Tinhas a mesma vontade que eu de louvar a imperfeição de chamar as coisas pelos nomes mesmo as que nem chamar se chamam e o desatino do extremo cansaço. É por isso que a nossa felicidade, a que nem sabemos se é (mas podemos fingir) está na tristeza que aclamo, logo ao despontar do dia e na rotina que me despejas, por vezes, ao fechar da noite. A minha fé está na dedicação com que arrumas a loiça lavada e a tua, está na emoção com que ajeito os lençóis antes de fechar os olhos. Não existe mais nada para além deste querer Querer sentar-me contigo e contar-te o desnorte amargo das minhas palavras querer continuar a adorar-te, apesar da dor de estômago. Não te escondo que já me doeram todas as coisas a vida, a não vida, a voz, os cabelos, o pão mas ao saber-te sentado no momento em que abrir a porta deus da secretária de madeira pai-nosso, amor-meu! tão existente quanto despojado das grandes coisas não há mundo nem ponta de estômago por mais inflamada que esteja que me impeçam de não-doer.
* Hoje no Jornal do Centro 1. Como a substituição de Joana Marques Vidal por Lucília Gago não abrandou o combate à corrupção, António Costa e Rui Rio entraram em plano B: tentar, ainda nesta legislatura, o controlo político do ministério público e retirar-lhe a sua autonomia financeira. Costa, nestes assuntos, actua pela calada, mas Rui Rio não esconde ao que vem. A sua conversa sobre "banhos de ética" é só isso: conversa. Basta lembrar que o líder do PSD mantém a confiança política no afiançado Álvaro Amaro. Desta vez, o bloco central falhou graças ao efeito combinado de uma greve que parou os tribunais e uma admoestação pública do presidente Marcelo. Mas o PS e o PSD vão voltar à carga. A justiça vai ser um campo de batalha na próxima legislatura. 2. Num debate no parlamento alemão para reconhecimento de vários tipos de género, um guedelhudo, deputado da extrema-direita, foi ao púlpito e começou: «caros homossexuais, caras lésbicas, caros andróginos, caros bigénero, caras mulheres-para-homens, caros homens-para-mulheres, caros género variável, caros...» O homem fez aquela saudação a 44 géneros diferentes a que acrescentou um «caros outros», para o caso de haver mais que não lhe ocorriam. O vídeo daquela palhaçada é um sucesso nas redes sociais.
Já Marchavas, 1ª Marcha pelos Direitos LGBTI+ de Viseu, 7 de Outubro de 2018
Fotografia Olho de Gato
A 28 de Junho, para assinalar o dia do orgulho gay, o New York Times lançou aos seus leitores o desafio para descreverem como se identificavam nos relacionamentos. A análise às cinco mil respostas recenseou 116 palavras e expressões diferentes para sexualidades e identidades de género. Três exemplos: "bi-romântico", "não-binário", "assexual". Como se vê, estas divisões em sub-sub-subgrupos acrescentam um "etc" quilométrico à velha sigla LGBT. Há aqui um sinal de diversidade humana, claro. Mas — como observou cheio de razão António Gil no Facebook desta coluna — há também muita gente a querer "fazer parte de uma caixinha quando o objectivo devia ser acabar com todas as caixas".
Sei que tu tens um gineceu. Eu também tenho um androceu. Se fossemos coerentes, nem sequer falávamos. (L)íamos. Leio-te em Braille, cega de tanto esperar.
* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 3 de Julho de 2009
Fotografia Olho de Gato
1. Em 19 de Junho, escrevi aqui o seguinte: “Os novos candeeiros [do Rossio] são adequados. Espera-se a internet sem fios. Música ambiente não, por favor. É uma parolice.” O leitor João Anes discordou e, em “carta ao director”, defendeu que “muita música e animação é uma boa forma (…) de desenvolver o comércio tradicional.” Devo dizer que não tenho nada contra formas de animação do centro da cidade. Acho-as desejáveis e tenho gostado das que estão a decorrer. Incluindo dos decibéis. Aquela minha frase que desagradou a João Anes foi motivada por uma notícia do JN, de 16.11.2008. Nela fiquei a saber que os novos candeeiros do Rossio e da Rua da Paz podiam ser multifunções (luz + videovigilância + música + internet) e que o fabricante estava furioso com a EDP por esta só autorizar a função iluminante. Que os candeeiros sejam bonitos como são e alumiem, acho bem. A videovigilância desagrada-me mas é o “ar-dos-tempos”. Agora, caro João Anes, candeeiros a botarem música não, obrigado. Prefiro o sossego. Já devia haver internet sem fios gratuita nas ruas de Viseu. Era tão bom ver putos a guglarem nos seus Magalhães, com os dedos lambuzados de gelado, sentados no Rossio ao lado dos reformados! 2. No Facebook fizeram-me a seguinte pergunta: “Os nove candeeiros da Rua da Paz bem como a sua escala parece um pouco exagerado, não acha?” A mim não me parece. Aquela “semeação” tão basta de candeeiros permite uma luz menos abrasiva. De dia talvez pareçam demais. De noite, não. A próxima etapa é retirar os carros. O Rossio, a Rua Formosa e a Rua da Paz deviam formar um conjunto pedonal contínuo. Um passo está dado: os candeeiros da Rua da Paz já combinam com os do Rossio.
Nos dias tristes não se fala de aves. Liga-se aos amigos e eles não estão e depois pede-se lume na rua como quem pede um coração novinho em folha. Nos dias tristes é Inverno e anda-se ao frio de cigarro na mão a queimar o vento e diz-se - bom dia! às pessoas que passam depois de já terem passado e de não termos reparado nisso. Nos dias tristes fala-se sozinho e há sempre uma ave que pousa no cimo das coisas em vez de nos pousar no coração e não fala connosco.