Tenho a pedir-vos que não reutilizeis nada. Esse edifício junto à praia, deixai-o entregue às ruínas, às folhas do milho, ao ar salgado. Que as crianças possam tropeçar nas lajes soltas e no átrio ecoe, como uma pedreira, o desejo de muitas mãos. Deixai dormir as mariposas dentro de lâmpadas partidas e as formigas engrossarem pelos cantos como sal. Não inventeis mais nada, nem formas eloquentes de evitar que o bronze oxide. Aceitai o suor do tempo. Que algumas coisas apodreçam. Que os elefantes atravessem a planície. Que as veias rebentem do esforço de permanecer em pé. E que nem tudo se sustente como a rosa se sustenta de florir. Deixai, deixai os vários pisos incomunicáveis, o desvão ser cortejado pelo giz dos aviões, que a lua pouse ali aberto o crânio, que lhe bata o sol. Ainda são preciosos os templos onde o pó seja gentil e incensado como os pés pela caruma dos pinhais.
Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra e seu arbusto de sangue. Com ela encantarei a noite. Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher. Seus ombros beijarei, a pedra pequena do sorriso de um momento. Mulher quase incriada, mas com a gravidade de dois seios, com o peso lúbrico e triste da boca. Seus ombros beijarei. Cantar? Longamente cantar. Uma mulher com quem beber e morrer. Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave o atravessar trespassada por um grito marítimo e o pão for invadido pelas ondas - seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes. Ele - imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento de alegria e de impudor. Seu corpo arderá para mim sobre um lençol mordido por flores com água. Em cada mulher existe uma morte silenciosa. E enquanto o dorso imagina, sob os dedos, os bordões da melodia, a morte sobe pelos dedos, navega o sangue, desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto. - Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito, mulher de pés no branco, transportadora da morte e da alegria. Dai-me uma mulher tão nova como a resina e o cheiro da terra. Com uma flecha em meu flanco, cantarei. E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue, cantarei seu sorriso ardendo, suas mamas de pura substância, a curva quente dos cabelos. Beberei sua boca, para depois cantar a morte e a alegria da morte. Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro pescoço de planta, onde uma chama comece a florir o espírito. À tona da sua face se moverão as águas, dentro da sua face estará a pedra da noite. - Então cantarei a exaltante alegria da morte. Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela despenhada de sua órbita viva. - Porém, tu sempre me incendeias. Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite imagem pungente com seu deus esmagado e ascendido. - Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura. Entontece meu hálito com a sombra, tua boca penetra a minha voz como a espada se perde no arco. E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo se desfibra - invento para ti a música, a loucura e o mar. Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso, a inspiração. E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa. Vou para ti com a beleza oculta, o corpo iluminado pelas luzes longas. Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos transfiguram-se, tuas mãos descobrem a sombra da minha face. Agarro tua cabeça áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou aquilo que se espera para as coisas, para o tempo - eu sou a beleza. Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza. Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti que me vem o fogo. Não há gesto ou verdade onde não dormissem tua noite e loucura, não há vindima ou água em que não estivesses pousando o silêncio criador. Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos originais. Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra a carne transcendente. E em ti principiam o mar e o mundo. Minha memória perde em sua espuma o sinal e a vinha. Plantas, bichos, águas cresceram como religião sobre a vida - e eu nisso demorei meu frágil instante. Porém teu silêncio de fogo e leite repõe a força maternal, e tudo circula entre teu sopro e teu amor. As coisas nascem de ti como as luas nascem dos campos fecundos, os instantes começam da tua oferenda como as guitarras tiram seu início da música nocturna. Mais inocente que as árvores, mais vasta que a pedra e a morte, a carne cresce em seu espírito cego e abstracto, tinge a aurora pobre, insiste de violência a imobilidade aquática. E os astros quebram-se em luz sobre as casas, a cidade arrebata-se, os bichos erguem seus olhos dementes, arde a madeira - para que tudo cante pelo teu poder fechado. Com minha face cheia de teu espanto e beleza, eu sei quanto és o íntimo pudor e a água inicial de outros sentidos. Começa o tempo onde a mulher começa, é sua carne que do minuto obscuro e morto se devolve à luz. Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras com uma imagem. Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade uma ideia de pedra e de brancura. És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves, que te alimentas de desejos puros. E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola, a sombra canta baixo. Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua, onde a beleza que transportas como um peso árduo se quebra em glória junto ao meu flanco martirizado e vivo. - Para consagração da noite erguerei um violino, beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada darei minha voz confundida com a tua. Oh teoria de instintos, dom de inocência, taça para beber junto à perturbada intimidade em que me acolhes. Começa o tempo na insuportável ternura com que te adivinho, o tempo onde a vária dor envolve o barro e a estrela, onde o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida ingénua e cara, o que pressente o coração engasta seu contorno de lume ao longe. Bom será o tempo, bom será o espírito, boa será nossa carne presa e morosa. - Começa o tempo onde se une a vida à nossa vida breve.
Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna salina, imagem fechada em sua força e pungência. E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado em torno das violas, a morte que não beijo, a erva incendiada que se derrama na íntima noite - o que se perde de ti, minha voz o renova num estilo de prata viva. Quando o fruto empolga um instante a eternidade inteira, eu estou no fruto como sol e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada matriz de sumo e vivo gosto. - E as aves morrem para nós, os luminosos cálices das nuvens florescem, a resina tinge a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã. E estás em mim como a flor na ideia e o livro no espaço triste. Se te aprendessem minhas mãos, forma do vento a cevada pura, de ti viriam cheias minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses em minha espuma, que frescura indecisa ficaria no meu sorriso? - No entanto és tu que te moverás na matéria da minha boca, e serás uma árvore dormindo e acordando onde existe o meu sangue. Beijar teus olhos será morrer pela esperança. Ver no aro de fogo de uma entrega tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus será criar-te para luz dos meus pulsos e instante do meu perpétuo instante. - Eu devo rasgar minha face para que a tua face se encha de um minuto sobrenatural, devo murmurar cada coisa do mundo até que sejas o incêndio da minha voz. As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso jovem da carne aspiram longamente a nossa vida. As sombras que rodeiam o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto seu bárbaro fulgor, o rosto divino impresso no lodo, a casa morta, a montanha inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo - aspiram longamente a nossa vida. Por isso é que estamos morrendo na boca um do outro. Por isso é que nos desfazemos no arco do verão, no pensamento da brisa, no sorriso, no peixe, no cubo, no linho, no mosto aberto - no amor mais terrível do que a vida. Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz o perfume da tua noite. Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua e branca das mulheres. Correm em mim o lacre e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca ao círculo de meu ardente pensamento. Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam sobre o teu sorriso imenso. Em cada espasmo eu morrerei contigo. E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente das urzes, um silêncio, uma palavra; traz da montanha um pássaro de resina, uma lua vermelha. Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos, casa de madeira do planalto, rios imaginados, espadas, danças, superstições, cânticos, coisas maravilhosas da noite. Ó meu amor, em cada espasmo eu morrerei contigo. De meu recente coração a vida inteira sobe, o povo renasce, o tempo ganha a alma. Meu desejo devora a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma de crepúsculos e crateras. Ó pensada corola de linho, mulher que a fome encanta pela noite equilibrada, imponderável - em cada espasmo eu morrerei contigo. E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro da tua entrega. Bichos inclinam-se para dentro do sono, levantam-se rosas respirando contra o ar. Tua voz canta o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com o lento desejo do teu corpo. Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo eu morrerei contigo.
1. Chegámos a Setembro. De hoje a um mês são as autárquicas.
No debate dos candidatos à câmara de Viseu que foi para o ar esta semana na RTP, os candidatos da oposição mostraram-se muito preocupados com as empresas e com a derrama que elas pagam e nada preocupados com as pessoas e o IRS que a câmara lhes tira. Nenhum deles foi capaz de explicar aos viseenses que António Almeida Henriques, ao acabar com os Serviços Municipalizados, está a abrir a porta para a privatização da água no futuro. Ao contrário do que a oposição pensa, não é o Tribunal de Contas que poderá parar esta asneira mas sim a política. As candidatas do PS, do CDS e do PAN não conseguiram esconder a sua evidente impreparação; a candidata da CDU, Filomena Pires, é sólida, mas, quanto mais tempo gasta a elogiar o trabalho que fez na assembleia municipal, mais torna difícil de explicar a sua não recandidatura a esse órgão. O candidato do bloco, Fernando Figueiredo, esteve mais eficaz na análise das actas da câmara do que nos números da Pordata sobre o concelho. Globalmente, foi o candidato da oposição que esteve melhor. António Almeida Henriques ganhou o debate sem precisar de se esforçar muito. Bastou-lhe atirar as frustrações da ferrovia e da auto-estrada Viseu-Coimbra para cima da geringonça, exibir o gráfico da descida do desemprego e lembrar que 97% das deliberações da câmara foram aprovadas por unanimidade. 2. O ministro Eduardo Cabrita, através da comissão para a cidadania e igualdade de género, “recomendou à Porto Editora (...) que retire (...) duas publicações dos pontos de venda.” O entre-aspas é do comunicado oficial. Pela primeira vez depois do 25 de Abril de 1974, um ministro meteu o bedelho no negócio dos livros. Agora há dois livros em Portugal que só podem ser arranjados na candonga. Ainda não ouvi ninguém pedir a demissão da criatura. Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, espalhador de afectos, onde está o seu afecto pela liberdade?
