sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Familismo, boyismo*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Para além do fenómeno do familismo — pujante no concelho de Viseu como vimos aqui na semana passada —, há outra disfunção do poder local a que se dá pouca atenção: o aliciamento das oposições. Quando um presidente da câmara não tem maioria ou não quer chatices raramente precisa de dar pelouros a mais do que um vereador da “oposição”. Este, depois, encarrega-se de domesticar o seu grupo parlamentar na assembleia municipal.

É por isso que era muito mais transparente não misturar “situação” e “oposição” numa câmara. Os executivos deviam resultar de maiorias coerentes na assembleia municipal, assumidas por um partido ou por uma coligação. E o presidente da câmara devia poder escolher e substituir a sua equipa de vereadores como entendesse.

Claro que tudo isto implicava termos assembleias municipais com mais poderes de escrutínio e com o poder de derrubar os governos municipais.


Daqui


2. O forrobodó que a assembleia municipal de Lisboa, presidida por Helena Roseta, acaba de aprovar por unanimidade só é entendível no quadro de aliciamento das oposições.

Os lisboetas vão pagar mais de um milhão e duzentos mil euros por ano em boys e girls para todos os grupos parlamentares. Cada assessor vai afinfar 3752,50 euros mais IVA, cada secretária 2802,50 euros mais IVA. Por exemplo: só os boys veg do partido mais pequeno, o PAN, vão custar mais de 7000 euros por mês aos alfacinhas.

Esta cadeia alimentar — que já vem do tempo em que o então mayor António Costa estava em minoria — foi conhecida agora com algum estrépito nos jornais. O dirigente do PSD, José Eduardo Martins, acrescentou um pormenor delicioso: há deputados municipais com tanta flexibilidade vertebral que... conseguem contratar-se a si próprios como assessores.

No que veio a público não há referência a laços de parentesco desta malta. Tenhamos esperança que algum jornalista garimpe essas conexões familiares e indague se elas influenciam, ou não, a atribuição de casinhas municipais.

Barracão

Rocinha RJ, Fotografia de David Sidhom


Vai, barracão
Pendurado no morro
E pedindo socorro
A cidade a seus pés
Vai, barracão
Tua voz eu escuto
Não te esqueço um minuto
Porque sei
Que tu és
Barracão de zinco
Tradição do meu país
Barracão de zinco
Pobretão, infeliz
Vai, barracão
Pendurado no morro
E pedindo socorro
A cidade
A seus pés
Vai, barracão
Tua voz eu escuto
Não te esqueço um minuto
Porque sei
Que tu és
Barracão de zinco
Tradição do meu país
Barracão de zinco
Pobretão, infeliz
Barracão de zinco
Barracão de zinco

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Atocha*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 7 de Dezembro de 2007

1. Madrid. Chega-se ao Memorial de Atocha através da estação. Uma sala azul, grande, redonda. A luz entra por uma cúpula de vidro. Onze metros de altura de vidro. 11M. No vidro, uma espiral de mensagens. Eis uma delas, só uma: “Maldita mochila maldita por siempre”. 2004. 11 de Março. 191 mortos. 2050 feridos. Mochilas de morte. Malditas.




A lavagem aos cérebros dos futuros mártires nunca pára nas madrassas do Paquistão e nas madrassas electrónicas dos sites fundamentalistas. Um dos países europeus em que esses sites são mais acedidos é Espanha. Milhares de câmaras de vídeo filmam, agora, todas as ruas de Madrid.

2. Merece ser conhecida a defesa que a psicóloga Wafa Sultan tem feito dos valores de uma sociedade aberta e laica. Pode ser vista a sua coragem e desassombro, a falar em árabe para árabes, na Al Jazeera. Basta pesquisar o seu nome no YouTube.

