segunda-feira, 9 de setembro de 2019

O papão

Fotografia de JJ Jordan

As crianças têm medo à noite, às horas mortas,
Do papão que as espera, hediondo, atrás das portas,
Para as levar no bolso ou no capuz dum frade.
Não te rias da infância, ó velha humanidade,
Que tu também tens medo ao bárbaro papão,
Que ruge pela boca enorme do trovão,
Que abençoa os punhais sangrentos dos tiranos,
Um papão que não faz a barba há seis mil anos,
E que mora, segundo os bonzos têm escrito,
Lá em cima, detrás da porta do infinito!
Guerra Junqueiro




Declaração de princípios



«Ocasionalmente o excesso é divertido.
Evita que a moderação se torne um hábito nefasto.»

domingo, 8 de setembro de 2019

Ferida

Fotografia de Alex Iby



fer
ida
sem
ferida
tudo
começa
de novo
a cor
cora
a flor
flora
o ir
vai
o rir
rói
a amor
mói
o céu
cai
a dor
dói
Augusto de Campos



sábado, 7 de setembro de 2019

Vermeer



Johannes Vermeer 



Vermeer é um grande pintor da atenção.

A sua pintura dá atenção a todos os 'esses' do mundo: ao silêncio, ao segredo, à solidão, à serenidade, à sedução, à sombra, ao sol, ao sublime, ao sensual, ao suspenso, ao suspiro, ao sussurro, ao sobressalto, ao sorriso, ao sossego, à sorte.

Naqueles interiores holandeses, a voz da atenção canta a sua ária mais absorta e assombrada.
José Manuel dos Santos
in A ATENÇÃO




sexta-feira, 6 de setembro de 2019

As paixões são assim*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Quando a Comissão Nacional de Eleições mandou retirar os cartazes autárquicos por causa das europeias, o presidente da câmara de Viseu ficou destroçado. É que, como se sabe, António Almeida Henriques (AAH) tem uma paixão irreprimível pela publicidade e todo o apaixonado odeia que o contrariem no seu amor.

Só esse afecto insofreável explica a resposta estúpida da autarquia àquela deliberação estúpida da CNE. Os cartazes publicitários, em vez de terem sido retirados, foram tapados com uma tela amarela com a seguinte confissão em letras pretas:
Fotografia Olho de Gato

Aquela poluição visual amarela, além de conter uma desnecessária sigla entre-parêntesis, tinha um lapso freudiano: a câmara assumia que os seus cartazes são para “publicitar” e não para “informar”.


Os fornecedores de outdoors agradecem, claro. E devem agradecer muito já que há dois mil cartazes publicitários (!) espalhados no concelho, conforme informou AAH num programa de televisão.

Caro leitor viseense, vá à sua liquidação do IRS e procure a verba correspondente ao “benefício autárquico”. Viu quanto é? Fique a saber que, nos termos da lei, esse “benefício” podia e devia ser o quíntuplo. Só não o é porque AAH ama com uma paixão irrefreável tudo quanto é marketing, mas não ama nem respeita o dinheiro dos contribuintes.

2. A câmara de Viseu acaba de lançar o concurso para o Viseu Arena, pelo valor de 6,7 milhões de euros mais IVA, para inaugurar, disse AAH, “no segundo semestre de 2021”.

A Comunidade Intermunicipal Viseu Dão Lafões acaba de lançar o concurso para os 55 quilómetros da Ecopista do Vouga, pelo valor de 3 milhões de euros mais IVA, para estar pronta, anunciou a CIM, “em 2021”.

Qual das duas obras vai ficar pronta primeiro logo se vê. Uma coisa é certa: a obra da câmara de Viseu vai derreter muito mais dinheiro em publicidade do que a obra da CIM.

Sunset gun

Fotografia de Naitian Wang


If I had a shiny gun,
I could have a world of fun
Speeding bullets through the brains
Of the folk who give me pains;

Or had I some poison gas,
I could make the moments pass
Bumping off a number of
People whom I do not love.

But I have no lethal weapon —
Thus does Fate our pleasure step on!
So they still are quick and well
Who should be, by rights, in hell.
Dorothy Parker



quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Nada de útil

Fotografia de Analise Benevides


que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem estão velhos

que o meu pensamento caminhe pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu me engane
pois sempre que os homens têm razão não são jovens

e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais do que verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar a si todo o céu com um sorriso
E. E. Cummings
Trad.: Cecília Rego Pinheiro


quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Personhagens*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 4 de Setembro de 2009 



1. Em Agosto, publiquei aqui uns Ele e Ela que justificam o velho “precautório”: naquelas histórias qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

Preciso de ser ainda mais explícito: embora em Viseu haja muitos quebra-corações, não é verdade que me estivesse a referir a alguém em concreto ao ter criado a personagem Chico, no Ele e Ela de 21 de Agosto.

