quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Eleições 2009 (VIII)*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos,  em 9 de Outubro de 2009 


1. É sabido que, em alternativa à transferência da Loja do Cidadão (LdC) para o centro histórico, a câmara tem um plano B: transferir serviços municipais para a Rua do Comércio.

Essa intenção da câmara revela que cresceu muito a burocracia municipal. A câmara engordou e tem dificuldade em acomodar todas as suas adiposidades no edifício da Praça da República.

Passarem-se alguns serviços municipais do Rossio para a Rua do Comércio não adianta nem atrasa nada para a vida no centro histórico. Essa mudança de 300 metros não traz vantagem nenhuma à cidade já que não aumenta o afluxo de pessoas ao centro.

Por isso, faz muito bem o movimento de cidadãos em defesa do centro histórico de Viseu ao não atirar a toalha ao chão e não desistir da Loja do Cidadão no centro histórico.

Alexandre Azevedo Pinto defendeu uma candidatura municipal a fundos comunitários para as obras de adaptação de um edifício central para LdC. Esse investimento é, depois, recuperado através do aluguer das instalações à administração central.

Concretizar-se esta ideia do movimento de cidadãos é a “cereja ao de cima do bolo”: faz-se recuperação urbana e passa-se a ter, de facto, mais utentes, mais funcionários, mais movimento no coração da cidade

2. Felizes são os povos que têm um governo pequeno e moderado nos impostos. Este bom princípio aplica-se tanto ao governo central como ao governo local.

Qual é a candidatura à câmara que fica mais barata, em impostos, aos viseenses?

Devo dizer que, nesta matéria, a campanha autárquica foi um desapontamento.

Apesar de tudo, globalmente, é a candidatura de Miguel Ginestal que mais respeita o nosso bolso. Poupa-nos, por exemplo, 2% em IRS.

Auréolas

Fotografia de Christopher Campbell



A maré de eucaliptos
redefine os sulcos da luz
na tua pele
na tua barriga
e em outras partes escuras
dum corpo moreno
sem coragem
que vigia a rua primeiro de dezembro

A porta aberta
o sutiã florido
o avental vermelho
caem de vergonha
do outro lado
olhos sós
incrédulos
como esse cheiro de canela
interrompido de óleos perfumados
massagens tântricas
sem um único toque de sino
sem um único beijo

preparaste o creme de chocolate
meio copo de leite condensado
3 colheres de cacau em pó
3 colheres de manteiga
untaste os mamilos
o umbigo
a jóia
o anel
discos do creme castanho
derretem nos olhos
na língua
na saliva
são líquidos mornos
e há que respeitar
a agilidade dos líquidos

Levei-te
à minha vontade
dura como madeira imburana
pulsátil
cheia de fervor
cheia de sangue
futuro imediato
maleável
cera derretida
para forjar ao desvanecer do dia
entre as tuas mãos
na tua boca
um rebuçado enfiado em palito de plástico
missionário inverso
sempre felizes
sempre em alto

Sobraram depois
os pedaços de gengibre
que pintaram de amarelo
linhas afrodisíacas inocentes
no teu hálito doce
sobraram também
os rastos de chocolate
no meu corpo
e no teu
colados em permanência
na paranóia do pecado
que ninguém vai arrancar
do meu campo
ninguém vai arrancar
das águas viscosas
do nosso quarto



terça-feira, 8 de outubro de 2019

Nos enganaram de novo

Fotografia de Arthur Sasse
Detalhes aqui


nos enganaram de novo
a gravidade não é uma força
e sim uma distorção no espaço-tempo.
faço escambos teóricos com einstein
explico-lhe a poesia tosca do vento e
dos sonetos alexandrinos;
ele me conta que o sol não pega fogo

apenas emite energia por fusão nuclear,
a terra não gira em torno do sol
mas em torno de um centro de gravidade
formado por todos os planetas do sistema solar
e esse ponto pode estar fora do próprio sol

desacorçoo e falo do som dos passarinhos,
da linguagem carregada de significado
até o mais alto grau de compreensão humana,
dos risos espontâneos dos bebés recém nascidos,
da terapia wittgensteiniana esclarecendo conceitos
fundamentais do campo educacional.
o velho albert sorri e depois como uma criança
impaciente e deseducada mostra-me a língua.


segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Crescei e multiplicai-vos



