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domingo, 22 de novembro de 2015

A seguir ao sadismo de Eanes, o de Cavaco?

Já fiz aqui em Junho um balanço da presidência de Cavaco Silva num texto intitulado “Poder Moderador”. Para quem não quiser clicar no título para rever aquele texto repito alguns dos argumentos.

Cavaco Silva esteve muito bem na crise “irrevogável” de Julho de 2013: “fritou” Paulo Portas, impediu que o país se tornasse numa nova Grécia e ainda deu uma mão a Seguro. Este, coitado, não a soube ou não pôde aproveitar, se tivesse sabido era hoje primeiro-ministro.

Contudo, tendo estado bem naquela crise de há dois anos, tem que se fazer um balanço negativo dos dois mandatos de Cavaco Silva porque falhou nas duas principais funções da presidência da república:

(i) não foi a “válvula de escape” do regime, nem no primeiro mandato durante o socratismo, nem no segundo durante o passismo;

(ii) falhou no segundo mandato como factor de unidade nacional por se ter deixado cegar pelo ódio, depois das campanhas sujas do poeta Alegre e do madeirense Coelho.

Chegados aqui, e para não alongar muito este post, vamos agora ao caso que Cavaco tem entre mãos — a indigitação ou não do derrotado líder socialista para primeiro-ministro.

Cavaco está a arrastar os pés. Não tenho a certeza se ele se está a divertir com o caso. Ele divertiu-se quando lançou os discursos amassadores de vento de Sampaio da Nóvoa num 10 de Junho (para os mais esquecidos, Cavaco é o criador de Nóvoa), ele divertiu-se a "fritar" o antigo director de “O Independente” (Cavaco, como se sabe, não perdoa nunca).

Pode haver agora um pouco de diversão: a nossa situação não é tão grave como em 2013 em que estávamos com um terço do plano de resgate por fazer e não havia ainda a ajuda do “quantitative easing” do BCE para o financiamento do estado. Agora a emergência não é tão grande e o sr. Centeno, com a sua elástica folha de cálculo, não alevantará as golas a Dijsselbloem, nem acachecolará Lagarde, nem fará tremer os joelhos da Merkel, para desgosto da sra dona Catarina Martins, que se julga a nova dona-disto-tudo", e para infelicidade dos “jovens turcos” socialistas que já se sonham sentados em BMWs pretos do estado, para alegria do blogue “Ladrões de Bicicletas”.

Indo ao ponto: Cavaco foi um mau presidente da república mas já tivemos um pior que ele — Ramalho Eanes que se entretinha a derrubar governos e até fundou um partido aproveitando o descontentamento dos eleitores durante a nossa segunda bancarrota.


Fotografia daqui

Nos dez anos de presidência de Ramalho Eanes houve nove governos. Quando eles não caíam no parlamento, era Eanes que os deitava abaixo.

Recordo uma comunicação especialmente sádica de Ramalho Eanes em que ele se alongou, parágrafo após parágrafo, a listar os convenientes e os inconvenientes de manter ou não um determinado governo, não me lembro de qual, foram tantos e já passaram tantos anos...

Lembro-me que foi um discurso cubista, em que Eanes se atardou a descrever todas as perspectivas do problema: “se por um lado o senhor primeiro-ministro é bom, por outro lado o senhor primeiro-ministro é mau”. Isto longos e longos minutos, de forma que o povo e as elites que o ouviam, naquele longos minutos se perguntavam, “afinal, o governo cai ou não cai?”, e Eanes, sádico, hitchcockiano, lá prosseguia “se por um lado blá blá blá... branco, por outro lado blá blá blá... preto”, e o povo a mexer-se nas cadeiras e os jantares a arrefecerem. Até que por fim e na última frase do último parágrafo — o grande Eanes lá disse: “decidi dissolver a assembleia da república e convocar eleições antecipadas”.

Não sei se Cavaco se está a divertir, repito. Talvez não esteja, pelo menos não está tanto como em 2013. Para a próxima semana ele vai fazer uma comunicação ao país. Na altura, a direita terá mais razões para tremer do que a esquerda. Tudo o que Cavaco disser ou fizer tem potencial para ser tóxico para a direita e dar cimento à esquerda.

Cavaco não vai fazer um discurso cubista nem uma eanice tipo “por um lado... branco, por outro lado... preto”. Mas tem matéria entre mãos para ser sádico: basta-lhe descrever com algum detalhe as fragilidades e inconsistências dos “papéis” assinados pelas esquerdas, que são de facto uma vergonha — ficam-se por uma lista de medidas para aumentar a despesa e diminuir a receita e não têm nem uma única palavra sobre as nossas responsabilidades na “Europa”.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Soares*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 11 de Novembro de 2005


Mário Soares,
 pintado por Júlio Pomar
1. Não tivemos ainda outro Presidente da República que chegasse aos calcanhares de Mário Soares. Ele nunca teve medo de tomar posição sobre os problemas nem nunca usou o tabu ou o silêncio para criar a imagem de “salvador da Pátria”.

