quarta-feira, 10 de julho de 2019

Gestos*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 10 de Julho de 2009


1. Num dos seus textos em Para Acabar de Vez Com a Cultura, Woody Allen conta como lhe é difícil seguir espectáculos de mímica: “O mimo começou então a estender um cobertor e, instantaneamente, a minha velha confusão instalou-se. Tanto podia estar a estender um cobertor como a ordenhar uma cabra.”

A expressão “o gesto é tudo” para muita gente quer dizer “o gesto diz tudo”. Ora, pelo menos a mim e a Woody Allen, falta ao gesto o GPS do sentido, falta-lhe a bendita palavra bem dita.

Quando o coreógrafo Paulo Ribeiro, no seu excelente Maiorca, esconde um bailarino e uma bailarina no meio do palco, num aparato construído com quatro tábuas altas e opacas...



... eu elaboro uma ideia do que ele e ela foram lá para dentro fazer. Mas será que uma vendedora da Zara está a pensar o mesmo que eu? E um técnico de radiologia?

Que quero dizer com isto? Eu gosto de histórias mas se me derem umas pistazinhas para compreender o enredo, agradeço.


2. Correu mundo uma fotografia de uma iraniana a fazer um pirete a Mahmoud Ahmadinejad, o presidente não eleito do Irão. 

Neste caso, é bom que este dedo médio esticado ao barbudo não propicie demasiadas segundas leituras.

3. Manuel Pinho, no parlamento, levantou as mãos com os indicadores esticados, num gesto a que normalmente se associa à ideia de “chifres”, de “cornos”, de “chavelhos”.


O gesto foi dirigido a um deputado comunista, Bernardino de sua graça, que é um apreciador das virtudes democráticas da Coreia do Norte.

Não percebi o Pinho mas vi explicado no twitter o que ele quis verdadeiramente dizer com aquela mímica:
«Bernardino, está combinado, pá! Em Agosto lá nos encontramos nas festas de Barrancos!»

Poem not to be read at your wedding

Fotografia de Denny Müller

You ask me for a poem about love
in lieu of a wedding present, trying to save me
money. For three nights I’ve lain under
glow-in-the-dark stars I’ve stuck to the ceiling
over my bed. I’ve listened to the songs
of the galaxy. Well, Carmen, I would rather
give you your third set of steak knives
than tell you what I know. Let me find you
some other store-bought present. Don’t
make me warn you of stars, how they see us
from that distance as miniature and breakable,
from the bride who tops the wedding cake
to the Mary on Pinto dashboards
holding her ripe red heart in her hands.
Beth Ann Fennelly


terça-feira, 9 de julho de 2019

O poema sai barato

Fotografia de Allie Smith

O poema
sai barato
já não se escreve
com pena de pato

Um poema
é um poema
é um poema

Uma rosa
não é uma rosa
não é uma rosa

O rabo
é abstracto?
o poema
sobre o poema
(este poema)
engonha
mas não envergonha
Adília Lopes


segunda-feira, 8 de julho de 2019

Dorme cá hoje

Fotografia de Daniel Adesina

Dorme cá hoje. Tenho uma almofada a mais
feita de memory foam das televendas
onde a curvatura do meu crânio
já foi adivinhada.

Praticamos o modo bed and breakfast,
aceito dinheiro ou cartões
mas não te dou crédito,
em troca levo-te o café à cama.

Não estranhes este meu hábito
de deixar a luz acesa
para fingir que está alguém em casa
ou o outro de deixar
pernas e portas entreabertas
esperando que o último a sair
se lembre de as fechar.

Não espreites o quartinho dos arrumos,
onde guardo a esfregona,
os homens que corroem
e o óleo de cedro para móveis.

O meu chão irá ranger
quando o privares do teu peso;
por hoje, torna-te o homem-a-dias
que vem arejar este quarto alugado.

