sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Landscape with the Fall of Icarus

Paisagem com a Queda de Ícaro, de Pieter Bruegel (1565)



According to Brueghel
when Icarus fell
it was spring

a farmer was ploughing
his field
the whole pageantry

of the year was
awake tingling
near

the edge of the sea
concerned
with itself

sweating in the sun
that melted
the wings’ wax

unsignificantly
off the coast
there was

a splash quite unnoticed
this was
Icarus drowning
William Carlos Williams

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Límites

Fotografia de Louis Stettner



Hay una línea de Verlaine que no volveré a recordar.
Hay una calle próxima que está vedada a mis pasos,
hay un espejo que me ha visto por última vez,
hay una puerta que he cerrado hasta el fin del mundo.
Entre los libros de mi biblioteca (estoy viéndolos)
hay alguno que ya nunca abriré.
Este verano cumpliré cincuenta años;
La muerte me desgasta, incesante.
Jorge Luis Borges


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

A igreja da escatologia



Que a força do medo que tenho, não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo o que acredito não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio…
Ferreira Gullar


terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Smoke rings

Daqui

Ah desire!
Ah desire!
Ah desire!
So random So rare
And everytime
I see those smoke rings
I think you're there

Que es mas macho staircase o smoke rings?
Get the blanket from the bedroom
We can go walking once again
Down in the boondocks
Where our sweet love first began


segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Ser pedra é fácil, difícil é ser vidro *

Tout quitter, tout lâcher, qui voudrait devenir Refugee?
Aux portes de nos villes, qui prend l'temps d'écouter les Refugees?
Si demain vient la guerre, on peut devenir des Refugees...
Que deviendront ces hommes?



* Provérbio chinês

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Have Me

Fotografia de Rinko Kawauchi


Have me in the blue and the sun.
Have me on the open sea and the mountains.

When I go into the grass of the sea floor, I will go alone.
This is where I came from—the chlorine and the salt are blood and bones.
It is here the nostrils rush the air to the lungs. It is here oxygen clamors to be let in. 
And here in the root grass of the sea floor I will go alone.

Love goes far. Here love ends.
Have me in the blue and the sun.
Carl Sandburg






sábado, 3 de fevereiro de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#180)

Gato em apontamento quase barroco e de manhã de sábado

Fotografia Olho de Gato


Gentilmente curvado sobre a flor,
Percorre devagar nervura e centro.
E em tantos delicados argumentos
Vai avançando lentamente as folhas.

A cabeça pondera e repondera
Defronte a haste fácil, rente a terra,
E uma pedra minúscula e serena
Sobe no ar, acesa como fera.

Não conhece os segredos do soneto,
Sendo de ofício muito ignorado
A sua arte. E em curto minuete:

Uma garra afiada em pé de valsa,
Um dente a desdenhar a flor e a folha
E a cravar-se, feroz, na minha salsa.
Ana Luísa Amaral



sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Tocas e procissões*

* Hoje no Jornal do Centro


Estamos a meio do inverno no hemisfério norte. Hoje é 2 de Fevereiro, dia da marmota em Punxsutawney, uma pequena cidade norte-americana. É também dia de Nossa Senhora da Luz (ou das Candeias, ou da Candelária) em muitas paróquias, a começar por Carnide, onde, reza a lenda, fez a sua primeira aparição luminosa entre nós no século XV.

Hoje, ao nascer do sol, há uma visita à toca da marmota e das duas uma: ou o simpático roedor fica fora do buraco e isso significa que o inverno vai acabar cedo, ou o bicho volta logo para a toca, e então o inverno está para durar.

Hoje, pela manhã, há muitas procissões em honra de Nossa Senhora da Luz e das duas uma: “se a Senhora estiver a rir, está o inverno para vir, se estiver a chorar, está o inverno a passar.”

Quando escrevo estas linhas, não sei nada da marmota. Já a meteorologia diz-nos que a Senhora vai estar a rir, isto é, vai estar sol. Isso é bom: a chuva a sério ainda está para vir.

