sábado, 8 de junho de 2019

Escreve sempre que precisares

Fotografia de Cathryn Lavery



Escreve sempre que precisares de me dizer
que há gelo nas tuas mãos e nas paredes do frigorífico.
Os legumes que trouxe ontem
não sobrevivem a mais do que uma geada,
muito menos nós

Escreve sempre que precisares, podes
dizer-me outra vez que nunca houve inverno,
que este ano não há verão,
que estamos aqui e não estamos porque não sabemos
se somos nós ou se somos aquelas
quatro pessoas que vão à rua

agora que encontraram a porta certa.

Escreve sempre que precisares, faz
uma lista de compras, uma lista de desejos,
anota todos os pedidos que deixaste
em poemas atrasados.
Escreve sempre que precisares
de mais um postal com selo e carimbo.
Escreve sempre que riscares
na tua agenda mais uma morada.

Sempre que eu precisar vais devolver-me
uma caligrafia rebuscada que não é a tua,
curvas a mais que não fazias na letra d.
Já não há desses manuscritos,
só eu e os carteiros aprendemos a decifrá-los
(e toda a gente sabe que nem isso é verdade).
Vai escrevendo. Sempre que eu precisar,
as frases podem desviar deixas decoradas,
repetidas como mentiras,
demasiado gastas para serem inócuas.

Escreve em vez de costurares.
Mesmo que soubesses, não há remendos suficientes,
arranhaste sem possibilidade de cura joelhos,
cotovelos e as canelas
(dançar sempre foi um antídoto fora do teu alcance).
Escreve que eu vejo nas tuas as minhas quedas,
os meus soluços nessas curvas
a mais que não fazes na letra d:
as tuas linhas são rectas, verticais e justas,
as minhas letras são apenas caracteres.

Escreve sempre que puderes
só em vez de apenas,
recursos humanos em vez de
resíduos urbanos. Talvez sejamos mais
do que pessoas, temos tamanhos diferentes
e não servimos nos lugares que nos foram destinados.

Escreve sempre que precisares de uma porta
onde caibas,
nunca trago chaves comigo.
Margarida Ferra



sexta-feira, 7 de junho de 2019

RIPismos e rascunhos*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Quando morre um artista importante, os media e as redes sociais ficam monotemáticos e entram em modo RIP (“requiescat in pace”, “rest in peace”, “riposi in pace”). Não há descanso nem paz enquanto não contarem tudo sobre o falecido e a transcendência da sua obra.

Este RIPismo, feito por especialistas mais ou menos instantâneos, divide-se em dois grandes grupos:

— o RIPismo que se foca nos feitos do génio que nos acabou de deixar e nos ajuda a compreender a sua obra;

— o RIPismo em que o vivo usa o óbito como pretexto para falar de si próprio (o dia em que encontrou o falecido, ou jantou na mesa dele, ou teve uma epifania com um seu poema, …); este RIPismo narcísico qualquer dia começa a tirar selfies junto aos caixões e publica-as no Instagram.


Fotografia de Alfredo Cunha — Daqui
2. O RIPismo desta semana foi sobre Agustina Bessa-Luís.

Li textos muito bons sobre a romancista e o melhor deles foi de Rui Catalão que, no Facebook, lembrou que Agustina foi “a maior escritora de mão quente de todos os tempos: tudo o que dela conhecemos foi escrito ao primeiro rascunho, sem trabalho de edição nem reescrita”. Ela escrevia à mão, numa letra pequenina, ao “first take”, quase sem emendas nem rasuras.

É claro que nenhuma obra é feita “à primeira”, Agustina não fazia rascunhos no papel, fazia-os dentro da sua cabeça.

Aquilo que é o histórico de edições, as encruzilhadas narrativas, as hesitações, as personagens expulsas da história, as versões abandonadas, os esboços, aquilo a que Leibniz chamou «o grande mistério do que podia ter acontecido», tudo isso ficava-se pela cogitação interior de Agustina.

