terça-feira, 12 de março de 2019

Episódio sentimental

Fotografia de Mathias Huysmans

No terreiro tinha o mamoeiro só,
Na casa tinha a moça só.
E a moça era minha namorada...

A moça cantava
De dia e noite.
Às vezes dançava...

Se os mamões eram verdes,
Ela era verde.
Se os mamões eram amarelos,
Ela era amarela.
Mas eu cogitava nos seios da moça...
Seriam tetas? Seriam mamões?
Estariam verdes? Estariam maduros?

Chegavam pássaros,
Bicavam os mamões:
Se estavam verdes, esguichavam leite
Se estavam maduros, corria açúcar.
E nos seios da moça
Ai! Ninguém bicava...
Um era amarelo: teria açúcar?
Um era verde: teria leite? (Meus Deus, ela é virgem!)

O mamoeiro crescia,
A moça crescia,
Meu amor crescia,
A moça dançava
E os seios subiam,
Eu namorava
E os mamões caíam...
Os pássaros vinham,
Os dias fugiam...

Ela dançou tanto que os seios caíram...
Seriam seios? Seriam mamões?

Depois o Bicho Urucutum comeu o mamoeiro...
Comeu de mansinho
O tronco e raízes,
Os mamões e as tetas
(O Bicho Urucutum era enorme e vagaroso!)

Ela nunca mais dançou
Eu nunca mais olhei
Nosso amor se acabou.
Pedro Nava
Detalhes aqui, pp 68-70



segunda-feira, 11 de março de 2019

Escrito a vermelho

Fotografia de Zekeriya Sen



Não lhe dirás
o nome, nem é preciso,
julgo eu. Basta que se saiba
que foi com o sangue
que sempre o escreveste. E bastará,
por isso, que leiam
os teus versos. Porque
em todos eles
está escrito a vermelho.
Albano Martins


domingo, 10 de março de 2019

Relíquias

Fotografia de Jana Sabeth Schultz


Não se orgulha ele mais das que o quiseram
Que das que ele comprou.
O vento onde um e muitas feneceram
Quente e húmido passou.

Seu milagre e o tesouro que conserva
É um torso, um riso alheio.
Ancas sulcando o sol, pés entre a erva,
O alvor gerando um seio.
Alexei Bueno


sábado, 9 de março de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#229)

Mr. Hitchcock, what is your definition of happiness?

A clear horizon — nothing to worry about on your plate, only things that are creative and not destructive and that's withing yourself. Within me I can’t bear quarreling, I can’t bear feelings between people. I think hatred is ... ... ... ...

Oração ao tempo

Fotografia de Leroy Skalstad


És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo, tempo, tempo, tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo, tempo, tempo, tempo

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Entro num acordo contigo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo, tempo, tempo, tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo, tempo, tempo, tempo

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo, tempo, tempo, tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo, tempo, tempo, tempo
Quando o tempo for propício
Tempo, tempo, tempo, tempo

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo, tempo, tempo, tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo, tempo, tempo, tempo

O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo, tempo, tempo, tempo

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, tempo, tempo, tempo

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo, tempo, tempo, tempo

Portanto, peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo, tempo, tempo, tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Caetano Veloso




sexta-feira, 8 de março de 2019

Quem não se sente...*

* Hoje no Jornal do Centro


Fotografia Olho de Gato

1. Na edição da semana passada, este jornal dava a novidade na primeira página: “Antigo director coloca Teatro Viriato (TV) em tribunal, quer receber dinheiro dois anos depois de ter saído”. Mais à frente, na página seis, os pormenores: Paulo Ribeiro “alega que houve um despedimento ilícito” e “pede indemnização de 50 mil euros”.

Recordemos: em 2003, Paulo Ribeiro saiu de Viseu para ir dirigir o Ballet Gulbenkian, e, como as coisas não correram bem, acabou por regressar ao mesmo posto.

Uns anos depois, em 2016, Paulo Ribeiro, o número um, decidiu aceitar outro convite, desta vez para dirigir a Companhia Nacional de Bailado. Ninguém lhe pôs uns patins debaixo dos pés, ele, o boss, é que quis ir embora pela segunda vez.

O dr. Ruas, em entrevista publicada neste jornal, avisou Paulo Ribeiro que “nem o teatro, nem nenhuma instituição deste género pode ser utilizada como aeroporto, onde se aterra e descola a seu belo prazer”.

É evidente: o Teatro Viriato não é um aeroporto. Nem é, tão pouco, a santa casa da misericórdia.

2. Tem acontecido tudo a Paula Garcia, a actual directora do TV: quando tomou posse, o presidente da câmara, mal aconselhado, fragilizou-a com declarações estéreis e infelizes à imprensa; a seguir, apesar de a candidatura do TV aos apoios do ministério da cultura ter ficado em primeiro lugar, sofreu um corte enorme nos apoios vindos de Lisboa, só no primeiro ano foram 90 mil euros; agora, esta facada em tribunal do antigo director.

Perante tudo isto, ainda não se viu nenhum gesto solidário de António Almeida Henriques para com o seu teatro municipal. Mas ainda está a tempo.