A chantar m'er de co qu'eu no volria, Tant me rancur de lui cui sui amia Car eu l'am mais que nulha ren que sia: Vas lui no-m val Merces ni Cortezia Ni ma beltatz ni mos pretz ni mos sens: Qu'atressi-m sui enganad' e trahia Com degr' esser, s'eu fos desavinens. D'aissò-m conòrt, car anc non fi falhensa, Amics, vas vos per nulha captenensa; Ans vos am mais non fetz Seguìs Valensa, E platz mi mout que eu d'amar vos vensa; Lo meus amics, car ètz lo plus valens; Mi faitz orgòlh en ditz et en parvensa E si ètz francs vas totas autras gens. Meravelh me com vòstre còrs s'orgòlha, Amics, vas me, per qu'ai razon que-m dòlha; Non es ges dreitz qu'autr'amors vos mi tòlha, Per nulha ren que-us diga ni acòlha. E membre vos quals fo-l comensamens De nòstr'amor! Ja Dòmnedeus non vòlha, Qu'en ma colpa sia-l departimens. Proeza grans, qu'el vòstre còrs s'aizina E lo rics prètz qu'avètz m'en ataïma; Qu'una non sai, lonhdana ni vezina, Si vòl amar, vas vos no si' aclina; Mas vos, amics, ètz ben tant conoissens Que ben devètz conòisser la plus fina: E membre vos de nòstre covinens. Valer mi deu mos prètz e mos paratges E ma beutatz, e plus mos fins coratges; Per qu'eu vos man, lai on es vòstr'estatges, Esta chanson, que me sia messatges, E vòlh saber, lo meus bèls amics gens, Per que vos m'ètz tant fèrs ni tant salvatges; No sai si s'es orgòlhs o mals talents. Mas aitan plus vòlh li digas, messatges Qu'en tròp d'orgòlh an gran dan maintas gens.
* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 31 de Agosto de 2007
1. O casal McCann está a preparar-se para regressar ao seu país, depois de mais de cem dias e cem noites de sofrimento no Algarve. E é, de certeza, à noite que a dor daqueles pais é mais excruciante. Quando Gerry aparece na televisão de mão dada a Kate, e esta com o peluche de Maddie e toda a tristeza do mundo na cara, lembro-me sempre das páginas de “A Criança no Tempo”, obra-prima de Ian McEwan (Ed. Gradiva). Nesta novela de 1987, a personagem principal, Stephen Lewis, um escritor de livros juvenis, vê a sua vida despedaçada quando a sua filha de três anos desaparece num supermercado. Depois - passado o tempo em que a dor paralisa tudo - ele e a mulher cerram os dentes, respiram fundo, e o livro de McEwan acaba numa epifania.
2. Nicolau Santos escreveu, num artigo publicado na última edição do Jornal do Centro, que metade das famílias portuguesas não pagam IRS porque, segundo números de 2005, “dois milhões de agregados familiares recebem em média menos de 4544 [euros] brutos anualmente”. E disse ainda que a fuga ao fisco “é cada vez menor e cada vez menos escandalosa”. Em consequência, o Director Adjunto do Expresso defendeu mais dois escalões de IRS: um de 45% e outro de 50%. Esta ideia é popular já que as pessoas gostam de ver o chicote fiscal a zurzir em quem ganha muito. Contudo, não é uma boa ideia: o que precisamos é dum governo pequeno e moderado nos impostos.
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Sentado na esplanada do Irish Bar no centro histórico de Viseu, observo os carros que passam: nem um Mercedes, nem um Audi, nem um Bê-Éme. Jaguares? Nada. Descapotáveis? Népias! É um fluxo contínuo de chassos velhos, com um valor comercial compatível com as declarações de IRS de 2005, a encherem de óxido de azoto os pulmões das pessoas.
Sento-me no café com o meu caderno de apontamentos e as ideias a girar. Está imenso frio e com o piloto automático ligado, abano o pequeno pacote que retiro do pires e o açúcar salta para cima de mim e gira à minha volta. Um casal de pé ao balcão farta-se de rir da minha figura a sacudir o açúcar por todo o lado. Deve andar por aí um anjo que me fura os pacotes porque me quer ver elegante e bonita.