3. Paulo Ribeiro desistiu de tentar sacar em tribunal 53 mil euros ao Teatro Viriato por “despedimento ilícito” e o teatro municipal não vai pedir uma indemnização por aquele ataque ao seu bom nome.

RIP! Este caso faleceu quando ainda era só um esquisso esquisito, um esboço, um rascunho. Se nunca tivesse saído da cabeça do coreógrafo teria sido muito melhor. Especialmente para ele.

Ponho entre aspas o teu nome

Fotografia de Allef Vinicius

ponho entre aspas o teu nome,
metáfora arisca,
tão inútil como um circo
no nevoeiro.
Renata Correia Botelho







quinta-feira, 6 de junho de 2019

[Fúria]

Fotografia de Heather M. Edwards

Tenho por norma esta apocalíptica forma de ser pedra em chão molhado; e nada me incomodam os pés dos outros, os joelhos as mãos os rostos dos outros quando casualmente em mim resvalam. Tenho uma cidade em cada perna, e em cada coxa o tráfego, a espera, a ira do taxista e uma mão remendada abusando da paragem forçada a quem pragueja desprezo à mais alta velocidade. Tenho por peito a praça onde homens e mulheres circulam, e sei de cor cada gesto só pela vaidade de dizer: sou de tudo.

O tudo tomando café, saindo e entrado, indiferente à rua que desagua na minha língua, desconhecedor deste registo diário que me rege a correnteza do rosto ao negar lume a um desconhecido. Nego, nego tudo; e há sinos que tocam apenas nas minhas costas, santos de olhar baço a que somente o meu olhar dá luz, homens de todos os dias que esquecem beijos a cada janela, sem saberem que são minhas as portadas que lhes devolvem este sem toque de ser pedra em torrência: tempestade de granito. Batendo fúrias contra sobretudos negros, mãos quietas e esse cabelo escuro procurando proteger-se do frio.

Nada possuo de terramoto, ocasionalidade esporádica da terra enquanto geme desamores ao relento de um céu suspenso. E, se me perguntares quem sou, para onde vou, dir-te-ei: sou Outono, Inverno camuflado de vã promessa, de vã incerteza, vou para o tempo que é da contabilidade excessiva da queda dos ramos. Sou do tempo como da trovoada, e se tenho por língua um raio despedaçando nuvens, nada esperes que não seja a certeza de eu fazer dia em noite cerrada, a mais perfeita forma de romper o silêncio.
Beatriz Hierro Lopes





quarta-feira, 5 de junho de 2019

Chega*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 5 de Junho de 2009


1. O El País, no último domingo, trazia uma notícia com o seguinte título: “Banca a la deriva en Portugal”. De facto, os casos BPP e BPN são uma vergonha. E a nossa supervisão bancária também.

Os banqueiros implicados devem ser postos a ler livros debaixo do mesmo tecto que abriga o senhor Oliveira e Costa.

E o Banco de Portugal precisa de novo governador. Deste já chega.
Vítor Constâncio é a estátua mais bem paga do país.


Ficou imóvel durante anos enquanto os bancos atropelavam os clientes nos arredondamentos dos juros.

A sua quietação não conheceu nenhuma inquietação durante os anos de gatunagem no BPN. E isso ficou caro ao país. Muito caro.
Já chega.

2. Há cinco anos, as europeias tiveram em Viseu um ponto alto com Sousa Franco a fazer uma intervenção política brilhante, pontuada com a exibição de cartões amarelos ao então primeiro-ministro Durão Barroso. A sala foi ao rubro.

Dias depois, Sousa Franco faleceu em plena campanha eleitoral, em circunstâncias dramáticas, em Matosinhos.

As europeias de 2004 foram importantes e levaram à deserção de Barroso para a “Europa”. Este ano, as eleições europeias são a feijões.

Sete em cada dez portugueses não devem ir votar. Os partidos à esquerda do PS vão passar de três eurodeputados para quatro e os partidos à direita do PS ficam com os mesmos nove ou aumentam para dez.

