segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Teia

Daqui



A teia, não
mágica
mas arma, armadilha

a teia, não
morta
mas sensitiva, vivente

a teia, não
arte
mas trabalho, tensa

a teia, não
virgem
mas intensamente
prenhe:

no
centro
a aranha espera.
Orides Fontela


domingo, 7 de janeiro de 2018

Indícios

Fotografia de Lasse Kusk


nunca mastiguei tanto presságio

nem teu sexo ergueu tão alto
a hóstia viva
que trago nas virilhas

teu ventre nunca anunciou tão tarde
outra colheita

como agora
sombra vestígio de sombra
sangrentos estilhaços de hora
Cândido Rolim


sábado, 6 de janeiro de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#176)

Et nunca manet in te*

Heaven (2017), escultura da feminista turca CANAN 

Meu amor,
a casa está tão sozinha que
os pássaros vêm morrer lá dentro.
Nada mudou, mas falta
a mão para acariciar o gato
e acolher a ninhada secreta,
o sorriso que enchia o tanque
e fazia crescer a horta.

Já ninguém apanha as laranjas mais altas
ou usa a sombra da nogueira.
E até os ciprestes se tornaram redundantes
ao ponto de os abatermos:
a ausência diz-se melhor no esplendor
inútil das rosas sem esse olhar,
nas papoilas raras que duram
o tempo de uma fotografia.

Um dia, deixaremos também uma casa assim,
casulo abandonado a sobreviver-nos.
Um de nós escutará as asas ansiosas
na chaminé, antes de pousar o livro
e amparar o último pássaro.
Só parecerá menos triste
porque não teremos, então,
nada mais a perder.
Inês Dias



* Há um texto homónimo de André Gide escrito em 1951 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Ano novo

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. Na primeira crónica do ano é bom recordar mais uma vez que uso e pratico o método de Norberto Bobbio: devemos escolher uma parte, depois dessa escolha feita há que exercer o juízo crítico com severidade, especialmente com a nossa parte.

As unhas do Olho de Gato têm atingido metodicamente tanto socratistas, como passistas ou geringoncistas — os de Lisboa e os locais —, especialmente quando eles põem em causa a liberdade.

Isso é cada vez mais raro nos media. Vivemos num tempo em que os ditos “fazedores de opinião” já nem se preocupam em fingir independência, têm medo da solidão que esta implica e já só falam para a sua tribo.

Tribo essa que, por sua vez, só lê e só pensa aquilo que é a favor do seu clã ou aquilo que é a desfavor do clã adversário, numa cavalgada sectária que é depois partilhada aos uivos nas redes sociais, tornando cada vez mais crispada a nossa vida em comum.

2. Este novo ano tem três fins-de-semana prolongados e três pontes, dizem os jornais.

O que eles não dizem é que o dia dos namorados calha na quarta-feira de cinzas e que a Páscoa é no dia das mentiras.

3. Os partidos reuniram-se durante meses para arranjar uma nova lei de financiamento para si próprios, num processo secreto sem actas nem registos de espécie nenhuma.

Tudo já foi dito sobre esta opacidade devidamente vetada esta semana pelo presidente da república. Contudo, depois deste episódio, importa perguntar: quantas vezes esta pouca-vergonha já terá sido usada pelo cartel partidário no passado?

4. Ano novo, vida nova. Borbulha água de novo nos nossos montes ainda negros dos incêndios mas já com algum verde. Postes novos substituem os que arderam.

De Lisboa não se espere muito. Nem depois da tragédia, nem com um orçamento de vacas gordas que deu de mamar a todos os lóbis, nem assim foi aprovada uma fiscalidade mais favorável para as pessoas e as empresas do interior.

Para nos reerguermos contemos, acima de tudo, com a nossa força.

