sábado, 31 de agosto de 2019

Tripes

Performance "O azul sangrento do boulevard" (1983)
Fotografia de José Fernandes Carrilho Gomes



A cassete emperrada após
o azul sangrento do boulevard,
falando de guitarras 
em celulóides e heróis 
no deserto e outras
carícias passadas no comboio
que te levava para LA.
Novas feridas na tua alma, 
talvez dia e noite, 
neo-pop melodia
ainda golpe na linha apagada e tímida.
Chama-me ao rendez-vous no prédio
de chamas pintadas e sexo no vão de escadas.
E contudo, lamento
o ego alienado do escancarado vampiro.
Oh! Love now or never.

Eduardo Arimateia



sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Biopolítica*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Nos tempos que correm, uma boa parte dos assuntos da agenda mediática e política têm a ver com o corpo. São assuntos de biopolítica.

São as imposições alimentares, que tanto passam pela redução do sal e do açúcar como pelo crescente activismo veg que se vai radicalizar e tornar agressivo.

É, até, a construção do corpo dos políticos e a afirmação descomplexada das suas sexualidades: os peitorais de um deputado laranja, a tatuagem de uma deputada rosa que está no Tinder, a saída do armário da ministra da cultura e de um vice-presidente do CDS. E a este panorama só não se junta José Castelo Branco porque ele desistiu de ser candidato.

Atenção: este hedonismo corporal curte metodicamente o presente mas vive cheio de angústias com o futuro. As pessoas esculpem abdominais no ginásio enquanto vigiam o colesterol, fazem selfies à frente de sítios distantes a que chegaram com uma grande pegada de carbono enquanto se afligem com as catástrofes ecológicas, reais ou imaginárias, anunciadas todos os dias nos media e nas redes sociais.

2. Uma boa parte da direita na Europa, inspirada no papa Francisco e com uma pulsão anti-islâmica, assumiu o combate biopolítico contra as elites da globalização. Rejeita a UE, o casamento do mesmo sexo, os migrantes, os mercados desregulados, a austeridade, o consumismo e as GAFA (Google, Amazon, Facebook, Apple).

A direita está cada vez mais desconfortável com os valores cosmopolitas das grandes cidades e vai-se ruralizando. Algumas minorias, em coerência, abandonam as metrópoles e optam por uma agenda ecológica agressiva, instalando-se em pequenas comunidades com famílias e modos de vida tradicionais.

Por cá, a reacção do CDS e do PSD à lei da identidade de género nas escolas parece indicar que acordaram para estas querelas do corpo, onde o bloco e a ala esquerda do PS têm pontificado sem contraditório.

Com o atraso pátrio do costume, também entre nós a biopolítica vai passar a ser muito mais dura.

Les plaisirs

Fotografia de Alex Holyoake

Les plaisirs ont choisi pour asile
ce séjour agréable et tranquille,
que ces lieux sont charmants
pour les heureux amants!

C'est l'amour qui retient dans ses chaînes
mille oiseaux qu'en nos bois nuit et jour on entend.
Si l'amour ne causait que des peines,
les oiseaux amoureux ne chanteraient pas tant.

Jeunes cœurs, tout vous est favorable,
profitez d'un bonheur peu durable.
Dans l'hiver de nos ans l'Amour ne règne plus,
les beaux jours que l'on perd sont pour jamais perdus.


quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Turn! Turn! Turn!

Fotografia de Tayla Linford


To Everything (Turn, Turn, Turn)
There is a season (Turn, Turn, Turn)
And a time to every purpose, under Heaven

A time to be born, a time to die
A time to plant, a time to reap
A time to kill, a time to heal
A time to laugh, a time to weep

To Everything (Turn, Turn, Turn)
There is a season (Turn, Turn, Turn)
And a time to every purpose, under Heaven

A time to build up,a time to break down
A time to dance, a time to mourn
A time to cast away stones, a time to gather stones together

To Everything (Turn, Turn, Turn)
There is a season (Turn, Turn, Turn)
And a time to every purpose, under Heaven

A time of love, a time of hate
A time of war, a time of peace
A time you may embrace, a time to refrain from embracing

To Everything (Turn, Turn, Turn)
There is a season (Turn, Turn, Turn)
And a time to every purpose, under Heaven

A time to gain, a time to lose
A time to rend, a time to sew
A time for love, a time for hate
A time for peace, I swear it's not too late
Adapted from The Bible
Ecclesiastes
















quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Sweet bird

Fotografia de Taneli Lahtinen


Sweet bird, that shun'st the noise of folly,
Most musical, most melancholy!
Thee, chauntress, oft the woods among,
I woo to hear thy even-song.
Or, missing thee, I walk unseen,
On the dry smooth-shaven green,
To behold the wand'ring moon
Riding near her highest noon.

Sweet bird...

Charles Jennens (1740)



terça-feira, 27 de agosto de 2019

Eu sei, mas não devia

Fotografia de Josiah Kemp

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ónibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ónibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.

As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.

Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta,
de tanto acostumar, se perde de si mesma.
Marina Colasanti



segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Último recado

Fotografia de Mohammad Amirahmadi

No dia em que me deixaste
Nada quis do que te dei
Tudo o que eu tinha levaste
Nem com a saudade fiquei

Se foi tão fácil esquecer-te
E ao pouco bem que me deste
Só me resta agradecer-te
Todo o mal que me fizeste

Aqui vai este recado
Gratidão a que me obrigas
Por tudo, muito obrigado
Por nada, espero que digas

Não penso que ele te fira
Nem qualquer bem te fará
De nada, nada se tira
A nada, nada se dá

Mas fico mais descansado
Sem nenhum mal entendido
Já que fui mal empregado
Não sou mal agradecido

E serve pra confessar
Quanto fiquei a dever-te
Por nunca poder pagar
O que ganhei em perder-te

Nunca poderei pagar
O que ganhei em perder-te


domingo, 25 de agosto de 2019

Araña de plata

Fotografia de Josh Massey



La Luna es araña
de plata
que tiene su telaraña
en el río que la retrata
Jose Juan Tablada


















sábado, 24 de agosto de 2019

Triângulo kabalístico

Fotografia de Jez Timms


Eu sei que as túlipas
são os olhos de todos os aviões perdidos

Eu sei que as cidades
são os esqueletos das aves de rapina

Eu sei que os candeeiros ardendo de noite
são os pulmões dos peixes-voadores

Eu sei que o mistério
é uma dentadura abandonada

Eu sei que a loucura
é um braço solitário sorrindo eternamente

Eu sei que os meus olhos
são as tuas pernas frementes

Eu sei que os teus cabelos
são o meu acendedor de pirilampos

Eu sei que a tua boca
é o meu uivo solar

Eu sei que o teu peito e o teu sexo
são a minha água profundamente azul
onde se encontram todos os fantasmas
já perdidos há séculos.
Mário-Henrique Leiria



sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Equidade e desigualdade*

* Hoje no Jornal do Centro


1. O PCP e o Bloco fizeram-se de mortos durante a recente greve dos motoristas de matérias perigosas. Até mesmo depois de serem conhecidos os horários desumanos que são impostos àqueles trabalhadores.



Esta inacção perante esta luta não deve surpreender ninguém. As esquerdas, nas democracias liberais do ocidente, ainda vão entregando alguns resultados aos trabalhadores do sector público, mas já não fazem nada que se veja pelos jovens à procura do primeiro emprego, pelos precários, pelos trabalhadores do sector privado.

Durante a greve, publiquei nas redes sociais uma reflexão sobre este problema estrutural. Partilho-a também aqui no ponto seguinte.

2. O Bloco de Esquerda já se sabia que é para defender as causas identitárias da classe média urbana, cosmopolita e que trabalha no Estado.

O PCP é que era suposto defender quem recebe 630 euros de salário-base e que, para levar 1200 euros para casa, tem que trabalhar 60/65 horas, quase o dobro do horário da função pública.

Julgava-se que o Bloco, inchado de identitarismos, era pela equidade, e o PCP, orgulhoso da sua tradição operária, era pela igualdade.

Como descreveu Guy Standing, em “O Precariado - A Nova Classe Perigosa”, “uma característica da perda de dinamismo da agenda social-democrata (...) foi que a ênfase colocada na igualdade se deslocou para a equidade social. A redução da discriminação e das diferenças salariais com base no género tornaram-se objectivos prioritários, enquanto a redução das desigualdades estruturais foi remetida para segundo plano.”

Em suma, já se sabia que o Bloco de Esquerda é uma espécie de PS fashion, mas ainda se julgava que o PCP era o partido dos que sofrem, dos colarinhos azuis, dos descamisados.

Esta greve dos motoristas de matérias perigosas veio mostrar que afinal já nem o PCP serve para defender os trabalhadores do sector privado, os mais explorados deste país.

Estes, quando surgirem populismos à direita, vão votar neles. Vai ser feio de ver.

O que enfim vai destruir a aspereza

Fotografia de Jon Tyson

será ave?
gaivota que na janela se revela pomba
mesmo assim um voo impressionante

será vontade?
um sentido repentino que assalte
a coragem de tirar a roupa antes

será ónibus?
semileito ou leito-cama
de bruços ninguém chega longe

será homem?
surgirá no carnaval de peruca?
conseguiremos nos ver no meio da ponte?

será água?
submersos por acidente voltamos no tempo
e talvez encontremos
a concha
Ana Guadalupe









quinta-feira, 22 de agosto de 2019

É evidente que nos mentem

Fotografia de Artem Ivanchencko

É evidente que nos mentem quando põem por escrito
que é preciso imaginar Sísifo feliz. Como assim?
(Renunciar ao cigarro no peito inimigo
rebocar o morto para lhe lamber os pés?)

Que valha a pena andar aqui com o propósito
de ter ponta por se estar vivo ainda que falido.
Precisamos de Sísifo doente e formas febris
para encher o bucho filosófico a toque de punheta.

Uma vida sem relato para diminuir a expectativa.

Porque na verdade não há gerações intoleráveis
há momentos em que o homem se torna imóvel
e gerado para um só momento:
o de estar de tal forma comprometido com a sua época
que lhe resta apenas ser ridículo e mentir.

Que me desculpem senhores putas, não é fácil
dirigir esta merda sob o olhar do entendimento
num país onde o poeta nos leva o talho a casa
e se morre de fome num país cheio de poetas.

Dei por mim no «Resumo» da documenta
que quanto a mim, perde para os westerns.

Dei por mim sozinho na cena de porrada ao futuro
cabrões de vindouros se isto não é um grande filme.

E estava certo.

Dei por mim a propor duelos.
Café e pistolas para dois?
Raquel Nobre Guerra