quarta-feira, 8 de maio de 2019

Simulação de afogamento*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 8 de Maio de 2009

1.“Geralmente os pés do indivíduo estão elevados. É colocado um pano sobre a testa e olhos. É aplicada água no pano e este é descido até cobrir tanto o nariz como a boca. Desde que o pano esteja saturado de água e cubra completamente a boca e o nariz, o fluxo de ar é restringido. Isto causa um aumento de nível de CO2 no sangue do indivíduo e obriga-o a um maior esforço para respirar. Este esforço e o pano produzem uma sensação de afogamento e de pânico...”


Daqui

Esta descrição vem num documento de 57 páginas da administração Bush, datado de 1 de Agosto de 2002, que acaba de ser tornado público. Há provas de que esta forma de tortura foi usada, pelo menos, 266 vezes pela CIA.

Perante esta indignidade, Barack Obama lembrou Winston Churchill que, mesmo com o seu país a ser destruído pela força aérea nazi durante a segunda guerra mundial, nunca deixou que fossem torturados prisioneiros alemães.

2. Nestes sete últimos desgraçados anos, fez-se muita política com base na inveja e na schadenfreude. Aprendizes de feiticeiro atiçaram os portugueses uns contra os outros, principalmente contra os funcionários públicos.

O resultado está à vista: o país está deslaçado. Há pólvora no ar. Nem há 25 anos, quando Portugal esteve à beira da bancarrota, havia tanto mal-estar social como há agora.

Há que perceber o perigo e atacar todos os focos de intolerância logo no seu início. Sem hesitações nem sociologias da treta. Por isso, não pode haver nem um miligrama de compreensão para com as criaturas que molestaram Vital Moreira no 1º de Maio.

3. Vi e revi, no Teatro Viriato, MITODÓPOLUS, direcção artística de Jorge Fraga, com alunos das escolas secundárias de Viseu.

Numa palavra: “poderoso!”

Vento tolo

Fotografia de Thomas Young

Vento tolo
tu és como aqueles amigos
que arranjaram colocação algures
e depois já nem conversam
e se vão
inchados de certezas
e jornais.
Daniel Jonas




terça-feira, 7 de maio de 2019

Ossos do ofício

Fotografia de Drew Coffman


Não sei se combata a preguiça
Se a vontade de fazer:
Enquanto um eu se espreguiça
O outro eu tem cobiça
Que me espreguice a doer.

Não sei se combata a preguiça
Se a vontade de fazer
Pois quando o empenho me atiça
Fica a vontade submissa
Ao que a preguiça me der.

Para os meus ossos do ofício
Ai o ócio não traz cálcio.
Se torno o trabalho em vício
É um ópio e não traz ócio.
Tanto santo Sacrifício

Não sei se combata a preguiça
Se a vontade de fazer:
Enquanto um eu está na liça
O outro eu só tem pressa
De ter com que se entreter.

Não sei se combata a preguiça
Se a vontade de fazer.
Faço por razão omissa
A missão que mais interessa
Que é tentar não me mexer.

Para os meus ossos de ofício
Ai o ócio não traz cálcio.
Se torno o trabalho em vício
É um ópio e não traz ócio.
Tanto Santo Sacrifício

Vai o suor vem o suplício
Fogo fátuo de artifício
Trago um canhão pró comício
Acabou-se o armistício.
Samuel Úria



segunda-feira, 6 de maio de 2019

Fui aos perdidos e achados

Fotografia de Alejandro Alvarez


fui aos perdidos e achados
minha senhora disse-me o polícia
sua o caraças senhora talvez
aqui não recolhemos objectos dessa natureza
tão pouco material
juraria ter ouvido comercial
vá antes à câmara municipal
serviço de saneamento básico
resíduos esgotos sarjetas
em suma, escoamentos
coisa que como podeis ler
não fiz nem farei
se ele se perdeu, compreendi afinal, foi porque quis
nunca se deve contrariar poema tão original
Bénédicte Houart

domingo, 5 de maio de 2019

Toutes les femmes sont des reines

Fotografia de Ethan McArthur

Toutes les femmes sont des reines
But some are more eager than others.
Some shatter a man's dream
By breaking away from their lover.

Cette chanson pour cette reine
Qui dit à son roi, "Maintenant
I am gone, gone with the wind."

The love that you would not defend with your life
You cannot befriend always tears in your eyes.

I am gone, gone with the wind,
I am gone in search of a new king.
Toutes les femmes sont des reines,
Sur terre, sur mer, neige ou désert.

Derrière le voile des formes pleines
Il y a le mystère des sirènes.

Burn the towns,
Burn the backstreet bars,
Burn your boardwalk basement trade.
Feel the flame,
Feel the curve of the sword,
Your living flesh reeks of compromise, babe.
And in the face of barbarian hordes
An honest defeat is your only reward.

The love that you would not defend with your life
You cannot befriend always tears in your eyes.

Ma ni dem, gone with the wind,
Ma ni dem in search of a new king.
"All women are queens,
Tell this to the woman who loves you.

You may not live up to her dreams,
Which even a king cannot always do."
Voilà ce qu'a dit une reine
A un roi bon vaincu sans haine.
Elle est partie comme s'en va la mer
Quand la lune vous a.

