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sexta-feira, 5 de julho de 2019

Caixinhas*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Como a substituição de Joana Marques Vidal por Lucília Gago não abrandou o combate à corrupção, António Costa e Rui Rio entraram em plano B: tentar, ainda nesta legislatura, o controlo político do ministério público e retirar-lhe a sua autonomia financeira.

Costa, nestes assuntos, actua pela calada, mas Rui Rio não esconde ao que vem. A sua conversa sobre "banhos de ética" é só isso: conversa. Basta lembrar que o líder do PSD mantém a confiança política no afiançado Álvaro Amaro.

Desta vez, o bloco central falhou graças ao efeito combinado de uma greve que parou os tribunais e uma admoestação pública do presidente Marcelo. Mas o PS e o PSD vão voltar à carga. A justiça vai ser um campo de batalha na próxima legislatura.


2. Num debate no parlamento alemão para reconhecimento de vários tipos de género, um guedelhudo, deputado da extrema-direita, foi ao púlpito e começou: «caros homossexuais, caras lésbicas, caros andróginos, caros bigénero, caras mulheres-para-homens, caros homens-para-mulheres, caros género variável, caros...» O homem fez aquela saudação a 44 géneros diferentes a que acrescentou um «caros outros», para o caso de haver mais que não lhe ocorriam. O vídeo daquela palhaçada é um sucesso nas redes sociais.


Já Marchavas, 1ª Marcha pelos Direitos LGBTI+ de Viseu, 7 de Outubro de 2018
Fotografia Olho de Gato

A 28 de Junho, para assinalar o dia do orgulho gay,
o New York Times lançou aos seus leitores o desafio para descreverem como se identificavam nos relacionamentos. A análise às cinco mil respostas recenseou 116 palavras e expressões diferentes para sexualidades e identidades de género. Três exemplos: "bi-romântico", "não-binário", "assexual".

Como se vê, estas divisões em sub-sub-subgrupos acrescentam um "etc" quilométrico à velha sigla LGBT.

Há aqui um sinal de diversidade humana, claro. Mas — como observou cheio de razão António Gil no Facebook desta coluna — há também muita gente a querer "fazer parte de uma caixinha quando o objectivo devia ser acabar com todas as caixas".

terça-feira, 2 de julho de 2019

As coisas nas pontas dos dedos

Fotografia Olho de Gato


Cortam os vasos, as veias. Minúsculas,
as coisas nas pontas dos dedos
são feitas de vidro partido.
Invisíveis aos olhos, levam com elas
as nossas impressões
digitais.
Inês Fonseca Santos


domingo, 30 de junho de 2019

Das bancadas

Fotografia Olho de Gato

muito bem
serei a barata tonta
não quero dum-dum
ao menos matem-me
com pancadas de molière
Rosalina Marshall

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Quem manda*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Para o Serviço Nacional de Saúde, uma putativa nova lei de bases é como o Melhoral, não faz bem nem faz mal. Nada nela tirará um dia que seja a uma lista de espera por uma cirurgia ou uma consulta.

Qual então a razão para os políticos estarem às voltas com um assunto tão exotérico, ainda por cima em fim de legislatura? Há uma razão táctica e uma razão estratégica para este gasto de energia.

A primeira é óbvia: há que desviar a atenção dos portugueses dos problemas do SNS, embora eles sejam tantos que não está fácil varrê-los para debaixo do tapete.

A segunda, muito mais importante, é que a esquerda, depois de quatro anos de matrimónio, até 6 de Outubro vai fingir que está em processo de divórcio.

Para o bloco, este gambozino na saúde é uma boa trincheira, diaboliza as PPP, mesmo as que funcionam bem como a do hospital de Braga.

Para o PCP, muito abalado depois das derrotas nas autárquicas e europeias, é bom tudo o que lhe permita pôr-se a milhas do, como está sempre a dizer, "governo minoritário do PS".

Mas é o PS que mais beneficia com esta demarcação com os demais partidos da geringonça. Para além de desviar os holofotes dos inconseguimentos da ministra da saúde, tem aqui uma oportunidade para mostrar aos eleitores moderados que "não é o bloco que manda no país". Assim o explicou o patriarca César, em Viseu, esta semana.