Descansa se ouvires o som de ossos
a estalar durante a noite;
são só os meus esqueletos
a dançar vitoriosos no armário.
Ana Bessa de Carvalho



domingo, 7 de julho de 2019

Preferia não saber das ruas

Fotografia de Austin Chan

Preferia não saber das ruas
onde posso desfazer-me do desejo.
Ir ao encontro das estátuas
para me refazer do medo.

A noite é pequena e cabe
num gesto atirado ao ar
quando se parte sem olhar para trás,
nem necessidade de confirmar amor algum.

Tirei tudo dos bolsos.
Toquei o rosto para sentir a temperatura.
Não estou morta nem vou morrer.

De regresso a casa, a única certeza:
que a manhã virá para reflectir a palidez,
a habitual dificuldade em existir cedo.
Marta Chaves


sábado, 6 de julho de 2019

Realismo

Fotografia de Artūrs Ķipsts

Tinhas a mesma vontade que eu
de louvar a imperfeição
de chamar as coisas pelos nomes

mesmo as que nem chamar se chamam
e o desatino do extremo cansaço.
É por isso que a nossa felicidade,
a que nem sabemos se é
(mas podemos fingir)
está na tristeza que aclamo, logo ao despontar do dia
e na rotina que me despejas, por vezes,
ao fechar da noite.
A minha fé está na dedicação
com que arrumas a loiça lavada
e a tua,
está na emoção com que ajeito os lençóis
antes de fechar os olhos.

Não existe mais nada para além deste querer
Querer sentar-me contigo
e contar-te o desnorte amargo das
minhas palavras
querer
continuar a adorar-te, apesar da dor de estômago.

Não te escondo que já me doeram todas as coisas
a vida, a não vida,
a voz, os cabelos, o pão
mas ao saber-te sentado no momento em
que abrir a porta
deus da secretária de madeira
pai-nosso, amor-meu!
tão existente quanto despojado das
grandes coisas
não há mundo nem ponta de estômago por
mais inflamada que esteja

que me impeçam
de não-doer.
Cláudia R. Sampaio


sexta-feira, 5 de julho de 2019

Caixinhas*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Como a substituição de Joana Marques Vidal por Lucília Gago não abrandou o combate à corrupção, António Costa e Rui Rio entraram em plano B: tentar, ainda nesta legislatura, o controlo político do ministério público e retirar-lhe a sua autonomia financeira.

Costa, nestes assuntos, actua pela calada, mas Rui Rio não esconde ao que vem. A sua conversa sobre "banhos de ética" é só isso: conversa. Basta lembrar que o líder do PSD mantém a confiança política no afiançado Álvaro Amaro.

Desta vez, o bloco central falhou graças ao efeito combinado de uma greve que parou os tribunais e uma admoestação pública do presidente Marcelo. Mas o PS e o PSD vão voltar à carga. A justiça vai ser um campo de batalha na próxima legislatura.


2. Num debate no parlamento alemão para reconhecimento de vários tipos de género, um guedelhudo, deputado da extrema-direita, foi ao púlpito e começou: «caros homossexuais, caras lésbicas, caros andróginos, caros bigénero, caras mulheres-para-homens, caros homens-para-mulheres, caros género variável, caros...» O homem fez aquela saudação a 44 géneros diferentes a que acrescentou um «caros outros», para o caso de haver mais que não lhe ocorriam. O vídeo daquela palhaçada é um sucesso nas redes sociais.


Já Marchavas, 1ª Marcha pelos Direitos LGBTI+ de Viseu, 7 de Outubro de 2018
Fotografia Olho de Gato

A 28 de Junho, para assinalar o dia do orgulho gay,
o New York Times lançou aos seus leitores o desafio para descreverem como se identificavam nos relacionamentos. A análise às cinco mil respostas recenseou 116 palavras e expressões diferentes para sexualidades e identidades de género. Três exemplos: "bi-romântico", "não-binário", "assexual".

Como se vê, estas divisões em sub-sub-subgrupos acrescentam um "etc" quilométrico à velha sigla LGBT.