Mário Soares podia estar em último nas sondagens que o apoiava na mesma. É um apoio sem reservas. Não gosto de cálculos tipo: “ele é o melhor colocado para…” Soares é homem de coragem inteira. Para mim, ele é o melhor. Ponto final.

2. A Lei de Limitação de Mandatos aprovada este ano só vai ter efeitos práticos em 2013 e aplica-se só a Presidentes da Câmara e Presidentes da Junta. Eu acho isto insuficiente. O princípio da renovação dos cargos políticos devia ser universal.

Os deputados da Assembleia da República deviam ter começado pela própria casa e aplicado a limitação de mandatos a si próprios. Não conheço instituição da nossa democracia que tenha mais dinossauros que o parlamento.

Se a limitação de mandatos dos deputados tivesse sido incluída logo na Constituição de 1976, Manuel Alegre não teria passado 30 anos enclausurado no parlamento. O resultado teria sido bom. Manuel Alegre teria agora uma biografia política mais interessante para apresentar.

3. Eduardo Prado Coelho, membro da Comissão Política de Manuel Alegre, escreveu no Público de 28 de Outubro que “(…) a candidatura [de Mário Soares] entusiasma alguns bonzos do PS (…)”.

É claro que Manuel Alegre é apoiado por gente respeitável. Embora nem toda, como se vê.

4. Portugal, 2008: Cavaco Silva, Presidente; Manuela Ferreira Leite, Primeira-ministra. Pode acontecer. Basta só a esquerda continuar a dar tiros nos pés.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Legislativas (#4)*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. Os costumes da república, os resultados e as declarações dos vencedores e perdedores na noite eleitoral fizeram-nos pensar que tudo ia começar pelo escrutínio no parlamento de um governo minoritário de Pedro Passos Coelho. O PSD tinha o maior número de deputados, a que iria somar ainda os deputados “emigrantes”. Quando fomos dormir a 4 de Outubro, ninguém duvidava que competia a Passos o primeiro movimento para tentar formar governo.

Entretanto, surpresa! A esquerda de protesto, que sempre preferiu ser virgem a sujar as mãos no poder, decidiu pela primeira vez arriscar a sua virtude nuns preliminares.


Editada a partir daqui
Repito a metáfora da última crónica: António Costa, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins estão numa sala de cinema, a pipocar do mesmo balde, enquanto vêem “Jules e Jim”. 

Se, quando acabarem de ver a obra-prima de Truffaut, aquilo resulta como no filme num “ménage-à-trois” ainda não se sabe.

O sr. Costa está feliz com os “rendez-vous” que vai fazendo à esquerda, até o “tête-à-tête” com Heloísa Apolónia o entusiasmou. Por sua vez, a direita, em pânico, tem medo que Cavaco lhe falhe, sonha com uma cisão entre os deputados socialistas, ameaça com a “rua”.

2. Como já aqui escrevi, numa noite eleitoral a voz mais importante não é a de quem ganha mas sim a de quem perde. É contra-intuitivo mas é assim nas democracias saudáveis. Quem perdeu cumprimenta o vencedor e, ao “conceder” a vitória, está a dizer que, embora não concorde com as políticas, concorda com as regras.

Nunca na nossa terceira república houve querela sobre regras ou sobre quem ganhou e quem perdeu umas eleições. Mas agora há: se ficar a governar a direita, a esquerda achará ilegítimo; se ficar a governar a esquerda, a direita achará ilegítimo.

Este sarilho enfraquece o próximo governo e vai levar a eleições antecipadas. Quanto mais elas demorarem mais o país vai apodrecer. Podem ser já na próxima primavera, professor Marcelo Rebelo de Sousa?

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Caracolices

Passaram 122 horas desde que fecharam as urnas no Açores.
Passaram mais de quatro dias.


Os deputados ainda não tomaram posse.
Ainda não temos governo.

Tudo lento.
Movido a petróleo.

Um dia destes, devagarinho, lá vão ver se o "Nós, Cidadãos" sempre abicha um dos tradicionais três deputados do PSD pela emigração ou se fica tudo na mesma como a lesma.

Perdão, tudo na mesma como o caracol.




Depois, devagarinho, lentamente, sem stress, depois de tudo carimbado no ritmo lento do tempo das mangas-de-alpaca, lá andarão as coisas.

Devagarinho.

Este rame-rame está tão interiorizado nas pessoas que elas até acham que assim é que é natural. Houve até quem tivesse criticado Cavaco por não ter ficado quieto à espera dos carimbos todos. Na Grécia, em dois dias depois dos votos têm governo novo. Aqui, é como o caracol.

Aqui está uma coisa que era bom que Passos e Costa acertassem — estamos numa fase de instabilidade governativa, há sérios riscos de queda de governo e ficarmos meses e meses até a vontade do povo fazer efeito.

Comprimam este calendário. Ponham a terceira república no século XXI.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Presidenciais*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 5 de Agosto de 2005


1. Tem-se falado pouco das eleições presidenciais de Janeiro próximo que, para o país, são bem mais importantes que as eleições autárquicas.