Deixo aqui algumas das suas ideias: “O choque que se vê no mundo é um choque entre uma mentalidade que pertence aos tempos medievais e uma mentalidade que pertence ao séc. XXI; é um choque entre aqueles que tratam as mulheres como animais e aqueles que as tratam como seres humanos.
Eu não sou uma cristã, uma muçulmana ou uma judia. Sou um ser humano laico. Não creio no sobrenatural mas respeito o direito dos outros em acreditar.
Não vimos nem um só judeu a fazer-se explodir num restaurante alemão.
Os muçulmanos transformaram três estátuas de Buda em cascalho. Não vimos nem um só budista a queimar uma mesquita, matar um muçulmano ou incendiar uma embaixada.
Só os muçulmanos defendem as suas crenças a queimar igrejas. Isto não vai dar resultado nenhum.”

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“O choque que se vê no mundo não é um choque entre civilizações, é um choque entre dois opostos, um choque entre duas eras, um choque entre uma mentalidade que pertence aos tempos medievais e uma mentalidade que pertence ao Séc. XXI, é um choque entre a civilização e o retrocesso, entre o civilizado e o primitivo, entre a barbárie e a racionalidade, entre a liberdade e a opressão, entre a democracia e a ditadura, é um choque entre os direitos do homem de um lado e a violação desses direitos do outro, é um choque entre aqueles que tratam as mulheres como animais e aqueles que as tratam como seres humanos. O que vemos hoje não é um choque de civilizações. As civilizações não se agridem, elas rivalizam.
Os muçulmanos é que iniciaram o choque de civilizações. O profeta do Islão disse: “Eu recebi a ordem de combater as gentes até elas acreditarem em Alá e no seu mensageiro.” Quando os muçulmanos dividem os povos entre muçulmanos e não muçulmanos, e apelam ao combate até que os outros partilhem das suas crenças, eles declararam este choque, eles começaram esta guerra. Para acabar esta guerra, eles devem reexaminar os seus textos e os seus planos islâmicos, que estão cheios de apelos ao takfir (acusações de descrença)
(…)
Qual a civilização da superfície da terra que se permite chamar os outros por nomes que eles não escolheram para si próprios?
Quem vos disse que eles são a “gente do livro”?
Eles não são gente de um só livro. Eles são gente de muitos livros. Todos os livros científicos que vocês têm são deles, fruto do pensamento livre e criativo.
Quem vos deu o direito de chamá-los “aqueles que incorrem na ira de Alá” e depois virem aqui dizer que a vossa religião vos ordena de vos abster de ofender as crenças dos outros?
Eu não sou uma cristã, uma muçulmana ou uma judia. Sou um ser humano laico. Não creio no sobrenatural mas respeito o direito dos outros em acreditar.
Irmão, tu podes acreditar em pedras [referência aos rituais mécquois [ver http://fr.wikipedia.org/wiki/Abu_Sufyan_ibn_Harb] desde que não me atires com elas. Mas as crenças dos outros não te dizem respeito. Que creiam que o Messias é Deus, filho de Maria. Deixa as pessoas ter as suas crenças.
Os Judeus saíram da tragédia, [o holocausto] e fizeram com que o mundo os respeitasse através do seu conhecimento e não através do terror, através do seu trabalho e não através das lamentações e dos gritos.
A humanidade deve a maior parte das descobertas científicas do séc. XIX e XX a cientistas judeus.
Quinze milhões de pessoas espalhadas pelo mundo uniram-se e asseguraram os seus direitos através do seu trabalho e do seu conhecimento.
Não vimos nem um só judeu a fazer-se explodir num restaurante alemão.
Não vimos nem um só judeu destruir uma igreja.
Não vimos nem um só judeu a protestar matando pessoas.
Os muçulmanos transformaram três estátuas de Buda em cascalho.
Não vimos nem um só budista a queimar uma mesquita, matar um muçulmano ou incendiar uma embaixada.
Só os muçulmanos defendem as suas crenças a queimar igrejas.
Isto não vai dar resultado nenhum.
Os muçulmanos devem perguntar-se o que podem fazer pela humanidade antes de exigirem que a humanidade os respeite.”