Portanto, por favor, não me perguntem mais quem é o Chico.

2. No último sábado, no lançamento do romance “A Revolução de António e Oriana”, de Joaquim Sarmento, houve intervenções de qualidade. Numa delas, José Mário Ferreira de Almeida, presidente da assembleia municipal, disse que via rostos de Lamego em quase todas as personagens do romance.

Ao ouvir aquilo, pensei logo:
«Pronto! O Sarmento está ainda mais ensarilhado que eu. Eu é só o Chico. Ele tem um romance cheio de criaturas a cirandarem e a fazerem cócegas aos lamecenses…»

Sorri e esperei.

Sábio, Joaquim Sarmento, na intervenção final, vincou bem vincado que as personagens do romance tinham saído em exclusivo da sua imaginação e do seu sonho. Portanto, aquelas personagens são só o que se espera que sejam: personhagens.

3. Setembro e Outubro são meses de eleições. Há que olhar para “o que se passa” e, infelizmente, “o que se passa” não anda bom de ver.

Vemos partidos ricos num país pobre, partidos que vão gastar 13 milhões de euros nas legislativas e 78 milhões nas autárquicas. Ao todo 91 milhões de euros. “Ostentação pornográfica” chamou-lhe Henrique Monteiro, o director do Expresso.

Já aqui o escrevi – as eleições legislativas e autárquicas deviam ser no mesmo dia. Poupava-se tempo e dinheiro. E evitava-se muita abstenção.

Coisas simples e incompreensíveis

Fotografia de Craig Whitehead

Nada de novo — repete ele. Os homens matam-se ou morrem,
sobretudo envelhecem, envelhecem, envelhecem — os dentes,
os cabelos, as mãos, os espelhos.
Aquele vidro do candeeiro, quebrado — foi consertado com um jornal.
E o pior de tudo: quando aprendes que algo vale a pena, já passou.
Então se faz uma grande serenidade. Chega o verão. As árvores
são altas e verdes — muito provocantes. As cigarras cantam.
À tardinha, as montanhas azulecem. Lá de cima descem
homens obscuros. Coxeiam ladeira abaixo (fingem que coxeiam).
Lançam cães mortos ao rio, e depois, muito tristes e como que irritados
dobram os sacos de linho, coçam os testículos e olham a lua
na água. Somente essa coisa inexplicável:
fingirem-se de coxos, sem que ninguém esteja a vê-los.
Yannis Ritsos
Trad.: José Paulo Paes

terça-feira, 3 de setembro de 2019

A rainha de copas casa consigo mesma

Daqui


A rainha de copas casa consigo mesma.

Foi-se minha época
de sentar e esperar.
Meu trono já está afundado
e o do lado,
encolhido.

Mais cedo ou mais tarde
é preciso
escolher me unir a alguém.
Mande já embora
os candidatos —

todos eles, uns coitados.
Nunca vi tão mirrados.
Nunca vi mais gordos.
Chega de baile,
já comeram demais.

Em tempo,
meu próprio dedo
é o único
onde cabe esse anel.
E eu me declaro –

marido e mulher.


segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Carlos Paredes

 Movimentos Perpétuos: Cine-Tributo a Carlos Paredes,
de Edgar Pêra (2006)



Inevitável a resignação às cordas
Para não evocar os dedos ou sequer
Os olhos. Mover o corpo, apenas o mínimo
Necessário à intenção de tanger,

Ao modo de gerir pequenas tensões
Conexas, retidas para suster o som
Interior necessário. Não os olhos ou
O alcance da visão: a liberdade, outra

Possibilidade de recolher alegria
No ouvido, na parte côncava da própria
Percepção. Não os dedos: o contentamento,

Outra maneira de arrumar imagens vistas
À transparência, movimento repetido
Por dentro, pelo lado do que não é sombra.
Rui Almeida



domingo, 1 de setembro de 2019

Setembro


September

The sun shines high above
The sounds of laughter
The birds swoop down upon
The crosses of old grey churches
We say that we're in love
While secretly wishing for rain
Sipping coke and playing games
September's here again
September's here again
David Sylvian