Tudo o que aconteceu à volta da deserção de Durão Barroso e do exercício de Pedro Santana Lopes como primeiro-ministro deu-nos suficientes provas da necessidade de termos em Belém um político de carácter e de força nas convicções.

A Presidência da República é uma válvula de escape dos bloqueios da nossa democracia e, quando necessário, deve fazer de fusível. Devia-o ter sido em Julho de 2004, aquando da fuga de Barroso para Bruxelas.

2. Na altura, Jorge Branco Sampaio deixou que o poder passasse monarquicamente de Durão Barroso para Pedro Santana Lopes.

A partir daí, tem tido um final de mandato presidencial penoso. A ida de Jorge Sampaio à Cova da Moura contactar com os imigrantes, em período de alguma tensão racial no país, ficou como uma marca boa num segundo mandato decepcionante.

3. Como resultado, percebeu-se que as Presidenciais de 2006 iriam ser influenciadas por este pecado original: as pessoas não iam querer em Belém um presidente fraco. Parecia estar lançado o tapete vermelho a Cavaco, com a sua imagem de homem duro.

Alertei para este perigo aqui, no Olho de Gato de 24 de Setembro, há quase um ano. A evolução política posterior, com a vitória de José Sócrates, não alterou o panorama. A nossa direita, esfrangalhada eleitoralmente pela catástrofe santanista, tenderá a ver as presidenciais como uma oportunidade de vendetta e de ajuste de contas. Para isso, com a candidatura de Cavaco, a direita tudo fará para crispar artificialmente o país.

4. José Sócrates fingiu que estava a hibernar na questão presidencial, especialmente a partir da altura em que o Engenheiro Guterres decidiu candidatar-se ao lugar de Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados. Mas Sócrates não estava a dormir. Viu-se na forma como o primeiro-ministro, em dois dias, pôs o PS a apoiar Mário Soares.

5. Mário Soares protestou contra a vergonha da Cimeira dos Açores; com Soares não havia GNR no Iraque; com ele, Pedro Santana Lopes tinha ficado Presidente da Câmara de Lisboa, e só isso.

O país sabe com o que pode contar com Mário Soares na Palácio de Belém. Soares esteve lá dez anos e as pessoas gostaram do seu desempenho presidencial.

6. Por sua vez, Cavaco Silva, como Presidente da República, é uma enormíssima incógnita. Como vai ele relacionar-se com os Governos?

Cavaco Silva, agora, vai ter que mostrar o que vale e vai ter que dar garantias aos portugueses que não é o Cavaco autoritário e populista da primeira metade dos anos 90.

Não está esquecido o Cavaco dos tabus, o Cavaco do “só leio cinco minutos de jornais por dia”, o Cavaco do “nunca me engano e raramente tenho dúvidas”.

Para começo de conversa, no mesmo dia em que anunciar a sua candidatura, é importante que Cavaco Silva se comprometa com os portugueses, caso venha a ser eleito, a viabilizar um referendo sobre a despenalização do aborto.


Fotografia daqui
7. Helen Thomas é uma lenda do jornalismo mundial. Trabalhou para a UPI, como jornalista acreditada na Casa Branca, mais de 40 anos.

Em desabafo recente, disse ao seu amigo Albert Eisele, editor do jornal “The Hill”, de Washington: “No dia em que Dick Cheney se candidatar para presidente, eu mato-me. Só nos faltava mais um mentiroso…”

Vai daí, Eisele publicou o comentário de Helen Thomas na sua coluna. Com amigos assim…

8. Na Galeria da Acert, em Tondela, até 30 de Setembro, está uma exposição de desenhos e pinturas de Luís Calheiros. O caso é raro. A última exposição individual do pintor foi em 1988.

A minúcia da arte de Luís Calheiros e o seu sentido de humor merecem uma visita dos leitores. Vão sair da sala, de certeza, com um sorriso nos lábios.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Tiro ao Cavaco ou a verdade de um não Presidente?* — por JB

* Comentário de JB ao post "Cavacofobias"


1. Memória:

Em 1988, o então primeiro-ministro Cavaco Silva recusou atribuir a Salgueiro Maia uma pensão, que tinha sido pedida pela viúva de Salgueiro Maia, pelos "serviços excepcionais e relevantes prestados ao país" devido à participação no 25 de Abril, por Salgueiro Maia.
A recusa ou a falta de resposta ao pedido só vieram a público três anos depois quando Cavaco Silva concordou com a atribuição de pensões a dois ex-inspectores da PIDE, um dos quais estivera envolvido nos disparos sobre a multidão concentrada à porta da sede daquela polícia política.

Só em 1995, já com António Guterres como primeiro-ministro, Salgueiro Maia viria a receber uma "pensão de sangue".

No entanto, em 2009, no âmbito das comemorações do 10 de Junho, que decorreram na cidade de Santarém, o Presidente da República depositou uma coroa de flores junto à estátua de Salgueiro Maia. 
Uma tentativa de “branquear” a atitude de vinte anos antes…

Sobre a falta de Cavaco Silva, ao funeral de José Saramago, o conselheiro de Estado Marcelo Rebelo de Sousa desvalorizou a ausência afirmando: «Está presente espiritualmente».

