sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Hoy disolví un amor

Gif de Mattis Dovier

Hoy disolví un amor.

Algunos signos se vieron desplazados.

Algunos otros
quedaron en el aire.

Podría pensarse que es un día distinto.

Lo único cierto es que empezó el invierno.
Carina Sedevich



quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Sinais*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 12 de Outubro de 2007


Luís Filipe Meneses, 
presidente do PSD de 12-10.2007 a 20.6.2008
1. Luís Filipe Menezes é o novo líder do PSD. Os “de baixo” disseram o que pensavam dos “de cima”. É para isso que servem os votos em democracia – para que haja mudança de “quem manda” sem derramamentos de sangue.

Agora Luís Filipe Menezes não vai dizer nada de substantivo até ao Congresso. Todo o farfalhar até lá é conversa de pardais atrás de milho; o primeiro pardal a abrir o bico foi Santana Lopes, o “menino guerreiro”, e o segundo foi Isaltino, o tio do taxista mais rico da Suíça. Com estes pássaros Luís Filipe Menezes não vai longe.

Alguns sectores do PS encarniçaram-se muito contra Marques Mendes. Deu para ver a preferência. A vitória de Luís Filipe Menezes pô-los a tocar as trompetas. “A maioria absoluta em 2009 está no papo”, pensam eles, a deitarem contas aos “rabos de palha” e irrequietude “populista” de Luís Filipe Menezes.

Ora, ainda está tudo em aberto para 2009. Os resultados eleitorais para a Câmara de Lisboa, o desemprego e a performance económica do país desaconselham triunfalismos.

Para começar, João Cravinho devia ser mais ouvido. É lamentável que o PS esteja a ser a muleta de Isaltino Morais na Câmara de Oeiras. Há coisas que cheiram mal. E que, em 2009, podem custar caro…

2. Durante mais de um mês, teve-se que aguentar o pára-arranca dos semáforos de Moselos enquanto, trezentos metros ao lado, prontas, as quatro faixas da nova variante acumulavam pó.

Aborrecidas com o desrespeito, as pessoas de Moselos não quiseram saber das gravatas e dos emplastros inaugurativos; foram lá, retiraram as barreiras e resolveram o problema. Foi um sinal dos tempos. O mesmo sinal da eleição de Menezes.

Abriu no colchão as valas possíveis

Fotografia Olho de Gato


Abriu no colchão as valas possíveis
e enterrou por ordem alfabética
cada parte do corpo: os pêlos
os pântanos as unhas encravadas
e as unhas que outros cravaram pelas coxas.
Estudou cuidadosamente as ondas as horas
para que não restassem dúvidas
sobre os caminhos marítimos
para a noite. Por fim
podou as janelas do quarto,
bebeu o vinho;
roeu a carne do quarto
até não sobrar nenhum coração.
Catarina Nunes de Almeida


quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Arte poética

Fotografia Olho de Gato
Mirar el río hecho de tiempo y agua
y recordar que el tiempo es otro río,
saber que nos perdemos como el río
y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.

Ver en el día o en el año un símbolo
de los días del hombre y de sus años,
convertir el ultraje de los años
en una música, un rumor y un símbolo,

ver en la muerte el sueño, en el ocaso
un triste oro, tal es la poesía
que es inmortal y pobre. La poesía
vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara
nos mira desde el fondo de un espejo;
el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable
que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
y es otro, como el río interminable.
Jorge Luis Borges

terça-feira, 10 de outubro de 2017

You got me hotter’n Georgia asphalt*




SAILOR

Are you going to provide me with an

opportunity to prove my love to my
girl? Or are you gonna save
youself some trouble and step up
like a gentleman and apologize to her?

IDIOT PUNK
Don’t fuck with me, man. You look
like a clown in that stupid jacket.

SAILOR
This is a snakeskin jacket, and for
me it’s a symbol of my individuality
and my belief in personal freedom.

IDIOT PUNK
...Asshole.

SAILOR
Come here.

LULA
Sailor, honey...


SAILOR
I’m sorry to do this to ya here
in front of a crowd, but I want ya
to stand up and make a nice apology
to my girl.

IDIOT PUNK
I’m sorry.

