankings, as contas a entrar no vermelho — em 2018 houve um prejuízo superior a 3,5 milhões de euros.

António Almeida Henriques, mude de estratégia, a que adoptou nos seus primeiros seis anos não é boa. Seja frugal, responda ao básico: impostos moderados, eficácia nos fundos comunitários, ruas limpas, lixo recolhido a tempo e horas, ecopontos lavados com regularidade, bairros e aldeias dignificados, iluminação, segurança, empregos, empregos, empregos.

Acaso

Fotografia de Maclevison Silva

Quando, pela primeira vez, desceu
do eléctrico em Lisboa,
era tarde demais para eu saber
o que haveria nela:
que luz, além
do calor que endoidece
as noites de verão,
e que esperança,
salvo esse impulso de árvore.
Vivia para o sol como eu vivi,
para as noites que brilham na cidade
por entre a multidão,
onde só dois se podem encontrar.
Era tarde demais.
Foi-se o tempo em que tudo e nada dura,
e hoje penso no acaso sem remédio
de cada um de nós guardar
o passado em gavetas separadas.
Nuno Dempster


quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Cantiga da Ermida de São Escorpião

Os sapatos vermelhos, de Michael Powell e Emeric Pressburger (1948)
Gif daqui




Bailando na ermida de São Escorpião
Veio-me o sangue no último verão
               Vou escorrendo pelo caminho
               Vou escorrendo pelo caminho

Serrando na ermida a minha toada
Assim me vi em meu sangue encharcada
               Vou escorrendo pelo caminho
               Vou escorrendo pelo caminho

Veio-me o sangue e comigo bailou
Não apareceu o deus que me cortou
               Vou escorrendo pelo caminho
               Vou escorrendo pelo caminho

Desde o último verão bailo sangrada
E sou do meu sangue a estátua sagrada
               Vou escorrendo pelo caminho
               Vou escorrendo pelo caminho


quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Os Substitutos*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 6 de Novembro de 2009


1. «Sem tempo para que o rosto viesse a ser lavrado pelo vento.» É desta maneira sublime que Eugénio de Andrade nos diz que a sua mãe morreu nova.

Não deixar o rosto ser “lavrado pelo vento”.

Este assunto é tratado num filme em exibição: Os Substitutos (Surrogates), um filme de ficção científica de Jonathan Mostow, com Bruce Willis como protagonista.

A história passa-se algures em meados do século XXI. As pessoas vivem as suas vidas por “controle remoto”, fechadas em casa, fazendo todas as interacções sociais através de robôs que são a réplica de si próprios. Os robôs são os tais “substitutos - surrogates”. É um mundo de eterna juventude, sexy, energético, em que os rostos não são “lavrados pelo vento”, em que não há dor, nem desordem.

Trata-se de uma distopia de “gente” de pele esticadinha. Até temos a oportunidade de ver Bruce Willis outra vez com cabelo.

A atmosfera de Os Substitutos remete-nos para a internet e para os avatares da Second Life. O mundo asséptico destes “surrogates” é diferente do universo sujo e miasmático dos “replicants” de Blade Runner (1982), o clássico de Ridley Scott, que teve relançamento em 2007 com nova montagem.

Como se sabe, é através das narrativas que melhor se percebe o mundo. Ver estes dois filmes de seguida é uma maneira rápida de percebermos o quanto mudámos numa geração.

Éramos analógicos. Agora somos digitais.

Somos todos digitais, mesmo os que – como eu – não querem ser obrigados a terem chips das matrículas.

2. Vi Os Substitutos esta semana em cópia digital.

Já se falou aqui desta tecnologia que, por razões ecológicas e imposição da UE, vai substituir as cópias de filmes em celulóide. Tecnologia que é necessária no futuro Centro de Artes do Espectáculo de Viseu.

Que se foda a época

Fotografia de Raphael Renter


Que se foda a época
digo-te já
que se foda a sépia dos futuros
eu quero aparecer no dia
do teu nascimento
desarmado como uma árvore
sem outra missão que não
amparar-te o susto
e dizer-te baixinho
bem-vindo ao continente dos frágeis
podes parar de nadar
Vasco Gato


terça-feira, 5 de novembro de 2019

Come back to the middle

Fotografia de Jakob Owens

She is, twenty five, spent over half of her life
So afraid to speak her mind, it's such a shame
'Cause what a brilliant mind she has

And now she's been introduced to confidence
She doesn't see, that she is bordering on arrogance
When will she learn, to come back to the middle

He is, a young black man, grew up without his father
And now it falls into his hands, to protect his mother
'Cause if he doesn't, well then who will, his older brother lives in fear
Of everything, especially, trying to fill his father's shoes

Respectively, they go to extremes, of masculine and feminine
Chasing dreams, but they keep on falling
'Cause they don't know no balance
When will they learn, to come back to the middle

You must take the good with the bad, and you might hit the wall
Sometimes you'll fly and sometimes you'll fall
There isn't any way, to avoid the pain
But it's getting burned, that's how you will learn
To come back to the middle

Needing to protect your self now that is just a part of life
If you let your fears keep you from flying, you will never reach your height
To get to the top you must come back to the middle
When will we learn, to come back to the middle

Come back to the middle, Come back to the middle
Don't make no mind about falling down
'Cause it's when you're in that valley
You can see both sides more clearly

Come back to the middle
Blue Miller, India.Arie



segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Les feuilles mortes

Fotografia Olho de Gato


Oh, je voudrais tant que tu te souviennes,
Des jours heureux quand nous étions amis,
Dans ce temps là, la vie était plus belle,
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui.

Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,
Tu vois je n'ai pas oublié.
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi,

Et le vent du nord les emporte,
Dans la nuit froide de l'oubli.
Tu vois, je n'ai pas oublié,
La chanson que tu me chantais.

C'est une chanson, qui nous ressemble,
Toi qui m'aimais, moi qui t'aimais.
Nous vivions, tous les deux ensemble,
Toi qui m'aimais, moi qui t'aimais.

Et la vie sépare ceux qui s'aiment,
Tout doucement, sans faire de bruit.
Et la mer efface sur le sable,
Les pas des amants désunis.

Nous vivions, tous les deux ensemble,
Toi qui m'aimais, moi qui t'aimais.
Et la vie sépare ceux qui s'aiment,
Tout doucement, sans faire de bruit.
Jacques Prévert


domingo, 3 de novembro de 2019

Escrevo-te a sentir tudo isto

Fotografia de Arielle Allouche


escrevo-te a sentir tudo isto
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva dos lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a sua imobilidade

habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã
repara
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar
Al Berto






sábado, 2 de novembro de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#242)

Falo do que é físico

Fotografia de Logan Weaver



Falo do que é físico porque não tenho outra realidade.
Falo do corpo
do mundo
do que ainda não sabemos e chamamos divino.

Falo do que é físico
porque tudo o que é real tem corpo e ocupa espaço.

Falo disso.
Falo do que existe
e tudo é tanto que nunca chega o tempo
nunca chega o fôlego.

Vejo até à asfixia
gente, coisas, o invisível.

Tudo me faz estar em permanente frémito
sair para a rua de noite
e andar até cair de cansaço.
Pensando em tudo isso
extremamente sobreposto
como se uma grande dor não anulasse outra
como se fosse possível
pensar em mais de uma coisa de uma só vez
sentindo o simultâneo impossível
querendo abranger
a incontrolável voracidade dentro de tudo.

Corro por mim fora
como um grande atleta
campeão de barreiras e distâncias invencíveis
tentando vencer
mas tudo é enorme e intrincado
tudo em mim são olhos vigilantes
sem jamais pálpebra.

Mas tudo isso não chega.
Tudo é enorme
e morro tão depressa
Ana Hatherly