Uns cientistas cépticos do poder divinatório da marmota mergulharam nos arquivos e concluíram que, desde 1887, o bicho acertou 39% das vezes. Quanto à pontaria do riso e do choro de Nossa Senhora da Luz, não há números.

No filme “O Feitiço do Tempo”, o actor Bill Murray interpreta um meteorologista parvalhão encalhado em Punxsutawney, no dia 2 de Fevereiro. Não consegue sair nem do sítio nem do dia. Levanta-se cedo para ir ver a marmota, passa o dia a ser bruto como um testo, à noite deita-se e acorda no mesmo dia a meter a mesma pata na mesma poça da véspera. Então, perante tanto déjà vu, ele começa a ser menos bronco, a acertar onde antes errava, e lá conquista a bela Andie MacDowell.

Se Mário Centeno tivesse ficado encalhado no dia em que pedinchou dois bilhetes ao clube cujo estádio deve o nome à Nossa Senhora da Luz de Carnide, decerto, ao acordar da segunda vez, já não repetia a mesma asneira. Asneira que, apesar de tudo, não o deixa tão mal no retrato como naquel'outro, no réveillon, com a Lili Caneças.

Funeral blues

Fotografia de Willem Diepraam


Stop all the clocks, cut off the telephone.
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling in the sky the message He is Dead,
Put crêpe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever, I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun.
Pour away the ocean and sweep up the wood;
For nothing now can ever come to any good.
W. H. Auden


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

S. Pedro do Sul*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 1 de Fevereiro de 2008


1. A Câmara de S. Pedro do Sul não tem dinheiro nem para mandar cantar um cego.
Daqui
É tanta a “falta de ar” do Presidente da Câmara, António Carlos Figueiredo, que até já tentou antecipar quinze anos de rendimentos das eólicas e tentou passar a patacos, num negócio muito complicado, os Balneários das Termas.

Já se sabe: quando falham a disciplina financeira e o rigor, o interesse público fica em risco. Tem valido a S. Pedro do Sul a sensatez de Fátima Pinho e José Duque, os vereadores socialistas. Fátima Pinho assumiu a liderança da oposição com coragem e tem-se afirmado como um rosto para quem os sampedrenses podem olhar com esperança no futuro.

A meio deste mandato autárquico, em S. Pedro do Sul, as coisas estavam assim: António Carlos Figueiredo em baixa; Fátima Pinho em alta.

2. Eis senão quando José Junqueiro resolveu adentrar em Lafões. Ele foi requerimentos. Ele foi declarações pasmosas à Rádio Vouzela. Ele foi comunicados. Dezanove ambulâncias, escreveu ele num comunicado. Dezanove ambulâncias a tinoninarem na N16, a subirem de S. Pedro para Viseu, movidas a diesel aditivado. Para felicidade dos sampedrenses, escreveu o sempiterno líder distrital do PS. Dezanove ambulâncias.

Muitas noites deve ter perdido Fátima Pinho. É que estas coisas fazem mossa. Teve que lutar muito, assim como os socialistas do concelho, mas valeu a pena. Sempre vai haver um serviço de urgência básica, em S. Pedro do Sul. As pessoas vão ser bem servidas. E isso é que é importante.

O Presidente da Câmara está agora a retirar dividendos políticos do caso. Só precisou de assistir, sentado e com as mãos nos bolsos, à cada vez menos discreta ciumeira entre José Junqueiro e Correia de Campos.

Elegiazinha

Fotografia Olho de Gato


Gatos não morrem de verdade:
eles apenas se reintegram
no ronronar da eternidade.

Gatos jamais morrem de facto:
suas almas saem de fininho
atrás de alguma alma de rato.

Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.

Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.

Gatos não morrem: mais preciso
— se somem — é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso

e dormirão lá, depois do ónus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.
Nelson Ascher