quarta-feira, 15 de maio de 2019

The kiss

Fotografia de Jeison Higuita



My mouth blooms like a cut.
I've been wronged all year, tedious
nights, nothing but rough elbows in them
and delicate boxes of Kleenex calling crybaby
crybaby, you fool!

Before today my body was useless.
Now it's tearing at its square corners.
It's tearing old Mary's garments off, knot by knot
and see —— Now it's shot full of these electric bolts.
Zing! A resurrection!

Once it was a boat, quite wooden
and with no business, no salt water under it
and in need of some paint. It was no more
than a group of boards. But you hoisted her, rigged her.
She's been elected.

My nerves are turned on. I hear them like
musical instruments. Where there was silence
the drums, the strings are incurably playing. You did this.
Pure genius at work. Darling, the composer has stepped
into fire.
Anne Sexton


terça-feira, 14 de maio de 2019

Os objectos principais


poderemos, um dia, amar estas vitrinas
como quem ama uma ideia imperdoável, ou uma
breve hesitação dos condutores
a meio do percurso? quero dizer,
estaremos vivos para o desbotar destas
folhas de plástico que brilham
uma vez cada noite; e para
o assobio das nuvens
ao passar sobre a roupa?
ou, fechando a gaveta, engoliremos o receio
destes bolos roubados
na prateleira de água?
ou será este o dilema que nos propõem
as minuciosas escavações telefónicas?
são questões ignorantes, delas depende o rumo
dos grandes navios japoneses à entrada da doca.
António Franco Alexandre


segunda-feira, 13 de maio de 2019

Se houvesse degraus na terra...

Fotografia de Elisabetta Foco


Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.
Herberto Helder


domingo, 12 de maio de 2019

Como?

Fotografia de Debora Bacheschi



colher
dos ramos altos
sem saltar
o fruto sereno
da tua passagem
— como?
Vasco Gato


sábado, 11 de maio de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#236)

Especula um comentador do YouTube: 
e se o gajo fez esta música e rodou este vídeo só para ficar com o apartamento limpo?

Mas, claro, a pergunta é estúpida, o que o gajo quis foi o carro lavado.




Resista

Fotografia de Jue Huang


​resista. os papéis estão cheios,
não há quadros na sala, o quarto
é vazio e cansaço, mas existem
os maus poemas para serem
escritos, basta ouvi-los, escutá-los.
não consegue escrever o poema?
não consegue deixar de escrevê-lo?
ora, pense nos anos que virão, mas não
pense no amanhã, tão próximo e ardente.
onde fechar os olhos, cessar a alma?
foque, com insistência, na rua, nos passos,
no tempo onde come de mãos sujas a vida.
desista da torre, deponha o sonho.
aceite, está mais do que provado,
a vida é impossível ao meio-dia.
por que a fúria e gana de quem quer
vencer a partida a qualquer custo?
pense: é isto ou o silêncio, e você,
meu caro, sabe como o silêncio
infiltra-se, rói e persiste, ruidoso.
não desista das ninharias, do pó
sobre as flores de plástico, do ouro
de plástico e do que nele é possível
de lúdico e frio, pois tudo é isso:
lúdico e frio. que esperar mais?
as palavras estão gastas, gasto
está o mundo por onde anda
debuxando sonhos, tentando
vencer a tristeza por pontos.
mas você sabe, disseram que diríamos
e nada seria dito, eles acertaram Renan.
e enquanto o amor é só um verbete,
os papéis estão cheios. é preciso, pois,
escrever por cima, rasurar, decalcar.
o belo, meu caro, estava nos rios,
nas árvores centenárias, na morte,
quando a morte era só a última página.
resista. e nunca se pergunte, jamais,
o que poderia ser pior que isso.


sexta-feira, 10 de maio de 2019

A guerra aos professores*

* Hoje no Jornal do Centro


Os professores foram felizes durante quinze anos, desde a primavera de 1990, quando viram aprovada a carreira única por Roberto Carneiro, até à primavera de 2005, quando Maria de Lurdes Rodrigues iniciou uma guerra contra eles em duas frentes: retirar-lhes o controlo do seu trabalho (com uma nova gestão das escolas, a multiplicação da burocracia e do eduquês facilitista) e retirar-lhes dinheiro (com a avaliação e o congelamento da carreira).

A partir de 2005, as agências de comunicação governamentais nunca mais pararam de instigar a hostilidade da comunicação social contra os professores, cumprindo a estratégia que José Sócrates enunciou: “perdi os professores mas ganhei a opinião pública”.