The love that you would not defend with your life
You cannot befriend always tears in your eyes.
I am gone, gone with the wind,
I am gone in search of a new king.
I am gone.
I am gone.


sábado, 4 de maio de 2019

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Pinderiquices*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Apesar da oposição de várias organizações ciganas, alguns activistas que se dizem “racializados”, comandados pelo sr. Mamadou Ba do bloco de esquerda, têm feito tudo para prantar uma pergunta sobre origem étnica no Censos de 2021.

Ora, uma pergunta deste tipo é racista. Como explica o sociólogo Rui Pena Pires, um departamento do estado usar a "categoria 'raça' reforça os fundamentos cognitivos do racismo”.

Os identitarismos têm muito poucos usos nobres. Este não é de certeza um deles.

2. Durante três longos anos, o parlamento teve uma “Comissão Eventual para o Reforço da Transparência” para, alegadamente, transparentar aquela casa.

Resultado dos trabalhos da comissão:
— vamos continuar a ter deputados em part-time a romperem os fundilhos das calças no parlamento de manhã e na advocacia de negócios de tarde;
— os deputados que fizeram ou venham a fazer viagens patrocinadas por empresas podem apanhar o avião à vontade.

Como se vê, enquanto o voto for sempre nos mesmos, o cartel partidário não deixa que nada mexa.

3. Como contou este jornal na sua última edição, dezenas de militantes do PCP-Viseu assinaram uma carta dirigida ao comité central em que se manifestavam contra a geringonça.

Este descontentamento das bases comunistas é incomum e, tudo indica, vai aumentar. É que, a seguir à perda de dez câmaras nas últimas autárquicas, das quais nove para o PS, o PCP vai perder um eurodeputado nas eleições deste mês.

Os tempos pós-Jerónimo que aí vêm adivinham-se turbulentos.


Fotografia de Nuno André Ferreira
Editada a partir daqui

4. Na última assembleia municipal de Viseu, o presidente da câmara culpou a geringonça por não haver Jardins Efémeros, porque o governo não teria dado 15 mil euros àquele festival.

Tendo presente as centenas e centenas e centenas de milhares de euros que o vereador Sobrado vai espatifando por ano em festas e festinhas, António Almeida Henriques vir desta maneira tentar atirar as culpas para terceiros é pindérico.

O do amor


Fotografia de Leighann Renee


Espaço sem portas, sem estradas, o do amor.
O primeiro desejo dos amantes
é serem velhos amantes.
E começarem assim
o amor pelo fim.
Regina Guimarães


quinta-feira, 2 de maio de 2019

Paixão

Fotografia de Sharon McCutcheon

Ficávamos no quarto até anoitecer, ao conseguirmos
situar num mesmo poema o coração e a pele quase podíamos
erguer entre eles uma parede e abrir
depois caminho à água.

Quem pelo seu sorriso então se aventurasse achar-se-ia
de súbito em profundas minas, a memória
das suas mais longínquas galerias
extrai aquilo de que é feito o coração.

Ficávamos no quarto, onde por vezes
o mar vinha irromper. É sem dúvida em dias de maior
paixão que pelo coração se chega à pele.
Não há então entre eles nenhum desnível.
Luís Miguel Nava


quarta-feira, 1 de maio de 2019

Autárquicas 2009 (I)*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 1 de Maio de 2009


Correia de Campos vai ser, de novo, o candidato do PS à presidência da assembleia municipal de Viseu (AMV). Esta recandidatura ainda vai passar por escrutínio na comissão política concelhia, onde deverá ser aprovada sem sobressaltos.

Daqui
Escrevi aqui em 6 de Janeiro de 2006: “A candidatura do ministro Correia de Campos à Assembleia Municipal de Viseu foi um erro. O PS local perdeu autonomia estratégica e tem que defender o governo, quer este se porte bem ou se porte mal com Viseu. O PSD ficou com a sua tarefa facilitada. O Dr. Ruas só precisa de sublinhar as clivagens, reais ou imaginárias, entre Lisboa e Viseu.”

No essencial, esta minha previsão confirmou-se: o PS-Viseu na AMV ficou remetido a uma posição defensiva, deixando que os problemas nacionais fossem usados pelo PSD como biombo dos problemas locais.

Contudo, o PSD não aproveitou tanto como lhe era possível a oportunidade de ouro que lhe foi oferecida numa bandeja. Ainda por cima aconteceu o “corram-nos à pedrada!” de Fernando Ruas, em plena sessão da assembleia municipal, que o fragilizou muito. Depois deste episódio das pedradas, Fernando Ruas afonizou. A sua voz deixou de ter o mesmo impacto nacional que tinha.

A candidatura em 2009 de Correia de Campos à AMV tem um enquadramento político diferente de a de há quatro anos. Há quatro anos Correia de Campos era ministro. Agora, felizmente, já não é.

Apesar de, muitas vezes, o pensamento e a acção política de Correia de Campos ultrapassarem a direita pela direita, o seu conservadorismo não vai conseguir tirar votos ao PSD e ao CDS. Mas deve ser respeitado o direito de Miguel Ginestal escolher quem quiser para seu companheiro de candidatura.

De que Serve a Bondade?

Fotografia Agência Globo (daqui)


1
De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?

De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?


2
Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!
Bertold Brecht




Philip Glass - Serra Pelada (1988) from masalladel oido on Vimeo.