quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Paterson

Paterson, Jim Jarmush, 2016


Paterson lies in the valley under the Passaic Falls
its spent waters forming the outline of his back. He
lies on his right side, head near the thunder
of the waters filling his dreams! Eternally asleep,
his dreams walk about the city where he persists
incognito. Butterflies settle on his stone ear.
Immortal he neither moves nor rouses and is seldom
seen, though he breathes and the subtleties of his machinations
drawing their substance from the noise of the pouring river
animate a thousand automations. Who because they
neither know their sources nor the sills of their
disappointments walk outside their bodies aimlessly
for the most part,
locked and forgot in their desires-unroused.
—Say it, no ideas but in things—
nothing but the blank faces of the houses
and cylindrical trees
bent, forked by preconception and accident—
split, furrowed, creased, mottled, stained—
secret—into the body of the light!
From above, higher than the spires, higher
even than the office towers, from oozy fields
abandoned to gray beds of dead grass,
black sumac, withered weed-stalks,
mud and thickets cluttered with dead leaves-
the river comes pouring in above the city
and crashes from the edge of the gorge
in a recoil of spray and rainbow mists-
(What common language to unravel?
. . . combed into straight lines
from that rafter of a rock's
lip.)
A man like a city and a woman like a flower
—who are in love. Two women. Three women.
Innumerable women, each like a flower.
But
only one man—like a city.
William Carlos Williams

terça-feira, 7 de novembro de 2017

This Is just to say


I have eaten
the plums
that were in
the icebox

and which
you were probably
saving
for breakfast

Forgive me
they were delicious
so sweet
and so cold
William Carlos Williams



segunda-feira, 6 de novembro de 2017

O planeta precário

Fotografia de Harris Mizrahi

a noite cerrou todas as janelas
alastrou um império de improviso para os
cães sem nome sem dono e atirou
longamente o seu queixo de toneladas até
à mancha
espalmada do rio

e à sua maneira de nos insultar
a tristonha envergadura da sua queixa

as palavras
que usamos
têm a idade que aparentam

atingidas pela velhice ou pelo descrédito
num alvoroço se oferecem ao abismo

despenhadas rolam
e se confundem com a lava
com a espuma tensa do tempo ainda intacto

para de novo nascerem noutra pátria
mais respirável
ternamente povoar o indómito e triste
hálito
do mais apavorado e generosos bicho

À hora de morrer vai ser necessário
imitar a navegação tumultuosa e resignada
das palavras.

Entre elas e o poeta
um segredo brinca
religioso
trémulo
e imprudente

um segredo amoroso e repugnante

Tu, que de há tanto e tão bem o conheces
melhor te será conservá-lo escondido
até ao momento da surpresa
que a morte branca do medo exige

Cada um de nós, deve ser, não a lei, mas
o galho inopinado e ímpar
o plano imediato da evasão
alucinado e lúcido

Cada um de nós deve ser o momento
de recusar férias à ferida
e de mandar matar todos os parafusos
destronar todas as molas reais
ou irreais
da

respiração artificial

pendurada do tecto
a tua ausência informa: é madrugada
bela notícia confirmada
o céu está menos preto

busto ou explanada
mas só de sombra
a solidão redonda
desta vida parada

não é flor nem bomba
nem página virada
nem a hecatombe
fria e ferial

da charada final
e indesejada !

Falta o indulto especial da tua mão
e tu a dizeres-me, aguda e de assalto:

"A solidão
é nada."

a cabeça começa por fazer dueto com o teu relógio
crepita sobre a almofada
parece mesmo um gatilho em desuso
uma flecha detida por um hábito lívido

são já os primeiros rumores estremunhados
no tablado das coisas
para onde a luz, como tu, atira os braços
como tu um beijo

enorme e distraída oficina conjugal

é agora a infalível
serpente inofensiva e doméstica do sol
monstro diluviano de capoeira
a farejar
com um aspecto acabrunhado de enfermeiro despedido
a fresta que permita o carnaval

está então na hora?

a cabotagem entre portos diminuídos
tenazmente em circuito cinzento
o tráfego livre dos gestos, enrugado apenas
pelo milagre de um ou outro vizinho mais mumificado
se levar pela mão a cara de brinquedo do filho

a quem acabam por perdoar por não ter ainda convite
e é só entrar

no solfejo nauseante
no cerimonial mercantilista do braço ao peito
José Sebag


Pink Floyd playing a number of their early hits on the French TV show 'Bouton Rouge' on 24 February 1968. 
In between is a short extract of Ten Years After playing 'Love Until I Die'.
Astronomy Domine 0:46
Flaming 3:27
Set the Controls for the Heart of the Sun 8:35
Let There Be More Light 13:17

domingo, 5 de novembro de 2017

Violência urbana (#31)

Fotografia Olho de Gato

Sabão Offenbach

Pintura de Kate Klingbeil


Rugoso e maciço, fatiado e vendido
ao balcão de madeira de qualquer mercearia,
o sabão Offenbach é recomendado pelas autoridades
para lavagem de espaços comuns
sempre que surge a ameaça de uma epidemia
Modernas donas de casa têm pudor em comprá-lo, por lembrar
a barrela das lavadeiras – o linho, os lençóis
e a higiene íntima dos antigos
Com os novos sabonetes perfumados
a perfeição química da pele e a pura lã virgem
extinguem-se
pelo ralo da comunidade
Mas eu trago no bolso um pedaço de bom sabão azul e dispo-me
para lhe ser amável
e que uma fome insaciável se apodere de mim
quando o esfrego nos lábios faz-me pensar
na enxaguada misericórdia de Deus
Andreia C. Faria





sábado, 4 de novembro de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#167)

Um vídeo com "balls". Por uma boa causa.


