sábado, 7 de outubro de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#164)

Vive le français parlé au Québec!

Amanhã vou comprar umas calças vermelhas

Fotografia de Eric Wong


Amanhã vou comprar umas calças vermelhas
porque não tenho rigorosamente nada a perder:
contei, um a um, todos os degraus
sei quantas voltas dei à chave,
sublinhei as frases importantes,
aparei os cedros,
fechei em código toda a escrita.

Amanhã comprarei calças vermelhas
fixarei o calendário agrícola
afiarei as facas
ensaiarei um número
abrirei o livro na mesma página
descobrirei alguma pista.
Ana Paula Inácio


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Metáforas avariadas*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. As eleições autárquicas destaparam um elefante que estava escondido na sala de estar da geringonça — o acordo de incidência parlamentar que sustenta o governo é bom para o PS mas é mau para o PCP.

Este acaba de perder dez câmaras, nove delas directamente para os socialistas. Só restaram vinte e quatro municípios comunistas, é o menor número de sempre.

A propósito desta hecatombe, tem sido recordado o “abraço de urso” de François Mitterrand aos comunistas franceses, coligou-se com eles em 1981 e levou-os ao desaparecimento. O eleitorado comunista, depois, foi cair nas mãos da Frente Nacional do clã Le Pen, mas isso são contas de outro rosário.

Em vez da metáfora do “abraço de urso”, no Facebook descrevi o caso assim: “Jerónimo de Sousa foi a panela de barro e António Costa a panela de ferro.”

Daqui
Aludi a uma fábula de La Fontaine mas receio que o sentido dela escape às gerações mais novas. Aliás, cada vez é mais difícil encontrar uma metáfora que tenha um funcionamento universal, que seja entendida por toda a gente.

Lembrar que não são bons os chegamentos das panelas de barro às panelas de ferro tem pelo menos uma vantagem: imita muito bem a maneira simpática e expressiva como o líder comunista costuma descrever aos seus camaradas as encruzilhadas e as dificuldades da política.

2. Cada vez há mais metáforas avariadas. Por exemplo, dizer “vira o disco e toca o mesmo” já não funciona, a música agora já não é gravada nos dois lados de uma bolacha negra a rodar a trinta e três rotações por minuto.

Dizer que alguém “é um disco riscado” também não resulta, só os muito cotas é que sabem que esse alguém é um chato que está sempre a dizer o mesmo.

A mesma dificuldade se lembrarmos que a CIG tentou “usar o lápis azul” nos livrinhos azuis e cor-de-rosa da Porto Editora. É que cada vez menos gente sabe que os coronéis da censura salazarista cortavam os textos a azul.

A reconciliação autárquica*

* Análise às eleições autárquicas publicada hoje no Jornal do Centro


1. As nossas eleições autárquicas de domingo fizeram um enorme contraste com a insensatez na Catalunha. Por cá, o eleitorado, depois da zanga dos tempos da troika, parece reconciliado com a república.

Tendo como termo de comparação as autárquicas de 2013, desta vez foi mais gente às assembleias de voto e houve menos votos brancos e nulos. Resultaram destes fluxos virtuosos quase mais 282 mil votos nas candidaturas, tenham sido elas de partidos ou de independentes. Estas estabeleceram um novo recorde: já há 17 câmaras não ligadas a partidos.

Depois de terem trazido para a área do poder os partidos de protesto de esquerda, num arranjo governamental inédito, estes tempos geringôncicos estilhaçaram agora mais uma nossa tradição política: era costume a meio de um mandato governamental o eleitorado castigar o partido que estava de turno em S. Bento. Foi assim em 1982, 1989, 1993, 1997, 2001 e 2013. Desta vez, pelo contrário, o primeiro-ministro António Costa conseguiu o maior número de sempre de câmaras socialistas — 157. Quase que alcançava as 159 do apogeu do PSD, obtidas em 2001, aquando da maré laranja que levou à demissão do então primeiro-ministro António Guterres.

2. Olhemos agora um pouco para o distrito de Viseu. A sua hemorragia humana prossegue: em quatro anos perdeu 18,5 mil eleitores, o que levou à perda global de seis vereadores.

O PS distrital não acompanhou o crescimento do PS nacional. Perdeu Castro Daire, ganhou Lamego. Tinha onze câmaras, com onze ficou. Tinha setenta mandatos municipais, agora tem sessenta e seis. O líder federativo, António Borges, caminhou sem sair do sítio nestas autárquicas, apesar do contexto positivo que permitiu aos socialistas varrerem o país.

Já Pedro Alves, o líder distrital do PSD, fez pior ainda: andou para trás. É certo que ganhou Castro Daire aos socialistas mas perdeu para eles Lamego, e perdeu ainda S. João da Pesqueira e Oliveira de Frades para independentes. Oliveira de Frades é um caso de estudo: os laranjas, depois de duas eleições acima de 70 por cento, apesar de terem tido um adversário socialista que ficou abaixo de sete por cento, mesmo assim conseguiram perder aquele seu baluarte lafonense.

