sábado, 11 de novembro de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#168)

«Miss Anders... I didn't recognize you with your clothes on...»

Tigresa




Uma tigresa de unhas negras e íris cor de mel
Uma mulher, uma beleza que me aconteceu
Esfregando sua pele de ouro marrom do seu corpo contra o meu
Me falou que o mal é bom e o bem cruel
Enquanto os pelos dessa deusa tremem ao vento ateu
Ela me conta, sem certeza, tudo que viveu
Que gostava de política em mil novecentos e setenta e seis
E hoje dança no Frenetic Dancing Days

Ela me conta que era atriz e trabalhou no "Hair"
Com alguns homens foi feliz, com outros foi mulher
Que tem muito ódio no coração, que tem dado muito amor
E espalhado muito prazer e muita dor
Mas ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar
Porque ela vai ser o que quis, inventando um lugar
Onde a gente e a natureza feliz vivam sempre em comunhão
E a tigresa possa mais do que um leão
As garras da felina me marcaram o coração
Mas as besteiras de menina que ela disse não
E eu corri para o violão, num lamento, e a manhã nasceu azul
Como é bom poder tocar um instrumento
Caetano Veloso



sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Há sempre qualquer coisa*

* Hoje no Jornal do Centro**



Numa das suas mais sublimes canções, José Mário Branco canta: “Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer, qualquer coisa que eu devia perceber, porquê não sei, porquê não sei, porquê não sei ainda.” A canção chama-se “Inquietação”, e inquietação é o que se sente quando se tenta perceber o que “está pra acontecer” no mundo.

A crise sistémica global que se seguiu ao estoiro, em Setembro de 2008, do Lehman Brothers deslocou o centro de gravidade do planeta para a Ásia. A classe média asiática acaba de ultrapassar a soma da classe média norte-americana com a europeia. 


Xangai (daqui)
Estes ganhos e perdas estão a causar sarilhos em todo o lado. As classes médias dos países ascendentes lutam por mais infraestruturas e serviços públicos e as classes médias em perda, no ocidente, protestam contra os cortes e fazem crescer o voto populista e iliberal.

Isto é o que tem estado a acontecer desde 2008. Olhemos agora para o que não está a acontecer.

Em primeiro lugar, não está a acontecer inflação, como era costume quando os bancos centrais faziam injecções maciças de liquidez. Em segundo lugar, apesar de todas as tensões sociais, políticas e geo-estratégicas causadas pela crise, não houve nenhum fechamento do comércio internacional. O motor mental do livre-comércio e da convertibilidade das moedas permanece pujante.

A globalização e o seu fluxo de pessoas, conhecimento, ideias, mercadorias, capitais, vai prosseguindo imperturbável. Isto apesar do bulício dos micro-nacionalismos que querem desenhar novas fronteiras mas, paradoxalmente, precisam de um mundo sem elas.

Por exemplo, as movimentações dos curdos e dos catalães (que fizeram referendos independentistas na mesma semana) só acontecem porque existe o mercado global: os curdos dependem da venda do petróleo de Kirkuk e os catalães necessitam da “independência sem fronteiras” fornecida pela União Europeia e pelo BCE.



** Este texto deve muito a "O Fim do Poder", de Moisés Naím, e a "A Era do Imprevisível", de Joshua Cooper Ramo

Perda

Tomoo Gokita




Da primeira vez que me quebraram
toda
dobrei os joelhos,
caí sem joelhos,
me dobrei toda sobre
o vazio dos braços.
Os ossos tiritavam,
a cabeça estalava
um sino:
toda um estaleiro
sem navios,
só pavios de viagem,
toda uma estalagem
bêbada de sombras
e sinas,
não sabia mais
quantas primaveras
fazem um cisne,
não sabia
beber a não ser
com as mãos em cuia,
eu era um pires
com a cara redonda
que os gatos lamberam
e fugiram,
um piano com febre
em desarticulação nervosa,
uma pátina derretida,
uma patavina
atarantada
com os caracóis da poeira
sumida no horizonte.
Elisabeth Veiga


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Mixórdias *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 9 de Novembro de 2007


      
1. Aqui, nas páginas do Jornal do Centro, Paulo Bruno Alves está a publicar uma interessante série de artigos de análise ao primeiro jornal diocesano de Viseu, A Folha, que se publicou de 1901 a 1911. Os dois últimos artigos trataram da “história das farinhas”, assunto que serviu para turbar mais ainda os anos perturbados do final da monarquia.
     