LULA
Hell, you just rubbed up against
the wrong girl is all.

SAILOR
That’s good... Now go get yourself
a beer.





LULA
(howls)
Jesus, honey! You more’n sorta
got what you come for... You
better rum me back to the hotel,
baby... You got me hotter’n
Georgia asphalt.

SAILOR
Say no more... But go easy on me,
sweetheart... Tomorrow we got alotta
drivin’ to do.
(he takes out a cigarette and laughs)
Hotter’n Georgia asphalt?



Reedição

Anúnciame

Fotografia de Isabel Muñoz


Anúnciame
Espanta las sombras que ladran a mi paso
y los ojos curiosos que desde los resquicios
me ven andar a tientas
desandando

Alláname el camino
que tropiezo
porque no estaba escrito que volviera

(el polvo sacudido de mi cuerpo
se levanta de nuevo y se me pega)

Anticípame
Nada quiero dejarle a la sorpresa
Salí de mí huyendo de este grito
pero el grito me alcanzaba adonde fuera
América Martínez Ferrer


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Projecto


(...)
Todavia o seu projecto principal era o de mudar o mundo.
Ao que eu lhe disse que o meu grande projecto
foi sempre o de que o mundo não me mudasse a mim.
Daniel Maia-Pinto Rodrigues


domingo, 8 de outubro de 2017

El valor de la palavra

Fotografia de Lorenzo Castore


El otro día me pagaron
por recitar media docena de poemas, algunos
contra el propio sistema bancario.
Es la primera vez que cobro por las miles de horas extra
sin contrato ni derecho a subsidio por desempleo que llevo
desde que me inscribí en el gremio de artesanos del vaho
en esta profesión de vendedores de melancolía

en la que tanto se padece la siniestralidad
–hay versos cojos, poemas que se estrellan contra el cielo–

en la que sufrimos la flexibilidad laboral más dura
–quién no ha tenido que escribir en el autobús, camino del alba–

en la que somos víctimas del acoso moral de uno mismo en el trabajo
–cuántos suicidios ejemplares de los que se tiene constancia.

Así que voy a practicar un poco el absentismo
antes de volver a emplear el tiempo
jugándome la vida
a cuatro euros el poema.
Juanjo Barral


sábado, 7 de outubro de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#164)

Vive le français parlé au Québec!

Amanhã vou comprar umas calças vermelhas

Fotografia de Eric Wong


Amanhã vou comprar umas calças vermelhas
porque não tenho rigorosamente nada a perder:
contei, um a um, todos os degraus
sei quantas voltas dei à chave,
sublinhei as frases importantes,
aparei os cedros,
fechei em código toda a escrita.

Amanhã comprarei calças vermelhas
fixarei o calendário agrícola
afiarei as facas
ensaiarei um número
abrirei o livro na mesma página
descobrirei alguma pista.
Ana Paula Inácio


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Metáforas avariadas*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. As eleições autárquicas destaparam um elefante que estava escondido na sala de estar da geringonça — o acordo de incidência parlamentar que sustenta o governo é bom para o PS mas é mau para o PCP.

Este acaba de perder dez câmaras, nove delas directamente para os socialistas. Só restaram vinte e quatro municípios comunistas, é o menor número de sempre.

A propósito desta hecatombe, tem sido recordado o “abraço de urso” de François Mitterrand aos comunistas franceses, coligou-se com eles em 1981 e levou-os ao desaparecimento. O eleitorado comunista, depois, foi cair nas mãos da Frente Nacional do clã Le Pen, mas isso são contas de outro rosário.

Em vez da metáfora do “abraço de urso”, no Facebook descrevi o caso assim: “Jerónimo de Sousa foi a panela de barro e António Costa a panela de ferro.”

Daqui
Aludi a uma fábula de La Fontaine mas receio que o sentido dela escape às gerações mais novas. Aliás, cada vez é mais difícil encontrar uma metáfora que tenha um funcionamento universal, que seja entendida por toda a gente.

Lembrar que não são bons os chegamentos das panelas de barro às panelas de ferro tem pelo menos uma vantagem: imita muito bem a maneira simpática e expressiva como o líder comunista costuma descrever aos seus camaradas as encruzilhadas e as dificuldades da política.