3. Tanto José Sócrates como Manuela Ferreira Leite têm mostrado humildade e realismo.

Sócrates veio em força para o terreno porque teve a humildade de perceber que o candidato que escolheu, Vital Moreira, está muito enferrujado.

Já Manuela Ferreira Leite ficou mais por casa porque teve a humildade de perceber que a sua presença só desajuda Paulo Rangel.

Enfim

Fotografia de Aykut Kılıç




No bosque há uma ave, o seu canto
detém-vos e faz-vos corar.

Há um relógio que não toca.

Há uma lixeira com um ninho de
bichos brancos.

Há uma catedral que desce e um lago
que sobe.

Há um carrinho abandonado nas moitas,
ou descendo a vereda em correria,
engalanado.

Há uma troupe de pequenos cómicos
com os seus fatos, visíveis sobre a estrada
através da orla do bosque.

Há, enfim, quando tens fome e sede,
alguém que te enxota.
Jean-Arthur Rimbaud
Trad. Mário Cesariny

terça-feira, 4 de junho de 2019

Massacre de Tian'anmen, Praça da Paz Celestial — 30 anos

Um espectro tira o sono a todos os tiranos: 
há sempre pessoas de coragem a quererem ser livres

Massacre da Praça da Paz Celestial — 4 de Junho de 1989

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Adenda a 5 de Junho com informação fornecida por um amigo do FB:




Um livro cheio de imagens

Fotografia Olho de Gato


O meu pai estudava teologia por correspondência
E era a época de exames.
A minha mãe fazia renda. Eu sentava-me sossegado com um livro
Cheio de imagens. Caiu a noite.
As minhas mãos ficaram frias de tocar as caras
De reis e rainhas mortos.

Havia uma gabardine negra
          no quarto de cima
A balouçar no tecto,
Mas o que faria ali?
As grandes agulhas da mãe cruzavam-se velozmente.
Eram negras
Como o interior da minha cabeça nessa altura.

As páginas que virava faziam um som de asas.
"A alma é um pássaro", disse ele uma vez.
No meu livro cheio de imagens
Uma batalha fervilhava: lanças e espadas
Pareciam uma floresta no inverno
Com o meu coração cravado e sangrando nos ramos.
Charles Simic

segunda-feira, 3 de junho de 2019

As coisas lavadas

Fotografia de Mehrdad Haghighi

Entre os pássaros, havia sempre roupa lavada. Lençóis
onde se fodia menos do que o desejável. 
Naquele dia ias na rua com a roupa por passar, apesar
de te cobrirem o corpo tantas coisas lavadas quanto uma origem:
pele pêlos dentes cabelos, mas sobretudo
desejo e vontade 
apenas de desejo. Lavado como frutos por comer, 
o teu desejo, um nome completo, um nome
próprio seguido de apelidos. Mãe, pai, filhos a quem o deixar.

Mais tarde soube. Quando passava no meio dos lençóis,
o cheiro a lavado cobria outro
indecifrável, lento. Não era exactamente pecado. Ou apenas isso.
Muito menos sangue ou drama. Era
o medo concreto e exacto de um nome
bordado, branco absolutamente branco.
Assustador

como papel químico encostado ao corpo.
Inês Fonseca Santos



domingo, 2 de junho de 2019

Nem eu tão pouco

Fotografia de Matteo Kutufa

Embriaguei-me num doido desejo
E adoeci de saudade.
Caí no vago... no indeciso
Não me encontro, não me vejo -
Perscruto a imensidade

E fico a tactear na escuridão
Ninguém. Ninguém
Nem eu, tão pouco!

Encontro apenas
o tumultuar dum coração
aprisionado dentro do meu peito
aos saltos como um louco.
Judith Teixeira


sábado, 1 de junho de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#238)


Depus a máscara




Depus a máscara e vi-me ao espelho. —
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.

Álvaro de Campos