Há aqui um sinal de diversidade humana, claro. Mas — como observou cheio de razão António Gil no Facebook desta coluna — há também muita gente a querer "fazer parte de uma caixinha quando o objectivo devia ser acabar com todas as caixas".

Príncipe no roseiral




Escute lá
isto é um poema
não fala de amor
não fala de cachecóis
azuis sobre os ombros
do cantor que suspende
os calcanhares
na berma do rochedo
Não fala do rolex
nem da bandeirola
da federação uruguaia
de esgrima
Não fala do lago drenado
na floresta americana
Fotografia de JJ Jordan


Não diz nada sobre
a confeitaria fedorenta
que recebe os notívagos
para o café da manhã
quando o dia já virou
Isto é um poema
não fala de comoções
na missa das sete
nem fala da percentagem
de mulheres que se espantam
com a imagem do marido
aparando a barba no ocaso
Não fala de tratores quebrados
na floresta americana
não fala da ideia de norte
na cidade dos revolucionários
Não fala de choro
não fala de virgens confusas
não fala de publicitários
de cotovelos gastos
Nem de manadas de cervos
Escute só
isto é um poema
não vai alinhar conceitos
do tipo liberdade igualdade e fé
Não vai ajeitar o cabelo
da menina que trabalha
com afinco na caixa registadora
do supermercado
Não vai melhorar
Não vai melhorar
isto é um poema
escute só
não fala de amor
não fala de santos
não fala de Deus
e nem fala do lavrador
que dedicou 38 anos
a descobrir uma visão
quase mística
do homem que canta
e atravessa
a estrada nacional 117
para chegar a casa
ou a algum lugar
próximo de casa.
Matilde Campilho


quinta-feira, 4 de julho de 2019

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Rossio (II)*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 3 de Julho de 2009 



Fotografia Olho de Gato
1. Em 19 de Junho, escrevi aqui o seguinte: “Os novos candeeiros [do Rossio] são adequados. Espera-se a internet sem fios. Música ambiente não, por favor. É uma parolice.”

O leitor João Anes discordou e, em “carta ao director”, defendeu que “muita música e animação é uma boa forma (…) de desenvolver o comércio tradicional.”

Devo dizer que não tenho nada contra formas de animação do centro da cidade. Acho-as desejáveis e tenho gostado das que estão a decorrer. Incluindo dos decibéis.

Aquela minha frase que desagradou a João Anes foi motivada por uma notícia do JN, de 16.11.2008. Nela fiquei a saber que os novos candeeiros do Rossio e da Rua da Paz podiam ser multifunções (luz + videovigilância + música + internet) e que o fabricante estava furioso com a EDP por esta só autorizar a função iluminante.

Que os candeeiros sejam bonitos como são e alumiem, acho bem. A videovigilância desagrada-me mas é o “ar-dos-tempos”. Agora, caro João Anes, candeeiros a botarem música não, obrigado. Prefiro o sossego.

Já devia haver internet sem fios gratuita nas ruas de Viseu.

Era tão bom ver putos a guglarem nos seus Magalhães, com os dedos lambuzados de gelado, sentados no Rossio ao lado dos reformados!

2. No Facebook fizeram-me a seguinte pergunta: “Os nove candeeiros da Rua da Paz bem como a sua escala parece um pouco exagerado, não acha?”

A mim não me parece. Aquela “semeação” tão basta de candeeiros permite uma luz menos abrasiva. De dia talvez pareçam demais. De noite, não.

A próxima etapa é retirar os carros. O Rossio, a Rua Formosa e a Rua da Paz deviam formar um conjunto pedonal contínuo. Um passo está dado: os candeeiros da Rua da Paz já combinam com os do Rossio.

Nos dias tristes não se fala de aves

Fotografia de Marcelo Cidrack


Nos dias tristes não se fala de aves.
Liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.

Nos dias tristes é Inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento e diz-se
- bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso.

Nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco.
Filipa Leal