Quelque chose de Tennessee










A vous autres, hommes faibles et merveilleux
Qui mettez tant de grâce a vous retirer du jeu
Il faut qu'une main posée sur votre épaule
Vous pousse vers la vie, cette main tendre et légère

On a tous quelque chose en nous de Tennessee
Cette volonté de prolonger la nuit
Ce désir fou de vivre une autre vie
Ce rêve en nous avec ses mots à lui

Quelque chose de Tennessee
Cette force qui nous pousse vers l'infini
Y a peu d'amour avec tell'ment d'envie
Si peu d'amour avec tell'ment de bruit
Quelque chose en nous de Tennessee

Ainsi vivait Tennessee
Le cœur en fièvre et le corps démoli
Avec cette formidable envie de vie
Ce rêve en nous c'était son cri à lui

Quelque chose de Tennessee
Comme une étoile qui s'éteint dans la nuit
A l'heure où d'autres s'aiment à la folie
Sans un éclat de voix et sans un bruit
Sans un seul amour, sans un seul ami

Ainsi disparut Tennessee
A certaines heures de la nuit
Quand le cœur de la ville s'est endormi
Il flotte un sentiment comme une envie
Ce rêve en nous, avec ses mots à lui

Quelque chose de Tennessee
Oh oui Tennessee
Y a quelque chose en nous de Tennessee
Michel Berger




quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

An average crap

"O Grande Calafrio" correu cá com o título "Os Amigos de Alex"




Do tempo em que não se ia de tablet ou de smartphone para a "casinha":



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Adenda em 12.12.2017, às 18:40, na sequência do comentário de contra-baixo que agradeço




terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Democrítica

Fotografia de Tatsumi Orimoto


Mais tempo, admito, gasto a passar mal
por relativo amor e altivez
do que a fazer política, e prezo
sobre o consenso o rasgo original,
herança doentia do burguês
de génio, que nega ser geral
o raio que trilhou seu ideal,
e deixa que o isente a lucidez
da desprendida rota da unidade
além da sua esfera. Mais consola
levantar os óculos à verdade,
suspensa ao clamor mudo lá do fim
da literatura, onde não rola nada
excepto, além das massas, o sublime.
Precário verso, se o gesto
o não redime –
paira só na frouxa linha acima
dos meus ombros
onde ruo assolidária e sem assombros.
Agora, se descerem os médios
à rua os verdadeiros pobres a gente
atenta e recíproca a encher de pulmões ar
canto atrito resistência translação,
a derrubar consumo e cómodo sem afecto
e esta economia ávida que há muito não vê
pessoa que não faça género ou número, então
não seja eu por mim avara na poesia,
e, mais que busque luz, eu desconhecendo, dê.
Margarida Vale de Gato




segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Hoje em dia até as vacas são lingrinhas

Fotografia de Megan Doherty


Cada um é fado de si mesmo

Mas aonde irei eu que este não seja,
Se a causa deste ser levo comigo?
E se eu próprio me perco e me persigo,
Quem será que me poupe ou que me reja?

Porque me hei-de queixar do Tempo e Inveja,
Se eu a quis mais fiel ou mais amigo?
Fui deixado em mi mesmo por castigo:
Triste serei enquanto em mi me veja.

Esta empresa que me mi tanto em vão tomo,
Esta sorte que em mi seu dano ensaia,
Esta dor que minha alma em mi cativa,

Vós só podeis mudar. Mas isto como?
Como? Fazendo que a minha alma saia
De mi, Senhora, e dentro de vós viva.
D. Francisco Manuel de Melo


domingo, 3 de dezembro de 2017

Miscasting

Fotografia de Sergey Chilikov



“So you think salvation lies in pretending?”
Paul Bowles

estou entregando o cargo
onde é que assino
retorno outros pertences
um pavilhão em ruínas
o glorioso crepúsculo na praia
e a personagem de mulher
mais Julieta que Justine
adeus ardor
adeus afrontas
estou entregando o cargo
onde é que assino

há 77 dias deixei na portaria
o remo de cativo nas galés de Argélia
uma garrafa de vodka vazia
cinco meses de luxúria
despido o luto
na esquina
um ovo
feliz ano novo
bem vindo outro
como é que abre esse champanhe
como se ri