2. Cada vez há mais metáforas avariadas. Por exemplo, dizer “vira o disco e toca o mesmo” já não funciona, a música agora já não é gravada nos dois lados de uma bolacha negra a rodar a trinta e três rotações por minuto.

Dizer que alguém “é um disco riscado” também não resulta, só os muito cotas é que sabem que esse alguém é um chato que está sempre a dizer o mesmo.

A mesma dificuldade se lembrarmos que a CIG tentou “usar o lápis azul” nos livrinhos azuis e cor-de-rosa da Porto Editora. É que cada vez menos gente sabe que os coronéis da censura salazarista cortavam os textos a azul.

A reconciliação autárquica*

* Análise às eleições autárquicas publicada hoje no Jornal do Centro


1. As nossas eleições autárquicas de domingo fizeram um enorme contraste com a insensatez na Catalunha. Por cá, o eleitorado, depois da zanga dos tempos da troika, parece reconciliado com a república.

Tendo como termo de comparação as autárquicas de 2013, desta vez foi mais gente às assembleias de voto e houve menos votos brancos e nulos. Resultaram destes fluxos virtuosos quase mais 282 mil votos nas candidaturas, tenham sido elas de partidos ou de independentes. Estas estabeleceram um novo recorde: já há 17 câmaras não ligadas a partidos.

Depois de terem trazido para a área do poder os partidos de protesto de esquerda, num arranjo governamental inédito, estes tempos geringôncicos estilhaçaram agora mais uma nossa tradição política: era costume a meio de um mandato governamental o eleitorado castigar o partido que estava de turno em S. Bento. Foi assim em 1982, 1989, 1993, 1997, 2001 e 2013. Desta vez, pelo contrário, o primeiro-ministro António Costa conseguiu o maior número de sempre de câmaras socialistas — 157. Quase que alcançava as 159 do apogeu do PSD, obtidas em 2001, aquando da maré laranja que levou à demissão do então primeiro-ministro António Guterres.

2. Olhemos agora um pouco para o distrito de Viseu. A sua hemorragia humana prossegue: em quatro anos perdeu 18,5 mil eleitores, o que levou à perda global de seis vereadores.

O PS distrital não acompanhou o crescimento do PS nacional. Perdeu Castro Daire, ganhou Lamego. Tinha onze câmaras, com onze ficou. Tinha setenta mandatos municipais, agora tem sessenta e seis. O líder federativo, António Borges, caminhou sem sair do sítio nestas autárquicas, apesar do contexto positivo que permitiu aos socialistas varrerem o país.

Já Pedro Alves, o líder distrital do PSD, fez pior ainda: andou para trás. É certo que ganhou Castro Daire aos socialistas mas perdeu para eles Lamego, e perdeu ainda S. João da Pesqueira e Oliveira de Frades para independentes. Oliveira de Frades é um caso de estudo: os laranjas, depois de duas eleições acima de 70 por cento, apesar de terem tido um adversário socialista que ficou abaixo de sete por cento, mesmo assim conseguiram perder aquele seu baluarte lafonense.

Paulo Robalo Ferreira, o novo presidente da câmara de Oliveira de Frades, eleito numa “barriga de aluguer” chamada Nós Cidadãos, foi a surpresa da noite. Ele e Manuel Cordeiro, novo presidente da câmara de S. João da Pesqueira, acabaram com décadas de exclusividade rosa-laranja.
Armando Mourisco

Na capital do distrito, António Almeida Henriques elegeu mais um vereador ao obter mais quase 3400 votos. Dois mil chegaram-lhe do CDS, os outros de algum eleitorado do dr. Ruas que, desta vez, não se absteve nem votou branco ou nulo. A candidata socialista, apesar das suas prestações confrangedoras no debate eleitoral, acabou por conseguir um resultado em linha com o de José Junqueiro (a sua queda é inferior a meio ponto percentual).

Resta referir os campeões destas autárquicas: Carlos Santiago (PSD) foi reeleito com 71,92% em Sernancelhe e Armando Mourisco (PS) arrecadou a medalha de ouro com uns superlativos 75,36% em Cinfães.