Carlos César será mais explícito do que António Costa, mas ambos estão sintonizados na estratégia: criar condições para que o eleitorado central dê ao PS a maioria absoluta. E, com a falta de comparência de Rui Rio, está mais para isso do que para outra coisa.


Fotografia Olho de Gato
2. A introdução dos autocarros amarelos em Viseu modificou a paisagem urbana e está a alterar, lentamente, a mobilidade das pessoas.

Nos últimos seis anos, a câmara, no essencial, derreteu os nossos impostos em festas e festinhas borliantes, para minorias. O novo sistema de transportes é a primeira medida estrutural feita depois de Fernando Ruas. Muito bem, vereador João Paulo Gouveia.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Identitarismos e tílias*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Na madrugada de 30 de Maio, num autocarro londrino, Chris e Melanie foram atacadas por um grupo de cinco grunhos, que lhes ordenaram que se beijassem, chamaram-nas lésbicas e, pior do que isso, agrediram-nas e roubaram-nas.

Foi um ataque homofóbico que despertou uma onda de solidariedade enorme. A fotografia de Chris e Melanie a sangrarem correu mundo e viralizou.

As cinco alimárias já estão identificadas e presas mas a sua prisão não encerrou o caso. Duas semanas depois, no The Guardian, Chris escreveu um texto a mostrar que viu oportunismo naquela onda de solidariedade para com ela e a sua namorada.

O seu “raciocínio” é mais ou menos assim: quando partilham a nossa fotografia, o que vos faz mexer é o “voyeurismo”, é a “titilância” dos títulos nos media, é a imagem “de duas mulheres cisgéneras, brancas e atraentes”.

Ora, isto é típico dos tempos que vivemos. Os identitários já não são capazes de conceber uma comunidade constituída por pessoas com um chão comum e um projecto de convivência colectiva capaz de conjugar as diferenças em paz e solidariedade.

Os identitários já só conseguem ver grupos, subgrupos e sub-subgrupos de indivíduos ressentidos, em conflito e com características tribais cada vez mais intrincadas. Chris, além de cisgénera (vá ver ao dicionário, caro leitor), quis identificar-se ainda como uma bissexual que recusa a “hipocrisia” das “boas vibrações” que lhes endereçou o “sistema capitalista, supremacista branco e patriarcal”.

Para quem vive neste universo mental, um homem branco e heterossexual tem sempre culpa. Se ele partilhou a fotografia de Chris e Melanie não o fez por solidariedade com elas e repulsa pelos grunhos. Fê-lo porque é um voyeur supremacista e patriarcal.

2. Apesar de as câmaras agora preferirem o choupo, esse “eucalipto urbano” de crescimento rápido, ainda há algumas velhas tílias nas avenidas e nas praças. Por exemplo, no Rossio de Viseu.
Fotografia Olho de Gato
Snife o seu perfume. Está na potência máxima.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Rossio*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 19 de Junho de 2009

1. Os Estados Unidos (o maior devedor mundial) e a China (o seu maior credor) estão obrigados a cooperarem e tentarem segurar a cotação do dólar. Isso foi acordado em Londres, em Abril, entre Obama e Hu Jintao.

Desde então, o corrupio entre Pequim e Washington não pára.

No início do mês, o secretário do tesouro Timothy Geithner descreveu esta estratégia bilateral num notável discurso na universidade de Pequim que teve grande destaque noticioso em todo o mundo. Em Portugal os media ignoraram-no.

No período de debate, um dos estudantes fez a pergunta óbvia:
«Os investimentos chineses na dívida americana estão seguros?»

«Muito seguros» - respondeu Timothy Geithner.

A audiência riu-se-lhe na cara.

Fotografia Olho de Gato
2. As obras no Rossio foram, globalmente, positivas.

Merece aplauso a forma como a praça ficou amiga dos invisuais.

Os novos candeeiros são adequados. Espera-se a internet sem fios. Música ambiente não, por favor. É uma parolice. Quem quiser que traga som de casa e use auscultadores.

A iluminação do edifício da câmara trata diferentemente as paredes brancas e o granito. Contudo, os focos de luz em contra-picado não estão a resultar. Demasiadas sombras parasitas.