A partir de 2005, os teóricos do eduquês instalados nos gabinetes governamentais, nas faculdades, nas escolas superiores de educação, que fogem das salas de aula como o diabo da cruz, nunca mais pararam de infernizar a vida de quem nelas trabalha.

A partir de 2005, os políticos nunca mais pararam o massacre, sempre a mudarem as leis, os regulamentos, os currículos, a avaliação dos alunos, sempre a arranjarem mais obrigações para as escolas e menos para as famílias e para os alunos indisciplinados.

Ora, toda esta pressão acumulada acabou por achar a válvula de escape que todo o país conhece: os 9A 4M 2D.

Para os profs, estes 9A 4M 2D são muito mais do que dinheiro ou tempo de serviço congelado, os 9A 4M 2D são uma sublimação emocional, são a saudade e a esperança no regresso aos anos em que foram felizes.


Fotografia de António Cotrim (editada a partir daqui)
Como é sabido, António Costa acaba de concluir a guerra iniciada, em 2005, por José Sócrates. O primeiro-ministro acaba de dizer aos professores que, com ele, os tempos felizes não voltam mais. O PS gosta de donos de restaurantes e de banqueiros. De profs não.

A partir de agora, só irá para professor quem não puder fazer mais nada. Daqui a poucos anos, vai haver falta de professores.

Chuva mansa

Fotografia de Yoksel Zok



Olá, chuva mansa, que lavas as cerejas temporãs, 
as cerejas dos melros.




Dia da libertação fiscal

Daqui


Até ontem tudo o que os portugueses ganharam foi para pagar impostos.

Hoje, finalmente, chegou o dia da libertação fiscal.


quinta-feira, 9 de maio de 2019

Vamos ser velhos ao sol



Vamos ser velhos ao sol nos degraus
da casa; abrir a porta empenada de
tantos invernos e ver o frio soçobrar
no carvão das ruas; espreitar a horta
que o vizinho anda a tricotar e o vento
lhe desmancha de pirraça; deixar a

chaleira negra em redor do fogão para
um chá que nunca sabemos quando
será – porque a vida dos velhos é curta,
mas imensa; dizer as mesmas coisas
muitas vezes – por sermos velhos e por
serem verdade. Eu não quero ser velha

sozinha, mesmo ao sol, nem quero que
sejas velho com mais ninguém. Vamos
ser velhos juntos nos degraus da casa –

se a chaleira apitar, sossega, vou lá eu; não
atravesses a rua por uma sombra amiga,
trago-te o chá e um chapéu quando voltar.
Maria do Rosário Pedreira


quarta-feira, 8 de maio de 2019

Simulação de afogamento*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 8 de Maio de 2009

1.“Geralmente os pés do indivíduo estão elevados. É colocado um pano sobre a testa e olhos. É aplicada água no pano e este é descido até cobrir tanto o nariz como a boca. Desde que o pano esteja saturado de água e cubra completamente a boca e o nariz, o fluxo de ar é restringido. Isto causa um aumento de nível de CO2 no sangue do indivíduo e obriga-o a um maior esforço para respirar. Este esforço e o pano produzem uma sensação de afogamento e de pânico...”


Daqui

Esta descrição vem num documento de 57 páginas da administração Bush, datado de 1 de Agosto de 2002, que acaba de ser tornado público. Há provas de que esta forma de tortura foi usada, pelo menos, 266 vezes pela CIA.

Perante esta indignidade, Barack Obama lembrou Winston Churchill que, mesmo com o seu país a ser destruído pela força aérea nazi durante a segunda guerra mundial, nunca deixou que fossem torturados prisioneiros alemães.

2. Nestes sete últimos desgraçados anos, fez-se muita política com base na inveja e na schadenfreude. Aprendizes de feiticeiro atiçaram os portugueses uns contra os outros, principalmente contra os funcionários públicos.

O resultado está à vista: o país está deslaçado. Há pólvora no ar. Nem há 25 anos, quando Portugal esteve à beira da bancarrota, havia tanto mal-estar social como há agora.

Há que perceber o perigo e atacar todos os focos de intolerância logo no seu início. Sem hesitações nem sociologias da treta. Por isso, não pode haver nem um miligrama de compreensão para com as criaturas que molestaram Vital Moreira no 1º de Maio.

3. Vi e revi, no Teatro Viriato, MITODÓPOLUS, direcção artística de Jorge Fraga, com alunos das escolas secundárias de Viseu.

Numa palavra: “poderoso!”

Vento tolo

Fotografia de Thomas Young

Vento tolo
tu és como aqueles amigos
que arranjaram colocação algures
e depois já nem conversam
e se vão
inchados de certezas
e jornais.
Daniel Jonas