Já em 2013 Cavaco Silva destacou os efeitos positivos da aprovação da sétima avaliação da Troika para Portugal para declarar que se tratou de uma “inspiração de Nossa Senhora de Fátima”.

Carlos do Carmo? Quem é? Um morador no largo do Carmo, não é?
E ainda há mais: etc…etc….etc….

Um Presidente que Abril proporcionou e nunca um cravo vermelho colocou na lapela.

De Cavaco não teremos saudades. Um mau Presidente da República!


2. Realidade:

Uma Assembleia da República sem ideais, um Presidente da República que nos arremeda - o retrato da nossa condição actual.

Está hoje tudo mais claro que nunca : a Democracia é "o conflito, a dialética", como afirmou Eanes. O general Eanes foi o único que fez mais valia teórica, porque ainda gosta de estudar. Foi bom recordar que a democracia é essencialmente crise, como é típico de um Estado que quer ser racionalidade e, portanto, tem de gerir as crises de modo dinâmico.

3. O Futuro:

“Precisamos de um Presidente da República que não venha a ser presidente de outro partido qualquer. Estamos a acabar o segundo mandato de um Presidente que tem sido uma lástima, um desastre, é presidente de uma facção, acabou com aquilo que Eanes, Soares e Sampaio protagonizaram. Uma vez eleitos foram presidentes de todos os portugueses. Não podemos agora correr o risco de ter um presidente que seja o presidente de outro partido qualquer. Agora é do PSD, a seguir é do PS. Não pode ser! Temos de ter um Presidente que seja capaz de ser o Presidente de todos os portugueses.” 
Vasco Lourenço
I online, 27 de Abril de 15

Um novo ciclo para Portugal se aproxima e nós temos a obrigação de lutar por ele.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Cavacofobias

— 1 —

Um dos exercícios mais repetidos no nosso espaço público é o "tiro-ao-cavaco".  A seguir a estas declarações do início de 2012...




... o presidente da república nunca mais recuperou popularidade e passou a ser um "saco de boxe".  Até lhe "malham" pelos tropeções na gramática e pelos problemas de saúde. 

Como não gosto de alcateias, nunca mais o critiquei. É de evitar "bater" em quem está por baixo.

Aliás, desde então, Cavaco Silva só tem sido confrontado com coisas de intendência, nada de muito relevante. Todo o bruááá noticioso e comentadeiro à volta do que o PR tem feito não é mais do que espuma em cima de espuma. 

A única situação não espumosa foi a crise da "demissão irrevogável" de Paulo Portas, em Julho de 2013, que ele resolveu de uma forma exemplar e a merecer elogio. Cavaco Silva tentou até dar a mão a Seguro mas aquilo era demasiada areia para a fraquíssima camioneta do então líder do PS.

Depois deste longo intróito, que ainda não é o balanço dos dois mandatos do presidente da república, devo confessar que também já sofri de "cavacofobia". 

O texto de 2002 que se segue — com o título UMA CAVACADA — que penso ter publicado no Diário Regional de Viseu* (agora Diário de Viseu), é um exemplo de "cavacofobia", coisa que agora é uma "epidemia", mas então não era. 

De qualquer forma, estou curado dessa "maleita" e o texto que se segue corresponde só a um achado quase "arqueológico" no meu computador.



— 2 — 

UMA CAVACADA



“Como é que nos vamos livrar deles? Reformá-los não resolve porque deixam de descontar para a Caixa Geral de Aposentações. Só nos resta esperar que acabem por morrer…”
Cavaco Silva, 
Porto, 27 de Fevereiro de 2002


Este “deles”, de que fala Cavaco Silva, são os funcionários públicos.
Falou assim. Desta forma. Nem mais nem menos.

O doutor Cavaco Silva está preocupado com os funcionários públicos.
Quer-se livrar deles.

São demais. Muitos. Uns chatos. Uma maçada.
Estragam as contas públicas, embora descontem para a Caixa Geral de Aposentações.

São um alerta rápido da Comunidade Europeia, são o fim do Aeroporto da Ota, são a suspensão do Instituto Universitário de Viseu**, são uma incineradora dedicada em qualquer ponto do país à excepção de Coimbra ou Setúbal, são uma descida dos Impostos para os mais ricos.
Em suma: os funcionários públicos são uma página menos brilhante numa qualquer autobiografia política.

E depois, douto doutor Cavaco Silva, há uma outra angústia à volta deste problema: qual será a esperança de vida dos funcionários públicos?
Para não falar das funcionárias.
Será que ultrapassam - pela direita e pela esquerda, naturalmente - a esperança média de vida dos portugueses?

Será que Portugal vai precisar de privatizar a Caixa Geral de Depósitos para lhes pagar?
Será necessário abrir um off-shore nas Berlengas? Claro que seria um off-shore com poucos benefícios fiscais, e depois da necessária autorização do Dr. João Jardim da Madeira, esse expoente social-democrata da governação sem défice.