Propriedade

Fotografia de Raghubir Singh

como artifícios temos apenas as asperezas

a corpulência cabível em pavios desfigurados
ou os 28 dias necessários
para que se cure
o concreto

carregamos
nas extremidades fissuras
irreparáveis
e, nos olhos,
a cor mirabolante dos abatedouros

mesmo assim

as corredeiras
as sirenes os personagens
estão ao seu dispor

e ainda esse aguaceiro

onde o entreaberto é uma doçura
de tão fundo
Juliana Krapp


quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Balanços*

*Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 4 de Janeiro de 2008

1. Acabo de folhear todas as edições do Jornal do Centro de 2007. Confesso que me demorei mais nas minhas 26 crónicas. O meu balanço é claro: o Olho de Gato podia e devia ter tido mais unhas. O Jornal do Centro também.

Fotografia Olho de Gato
2. É importante olhar-se com mais atenção para as Assembleias Municipais que, com a nova lei das autarquias, vão ter um papel muito mais importante nos governos municipais. Infelizmente, a primeira metade do mandato da actual Assembleia Municipal de Viseu foi muito murcha.

O PSD não se renova. Ora fala Mota Faria e, depois, António Vicente, ora fala António Vicente e, depois, Mota Faria; ouvem-se uns Presidentes de Junta avulsos; é um coro grego em culto à personalidade de Fernando Ruas; para mal de Viseu, as palavras do Presidente da Câmara já não conseguem o impacto nacional que tinham antes do episódio das pedradas.

No PS pontifica o economês de João Cruz que recita o mesmo discurso insulso há mais de dez anos. Correia de Campos, metodicamente, mistura os papéis de ministro e de deputado municipal. Primeiro anulou a construção, já concursada, de um Centro de Saúde magnífico, junto ao Continente; agora fala nuns contentores para servirem de Unidades de Saúde Familiar.

O Bloco de Esquerda é incapaz de dizer algo que se oiça cá fora, é incapaz de uma ruptura: nem sequer foi capaz de quebrar a unanimidade nas Moções patéticas sobre a defunta Universidade de Viseu.

Da acção do CDS na Assembleia Municipal também não chegam ecos à imprensa.

3. Como se sabe, quando fraqueja a política, medram os interesses.

Portugal precisa de alma. Viseu ainda mais.

Um bom 2008.

E às vezes dou por mim



Espero-te
Como quem espera o futuro
Sem ciência, só por adivinhação
Não sei se és tu quem procuro
Mas é tarde pra tudo
Tarda-me o coração

Tenho-te nesta ideia que fiz de dois
Um qualquer a mim já não me dobra
E entre um sim e um pois
Tu não matas nem móis
E o meu corpo já sobra

E às vezes dou por mim
Quando ninguém está a ver
Será que é por tanto querer
Que ninguém me quer
Sozinha na moldura
Na casa dos meus pais
Dizem que estou madura
E eu não quero esperar mais

Deixa que esta noite nos leve
Ai de mim, se não for agora
Que a razão só me pede
Que mate esta sede
E encerre a demora

Não sou eu, é o tempo que atraso
Que me arrasta aos tombos pelo chão
Eu só quero inquilino
Que pague no prazo
Esta solidão

E às vezes dou por mim
A queimar as janelas
Se ninguém me quer assim
Amo os maridos delas
Que me acusem de pecados
Que me chamem nomes feios
De solteiros encalhados
Tenho eu os bolsos cheios

E às vezes dou por mim
E às vezes dou por mim
E às vezes dou por mim.
André Henriques


quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

A Dream Of Water

Fotografia Olho de Gato



There were those who didn't run
There were those who couldn't take it
There were those who stayed in the city
What was it? Where did it go?
There were those who laid their bodies down
There were those who took our knifes
There were those who kissed the grey skies
There were those who only knew only the sound of their own voices
There were those who knew the rules
There were those who freed their bodies
There were those who couldn't take it
There were others on their own
What was it? What was it?
There were strangers and conmen
There were those who lived in the cross space
There were people lighting candles
There were people going crazy
There were those who walked the beach
What war is that? What war is that?
What time could this be?
There were those who didn't run
There were those who couldn't take it
There were those who stayed in the city
What was it? Where did it go?
There were those who laid their bodies down
There were those who took our knifes
There were those who kissed the grey skies
There were those who only knew only the sound of their own voices
There were those who knew the rules
There were those who freed their bodies
There were those who couldn't take it
There were others on their own
What was it? What was it?
There were strangers and conmen
There were those who lived in the cross space
There were people lighting candles
There were people going crazy
There were those who walked the beach
What war is that? What war is that?
What time could this be?
Laurie Anderson


terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Digam que foi mentira

Fotografia Olho de Gato



Digam que foi mentira, que não sou ninguém,
que atravesso apenas ruas da cidade abandonada
fechada como boca onde não encontro nada:
não encontro respostas para tudo o que pergunto nem
na verdade pergunto coisas por aí além
Eu não vivi ali em tempo algum
Ruy Belo





segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Pode alguém ser quem não é? — pergunta JB*

* Comentário de JB em "Bom 2018!"

Bom dia, semana e ano.

Da série — “No tempo em que” havia músicos a fazer intervenção política.
Hoje: Sérgio Godinho e uma eterna questão….

Horas breves de meu contentamento.



Este disco entrou em casa pela mão do meu irmão P. e nunca mais deixou de rodar, fosse em gira disco mono ou stereo. Todos tínhamos uma atenção (devoção?) por este disco. As palavras, os sons, a mensagem, tudo foi novidade.
Neste LP, muitas letras me marcaram mas esta foi uma interrogação crucial para um jovem de 17 anos: “Pode alguém ser livre / se outro alguém não é / a corda dum outro / serve-me no pé / nos dois punhos, nas mãos / no pescoço, diz-me: / Pode alguém ser quem não é?”, e que continuou a marcar o meu percurso.

Olhando para o presente, considero que esta legislatura, no âmago, tem sido um NIM! Um Grande e Enganador NIM!

Ao acaso, e sem vasculhar muito no baú das memórias, uma discussão que fez os parceiros de geringonça “perder as estribeiras”, na época do (des)governo Passos “Tecnoforma” Coelho e do outro reacionário que o acompanhava, foi a nova lei das Fundações. O que disseram, o que escreveram… e agora? Agora não é prioritário, camarada…. Pois!

E como conseguem ter a desfaçatez de congeminar uma bomba ao retardador que vai ser a entrada da Santa Casa Misericórdia de Lisboa no Montepio?

Apenas dois exemplos do que continuam a ser interrogações sem resposta.

Assim, num ano decisivo, para o governo e para os partidos que o apoiam, deixo a pergunta aos senhores da coligação: decididamente quando vão começar a “dizer alguma coisa de esquerda”?

Daqui

Ó Costa, Jerónimo e Catarina - “Pode Alguém Ser Quem Não É?”




Senhora de preto
diga o que lhe dói
é dor ou saudade
que o peito lhe rói
o que tem, o que foi
o que dói no peito?
É que o meu homem partiu

Disse-me na praia
frente ao paredão
"tira a tua saia
dá-me a tua mão
o teu corpo, o teu mar
teu andar, teu passo
que vai sobre as ondas, vem"

Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?



Seja um bom agoiro
ou seja um bom presságio
sonhei com o choro
de alguém num naufrágio
não tenho confiança
já cansa este esperar
por uma carta em vão

"Por cá me governo"
escreveu-me então
"aqui é quase Inverno
aí quase Verão
mês d´Abril, águas mil
no Brasil também tem
noites de S. João e mar".


Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?

Mar a vir à praia
frente ao paredão
"tira a tua saia
dá-me a tua mão
o teu corpo, o teu mar
teu andar, teu passo
que vai sobre as ondas, vem"

Pode alguém ser livre
se outro alguém não é
a corda dum outro
serve-me no pé
nos dois punhos, nas mãos
no pescoço, diz-me:
Pode alguém ser quem não é?

Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?

Bom 2018!


Daqui
Meia-noite!

Passa as passas, despassara-te, engole um gole, pinta a manta, estraga a pintura, euforiza, desaforiza.

E lembra-te, boa música todos os dias aqui neste blogue: