sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Fusíveis*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Título de uma notícia neste jornal, em 19 de Julho: Mercado 2 de Maio, Praça Ganha Cobertura “Amiga do Ambiente”.


Fotografia Olho de Gato
No virar do milénio, Siza Vieira prantou uma eira no centro da cidade de Viseu e o dr. Ruas, paralisado pela reverência ao arquitecto, não fez nada para a melhorar.

Nos seis anos que já leva de presidência, António Almeida Henriques, que foi a votos com a promessa de dar uma volta àquele espaço, nada fez também. É verdade que, em 2015, avançou com um concurso de ideias cheio de ideias erradas, que até pretendia escarafunchar no granito para fazer ali um parque de estacionamento, mas aquilo foi um rascunho que só derreteu dinheiro e tempo.

Agora, em Julho, António Almeida Henriques saiu-se com este teaser sobre uma putativa cobertura fotovoltaica para o Mercado 2 de Maio. É um fusível político. É o truque “Greta Thunberg”. Para tentar evitar sarilhos com um projecto, nada melhor do que carimbá-lo à partida como “amigo do ambiente”.


2. Título de uma notícia neste jornal, em 2 de Agosto: Projecto do Centro Interpretativo do Estado Novo Agrada a Marcelo Rebelo de Sousa.

Leonel Gouveia, o presidente da câmara de Santa Comba Dão, é um homem determinado. Pegou no município mais falido do distrito, viu-o ser devastado em 15 de Outubro de 2017, quando até arderam as máquinas municipais, e está a recuperá-lo financeira e animicamente.

Como se isso não fosse pouco, o autarca tem também que fazer a gestão da memória de António Oliveira Salazar. Para tentar atravessar este campo minado, Leonel Gouveia deita mão não a um mas a dois fusíveis: avisa que o centro interpretativo é um projecto “científico” supervisionado por três catedráticos da universidade de Coimbra e sublinha que a “ideia foi muito bem aceite por Marcelo Rebelo de Sousa”.

O segundo fusível é melhor do que o primeiro, mas nem um nem outro vão evitar fortes descargas eléctricas naquele simpático concelho onde nasceu um antipático ditador.

Espero nunca mais te ver

Fotografia de Максим Лунгу


Para onde foste?
Fiquei sem saber
se os minutos correram no sentido certo,
quando a sombra te escureceu o olhar.
Eduardo Arimateia



quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Era uma vez



Era uma vez
toda a gente se juntava
para à noite ir à farra
lá na tasca do Marquês
mas hoje em dia
está tudo remodelado
neste hostel não há fado
nem se percebe português
mas hoje em dia
está tudo remodelado
neste hostel não há fado
nem se percebe português

Era uma vez
quando Alfama anoitecia
toda ela só parecia
um veleiro sem vela
mas agora
que tem nova padroeira
até Madonna vai à feira
e St. António está com ela
mas agora
que tem nova padroeira
até Madonna vai à feira
e St. António está com ela

Era uma
era uma vez
era uma vez
Era uma
era uma vez
era uma vez

Era uma vez
que o largo do Intendente
era o fim de tanta gente
que se perdia pela vida fora
Mas agora
esta vida portuguesa
elegante à francesa
virou chique e está na moda
Mas agora
esta vida portuguesa
elegante à francesa
virou chique e está na moda

Era uma vez
que na Sra. da Saúde
ainda se rezava com virtude
ai, bendito é o Senhor
Mas de momento
tudo aquilo que nos resta
é de aproveitar a festa
e de dar de beber à dor
Mas de momento
tudo aquilo que nos resta
é de aproveitar a festa
e de dar de beber à dor

Era uma
era uma vez
era uma vez
Era uma
era uma vez
era uma vez
Telmo Pires





quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Ele e ela (#7) *

* A série "Ele e ela" saiu nos verões de 2008, 2009, 2011 e 2012 no Jornal do Centro.
Este #8 foi publicado há exactamente dez anos, em 7 de Agosto de 2009

Imagem daqui

— Hmmmm… bom…

— Estava cheio de saudades.

— Estavas nada, mentiroso…

— Saudades muitas. Tu sabes. Tens lume?

— Não se fuma no quarto.

— Antes não dispensávamos um cigarrinho depois…

— Disseste “antes cigarrinho depois”… lol...

— Lol?! O que é isso?!

— Internet. Esquece…

— Já estás com os teus enigmas outra vez, é? Apetece-me um cigarro…

— Aqui no quarto, já te disse, agora não se fuma.

— Que está a dar na televisão?

— Deixa lá a televisão. Abraça-me.

— Como tem sido este último ano?

— Trabalho muito para me esquecer de tudo. Tomo comprimidos para dormir e tenho ajudado a minha mãe nas doenças dela…

— A tua mãe? Muito do que aconteceu foi por culpa dela…

— A minha mãe ajudou-me sempre nos meus problemas.

— A tua mãe é o teu único problema.

— Não digas isso…

— A tua mãe é uma víbora.

— Não te admito isso…

— É uma víbora. Espalha veneno em todo o lado. Até foi dizer mal de mim para a empresa.

— Isso não é verdade!

— Foi. Teve azar a velhadas, viram-na entrar para o gabinete do meu chefe.

— Se foi lá, foi tratar de algum assunto…

— Foi largar veneno, a víbora.

— Abraça-me. Preciso de carinho.

— Tenho um compromisso. Tenho que me ir embora.

— És sempre o mesmo. Um egoísta! Um merdas! Quero divorciar-me de ti!

— Mas nós estamos divorciados já há um ano…

— Quero o divórcio outra vez!