Water falls

Paterson — Jim Jarmush (2016)


Water falls from the bright air
It falls like hair
Falling across a young girl’s shoulders
Water falls
Making pools in the asfalt
Dirty mirrors with clouds and buildings inside
It falls on the roof of my house
Falls on my mother and on my hair
Most people call it rain
Ron Padgett



sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Quem anda à chuva...*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Quem anda à chuva, molha-se... e choveu um pouquito logo a seguir à tragédia de 15 de Outubro, não deu para ninguém se molhar, mas deu para limpar a atmosfera da fuligem, e, segundo o ministro do ambiente, deu para duas horas de consumo de água da cidade de Viseu.
Fotografia olho de Gato

2. Quem anda à chuva, molha-se... e eu molhei-me fortemente quando, em Fevereiro de 2014, decidi criticar uma campanha da Águas de Viseu, em que António Almeida Henriques fez chover cartazes por todo o concelho de Viseu.

Perguntei eu:
“Multiplicados pelo território, dezanove cartazes diferentes, vinte e um simpáticos modelos, todos caucasianos, todos vestidos de branco, todos com letras a branco que dizem: Viseu é de primeira água.
Esta alva campanha publicitária, que foi exsudada pela câmara de Viseu, serve exactamente para quê?”

Por causa disto, trovejou nas redes sociais. Fui chamado de vários nomes por variegada gente, mas, clarinho como a tal “primeira água”, o facto é que ninguém conseguiu explicar para que serviu aquele derramamento de outdoors.


3. Quem anda à chuva, molha-se... e os setenta e cinco mil consumidores do concelho de Viseu agora, para se molharem, deixam uma pegada ecológica do tamanho de vinte e sete camiões-cisterna a gastarem diesel para-cá-e-para-lá, sem parança, a trazerem água de Lamego e de Tondela para os depósitos do Viso Norte.

Uma seca esta seca. Foi uma pena António Almeida Henriques ter aberto a torneira dos euros naquela inutilidade publicitária no chuvoso inverno de 2014. Foi uma pena muito maior o presidente da câmara de Viseu, neste desgraçado ano de 2017, não ter feito, em tempo útil, uma campanha de igual impacto a apelar aos viseenses para pouparem água.

4. Quem anda à chuva, molha-se... oxalá o leitor tenha essa oportunidade quando esta crónica lhe chegar às mãos. No dia em que a escrevo, a seca continua. Apesar das orações do cardeal patriarca.

All they want is my money my pussy my blood

Ken Gonzale, Hands Up, 2014




I am free with the following conditions.
Give it up gimme gimme.
Okay so I’m Black in America right and I walk into a bar.
I drink a lot of wine and kiss a Black man on his beard.
I do whatever I want because I could die any minute.
I don’t mean YOLO I mean they are hunting me.
I know my pussy is real good because they said so.
I say to my friend I am broke as a joke.
I am Starvin’ Like Marvin Gaye.
I’m so hungry I could get it on.
There’s far too many of me dying.
The present is not so different.
Everybody looks like everybody I worked with.
Everybody looks like everybody I’ve kissed.
Men champion men and animals.
Everybody thinks I’m going to die.
At the museum I tell the school group about Black art.
I tell them the word contemporary.
I have a nose ring I forget about.
I have a brother and he is also Black.
I am a little modern to the fault.
I say this painting is contemporary like you and me.
They ask me about slavery. They say Martin Luther King.
At school they learned that Black people happened.
The present is not so different.
I’m looking into their Black faces.
They do not understand that they exist.
I’m Black in America and I walk
into a bar and drink a lot of wine, kiss a white man on his beard.
There is no indictment.
I could die any minute of depression.
I just want to have sex most of the time.
I just want my student loans to disappear.
I just want to understand my savings account.
What is happening to my five dollar one cent.
I am free with the following conditions.
What is happening to my brother.
What if I do something wrong.
My blood is so hot and wet right now.
I know they want it.
I do everything right just incase.
I don’t want to give away my money but here I am.
It’s so stupid I have to say here I am.
They like to be on top.
I am being set up.
I am a tree and some fruits are good and some are bad.
Morgan Parker


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Bem precisa é!

Continue a orar, por favor, D. Manuel Clemente!

Ground control to major Tom





Ground Control to Major Tom
Ground Control to Major Tom
Take your protein pills and put your helmet on
Ground Control to Major Tom (ten, nine, eight, seven, six)
Commencing countdown, engines on (five, four, three)
Check ignition and may God's love be with you (two, one, liftoff)





quarta-feira, 1 de novembro de 2017

O passo do anjo



Pelas escarpas, nos atalhos de areia e erva
em matas sombrias onde as faias se renovam
os animais já não vigiam
já ninguém os persegue
a chuva desenha círculos perfeitos
nos poços dos aldeões
como nos charcos
o restolhar de prata da folhagem
previne do passo do anjo, na escuridão
José Tolentino Mendonça