mas o cavaleiro de espadas voltou a galope
armou a sua armadilha
cisco no olho da caolha
a sua vitória de Pirro
cidades fortificadas
mil torres
escaladas por memórias inimigas
eu, a amada
eu, a sábia
eu, a traída

agora finalmente estou renunciando ao pacto
rasgo o contrato
devolvo a fita
me vendeu gato por lebre
paródia por filme francês
a atriz coadjuvante é uma canastra
a cena da queda é o mesmo castelo de cartas
o herói chega dizendo ter perdido a chave
a barba de mais de três dias

vim devolver o homem
assino onde
o peito desse cavaleiro não é de aço
sua armadura é um galão de tinta inútil
similar paraguaio
fraco abusado
soufflé falhado e palavra fútil

seu peito de cavalheiro
é porta sem campainha
telefone que não responde
só tropeça em velhos recados
positivo
câmbio
não adianta insistir
onde não há ninguém em casa

os joelhos ainda esfolados
lambendo os dedos
procuro por compressas frias
oh céu brilhante do exílio
que terra
que tribo
produziu o teatrinho Troll colado à minha boca
onde é que fica essa tomada
onde desliga
Hilda Machado


sábado, 2 de dezembro de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#171)

Votar na Rússia é bom...

Não abras as portas a estranhos

Fotografia Olho de Gato


todos os dias tento saber o lugar
exacto das coisas

uma montagem de certezas e rotinas
onde entre camisolas, vestidos e saias
(que nunca visto)

um dia acordo numa casa vazia
e sem saber onde é o meu lugar

os dias começam a perder o sentido
Maria Sousa

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Familismo*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Sem surpresa, o orçamento de estado foi aprovado esta semana, apesar do mal-estar que reina na geringonça.

Tempos Modernos, de Charles Chaplin (1936)

Há causas conjunturais para as esquerdas terem começado às cotoveladas entre si: os incêndios, Tancos, o Infarmed, a borla aos rentistas das eólicas, ...

E há três causas estruturais que listo por ordem crescente de importância:
(i) o trambolhão autárquico do PCP fez soar todas as campainhas de alarme no partido e fez acordar a CGTP da sonolência em que tinha caído;
(ii) com a saída anunciada de Pedro Passos Coelho, os partidos de esquerda perderam o “bode-expiatório” ideal para culpar de todos os males da pátria e, com isso, unir as suas tropas;
(iii) a geringonça teve pressa demais e já fez tudo o que assinou há dois anos; nunca teve grande projecto comum para o país, agora está sem nenhum.

Para já, o bloco e o PCP vão ser lobos na retórica e cordeiros nas votações no parlamento. A intervenção de João Oliveira, do PCP, no encerramento do debate do orçamento, já não conseguiu esconder esta esquizofrenia; Mariana Mortágua conseguiu ainda disfarçá-la com a força moral que lhe foi dada pela pirueta de Costa nas eólicas, mas no futuro o bloco vai soar também cada vez mais a falso.

2. Os trabalhadores do sector privado vão deixar de poder receber em duodécimos metade dos subsídios de férias e de natal. Em vez de alargar, como devia, essa opção ao sector público, o parlamento votou a proibição aos privados.

Já se sabe: em Portugal desama-se a liberdade e os políticos pelam-se por uma proibiçãozinha.

3. No concelho de Viseu, nas últimas autárquicas, no bloco, o mano deu lugar à mana na assembleia municipal; no PS, o marido foi a votos para a câmara, a esposa para a assembleia; assembleia onde se sentam também manos de ex e filhos de ex.

Entretanto, um irmão do número dois da distrital socialista quer ir para número um da concelhia.

Ninguém estranha tanto familismo?

Alheamento

Fotografia Olho de Gato



Ando não sei por onde
tão longe e não me fixo!

Que asa me levou
e não tem descanso?

Ando não sei por onde
sem grade nem encanto.

E no entanto
não regresso nem fico...
Maria da Encarnação Baptista