terça-feira, 5 de setembro de 2017

Para que as coisas resultem

Para que as coisas resultem,
a nossa escuridão tem de ficar
bem clara.

Promete-me
que a tudo o que o amor possa ter de sujo
brindaremos com copos de cristal.
Ana Tecedeiro


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Tenho a pedir-vos que não reutilizeis nada

Fotografia Olho de Gato


Tenho a pedir-vos que não reutilizeis nada.
Esse edifício junto à praia, deixai-o
entregue às ruínas,
às folhas do milho,
ao ar salgado.

Que as crianças possam tropeçar nas lajes soltas
e no átrio ecoe, como uma pedreira,
o desejo de muitas mãos.

Deixai dormir as mariposas dentro de lâmpadas partidas
e as formigas engrossarem pelos cantos
como sal.

Não inventeis mais nada,
nem formas eloquentes de evitar que o bronze oxide.
Aceitai o suor do tempo.

Que algumas coisas apodreçam.
Que os elefantes atravessem a planície.
Que as veias rebentem
do esforço de permanecer em pé.

E que nem tudo se sustente como a rosa
se sustenta de florir.

Deixai, deixai os vários pisos incomunicáveis,
o desvão ser cortejado pelo giz dos aviões,
que a lua pouse ali aberto o crânio,
que lhe bata o sol.

Ainda são preciosos os templos
onde o pó seja gentil
e incensado
como os pés pela caruma dos pinhais.
Andreia C. Faria


domingo, 3 de setembro de 2017

What matters

Fotografia Olho de Gato

It may be that it doesn’t matter
who or what or why you love.
(Maybe it matters when, and for how long.)
Of course, what matters is how strong.

Maybe the forbidden, the unbelievable,
or what doesn’t respond—
what grabs all and gives nothing—
what is ghoul or ghost,
what proves you a fool,
shrinks you, shortens your life,
if you love it, it doesn’t matter.
Only the love matters—
the stubbornness, or the helplessness.

At a certain chemical instant
in early youth, love’s trigger is cocked.
Whatever moves into focus
behind the cross hairs, magnifies,
is marked for target, injected with
magic shot. But the target doesn’t matter.
May Swenson


Anos de bailado e natação




O bandido solitário tem no crime o coração
Traz do roubo o seu salário
Paga caro a paixão.

O bandido solitário tem uma bala no canhão
Vai metê-la no diabo
Já deitado no caixão.

O bandido solitário tem a fúria de um cão
E anda às voltas pelas ruas
Com a alma pela mão.

O bandido solitário só faz folga para foder,
Escolhe sempre as mais feias,
Gosta de beijar sem ver.

E a mulher que o quiser tem de ouvir esta canção,
E a mulher que o quiser,
Farto peito, grande língua, anos de bailado e natação.

Foi um dia apanhado a roubar uma espanhola,
Ficou tudo admirado
E tiraram-lhe a pistola.

E a pistola era tola, só servia para espirrar,
Carregando numa mola
Não servia para matar.

E a mulher que o quiser tem de ir para a prisão,
E a mulher que o quiser,
Farto peito, grande língua, anos de bailado e natação.

E a mulher que o quiser tem de ir para a prisão,
A mulher que o quiser,
Farto peito, grande língua, anos de bailado e natação.
Valter Hugo Mãe



sábado, 2 de setembro de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#159)

Vê lá como apontas o contacto dele/dela, depois não te queixes...

O amor em visita

Desenho de Michael James Bell aka Bael


Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar.
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas -
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele - imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.

Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina, sob os dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada
beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura, não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe a força
maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.


Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz
sobre as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.




Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te aprendessem minhas mãos, forma do vento
a cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros
do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho,
no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.
Herberto Helder


sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O debate*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. Chegámos a Setembro. De hoje a um mês são as autárquicas.


No debate dos candidatos à câmara de Viseu que foi para o ar esta semana na RTP, os candidatos da oposição mostraram-se muito preocupados com as empresas e com a derrama que elas pagam e nada preocupados com as pessoas e o IRS que a câmara lhes tira.

Nenhum deles foi capaz de explicar aos viseenses que António Almeida Henriques, ao acabar com os Serviços Municipalizados, está a abrir a porta para a privatização da água no futuro. Ao contrário do que a oposição pensa, não é o Tribunal de Contas que poderá parar esta asneira mas sim a política.

As candidatas do PS, do CDS e do PAN não conseguiram esconder a sua evidente impreparação; a candidata da CDU, Filomena Pires, é sólida, mas, quanto mais tempo gasta a elogiar o trabalho que fez na assembleia municipal, mais torna difícil de explicar a sua não recandidatura a esse órgão.

O candidato do bloco, Fernando Figueiredo, esteve mais eficaz na análise das actas da câmara do que nos números da Pordata sobre o concelho. Globalmente, foi o candidato da oposição que esteve melhor.

António Almeida Henriques ganhou o debate sem precisar de se esforçar muito. Bastou-lhe atirar as frustrações da ferrovia e da auto-estrada Viseu-Coimbra para cima da geringonça, exibir o gráfico da descida do desemprego e lembrar que 97% das deliberações da câmara foram aprovadas por unanimidade.

