que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas aves que são os segredos da vida o que quer que cantem é melhor do que conhecer e se os homens não as ouvem estão velhos que o meu pensamento caminhe pelo faminto e destemido e sedento e servil e mesmo que seja domingo que eu me engane pois sempre que os homens têm razão não são jovens e que eu não faça nada de útil e te ame muito mais do que verdadeiramente nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse chamar a si todo o céu com um sorriso
2. No último sábado, no lançamento do romance “A Revolução de António e Oriana”, de Joaquim Sarmento, houve intervenções de qualidade. Numa delas, José Mário Ferreira de Almeida, presidente da assembleia municipal, disse que via rostos de Lamego em quase todas as personagens do romance. Ao ouvir aquilo, pensei logo: «Pronto! O Sarmento está ainda mais ensarilhado que eu. Eu é só o Chico. Ele tem um romance cheio de criaturas a cirandarem e a fazerem cócegas aos lamecenses…» Sorri e esperei. Sábio, Joaquim Sarmento, na intervenção final, vincou bem vincado que as personagens do romance tinham saído em exclusivo da sua imaginação e do seu sonho. Portanto, aquelas personagens são só o que se espera que sejam: personhagens. 3. Setembro e Outubro são meses de eleições. Há que olhar para “o que se passa” e, infelizmente, “o que se passa” não anda bom de ver. Vemos partidos ricos num país pobre, partidos que vão gastar 13 milhões de euros nas legislativas e 78 milhões nas autárquicas. Ao todo 91 milhões de euros. “Ostentação pornográfica” chamou-lhe Henrique Monteiro, o director do Expresso. Já aqui o escrevi – as eleições legislativas e autárquicas deviam ser no mesmo dia. Poupava-se tempo e dinheiro. E evitava-se muita abstenção.
Nada de novo — repete ele. Os homens matam-se ou morrem, sobretudo envelhecem, envelhecem, envelhecem — os dentes, os cabelos, as mãos, os espelhos. Aquele vidro do candeeiro, quebrado — foi consertado com um jornal. E o pior de tudo: quando aprendes que algo vale a pena, já passou. Então se faz uma grande serenidade. Chega o verão. As árvores são altas e verdes — muito provocantes. As cigarras cantam. À tardinha, as montanhas azulecem. Lá de cima descem homens obscuros. Coxeiam ladeira abaixo (fingem que coxeiam). Lançam cães mortos ao rio, e depois, muito tristes e como que irritados dobram os sacos de linho, coçam os testículos e olham a lua na água. Somente essa coisa inexplicável: fingirem-se de coxos, sem que ninguém esteja a vê-los.
A rainha de copas casa consigo mesma. Foi-se minha época de sentar e esperar. Meu trono já está afundado e o do lado, encolhido. Mais cedo ou mais tarde é preciso escolher me unir a alguém. Mande já embora os candidatos — todos eles, uns coitados. Nunca vi tão mirrados. Nunca vi mais gordos. Chega de baile, já comeram demais. Em tempo, meu próprio dedo é o único onde cabe esse anel. E eu me declaro – marido e mulher.
Inevitável a resignação às cordas Para não evocar os dedos ou sequer Os olhos. Mover o corpo, apenas o mínimo Necessário à intenção de tanger, Ao modo de gerir pequenas tensões Conexas, retidas para suster o som Interior necessário. Não os olhos ou O alcance da visão: a liberdade, outra Possibilidade de recolher alegria No ouvido, na parte côncava da própria Percepção. Não os dedos: o contentamento, Outra maneira de arrumar imagens vistas À transparência, movimento repetido Por dentro, pelo lado do que não é sombra.
A cassete emperrada após o azul sangrento do boulevard, falando de guitarras em celulóides e heróis no deserto e outras carícias passadas no comboio que te levava para LA. Novas feridas na tua alma, talvez dia e noite, neo-pop melodia ainda golpe na linha apagada e tímida. Chama-me ao rendez-vous no prédio de chamas pintadas e sexo no vão de escadas. E contudo, lamento o ego alienado do escancarado vampiro.
Oh! Love now or never.
1. Nos tempos que correm, uma boa parte dos assuntos da agenda mediática e política têm a ver com o corpo. São assuntos de biopolítica. São as imposições alimentares, que tanto passam pela redução do sal e do açúcar como pelo crescente activismo veg que se vai radicalizar e tornar agressivo. É, até, a construção do corpo dos políticos e a afirmação descomplexada das suas sexualidades: os peitorais de um deputado laranja, a tatuagem de uma deputada rosa que está no Tinder, a saída do armário da ministra da cultura e de um vice-presidente do CDS. E a este panorama só não se junta José Castelo Branco porque ele desistiu de ser candidato. Atenção: este hedonismo corporal curte metodicamente o presente mas vive cheio de angústias com o futuro. As pessoas esculpem abdominais no ginásio enquanto vigiam o colesterol, fazem selfies à frente de sítios distantes a que chegaram com uma grande pegada de carbono enquanto se afligem com as catástrofes ecológicas, reais ou imaginárias, anunciadas todos os dias nos media e nas redes sociais. 2. Uma boa parte da direita na Europa, inspirada no papa Francisco e com uma pulsão anti-islâmica, assumiu o combate biopolítico contra as elites da globalização. Rejeita a UE, o casamento do mesmo sexo, os migrantes, os mercados desregulados, a austeridade, o consumismo e as GAFA (Google, Amazon, Facebook, Apple). A direita está cada vez mais desconfortável com os valores cosmopolitas das grandes cidades e vai-se ruralizando. Algumas minorias, em coerência, abandonam as metrópoles e optam por uma agenda ecológica agressiva, instalando-se em pequenas comunidades com famílias e modos de vida tradicionais. Por cá, a reacção do CDS e do PSD à lei da identidade de género nas escolas parece indicar que acordaram para estas querelas do corpo, onde o bloco e a ala esquerda do PS têm pontificado sem contraditório. Com o atraso pátrio do costume, também entre nós a biopolítica vai passar a ser muito mais dura.
Les plaisirs ont choisi pour asile ce séjour agréable et tranquille, que ces lieux sont charmants pour les heureux amants! C'est l'amour qui retient dans ses chaînes mille oiseaux qu'en nos bois nuit et jour on entend. Si l'amour ne causait que des peines, les oiseaux amoureux ne chanteraient pas tant. Jeunes cœurs, tout vous est favorable, profitez d'un bonheur peu durable. Dans l'hiver de nos ans l'Amour ne règne plus, les beaux jours que l'on perd sont pour jamais perdus.
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz. E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ónibus porque não pode perder tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá pra almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ónibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos. E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer filas para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra. A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes. A abrir as revistas e a ver anúncios. A ligar a televisão e a ver comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos. A gente se acostuma à poluição. As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. A luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. A contaminação da água do mar. A lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta. A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta, de tanto acostumar, se perde de si mesma.