O vereador da cultura convidou Paulo Ribeiro a fazer, no próximo mês, um espectáculo no exacto palco da exacta instituição a quem o coreógrafo, já depois desse convite, meteu uma acção judicial para tentar sacar 50 mil euros. Um presidente da câmara não pode pactuar com isto. O espectáculo deve ser cancelado.

É que quem não se sente...

Não sou de cor, sou negra

Fotografia de Eddy Lackmann


Não sou de cor, sou negra cor de luto.
Não sou de cor, sou negra e contra o preconceito luto.
Não sou de cor, sou negra com coração sem rancor.
Não sou de cor, sou negra com coração que brota amor.
Os negros também merecem louvor.
Todas raças merecem valor.
Não sou de cor, sou negra
Por que sou oprimida com o desnível social e racial?
Não sou de cor, sou negra com direitos humanos como no geral.
A cor negra é uma das diferenças e riquezas.
Pele negra, também, é a cor da beleza.
Morgado Henrique Mbalate



quinta-feira, 7 de março de 2019

Pró pudor

Fotografia de Tim Mossholder



Todas as noites ela me cingia
Nos braços, com brandura gasalhosa;
Todas as noites eu adormecia,
Sentindo-a desleixada e langorosa.

Todas as noites uma fantasia
Lhe emanava da fronte imaginosa;
Todas as noites tinha uma mania,
Aquela concepção vertiginosa.

Agora, há quase um mês, modernamente,
Ela tinha um furor dos mais soturnos,
Furor original, impertinente...

Todas as noites ela, ah! sordidez!
Descalçava-me as botas, os coturnos,
E fazia-me cócegas nos pés...
Cesário Verde


quarta-feira, 6 de março de 2019

Dor*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 6 de Março de 2009


Peter Singer é professor de Bioética na Universidade de Princeton. O seu pensamento é muito controverso e combina profundidade com clareza.

Lê-se no seu livro Escritos Sobre Uma Vida Ética [D. Quixote, 2008]: “A dor é má e quantidades similares de dor são igualmente más, seja quem for aquele que sofre.” 
     
A dor de que fala Peter Singer não é só a dor humana. Ele fala da dor de todos os seres sencientes pois os animais também sentem dor. Muitas vezes, é necessário causar dor a outros seres ou a nós próprios. Mas, se possível, a dor deve ser evitada.

Por vezes, a dor causada por uma doença torna a vida insuportável e desprovida de qualidade e de perspectivas. Nesses casos há um dilema ético e pensa-se na eutanásia.

Precisamos conhecer as melhores práticas mundiais. Na Holanda, conforme se explica no livro citado, a eutanásia só é possível:
     
i) se for efectuada por um médico a pedido explícito do paciente (pedido que não deixe nenhuma dúvida sobre a sua vontade de morrer);
     
ii) se a decisão do paciente for informada, livre e persistente;
     
iii) se o paciente estiver numa condição irreversível que lhe cause sofrimento que ele considere insuportável:
     
iv) se não existir alternativa razoável para lhe aliviar o sofrimento;
     
v) se o médico tiver consultado outro profissional independente que concorda com o seu juízo.

 A eutanásia não pode nem deve ser aplicada já. Primeiro há que debater de uma forma alargada e serena este tema que encerra em si todas as angústias do mundo.

Para já o país precisa de uma rede nacional de cuidados paliativos, com equipas multidisciplinares, capazes de diminuir o mais possível a dor dos doentes e das suas famílias porque diminuir o sofrimento é obrigação de uma sociedade decente.

Assombros

Fotografia Olho de Gato


Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.
Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.
Affonso Romano de Sant’Anna



terça-feira, 5 de março de 2019

Segundo balcão dos bombeiros



Nesse tempo eu já lera as Brontë mas
como era um adolescente retardado
passava a noite em atrozes dilemas
que mais vale: amar, ser doutrem amado?

ainda não descobrira o simples disto
nem o essencial disto que é tão claro
se tudo no amor vem do imprevisto
deitar regras ao jogo pode sair caro

por isso eu amo e sou ou não benquisto
depende do instante bem ou mal azado
amor tem alegria, tem enfado
o happy end é coisa dos cinemas
Fernando Assis Pacheco


segunda-feira, 4 de março de 2019

La víspera

Leda e o cisne, Pompeia (daqui)

A fuerza de explotar a los esclavos

y robarse dinero público,
hubo auge en los negocios. Así los ricos
se volvieron más ricos, mientras los pobres
redoblaban su hambre y su miseria. La ciudad
desbordó sus antiguos límites, perdió sus rasgos
originales, fue construida
según los lineamientos del imperio. También el habla
se corrompió con los hablantes. Y el lujo
entró como la hiedra en muchas partes.
Combatieron el tedio con la droga.
Nos legaron imágenes de sus actos sexuales
como extraño presentimiento
de su fragilidad. Y entre robos
y asesinatos por dondequiera, el terror
extendió su dominio. Miedo en la alcoba
y pánico en la calle. Furias y penas.
Sobre todo odio
proliferante. Porque el bien camina
pero el Mal corre (y no se sacia nunca).
Todo esto sucedió en Pompeya, la víspera
del estallido del Vesubio.
José Emilio Pacheco