Agora é preciso:

i) Fazer um pequeno café com uma boa esplanada no sítio onde está o carrossel e demolir o actual café deixando o Rossio respirar, abrindo-o a sul para a Avenida 25 de Abril.

ii) Pedonalizar o troço à frente do Banco de Portugal e do painel de azulejos, criando um contínuo livre de carros entre o Rossio, a Rua da Paz e a Rua Formosa. Ganha-se sossego e espaço.

3. Atenção! As tílias do Rossio estão quase, quase no máximo do seu perfume…

terça-feira, 4 de junho de 2019

Um livro cheio de imagens

Fotografia Olho de Gato


O meu pai estudava teologia por correspondência
E era a época de exames.
A minha mãe fazia renda. Eu sentava-me sossegado com um livro
Cheio de imagens. Caiu a noite.
As minhas mãos ficaram frias de tocar as caras
De reis e rainhas mortos.

Havia uma gabardine negra
          no quarto de cima
A balouçar no tecto,
Mas o que faria ali?
As grandes agulhas da mãe cruzavam-se velozmente.
Eram negras
Como o interior da minha cabeça nessa altura.

As páginas que virava faziam um som de asas.
"A alma é um pássaro", disse ele uma vez.
No meu livro cheio de imagens
Uma batalha fervilhava: lanças e espadas
Pareciam uma floresta no inverno
Com o meu coração cravado e sangrando nos ramos.
Charles Simic

sexta-feira, 31 de maio de 2019

O medo

Fotografia Olho de Gato



O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos Sim
a ratos
Alexandre O'Neill


terça-feira, 30 de abril de 2019

sexta-feira, 26 de abril de 2019

A paisagem*

* Hoje no Jornal do Centro


1. No último Olho de Gato, descrevi que a nossa relação com a internet agora é, como se diz no Facebook, complicada. Isso está a mudar-nos pessoal e colectivamente.

A esperança acendida com a primavera árabe, à excepção da Tunísia, virou pesadelo. As novas formas de participação democrática online ou falharam ou ficaram-se pelos orçamentos participativos da treta com que se entretêm os nossos autarcas e os jotinhas.

Este desencanto das pessoas é uma alegria para os estados. Os governos sempre quiseram controlar a internet e agora, perante o faroeste em que ela se tornou, aproveitam.

No domingo de Páscoa, logo depois dos atentados no Sri Lanka, o governo desligou as redes sociais. Foi só mais um episódio de uma tendência que vai aumentar.


2. Portugal é Lisboa, o resto é paisagem. Todos os governos sem excepção têm sido centralistas, mas o actual abusa.

No dia 1 de Setembro, estava ainda a ser cozinhado o orçamento de estado nos bastidores, já Fernando Medina anunciava 60 milhões de euros para passes fofinhos para os alfacinhas. Depois, perante o clamor do resto do país, o governo lá arranjou mais umas dezenas de milhões de euros para diluir na paisagem.


Posto Galp, Praça Carlos Lopes, Viseu, 17 de Abril
Fotografia Olho de Gato
Agora, no dia 16 de Abril, como havia o risco de a greve dos motoristas secar os postos de combustível, a Resolução do Conselho de Ministros n.º 69-A/2019 prescreveu os seguintes serviços mínimos: “abastecimento de combustíveis aos postos de abastecimento da grande Lisboa e do grande Porto, tendo por referência 40% das operações asseguradas em dias em que não haja greve.”

Foi mesmo em letra de lei. Para o governo, a paisagem que ande a pé. Ou de burro.

Há aqui um padrão que o comportamentalista Ivan Petrovich Pavlov descreveu em laboratório em 1920: quem tem o verdadeiro poder na geringonça, como poliu durante muitos anos as cadeiras da câmara de Lisboa, como casou entre si, como se foi empregando mutuamente, tem um reflexo condicionado — saliva sempre primeiro por Lisboa.

sexta-feira, 29 de março de 2019

O último a saber*

* Hoje no Jornal do Centro

1. A nova ministra da Saúde, Marta Temido, é uma espécie de trigémea das manas Mortágua. Interessa-se muito com a ideologia e as abstracções que quer pôr na lei de bases, mas pouco com os problemas das pessoas. Resultado: a classe média, assustada com o estado do SNS, vai arranjando seguros de saúde.