Paulo Robalo Ferreira, o novo presidente da câmara de Oliveira de Frades, eleito numa “barriga de aluguer” chamada Nós Cidadãos, foi a surpresa da noite. Ele e Manuel Cordeiro, novo presidente da câmara de S. João da Pesqueira, acabaram com décadas de exclusividade rosa-laranja.
Armando Mourisco

Na capital do distrito, António Almeida Henriques elegeu mais um vereador ao obter mais quase 3400 votos. Dois mil chegaram-lhe do CDS, os outros de algum eleitorado do dr. Ruas que, desta vez, não se absteve nem votou branco ou nulo. A candidata socialista, apesar das suas prestações confrangedoras no debate eleitoral, acabou por conseguir um resultado em linha com o de José Junqueiro (a sua queda é inferior a meio ponto percentual).

Resta referir os campeões destas autárquicas: Carlos Santiago (PSD) foi reeleito com 71,92% em Sernancelhe e Armando Mourisco (PS) arrecadou a medalha de ouro com uns superlativos 75,36% em Cinfães.

Desejos

Fotografia de Bea De Giacomo


Desejei-te pinheiro à beira-mar
para fixar o teu perfil exacto.

Desejei-te encerrada num retrato
para poder-te contemplar.

Desejei que tu fosses sombra e folhas
no limite sereno dessa praia.

E desejei: «Que nada me distraia
dos horizontes que tu olhas!»

Mas frágil e humano grão de areia
não me detive à tua sombra esguia.

(Insatisfeito, um corpo rodopia
na solidão que te rodeia.)
David Mourão-Ferreira


quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Blue

Fotografia Olho de Gato


Veré nuevos rostros
Veré nuevos días
Seré olvidado
Tendré recuerdos
Veré salir el sol cuando sale el sol
Veré caer la lluvia cuando llueve
Me pasearé sin asunto
De un lado a otro
Aburriré a medio mundo
Contando la misma historia
Me sentaré a escribir una carta
Que no me interesa enviar
O a mirar los niños
En los parques de juego.

Siempre llegaré al mismo puente
A mirar el mismo rio
Iré a ver películas tontas
Abriré los brazos para abrazar el vacío
Tomaré vino si me ofrecen vino
Tomaré agua si me ofrecen agua
Y me engañaré diciendo:
“vendrán nuevos rostros
Vendrán nuevos días”.
Jorge Teillier




quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Nunca te disse

Fotografia de Lois Greenfield

Habito as distâncias
vivo dentro das distâncias

as tuas mãos, o teu rosto,
a claridade, que pelos teus olhos…
o mundo, que pelos teus olhos…
povoam as minhas distâncias.
Sabias?

Não. Ninguém sabe de ninguém os mundos
que cada um habita.

Falo-te. Nunca te disse.
em longas falas digo-te coisas tão particulares
de cada um de nós
de tudo em volta.
Das pequenas misérias diárias
dos pequenos nadas
do livro que se leu.
Do que se sente
do que se pressente
do que dói.
Das coisas diárias…

Do reparar nas coisas. A beleza das coisas.
Da harmonia do silêncio. A harmonia.
Das raízes sinuosas do afecto os inexplicáveis elos.

Tudo fica entre mim.
É quasi perfeito como diálogo, o nosso.
Que me responderias?
Que me poderias responder melhor
do que aquilo que te atribuo como resposta?

Na minha distância espero-te
sabendo que não sabendo tu que te espero
nunca virás.
É isso essencialmente a distância.
Aí preparo em cada dia especiais momentos
para a tua inexplicável chegada.
Maria Keil


terça-feira, 3 de outubro de 2017

Sofás compridos

Fotografia de Norman Parkinson



como lobos em período de seca
crescemos por toda a parte
amamos a chuva
amamos o outono
um dia até pensamos
em enviar uma carta de agradecimento ao céu
com uma folha de outono como selo de correio
acreditávamos que as montanhas desapareceriam
os mares se dissipariam
apenas o amor seria eterno
de súbito separamo-nos
ela gostava de sofás compridos
e eu de longos navios
ela gostava de sussurrar e suspirar nos cafés
eu gostava de saltar e gritar nas ruas
e, apesar de tudo,
os meus braços vastos como o universo
estão à espera dela
Muhammad al-Maghut
Tradução Adalberto Alves


segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Parabéns, António Almeida Henriques (#2)

Presidente da Câmara Municipal de Viseu

(#1)

Myth

Francesca Woodman, Providence, Rhode Island, 1975-76


Long afterward, Oedipus, old and blinded, walked the
roads.          He smelled a familiar smell.          It was
the Sphinx.            Oedipus said, "I want to ask one question.
Why didn't I recognize my mother?"            "You gave the
wrong answer," said the Sphinx.            "But that was what
made everything possible," said Oedipus.            "No," she said.
"When I asked, What walks on four legs in the morning,
two at noon, and three in the evening, you answered,
Man.            You didn't say anything about woman."
"When you say Man," said Oedipus, "you include women
too.            Everyone knows that."            She said, "That's what
you think."
Muriel Rukeyser


domingo, 1 de outubro de 2017

Violência urbana (#30)


Ó S. Pedro, porquê tamanha judiação?

Daqui


Quando olhei a terra ardendo
Igual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação

Que braseiro, que fornalha
Nem um pé de plantação
Por falta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão

Por farta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão
(...)
Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira