A woman came down the hill from her farm with her two little children to have her neighbor cut her long, dazzling, strawberry blonde hair. The center of things was the round oaken kitchen table. She sat on a stool with a sheet up to her neck while the two year old boy nestled between her legs and the baby girl slept on a friend's shoulder. The neighbor began to cut a decade's growth of tresses, passing the snips to her daughter who laid them out on the morning paper. The woman consulted her mirror from time to time, smiling with a mild terror. When the neighbor was finished the woman beamed with her new short haircut. I feel like someone else, she said, gathering up her children, whereupon the parcel of severed hair rose from the table and followed them up the hill.
A mulher da loja em frente traz consigo algo das antigas deusas. Das possuídas sibilas. E, com seu olhar flamejante senta-se num banco esconso, como quem ordena o mundo: quinquilharia, pedaços pintados de moluscos, lascas envernizadas de crustáceos. Depois. Bem... depois reforça o ódio que nos tem com epigramas mal amanhados num enegrecido papel de embrulho. Reforça a perigosidade dos poetas sempre a infectar gentes, ilhas, rotas ancestrais. E que o bem houvera sim, na ditadura dos generais, onde a ordem fora ordem, sem abcessos a estorvar o destino. Nem o jovem e belo rei, Constantino, tão jovem e tão rei, abraçara tal imprudência, quanto mais este viver com laivos de altivez e foros de demência.
Se tivesse que escolher uma música de JMB era esta: Se tivesse que escolher uma homenagem que JMB adoraria, era esta: ETHNO Portugal Orquestra 2018 - "Nevoeiro" de José Mário Branco e "Baile das Oliveiras" de Roncos do Diabo Gravado em Castelo de Vide, Portalegre, a 28 de Julho de 2018 Realização e Som: Tiago Pereira e Ana Beatriz de Jesus
Perhaps the earth is floating, I do not know. Perhaps the stars are little paper cutups made by some giant scissors, I do not know. Perhaps the moon is a frozen tear, I do not know. Perhaps God is only a deep voice, heard by the deaf, I do not know. Perhaps I am no one. True, I have a body and I cannot escape from it. I would like to fly out of my head, but that is out of the question. It is written on the tablet of destiny that I am stuck here in this human form. That being the case I would like to call attention to my problem. There is an animal inside me, clutching fast to my heart, a huge crab. The doctors of Boston have thrown up their hands. They have tried scalpels, needles, poison gases and the like. The crab remains. It is a great weight. I try to forget it, go about my business, cook the broccoli, open and shut books, brush my teeth and tie my shoes. I have tried prayer but as I pray the crab grips harder and the pain enlarges. I had a dream once, perhaps it was a dream, that the crab was my ignorance of God. But who am I to believe in dreams?
Está de súbito o dia clareado Porque já cai a chuva minuciosa. Cai ou caiu. A chuva é uma coisa Que sem dúvida ocorre no passado. Quem a ouve cair vê recuperado Esse tempo em que a sorte venturosa Lhe revelou uma flor chamada rosa E a curiosa cor do encarnado. Esta chuva que vai cegando os vidros Alegrará em arredores perdidos As uvas de uma parra em certo horto Ou pátio já esquecido. Esta molhada Tarde me traz a voz, voz desejada Do meu pai que regressa e não está morto.
Sinto-me basáltica. Concreta, no brilho escuro das profundezas afectivas. As vísceras cristalizam, num processo de compressão das memórias. Movimentam-se em gestos compactos, activando a justa melodia de uma voz primária, instrumento de afinação absoluta. Passo as mãos a seco pela topografia do texto. É interrompido e fosco. Pungente como um bom vinho. Não há nada tão revelador como a intensidade da luz, batendo certeira no vidro de uma janela imaginada. Todas as tardes são ecos desses diálogos originais. As palavras tropeçando vertiginosamente na vergonha partilhada, convertem-se num excesso de saliva difícil de engolir e percutir. Negociamos um acordo, argumentado com diferentes graus de silêncio. A ausência de palavras, não nos liberta da análise inútil das nuances e significados. Planta-se segura no ventre, transformando a elasticidade dos tubos digestivos em ímpeto tectónico. Nasce assim uma história que inverte a sequência natural do processo narrativo. A distância aumenta durante o ritual de aproximação dos personagens. A partilha torna-se inversamente proporcional à intimidade. Procuro conforto na geometria, nas leis fundamentais da física, no borbulhar quente e fecundo da geologia. Calo os psicanalistas e as suas cantigas hipnóticas de adoração à força centrípeta. Não há nada de errado com a geografia protetora das ilhas. Já me deitei outrora, em atitude esperançosa, caindo sôfrega na sua barriga áspera, tendo acordado saciada, coberta da magma e frutos doces, dádivas que incham carinhosamente o estômago, maciando os cabelos da criança que responde pelo nosso nome.
Bailando na ermida de São Escorpião Veio-me o sangue no último verão Vou escorrendo pelo caminho Vou escorrendo pelo caminho Serrando na ermida a minha toada Assim me vi em meu sangue encharcada Vou escorrendo pelo caminho Vou escorrendo pelo caminho Veio-me o sangue e comigo bailou Não apareceu o deus que me cortou Vou escorrendo pelo caminho Vou escorrendo pelo caminho Desde o último verão bailo sangrada E sou do meu sangue a estátua sagrada Vou escorrendo pelo caminho Vou escorrendo pelo caminho