Hoje é dia de arraial.
Esses arraiais de fim de verão
em que todos bebem e ninguém é feliz.
Não tarda que a aldeia aproxime a faca,
as panelas fervam
e eu exale a minha carne tenra
ensanguentada: a minha carne engordada
para este ou outro dia.
Pode uma vida ser só
a preparação para um banquete
ou a refeição mais banal da casa?
Ter fé em deus é saber
que nada é padecido em vão:
um uivo de tristeza,
um zumbido de dor,
um cacarejar de medo:
porque deus é bondade
pelo servo mais pequeno e pelo infinito.
Afinal ter fé é só acreditar que seja fácil
a digestão da minha alma.
Quanto ao corpo, só espero que o galo
venha depressa comer-me.
Uma foda sempre faz esquecer
por uns minutos a música da morte.




domingo, 6 de outubro de 2019

Elegy for a boyhood lover slain in battle

After Gore Vidal's Palimpsest *




The branches shake, Jimmy, it rains in that trance;
Tuxedo in the colonnades asks after your breakfast.
A fire rises and falls in the house of Cadmus,
light on your bare neck, your voice
almost washed out in memory's reel.

Rapt in that flood I heard the night away
through Ovid, through mauve firs thrashing.
Your voice like a bellrope dangles in sterile heat
amid these unspooled metaphors. Today
the dry sun annuls the slide into la terra trema, but
through sweet parallax I watch you, sixteen, climb
like Phaethon the too-large chariot, the pitcher's
mound in Griffiths Stadium. A fire
in the house of Cadmus, a fire, and hard rain
in that trance. Tuxedo in the scullery,
the nails of your thick fingers flash
in the night-light. Still as a deer I smell
you through the monogrammed cloth.
The milk on your breath tarries the years.

"Verbose and hard" the Times once wrote,
and even now I stiffen, but strangely,
as a battered word reforms, anagrammatic.
A fire rises and falls, another trance
but no rain any more, no mansion.
Only the newsprint-brittle bacchanals of the sea.
The sun depilates boughs and dries the cliffside
veins of sediment and clay. Your Hesperidian form
gone, still I imagine you poised on a cot
dark-faced over your mother's Leaves of Grass:
Cushion me soft, rock me in billowy drowse, dash me
with amorous wet, I can repay you, awake,
not noticing the roan morning or the locust calls
on Iwo Jima.
Alex Halberstadt




* Mr. Vidal writes that he found his male other half in one Jimmy Trimble, a classmate at St. Alban's school who died in 1945, at 20, in the battle of Iwo Jima. Never again has the author been in love, he says, even though he has slept with thousands of young men (and the occasional woman, he hints), always as the seducer and the assertive partner, and even though for some 40 years he has lived, sexlessly, with his companion, Howard Auster.


sábado, 5 de outubro de 2019

The nails

Fotografia Olho de Gato



I gave you sorrow to hang on your wall
Like a calendar in one color.
I wear a torn place on my sleeve.
It isn’t as simple as that.

Between no place of mine and no place of yours
You’d have thought I’d know the way by now
Just from thinking it over.
Oh I know
I’ve no excuse to be stuck here turning
Like a mirror on a string,
Except it’s hardly credible how
It all keeps changing.
Loss has a wider choice of directions
Than the other thing.

As if I had a system
I shuffle among the lies
Turning them over, if only
I could be sure what I’d lost.
I uncover my footprints, I
Poke them till the eyes open.
They don’t recall what it looked like.
When was I using it last?
Was it like a ring or a light
Or the autumn pond
Which chokes and glitters but
Grows colder?
It could be all in the mind. Anyway
Nothing seems to bring it back to me.

And I’ve been to see
Your hands as trees borne away on a flood,
The same film over and over,
And an old one at that, shattering its account
To the last of the digits, and nothing
And the blank end.

The lightning has shown me the scars of the future.

I’ve had a long look at someone
Alone like a key in a lock
Without what it takes to turn.

It isn’t as simple as that.

Winter will think back to your lit harvest
For which there is no help, and the seed
Of eloquence will open its wings
When you are gone.
But at this moment
When the nails are kissing the fingers good-bye
And my only
Chance is bleeding from me,
When my one chance is bleeding,
For speaking either truth or comfort
I have no more tongue than a wound.
W. S. Merwin



sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Onze euros e sessenta cêntimos*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Já depois de ter enviado o último Olho de Gato para o jornal, o INE alterou os números indicados aqui de crescimento do PIB durante os anos da geringonça. Houve uma revisão em alta, o país está mais rico dois mil milhões de euros do que se julgava.

De qualquer forma, esta boa notícia não abana os fundamentos da crónica da semana passada: a instabilidade espanhola (vai para a quarta eleição em quatro anos) fez crescer bem mais a economia do que a nossa estabilidade. Se tivéssemos tido o mesmo crescimento de "nuestros inestables hermanos" éramos mais ricos 7,5 mil milhões.