Paulo Bruno Alves transcreveu de A Folha, Agosto de 1902: «(...) causou profunda impressão a descoberta quasi casual de que ha dois annos grande parte da farinha consumida no paiz era feita de serradura e barro!».
     
Naqueles tempos, a panificação estava a trabalhar com um produto consistente e com um retorno financeiro interessante. Ainda por cima, como explica o historiador Rui Ramos, «Lisboa [tinha], no princípio do Séc. XX, o pão de trigo mais caro da Europa, a 80 réis o quilograma, o dobro do preço de Londres.»

     
2. Duas cooperativas leiteiras de Minas Gerais foram apanhadas a adicionar soro ao leite e, para disfarçar o sabor e dar mais durabilidade e volume à mistura, acrescentavam ainda água oxigenada, açúcar, soda cáustica, citrato de sódio, ácido cítrico e água.


Daqui  
Uma pesquisa no Google, com a expressão “leite fraudado”, dá toda a história e o “rigor” químico da coisa.
      
O deputado do PMDB, Paulo Piau, no último dia de Outubro, em plena Câmara dos Deputados, bebeu do tal leite...

     
... e disse: «É um produto fraudado? É, mas até o fraudado tem a sua qualidade. Sou contra a fraude, mas sou a favor do que está aí, o leite possível.»
     
A Polícia Federal brasileira já meteu 27 dentro.
     
Quanto ao deputado Paulo Piau, que dizer? Deseja-se que os seus intestinos funcionem ainda melhor que a sua cabeça.

Short note on the sparseness of the language

Rhiannon Giddens


wow man I said
when you tipped my chin and fed
on headlong spit my tongue´s libation fluid

and wow I said when we hit the mattressrags
and wow was the dawn: we boiled the coffeegrounds
in an unkempt pot

wow man I said the day you put me down
(only the tone was different)
wow man oh wow I took my comb
and my two books and cut and that was that
Diane di Prima








quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Paterson

Paterson, Jim Jarmush, 2016


Paterson lies in the valley under the Passaic Falls
its spent waters forming the outline of his back. He
lies on his right side, head near the thunder
of the waters filling his dreams! Eternally asleep,
his dreams walk about the city where he persists
incognito. Butterflies settle on his stone ear.
Immortal he neither moves nor rouses and is seldom
seen, though he breathes and the subtleties of his machinations
drawing their substance from the noise of the pouring river
animate a thousand automations. Who because they
neither know their sources nor the sills of their
disappointments walk outside their bodies aimlessly
for the most part,
locked and forgot in their desires-unroused.
—Say it, no ideas but in things—
nothing but the blank faces of the houses
and cylindrical trees
bent, forked by preconception and accident—
split, furrowed, creased, mottled, stained—
secret—into the body of the light!
From above, higher than the spires, higher
even than the office towers, from oozy fields
abandoned to gray beds of dead grass,
black sumac, withered weed-stalks,
mud and thickets cluttered with dead leaves-
the river comes pouring in above the city
and crashes from the edge of the gorge
in a recoil of spray and rainbow mists-
(What common language to unravel?
. . . combed into straight lines
from that rafter of a rock's
lip.)
A man like a city and a woman like a flower
—who are in love. Two women. Three women.
Innumerable women, each like a flower.
But
only one man—like a city.
William Carlos Williams

terça-feira, 7 de novembro de 2017

This Is just to say


I have eaten
the plums
that were in
the icebox

and which
you were probably
saving
for breakfast

Forgive me
they were delicious
so sweet
and so cold
William Carlos Williams



segunda-feira, 6 de novembro de 2017

O planeta precário

Fotografia de Harris Mizrahi

a noite cerrou todas as janelas
alastrou um império de improviso para os
cães sem nome sem dono e atirou
longamente o seu queixo de toneladas até
à mancha
espalmada do rio

e à sua maneira de nos insultar
a tristonha envergadura da sua queixa

as palavras
que usamos
têm a idade que aparentam

atingidas pela velhice ou pelo descrédito
num alvoroço se oferecem ao abismo

despenhadas rolam
e se confundem com a lava
com a espuma tensa do tempo ainda intacto

para de novo nascerem noutra pátria
mais respirável
ternamente povoar o indómito e triste
hálito
do mais apavorado e generosos bicho

À hora de morrer vai ser necessário
imitar a navegação tumultuosa e resignada
das palavras.

Entre elas e o poeta
um segredo brinca
religioso
trémulo
e imprudente

um segredo amoroso e repugnante

Tu, que de há tanto e tão bem o conheces
melhor te será conservá-lo escondido
até ao momento da surpresa
que a morte branca do medo exige

Cada um de nós, deve ser, não a lei, mas
o galho inopinado e ímpar
o plano imediato da evasão
alucinado e lúcido

Cada um de nós deve ser o momento
de recusar férias à ferida
e de mandar matar todos os parafusos
destronar todas as molas reais
ou irreais
da

respiração artificial

pendurada do tecto
a tua ausência informa: é madrugada
bela notícia confirmada
o céu está menos preto

busto ou explanada
mas só de sombra
a solidão redonda
desta vida parada

não é flor nem bomba
nem página virada
nem a hecatombe
fria e ferial

da charada final
e indesejada !

Falta o indulto especial da tua mão
e tu a dizeres-me, aguda e de assalto:

"A solidão
é nada."

a cabeça começa por fazer dueto com o teu relógio
crepita sobre a almofada
parece mesmo um gatilho em desuso
uma flecha detida por um hábito lívido

são já os primeiros rumores estremunhados
no tablado das coisas
para onde a luz, como tu, atira os braços
como tu um beijo

enorme e distraída oficina conjugal

é agora a infalível
serpente inofensiva e doméstica do sol
monstro diluviano de capoeira
a farejar
com um aspecto acabrunhado de enfermeiro despedido
a fresta que permita o carnaval

está então na hora?

a cabotagem entre portos diminuídos
tenazmente em circuito cinzento
o tráfego livre dos gestos, enrugado apenas
pelo milagre de um ou outro vizinho mais mumificado
se levar pela mão a cara de brinquedo do filho

a quem acabam por perdoar por não ter ainda convite
e é só entrar

no solfejo nauseante
no cerimonial mercantilista do braço ao peito
José Sebag


Pink Floyd playing a number of their early hits on the French TV show 'Bouton Rouge' on 24 February 1968. 
In between is a short extract of Ten Years After playing 'Love Until I Die'.
Astronomy Domine 0:46
Flaming 3:27
Set the Controls for the Heart of the Sun 8:35
Let There Be More Light 13:17

domingo, 5 de novembro de 2017

Violência urbana (#31)

Fotografia Olho de Gato

Sabão Offenbach

Pintura de Kate Klingbeil


Rugoso e maciço, fatiado e vendido
ao balcão de madeira de qualquer mercearia,
o sabão Offenbach é recomendado pelas autoridades
para lavagem de espaços comuns
sempre que surge a ameaça de uma epidemia
Modernas donas de casa têm pudor em comprá-lo, por lembrar
a barrela das lavadeiras – o linho, os lençóis
e a higiene íntima dos antigos
Com os novos sabonetes perfumados
a perfeição química da pele e a pura lã virgem
extinguem-se
pelo ralo da comunidade
Mas eu trago no bolso um pedaço de bom sabão azul e dispo-me
para lhe ser amável
e que uma fome insaciável se apodere de mim
quando o esfrego nos lábios faz-me pensar
na enxaguada misericórdia de Deus
Andreia C. Faria