Esse verão a cada momento

Fotografia de Hanna Postova


Esse verão a cada momento esqueço havia esse
verão esse tempo atravessado por corpos nunca por
nome tidos esses corpos que fazem vir as lágrimas
os livros gamados por esse Chiado abaixo!
Chatices da sensibilidade! Como lhe hei-de
dizer a esse estudantinho de veterinária
a esse verão ainda repetido deus nos guarde!

Deus deus ou quem cá anda nesse rosto mais de
corpo que de rosto nesses olhos que troco há tantos
anos sob o duque da Terceira, já não sei se é a terceira
se é Saldanha, mas é duque! diz a Rita cobrindo a
mesa, das antigas, de mármore!, cobrindo a mesa de
fotografias. Ao lado o João, eu não, o outro, esse, o
dos livros gamados Chiado acima Portugal, Sá da Costa
no meio fica a Bertrand.
Bebendo ginja Cais do Sodré a tarde toda!
João Miguel Fernandes Jorge
(Poema 8, in Actus Tragicus)
Inédito — daqui



terça-feira, 6 de agosto de 2019

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

To thee, old Cause!

Fotografia de Lionello DelPiccolo

To thee, old Cause!
Thou peerless, passionate, good cause!
Thou stern, remorseless, sweet Idea!
Deathless throughout the ages, races, lands!
After a strange, sad war—great war for thee,
(I think all war through time was really fought, and ever will be really fought,
for thee;)
These chants for thee—the eternal march of thee.

Thou orb of many orbs!
Thou seething principle! Thou well-kept, latent germ! Thou centre!
Around the idea of thee the strange sad war revolving,
With all its angry and vehement play of causes,
(With yet unknown results to come, for thrice a thousand years,)
These recitatives for thee—my Book and the War are one,
Merged in its spirit I and mine—as the contest hinged on thee,
As a wheel on its axis turns, this Book, unwitting to itself,
Around the Idea of thee.
Walt Whitman


domingo, 4 de agosto de 2019

És cruel — post # 6000



Meteste a tua filha num bordel
Enforcaste o teu caniche a um cordel
És cruel

És tarado
Pintaste o sexo cor de rebuçado
No circo tu serias um achado
És tarado

És um porco imundo,
Quando queres vais até ao fundo
Não sei onde vais parar

És ignóbil
Não sei qual é que é o teu móbil
És um reciclado de Chernobil
És ignóbil

És vaidoso
Meteste uma pompom na tua franja
Sabes que ainda o dia é uma criança
És vaidoso

És um porco imundo
Quando queres vais até ao fundo
Não sei onde vais parar

És obtuso
Lavas a tua tromba com água do Luso
O teu nariz é como um parafuso
És tarado

És obsceno
Os teus olhos diz que ele é um veneno
Encharcas-te com vinho do Reno
És cruel

És um porco imundo
Quando queres vais até ao fundo
Não sei onde vais parar

És um porco imundo
Quando queres vais até ao fundo
Não sei onde vais parar

Não sei onde vais parar

sábado, 3 de agosto de 2019

Café do molhe

Fotografia de Nick Owuor

Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luís de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.
Manuel António Pina


sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Baixa densidade*

* Hoje no Jornal do Centro


1. O politiquês, esse dialecto do politicamente correcto, deixou de chamar “interior” à parte do país a que não chega o cheiro do mar e agora prefere chamar-lhe “território-de-baixa-densidade”.

Já se sabe, os políticos são palavrosos, podendo usar quatro palavras não vão usar só uma e a nova designação faz algum sentido. Onde não chega o iodo e a maresia é cada vez mais baixa a densidade de serviços de saúde, de estações de correio, de agências da CGD, de transportes públicos com passes fofinhos, de estradas decentes não-portajadas.

2. O PS, o vencedor anunciado das próximas legislativas, dedica quatro páginas do seu programa eleitoral à “coesão territorial” onde se propõe “tomar medidas” para o “desenvolvimento harmonioso de todo o país, com especial atenção para os territórios de baixa densidade”.

Em sete sub-capítulos, cheios de clichês, são elencadas cinquenta “medidas” que querem “apostar no potencial” e “apoiar o aumento”, para além de “incentivar o surgimento” e “reforçar o diferencial”, de forma a “promover a obtenção” e “incorporar o desígnio”. Algures, claro, lá surge também o inevitável “incentivar o empreendedorismo”.

É uma lista de cinquenta eufemismos, escritos em língua-de-trapo, sem nenhuma quantificação ou calendarização, sem nenhum pensamento operativo sobre as cidades médias ou sobre o mundo rural, sem nenhum incentivo fiscal nem em IRS, nem IRC, nem IMI, sem nada palpável capaz de atrair pessoas ou investimentos para o interior.

3. À hora que escrevo este texto ainda não se sabe se o distrito de Viseu vai eleger oito ou nove deputados e também ainda não se conhece a lista do PSD.

Lúcia Silva e Rosa Monteiro
Já foi divulgada a lista socialista onde, em segundo lugar, em vez da secretária de estado Rosa Monteiro, o aparelho prantou Lúcia Silva. Percebe-se a lógica da batata da distrital socialista: para um “território-de-baixa-densidade”, uma deputada com densidade política equivalente.

Sovente il sole

Fotografia de Aziz Acharki

Sovente il sole
Risplende in cielo
Piu bello e vago
Se oscura nube
Gia l’offuscò.

E il mar tranquillo
Quasi senza onda
Talor si scorge,
Se ria procella
Già lo turbò.






quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Timidez

Clip de Jim Jarmush (1986)



Perguntou-lhe se ia ao cinema.
Ela acendeu um cigarro, desviou o olhar do rosto dele.
Respondeu-lhe que o filme era muito inocente.
Eduardo Arimateia