Como resolver este problema magno tão magnificamente identificado por V. Exa.?
Chegará um cartaz com uma criancinha rabina a fazer uma pergunta inteligente: 
“Vovó, porque é que os funcionários públicos não gostam da eutanásia?
Ou outro cartaz, de 8 metros por 3, com um guri, de olho vivo, perguntando: 
“Mamãiee, o Cavaco e o Durão não eram do mesmo governo?”

Assim como assim, e apesar de tudo, votos de longa vida a V. Exa., doutor Cavaco Silva.
Longa vida mesmo depois de ter deixado de descontar para a Caixa Geral de Aposentações.

* Escrevi-o para o DRV, mas não acho o recorte, pelo que não sei a data exacta da publicação.

** O Instituto Universitário de Viseu foi criado na fase final do governo de António Guterres mas não avançou por oposição expressa do primeiro-ministro seguinte, Durão Barroso.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Sete anos*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Um pequeno factóide: depois da sobredose "revolucionária" dos media por alturas do 25 de Abril e do 1º de Maio, as sondagens costumam detectar uma ligeira viragem do eleitorado à direita. Será que este ano se repete?

2. Nenhum dos candidatos presidenciais folclóricos que já apareceram parece capaz de mais do que os cinco minutos de fama já obtidos.

Já tanto Paulo Morais como Henrique Neto vão continuar a ser ouvidos mesmo que não cheguem a reunir as sete mil e quinhentas assinaturas. Eles são dois homens estimáveis que têm denunciado a corrupção e os podres da terceira república. Estranhamente, nem um nem outro põe em causa o equilíbrio constitucional do regime. Paulo Morais declarou até que o PR não precisa de mais poderes.


Sondagem feita a um povo sábio
Artigo completo aqui
Será mesmo assim? Recordemos: todos os quatro presidentes — Eanes, Soares, Sampaio e Cavaco — tiveram dois mandatos. Os presidentes foram sempre reeleitos e isso não foi por acaso. É que, nos primeiros cinco anos, todos eles foram umas nulidades só preocupadas com uma coisa: a sua reeleição. Recordo os dois casos mais danosos — o presidente Soares aplanou a vida ao primeiro-ministro Cavaco até 1991 e o presidente Cavaco aplanou a vida ao primeiro-ministro Sócrates até 2011.

É por isso que seria desejável um mandato presidencial não renovável de sete anos, para evitar os decorativos cinco anos iniciais da função presidencial.

3. A chegada do "2020", o dinheiro da "Europa", fez regressar o sonho húmido preferido dos nossos políticos — as infra-estruturas.

Ele é a auto-estrada de Viseu para o sul com geografias cada vez mais estranhas. Ele é um comboio novo-em-trinque na estação de Viseu. Ele é um comboio recauchutado na estação de Mangualde. Ele é o PSD — o exacto mesmo que faliu a câmara de Santa Comba Dão — a querer de novo um pouca-terra-pouca-terra no ramal do Dão, com maquinista, pica e passageiros a dizerem adeus-adeus às licras da ecopista.

Não se aprendeu nada com a bancarrota de 2011.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

O sr. Silva da UGT — um texto de JB *

* Comentário de JB ao post "Do tempo"


“Deus nos pede do tempo estreita conta!
É forçoso dar conta a Deus do tempo.”
Frei Castelo Branco


Este post tem duas descobertas muito gratificantes: o fotógrafo e o poeta.
No meu Liceu do "fassismo" não me recordo de ter falado em Frei Castelo Branco; nas boas e estimulantes aulas de Literatura, onde efectivamente líamos, comentávamos e estudávamos as obras literárias e não os resumos, os resumos dos blogs ou os resumos dos explicadores (e já agora uma nota de rodapé: devia haver na cidade um ranking de escolas secundárias para explicadores. Talvez isso explicasse muita coisa…).

Mas quando temos um Presidente que não presta homenagem a Saramago ou não reconhece o mérito a Carlos do Carmo, o que esperar? Um fadinho da Cátia Guerreiro ou uma “obra prima” da Joana Vasconcelos, óbvio!

Imagem de Paulo Araújo,
in Dinheiro Vivo
Mas vem este já longo e viperino intróito a propósito de uma entrevista dada, na edição 6ª feira, ao semanário SOL pelo secretário geral da UGT, um tal de “douto” Carlos Silva, que vale a pena ler. No mesmo dia em que o poderoso sindicato alemão IGMetal apoia a luta do governo grego e dos trabalhadores gregos o secretário geral da UGT demonstra a sua pequenez e a sua mediocridade.

Frases como: "Com o salário mínimo à grega metade das empresas fecham" ou "Paulo Portas tem uma postura mais positiva com o FMI do que o Syriza", são um pequeno exemplo de um “líder” dos trabalhadores com pensamento no mínimo retrógrado. Ao defender como positiva a acção do governo e que a relação do PS deve ser com a direita, a UGT vai por um caminho que só pode terminar com o regresso deste senhor ao BES… (Novo Banco).