Uma delegação de autarcas da CIM Viseu Dão Lafões acaba de ir em peregrinação à ministra mas regressou de mãos a abanar. As obras nas urgências do Hospital de S. Teotónio não avançam, apesar de já aprovadas e com comparticipação comunitária de 85%, mas a culpa não é dela... é das finanças. O Centro Oncológico não mexe mas a culpa não é dela... é da administração do hospital.

Volta, por favor, Adalberto Campos Fernandes!

Jardins Efémeros, 2017
Fotografia Olho de Gato

2. A última sessão da câmara de Viseu ficou marcada pela situação dos jardins Efémeros (JE): este ano não há, para o ano logo se vê.


O presidente da câmara confessou que “não estava a contar” (sic) e que só no dia 18 de Março, numa reunião com o vereador Jorge Sobrado e a organizadora dos JE, Sandra Oliveira, foi “confrontado” (sic) com aquele facto.

Ora, como António Almeida Henriques não ia mentir em sessão de câmara, isso significa que não foi avisado em devido tempo pelo seu vereador da cultura. Isso é um problema.

Qualquer vereador da cultura tem que estar atento ao “ecossistema” cultural do seu concelho. Sobrado tinha que saber que os JE fazem, logo em Janeiro, a chamada aos artistas para projectos integrados no tema do festival. Desta vez, nem em Janeiro, nem em Fevereiro, nem em meio Março houve tema dos JE/2019 nem “call-for-artists”.

Eu, que não sou vereador da cultura e, portanto, não recebi os e-mails aflitos da organizadora (não é preciso ser nenhum adivinho para imaginar que foram vários), sabia que os JE deste ano não iam acontecer.

Como é possível Jorge Sobrado não saber? Como é possível ele ter deixado que o seu presidente da câmara fosse o último a saber esta péssima notícia para a cidade e para o país?

quarta-feira, 27 de março de 2019

Hanami*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 27 de Março de 2009

Fotografia Olho de Gato
1. Hanami é uma tradição milenar japonesa que leva multidões para debaixo das cerejeiras a admirarem a beleza das suas flores. 

Ainda pode fazer hanami este fim-de-semana no vale do Douro, entre a Régua e Resende, onde há milhares de cerejeiras floridas à sua espera.
     
2. “A tendência do homens (…) a imporem aos outros como regra de conduta a sua opinião e os seus gostos, está tão energicamente sustentada por alguns dos melhores e alguns dos piores sentimentos inerentes à natureza humana que quase nunca se detém a não ser por lhe faltar poder.”
     
Quando escreveu isto há 150 anos, Stuart Mill estava longe de imaginar deputados, no século XXI, a parirem leis sobre o sal no pão nosso de cada dia.
     
3. Começo este ponto com uma declaração de interesses: integro um órgão não executivo do Cine Clube de Viseu (CCV).
     
Apesar disso, é com objectividade que afirmo: o CCV tem uma actividade cultural competente e consistente. O seu trabalho com as escolas já envolveu mais de 20 mil alunos. O Ministério da Cultura acaba de o colocar, pelo terceiro ano consecutivo, em primeiro lugar na rede nacional de exibição não comercial de cinema.
     
O CCV está bem mas há nuvens no horizonte. A evolução tecnológica vai fazer desaparecer as cópias de filmes em celulóide e a cidade ainda não tem uma sala não comercial com projecção digital.
     
Era importante que o futuro Centro de Artes do Espectáculo de Viseu (CAEV) tivesse uma sala com essa funcionalidade. Quanto mais modular, flexível e multidisciplinar o CAEV for, melhor.
     
É necessário evitar que o CAEV se transforme em mais um elefante branco. É agora na fase de concepção que se pode evitar esse risco bem real.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Nuvens

Fotografia Olho de Gato

Para descrever as nuvens
muito teria de apressar-me,
pois numa fracção de segundo
deixam de ser estas e começam a ser outras.

É sua propriedade
não se repetir
nas formas, tonalidades, poses e configurações.