2. A campanha eleitoral que acaba hoje trouxe-nos o costume: outdoors nas rotundas; discursos zangados não se sabe com quê; comícios e bebícios com aparelhistas, boys e emplastros nas primeiras filas; feiras e mercados com candidatos e jornalistas à procura de algo castiço que dê algum tempero àquela estopada; arruadas em que aparecem uns "espontâneos" a abraçar o chefe, num teatro de papelão feito para as televisões.

Fora desta mesmice, tivemos um pouco Rui Rio e o PAN. Este, de tão veg, vai fazer diminuir a abstenção entre os talhantes.

E, claro, o melhor desta campanha eleitoral: o programa "Gente que não sabe estar", de Ricardo Araújo Pereira. É tão, tão bom que até dá pena não termos legislativas com a cadência dos espanhóis para termos mais vezes aquela desbunda. Foi neste programa que se viu, entre nós, o primeiro "deepfake" - uma hilariante tourada sem cavalos nem touro.



3. Um voto serve para duas coisas: eleger deputados e dar €2.90 por ano ao partido em que se vota, desde que este obtenha, pelo menos, 50 mil votos.

No distrito de Viseu, só dois ou três partidos deverão eleger deputados. Mas tenha isto presente: mesmo não votando em nenhum desses três, o seu voto pode ser muito útil — poderá valer, nos quatro anos da próxima legislatura, €11.60 para o partido da sua simpatia.

Psicografia

Fotografia Olho de Gato


Também eu saio à revelia
E procuro uma síntese nas demoras
Cato obsessões com fria têmpera e digo
Do coração: não soube e digo
Da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
Na vida) e demito o verso como quem acena
E vivo como quem despede a raiva de
Ter visto.
Ana Cristina Cesar

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Recriação

Fotografia Olho de Gato


Dêem-me um arco e recriarei a infância,
os tordos sob a neve,
o rio sob as tábuas.

Dêem-me a chuva e a gávea
duma figueira,
a flor dos eucaliptos,
um agapanto de água.
Albano Martins


quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Eleições 2009 (VII)*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 2 de Outubro de 2009 

1. Resultado das eleições legislativas de domingo: o CDS ficou com mais nove deputados, o PSD arrecadou mais oito (contabilizo dois da emigração), o BE também elegeu mais oito e a CDU conseguiu mais um deputado. Por sua vez, o PS ganhou as eleições.

Apesar desta felicidade universal, no domingo não houve festejos. Em lado nenhum. E no PSD ouve-se o afiar das facas.

A situação não está para festas. Desde 2001, Portugal não consegue sair do túnel em que caiu. Túnel que ficou ainda mais escuro e insalubre com a crise mundial.

Precisamos de esperança. Não se pode deixar apagar a luz que tremeluz, fraquinha, ao fundo do túnel.

2. A nossa constituição atribui o poder moderador ao presidente da república e o poder executivo ao governo. Estes dois poderes, ambos legitimados pelo voto, têm uma natureza conflitual e essa conflitualidade é boa se servir de válvula de escape para as tensões sociais.

Durante a chamada “cooperação institucional” entre Cavaco e Sócrates tivemos presidente da república a menos. Cavaco não deu cavaco às “vítimas” das reformas e isso deslaçou a sociedade e não ajudou ninguém. Nem o governo.

Passou-se agora para uma fase cheia de arestas entre o presidente e o governo. Tudo indica que vamos passar a ter presidente da república a mais.

Enfim… Faltam quinze meses para as próximas presidenciais. Quer António Guterres quer Jaime Gama são capazes de derrotar Cavaco Silva e fazerem uma presidência muito melhor do que ele.

E quanto a Manuel Alegre que se encontra na pole position da corrida presidencial? Podia ele ser o candidato do PS?

Todos os dias oiço a resposta a essa pergunta na televisão: “poder podia, mas não era a mesma coisa.”

The lockless door

Fotografia Olho de Gato

It went many years,
But at last came a knock,
And I thought of the door
With no lock to lock.

I blew out the light,
I tip-toed the floor,
And raised both hands
In prayer to the door.

But the knock came again
My window was wide;
I climbed on the sill
And descended outside.

Back over the sill
I bade a "Come in"
To whoever the knock
At the door may have been.

So at a knock
I emptied my cage
To hide in the world
And alter with age.
Robert Frost


terça-feira, 1 de outubro de 2019

Poema sobre a recusa

Fotografia de Geetanjal Khanna


Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.
Maria Teresa Horta