É que quando chegamos a isto está tudo dito. Nem vale a pena fazer comentários. A entrevista é "exemplar ".

No fim um conselho ao Sr. Silva, dado por Frei Castelo Branco:
“Ó vós que tendes tempo e tendes conta,
Não o gasteis, sem conta, em passa-tempo”

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

PRs e ex-PRs *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro 


1. O sucesso económico de regimes como a China — que juntam repressão política e controle da economia com as ferramentas do capitalismo global — veio tornar a luta entre a democracia e o autoritarismo mais intrincada ainda.

Quanto é que os homens livres estão dispostos a pagar pelo Estado? Onde é melhor a propriedade pública? Onde é melhor a privada? Será um problema de dimensão das empresas? As grandes empresas põem três problemas, diz-nos o economista Ha-Joon Chang:

(i) "o problema do agente principal": os gestores têm muito mais informação que os "donos" da empresa — seja o povo nas empresas públicas, sejam os accionistas nas privadas; e os gestores fazem a “narrativa” que mais lhes convém;

(ii) "o problema da boleia": um cidadão/accionista, para escrutinar uma mega-empresa, gasta demasiada energia para os benefícios que tira; por isso, tende a aproveitar a boleia de quem se dá a esse trabalho; esta boleia costuma correr mal: basta ver a venalidade da imprensa económica;

(iii) "o problema do orçamento ilimitado", o mais fácil de explicar dos três: gestor público faz trampa com swaps?, não tem problema, o Zé Contribuinte paga; o sr. Bava meteu 900 milhões privadíssimos nas unhas do privadíssimo espírito santo?, uma chusma ilustre tentou convencer-nos de que não havia problema, que o Zé Contribuinte pagava.



Fotografia daqui
2. Ramalho Eanes foi um péssimo presidente da república: foi árbitro e jogador ao mesmo tempo; fabricou, a partir de Belém, um partido. Depois, como ex-presidente tem sido irrepreensível: fala pouco e é frugal.

Mário Soares foi um excelente PR mas está a ser um péssimo ex-PR. Agora, quando abre a boca, só sai asneira. O convívio dele com o desbocado Hugo Chavez fez-lhe muito mal.

Já Jorge Branco Sampaio, que foi muito emocional quando era PR, continua o mesmo como ex-PR. Está sempre “preocupado” ou “apreensivo” com qualquer coisa no país.

Longa e boa vida aos três.

sábado, 22 de novembro de 2014

Presidenciais 2016



Candidatos fortes da direita às presidenciais/2016: 
Marcelo Rebelo de Sousa e Rui Rio 

Candidato folclórico da direita às presidenciais/2016: 
Pedro Santana Lopes

Candidato tóxico da direita às presidenciais/2016: 
Durão Barroso 

--------------

Candidato forte da esquerda às presidenciais/2016:
António Guterres 

Candidato folclórico da esquerda às presidenciais/2016: 
António Sampaio da Nóvoa

Candidatos tóxicos da esquerda às presidenciais/2016: 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Figuras de 2013*

* As escolhas para figuras de 2013 não deviam ficar só para os leitores do blogue e foram também partilhadas hoje com os leitores do Jornal do Centro. Os textos na edição em papel têm algumas diferenças em relações aos textos no blogue.


Figura internacional do ano — Edward Snowden
Os estados em geral e os Estados Unidos em particular têm aproveitado o pretexto da “guerra contra o terrorismo” para calcarem o direito das pessoas à privacidade. O mundo só acordou verdadeiramente para este problema em 2013. Graças a Edward Snowden.


Figura nacional do ano — Anónimo de Belém 
Escolhi o conselheiro da presidência da república autor da estratégia que revogou a demissão “irrevogável” de Paulo Portas. Cavaco Silva, muito bem aconselhado, pôs o ónus da crise política de Julho nos partidos, crise que custou ao país 2,3 mil milhões de euros. Pelo menos até à troika se ir embora, vai haver juízo.

Figura local do ano — Abel Encarnação
Abel Encarnação foi o 28º nome da lista socialista à freguesia de Viseu, muito longe dos lugares elegíveis. Contudo, se formos ao Google e pesquisarmos Abel Encarnação e António Almeida Henriques, o primeiro obtém bem mais do triplo dos resultados do presidente da câmara. É um sinal destes tempos de comunicação viral e redes sociais.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

As figuras de 2013 — escolha Olho de Gato

Figura internacional do ano — Edward Snowden
Só homens como ele poderão evitar a destruição dos estados liberais, onde, com o pretexto da "guerra contra o terrorismo" e usando sem freios nem escrutínio os avanços tecnológicos, os governos estão a destruir o direito das pessoas à privacidade.



Figura nacional do ano — Anónimo de Belém
Anónimo porque dificilmente será tornado público o nome do conselheiro de Belém que convenceu o presidente da república Cavaco Silva a revogar a demissão irrevogável de Paulo Portas com o mais importante discurso da sua carreira política.