Sem o peso de qualquer lembrança,
pairam sem dificuldade sobre os factos.

Mas nem testemunhá-los podem,
pois logo se dissipam em todas as direcções.

Comparada com as nuvens,
a vida afigura-se firme,
quase duradoura, eterna.

Perante as nuvens
até uma pedra parece nossa irmã,
na qual se confia,
mas elas, enfim, umas levianas primas afastadas.

As pessoas que existam, caso queiram,
e depois morram uma por uma,
as nuvens não têm nada a ver com
coisas
tão estranhas.

Sobre toda a tua vida
e sobre a minha, ainda não toda,
desfilam com pompa, como desfilavam.

Não têm obrigação de morrer connosco.
Não precisam do nosso olhar para navegar.
Wislawa Szymborska
Trad.: Elzbieta Milewska e Sérgio Neves


quarta-feira, 20 de março de 2019

É a primavera cercada pelas vozes *

* Reedição

Fotografia de Olho de Gato


Apagaram-se as luzes. É a primavera cercada
pelas vozes.
E enquanto dorme o leite, a minha casa
pousa no silêncio e arde pouco a pouco.
No círculo de pétalas veementes cai a cabeça —
e as palavras nascem.
— Límpidas e amargas.





Eis um tempo que começa: este é o tempo.
E se alguém morre num lugar de searas imperfeitas,
é o pensamento que verga de flores actuais e frias.
A confusão espalha sobre a carne o recôndito peso do ouro.
E as estrelas algures aniquilam-se para um campo sublevado
de seivas, para a noite que estremece
fundamente.

Melancolia com sua forma severa e arguta,
com maçãs dobradas à sombra do rubor.
Aqui está a primavera entre luas excepcionais e pedras soando
com a primeira música de água.
Apagaram-se as luzes. E eu sorrio, leve e destruído,
com esta coroa recente de ideias, esta mão
que na treva procura o vinho dos mortos, a mesa
onde o coração se consome devagar.

Algumas noites amei enquanto rodavam ribeiras
antigas, degrau a degrau subi o corpo daquela que se enchera
de minúsculas folhas eternas como uma árvore.
Degrau a degrau devorei a alegria —
eu, de garganta aberta como quem vai morrer entre águas
desvairadas, entre jarros transbordando
húmidos astros.

Algumas vezes amei lentamente porque havia de morrer
com os olhos queimados pelo poder da lua.
Por isso é de noite, é primavera de noite, e ao longe
procuro no meu silêncio uma outra forma
dos séculos. Esta é a alegria coberta de pólen, é
a casa ligeira colocada num espaço
de profundo fogo.
E apagaram-se as luzes.

— Onde aguardas por mim, espécie de ar transparente
para levantar as mãos? Onde te pões sobre a minha palavra,
espécie de boca recolhida no começo?
E é tão certo o dia que se elabora.
Então eu beijo, degrau a degrau, a escadaria daquele corpo.
E não chames mais por mim,
pensamento agachado nas ogivas da noite.

É primavera. Arde além rodeada pelo sal,
por inúmeras laranjas.
Hoje descubro as grandes razões da loucura,
os dias que nunca se cortarão como hastes sazonadas.
Há lugares onde esperar a primavera
como tendo na alma o corpo todo nu.
Apagaram-se as luzes: é o tempo sôfrego
que principia. — É preciso cantar como se alguém
soubesse como cantar.
Herberto Helder



domingo, 17 de março de 2019

Crítico

Fotografia Olho de Gato

Eis que me veio uma visita
do tipo – achei – que não me irrita.
O meu jantar não era chique,
mas ele comeu tanto, ali, que
não sobrou nada em casa; e quando
notei-o quase arrebentando,
o Demo o fez sair só para
cuspir no prato em que jantara:
“A sopa estava um arremedo;
a carne, crua; o vinho, azedo”.
Que morra paralítico!
Com mil demónios! Era um crítico.
Goethe
Trad.: Nelson Ascher


sábado, 16 de março de 2019

Construção

Fotografia Olho de Gato


Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado

Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague
Chico Buarque
1971


sexta-feira, 15 de março de 2019

O lugarito*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Ninguém tinha dado conta mas, pelos modos, conforme se lê num comunicado da comissão política da JS-Viseu, há “um grande mau estar e grave insatisfação por parte dos jovens socialistas” com o seu presidente distrital, Miguel Figueiredo. Um quarteirão de jotinhas convocou um congresso extraordinário.