2. O ministro Eduardo Cabrita, através da comissão para a cidadania e igualdade de género, “recomendou à Porto Editora (...) que retire (...) duas publicações dos pontos de venda.” O entre-aspas é do comunicado oficial.

Pela primeira vez depois do 25 de Abril de 1974, um ministro meteu o bedelho no negócio dos livros. Agora há dois livros em Portugal que só podem ser arranjados na candonga.

Ainda não ouvi ninguém pedir a demissão da criatura. Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, espalhador de afectos, onde está o seu afecto pela liberdade?

A chantar m'er de co qu'eu no volria

Fotografia Olho de Gato

A chantar m'er de co qu'eu no volria,
Tant me rancur de lui cui sui amia
Car eu l'am mais que nulha ren que sia:
Vas lui no-m val Merces ni Cortezia
Ni ma beltatz ni mos pretz ni mos sens:

Qu'atressi-m sui enganad' e trahia
Com degr' esser, s'eu fos desavinens.
D'aissò-m conòrt, car anc non fi falhensa,
Amics, vas vos per nulha captenensa;
Ans vos am mais non fetz Seguìs Valensa,

E platz mi mout que eu d'amar vos vensa;
Lo meus amics, car ètz lo plus valens;
Mi faitz orgòlh en ditz et en parvensa
E si ètz francs vas totas autras gens.
Meravelh me com vòstre còrs s'orgòlha,

Amics, vas me, per qu'ai razon que-m dòlha;
Non es ges dreitz qu'autr'amors vos mi tòlha,
Per nulha ren que-us diga ni acòlha.
E membre vos quals fo-l comensamens
De nòstr'amor! Ja Dòmnedeus non vòlha,

Qu'en ma colpa sia-l departimens.
Proeza grans, qu'el vòstre còrs s'aizina
E lo rics prètz qu'avètz m'en ataïma;
Qu'una non sai, lonhdana ni vezina,
Si vòl amar, vas vos no si' aclina;

Mas vos, amics, ètz ben tant conoissens
Que ben devètz conòisser la plus fina:
E membre vos de nòstre covinens.
Valer mi deu mos prètz e mos paratges
E ma beutatz, e plus mos fins coratges;

Per qu'eu vos man, lai on es vòstr'estatges,
Esta chanson, que me sia messatges,
E vòlh saber, lo meus bèls amics gens,
Per que vos m'ètz tant fèrs ni tant salvatges;
No sai si s'es orgòlhs o mals talents.

Mas aitan plus vòlh li digas, messatges
Qu'en tròp d'orgòlh an gran dan maintas gens.


quinta-feira, 31 de agosto de 2017

IRS*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 31 de Agosto de 2007

1. O casal McCann está a preparar-se para regressar ao seu país, depois de mais de cem dias e cem noites de sofrimento no Algarve. E é, de certeza, à noite que a dor daqueles pais é mais excruciante.

Quando Gerry aparece na televisão de mão dada a Kate, e esta com o peluche de Maddie e toda a tristeza do mundo na cara, lembro-me sempre das páginas de “A Criança no Tempo”, obra-prima de Ian McEwan (Ed. Gradiva). Nesta novela de 1987, a personagem principal, Stephen Lewis, um escritor de livros juvenis, vê a sua vida despedaçada quando a sua filha de três anos desaparece num supermercado. Depois - passado o tempo em que a dor paralisa tudo - ele e a mulher cerram os dentes, respiram fundo, e o livro de McEwan acaba numa epifania.


Daqui
2. Nicolau Santos escreveu, num artigo publicado na última edição do Jornal do Centro, que metade das famílias portuguesas não pagam IRS porque, segundo números de 2005, “dois milhões de agregados familiares recebem em média menos de 4544 [euros] brutos anualmente”. E disse ainda que a fuga ao fisco “é cada vez menor e cada vez menos escandalosa”.

Em consequência, o Director Adjunto do Expresso defendeu mais dois escalões de IRS: um de 45% e outro de 50%. Esta ideia é popular já que as pessoas gostam de ver o chicote fiscal a zurzir em quem ganha muito. Contudo, não é uma boa ideia: o que precisamos é dum governo pequeno e moderado nos impostos.


*****

Sentado na esplanada do Irish Bar no centro histórico de Viseu, observo os carros que passam: nem um Mercedes, nem um Audi, nem um Bê-Éme. Jaguares? Nada. Descapotáveis? Népias!

É um fluxo contínuo de chassos velhos, com um valor comercial compatível com as declarações de IRS de 2005, a encherem de óxido de azoto os pulmões das pessoas.

Violência urbana (#29)


Mismatches

Fotografia de Sucheta Das

What need I be so forward with him
that calls not on me?
William Shakespeare
Henrique IV

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Ao (des)abandono

Fotografia de Wawi Navarroza


Sento-me no café com o meu caderno de apontamentos e as ideias a girar. Está imenso frio e com o piloto automático ligado, abano o pequeno pacote que retiro do pires e o açúcar salta para cima de mim e gira à minha volta. Um casal de pé ao balcão farta-se de rir da minha figura a sacudir o açúcar por todo o lado. Deve andar por aí um anjo que me fura os pacotes porque me quer ver elegante e bonita.
Maria João Lopes Fernandes