Figura local do ano — Abel Encarnação 
A escolha do meu amigo Abel para figura local do ano é a ilustração do impacto da comunicação viral impulsionada pelo formigueiro das redes sociais. 
Para a decisão final, tinham ficado dois nomes. Uma pesquisa no Google acabou com as dúvidas:




quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Cenários*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 18 de Dezembro de 2009



Imagem daqui
No próximo ano, o governo vai aprovar o orçamento com a direita e o casamento homossexual com a esquerda. O resto, que para aí se fala, é treta.

Faltam treze meses para as presidenciais.

Tudo indica que Cavaco Silva se vai recandidatar e vai ter o apoio de toda a direita. Cavaco tem feito um mau mandato e pode ser o primeiro presidente não reconduzido pelo voto dos portugueses. É derrotável pela esquerda, embora não seja fácil.

Neste tipo de eleições, na primeira volta escolhe-se e na segunda rejeita-se. Explico: na primeira volta o eleitor escolhe o candidato mais do seu agrado e na segunda volta rejeita o finalista que mais lhe desagrada (na hipótese, bem entendido, do seu favorito ter ficado pelo caminho).

O pior que pode fazer a esquerda é ir com um candidato único. Há três partidos à esquerda e cada um deve apresentar o seu candidato. Depois, o melhor deles disputa a segunda volta com Cavaco Silva.

O país está metido num sarilho. É necessária clareza na política. O PS não pode ir às presidenciais de braço dado com a agenda estéril da extrema-esquerda.

Eis os candidatos ideais e mais fortes para umas presidenciais clarificadoras:
- à direita, (i) Cavaco Silva;
- à esquerda: (ii) Carvalho da Silva, apoiado pelo PCP; (iii) Manuel Alegre, apoiado pelo bloco de esquerda; e (iv) Jaime Gama, apoiado pelo PS (é sabido que Guterres não deixa a ONU e Vitorino não desgruda dos negócios).

Parece certo o apoio do bloco a Manuel Alegre.

O PCP receia a independência de Manuel Carvalho da Silva e, por isso, vai preferir um geronte qualquer do comité central.

Por sua vez, o PS se se misturar numa campanha alegre com o bloco, vai perder o eleitorado central, e oferecer numa bandeja o segundo mandato a Cavaco Silva.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Eleições 2009 (VII) *

* Este texto foi publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 2 de Outubro de 2009 (ano em que houve três eleições)


1. Resultado das eleições legislativas de domingo: o CDS ficou com mais nove deputados, o PSD arrecadou mais oito (contabilizo dois da emigração), o BE também elegeu mais oito e a CDU conseguiu mais um deputado. Por sua vez, o PS ganhou as eleições.

Apesar desta felicidade universal, no domingo não houve festejos. Em lado nenhum. E no PSD ouve-se o afiar das facas.

A situação não está para festas. Desde 2001, Portugal não consegue sair do túnel em que caiu. Túnel que ficou ainda mais escuro e insalubre com a crise mundial.

Precisamos de esperança. Não se pode deixar apagar a luz que tremeluz, fraquinha, ao fundo do túnel.

2. A nossa constituição atribui o poder moderador ao presidente da república e o poder executivo ao governo. Estes dois poderes, ambos legitimados pelo voto, têm uma natureza conflitual e essa conflitualidade é boa se servir de válvula de escape para as tensões sociais.

Durante a chamada “cooperação institucional” entre Cavaco e Sócrates tivemos presidente da república a menos. Cavaco não deu cavaco às “vítimas” das reformas e isso deslaçou a sociedade e não ajudou ninguém. Nem o governo.


Fotografia daqui


Passou-se agora para uma fase cheia de arestas entre o presidente e o governo. Tudo indica que vamos passar a ter presidente da república a mais.

Enfim… Faltam quinze meses para as próximas presidenciais. 

Quer António Guterres quer Jaime Gama são capazes de derrotar Cavaco Silva e fazerem uma presidência muito melhor do que ele.

E quanto a Manuel Alegre que se encontra na pole position da corrida presidencial? Podia ele ser o candidato do PS?Todos os dias oiço a resposta a essa pergunta na televisão: “poder podia, mas não era a mesma coisa."

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Fernando Ruas e Ricardo Pais

Ordem do Mérito — Grã-Cruz

Ordem do Infante D. Henrique — Grande-Oficial


Fernando Ruas e Ricardo Pais foram condecorados hoje, em Elvas, pelo Presidente da Republica.

A coincidência tem a sua ironia.

Parabéns aos dois.

sábado, 6 de abril de 2013

Um Mario Monti do professor Cavaco?

Escrevo este post num momento em que ainda não se sabe quando o presidente da república recebe o primeiro-ministro que acaba de lhe pedir uma reunião urgente.

 Muitas vezes se escreveu aqui sobre os bloqueios institucionais da terceira república.  

Em Portugal, para se resolver uma crise política, demora-se uma eternidade e os partidos raramente estabelecem compromissos.
 