O “bom estar” do líder lembrou ao “mau estar” daqueles militantes que era estúpido fazer um congresso seis meses antes de outro obrigatório, mas, já se sabe, o cozinhado da lista de deputados é agora, não é no outono.

É verdade: como não há primárias, chega-se ao lugarito nas listas através da intriga, lugarito que costuma calhar ao chefe local e aos seus acartadores da pasta.

Há quatro anos, o PS elegeu três bons deputados pelo distrito de Viseu: Maria Manuel Leitão Marques, António Borges e João Paulo Rebelo, mas, como estes foram para outros voos, acabaram substituídos por três nulidades de aparelho sem uma ideia política na cabeça.

Desta vez, como há algumas hipóteses de o PS eleger quatro deputados, a luta para um lugarito até ao oitavo lugar está a ser ainda mais brava do que o costume. Uns jotinhas querem pôr uns patins em Miguel Figueiredo que, coisa rara entre os vips da JS, trabalha no duro numa empresa e não precisa de tacho.

2. Em todo o lado, os centros históricos das cidades estão a ser vedados, total ou parcialmente, à circulação automóvel. Em todo o lado menos em Viseu.

Fotografia Olho de Gato
Maio/2012
Em 2005, ainda houve uma tentativa mas, perante o clamor, a câmara desistiu. Ainda não havia evidências que um centro histórico livre de carros pode ser bom até para os negócios dos bares. Agora já há. Os Jardins Efémeros encarregaram-se de demonstrar que os viseenses não se importam de caminhar um pouco mais e ter as ruas e praças do centro histórico livres da poluição e do incómodo do trânsito.

Era bom, pelo menos nas noites dos fins-de-semana de Maio a Setembro, Viseu proporcionar às pessoas um centro histórico despoluído e civilizado.

Noite

Fotografia Olho de Gato

Noite
simplesmente
noite

Sem mais
sinais
de outra

Noite
sem sonho
sem sexo

Noite
sobre
noite

Sem sirenes
sereias
sursis

Noite
nítida
na mente
Augusto Massi




quarta-feira, 13 de março de 2019

Quase primavera*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 13 de Março de 2009

1. O aquecimento global baralhou os equinócios e, por isso, não se sabe bem quando começa a quase primavera. A quase primavera começa algures por volta do dia dos namorados e, amável como é, já não vai mais embora.

Na quase primavera, as magnólias dos jardins da classe média gritam cores aos passantes e os canteiros em todo o lado ficam cheios de amores-perfeitos.

Fotografia Olho de Gato
A quase primavera multiplica os olhares das raparigas para os rapazes. A quase primavera põe Penélope Cruz nas paragens de autocarro a olhar para mim. A quase primavera é a voz de Ney Matogrosso a cantar a epiderme “por debaixo dos pano”.

2. A Associação Comercial e o Movimento de Cidadãos Pelo Centro Histórico defendem a deslocalização da loja do cidadão para o centro de Viseu.

Esta transferência não chega, por si só, para resolver os problemas daquela zona nobre da cidade mas é um óbvio “por onde começar” numa tarefa que nos interpela a todos. Precisamos salvar o coração da nossa cidade.

É claro que os comerciantes têm que fazer também a sua parte: há lojas no centro que petrificaram e assim, com loja do cidadão ou sem loja do cidadão, não têm futuro.

Infelizmente, ano eleitoral é ano propício a telenovelas políticas. Já houve um pequeno esboço: depois de o dr. Ruas ter sugerido um edifício (entre os vários possíveis) para a futura loja do cidadão, apareceu logo o dr. Junqueiro a propor que fosse a Câmara a pagar as obras.

Ora, o que Viseu menos precisa é do velho e costumeiro pingue-pongue entre Fernando Ruas e José Junqueiro, com o dr. Ginestal a servir de apanha bolas.

Mais um funeral como o da universidade pública não, por favor!