Como Pedro Passos Coelho e António José Seguro não fizeram o que deviam ter feito em matéria de revisão constitucional, uma eleições antecipadas deixam Portugal meio ano sem governo.

Deixam Portugal sem governo e sem dinheiro — não esquecer que a Troika ainda não libertou a sétima tranche, ficou à espera da deliberação do Tribunal Constitucional.

Que poderá fazer agora Cavaco? Reconvidar Pedro Passos Coelho se ele apresentar a sua demissão? Fazer um convite parecido com o que fez Giorgio Napolitano em 12 de Novembro de 2011 quando a Itália ficou bloqueada politicamente?

Acrescenta-se uma coisa básica: o acórdão de ontem não vai levar a um aumento contracíclico de consumo por parte dos funcionários e aposentados.

As pessoas são sensatas e já interiorizaram a necessidade de diminuir o consumo. 

Os políticos é que ainda não interiorizaram isso.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Porreiro, pá!

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro
    
     Mário Soares contou a Joaquim Vieira o que aconteceu quando, em 24 de Janeiro de 2011, no dia a seguir às últimas presidenciais, foi chamado a S. Bento por Sócrates:
     «Eu chego e o gajo estava radiante, bem disposto. E a primeira coisa que me diz foi: “Ó Mário, acabámos com aquele [insulto].”
     E eu disse: “Eh pá, não gosto disso, palavra que não gosto disso, não é bonito, não diga isso.”
     “Eh pá, mas ele estava na merda, eu nunca o vi assim. (…) Mas agora isto mudou tudo, vou fazer uma grande aproximação aos gajos do PSD”.
     E eu fico a olhar para o gajo e digo: “Ó Sócrates, eu acho que você tem grandes méritos. Mas não pode continuar a fazer buracos (...)”»
     Onde está “insulto” a Manuel Alegre, também se pode ler “piiiiii!”. Este excerto do livro “Mário Soares, Uma Vida” mostra um momento de sintonia emocional entre José Sócrates e Cavaco Silva. Cavaco adorou que Alegre tivesse tido menos de 20% dos votos. Sócrates também.
     Mas há mais sintonias entre Sócrates e o actual inquilino do Palácio de Belém: (i) Cavaco e Sócrates foram os únicos primeiros-ministros da terceira república com maiorias absolutas monopartidárias, (ii) foram ambos autoritários e sem capacidade de diálogo e (iii) foram ambos objecto de culto de personalidade nos seus partidos.
     O regresso de Sócrates, em plena quaresma, foi o pré-lançamento da sua candidatura às presidenciais de 2016. Assim como aqui, com muita antecedência, se explicou que a candidatura de Manuel Alegre era a melhor maneira da esquerda facilitar a vida a Cavaco Silva, o mesmo se faz agora a três anos das próximas presidenciais: a candidatura do principal responsável pela bancarrota portuguesa de 2011 facilita a vida à direita.
     Em Bruxelas, Durão Barroso esfrega as mãos de contente. 
Há-de querer, depois, retribuir com gratidão o célebre abraço e o célebre «porreiro, pá!»

quinta-feira, 21 de março de 2013

Barroso

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

1. Foi há dez anos, em 16 de Março de 2003, que Bush, Blair, Aznar e Barroso fizeram a Cimeira das Lajes. Três dias depois começou a guerra do Iraque, um erro estratégico que tirou força ao ocidente, um erro moral que devia levar o sr. Blair e o sr. Bush ao banco dos réus.

Dos quatro figurões das Lajes, já só Barroso é que está no activo. Aquele dia foi uma tragédia para o mundo mas foi um jackpot para ele que, a seguir, foi colocado por Tony Blair (essa nefasta criatura) a presidir à “Europa”.

Já se pode fazer um balanço da qualidade do trabalho de Durão Barroso em Bruxelas: com ele, as instituições comunitárias apagaram-se e os estados grandes aproveitaram aquele apagamento para prevaleceram sobre os pequenos. Isto é: a União Europeia andou para trás.

Ultimamente, Durão Barroso tem falado muito de Portugal e isso é sinal que o servidor de cafés nas Lajes quer ir viver para o Palácio de Belém em 2016 (isto se Cavaco não resignar antes). Ora, Barroso foi um mau primeiro-ministro, é um mau presidente da “Europa” e será um mau presidente da república.

Para que tal não aconteça, era bom que a esquerda não desse os mesmos tiros nos pés que deu com o alegrismo, essa invenção de Carlos César e Francisco Louçã que valeu menos de 20% dos votos.

2. O recente “Manifesto pela Democratização do Regime” merece leitura atenta. Propõe primárias abertas nos partidos para todos os cargos políticos, votações em nomes e não em listas e transparência nos dinheiros das campanhas.

Entre os cinco autores do texto, um homem pouco conhecido mas admirável: Ventura Leite, ex-deputado socialista, afastado em 2009 pelo socratismo por causa das suas posições anti-corrupção.

Este manifesto foi muito mediatizado mas é estéril: os actuais cinco partidos só mexem a sério neste pântano político quando virem o eleitorado a fugir para partidos novos.