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sexta-feira, 6 de julho de 2018

O lobo no saco*

* Publicado hoje no Jornal do Centro

Fotografia de Miguel A. Lopes

1. Os pesos pesados da política portuguesa subiram ao palco do Rock in Rio e xutaram a cantiga eterna: «as saudades que eu já tinha da minha alegre casinha, tão modesta como eu.» Por causa destes pontapés, Marcelo e os seus companheiros políticos de performance foram chamados de ridículos ou populistas ou as duas coisas.

Ridículos talvez tenham sido, populistas não. "Populista" é o "vem-aí-lobo!", é o novo nome do "homem-do-saco" que vem levar as criancinhas que não comem a sopa. Houve uma altura em que se chamava a tudo o que não agradava "fassista", agora é "populista".

Escusado será dizer que quando chegarem os lobos populistas, e eles vão mesmo chegar, a palavra já estará gasta, metida no fundo do saco da indiferença.


2. Os deputados da nação têm alegres casinhas, tristes casinhas, modestos primeiros andares, opulentos primeiros andares, é lá com eles.

Já não é com eles a espertalhonice com que arredondam o fim-do-mês ao declararem uma casinha longe do parlamento, mesmo quando pagam IMI alfacinha. 

Enquanto as pessoas andavam distraídas com o futebol, o parlamento excretou um "parecer jurídico" que passa uma esponja nesta espertalhonice. Uma anedota.


3. No domingo passado, a diocese de Viseu despediu-se do bispo D. Ilídio Leandro com uma merecida homenagem.

Homem bom, tolerante, atento, sensível, D. Ilídio foi uma lufada de ar fresco numa cidade e numa diocese enclausuradas demasiados anos no mundo reaccionário e ultramontano do bispo D. António Monteiro.

Para além desta oxigenação vivificadora da diocese, D. Ilídio iniciou uma mais que necessária recuperação patrimonial, muito bem sucedida na vertente dos bens culturais, não muito bem na parte imobiliária por causa da crise pós-2008.

Saneou, ainda, moralmente o Jornal da Beira. Aquele órgão de comunicação da diocese cumpre agora o seu papel, não é mais o pasquim alaranjado que era no virar do milénio.

Obrigado, D. Ilídio!

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Adicções*

* Hoje no Jornal do Centro


Adições dão somas, adicções, dependências. Nos tempos que correm, há cada vez mais gente a adicionar adicções. Uma delas é o smartphone.


Corre um meme nas redes que descreve perfeitamente esta agarração — numa fotografia temos sete pessoas sentadas em dois sofás: o pai, a mãe, o tio, a tia, o neto, a neta e a avó; ninguém diz nada; os seis primeiros estão ferrados no telelé, a avó olha o vazio, a legenda ironiza: «oxalá a vovó esteja a gostar da nossa visita».

Isto é mundial. As pessoas estão apanhadas de todo. O norte-americano médio consulta o seu aparato de doze em doze minutos. Para Portugal não há estatísticas, mas um sportinguista médio, como eu, está sempre a passar os dedos na maquineta para saber as últimas de Bruno de Carvalho.

No domingo, o Washington Post trazia um texto de William Wan a descrever esta adicção e a reportar a luta que os Davids do movimento “bem-estar digital” travam contra os Golias: a Apple, a Google, o Facebook e similares.

É que, explica Wan, os utilizadores estão transformados nos pombos de Skinner — um psicólogo comportamentalista que, há sessenta anos, pôs os bichos numa caixa e treinou-os a bicarem num botão para obterem comida; depois, o investigador subverteu as regras; para dar prémio, os pombos tanto tinham que bicar duas vezes, como cinco, ou uma, ou quatro, numa sequência que nunca se repetia; resultado: os pombos endoidaram e passaram a bicar convulsivamente o botão durante horas.

O que está a acontecer às pessoas é um bocado parecido. Haja ou não haja o “plim!” das notificações, pegam no smartphone à procura de um prémio. A maior parte das vezes, é uma irrelevância, é spam, é um video melga, é publicidade; uma vez por outra, aparece algo de interesse.

Amanhã à noite lá estarei eu às voltas com o meu Xiaomi à espera do jackpot — a notificação a informar que os sócios equiparam devidamente Bruno de Carvalho com uns patins debaixo dos pés.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Atenção*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Quando alguém se foca em algo exterior a si, esse alguém está a aprender. Para aprender é imperativo prestar atenção e tudo indica que a atenção das pessoas é uma matéria-prima em declínio. Há cada vez mais gente a falar e, quanto mais falam os falantes, menos ouvem os ouvintes. E quanto mais falantes há, menos ouvintes há disponíveis.

Os professores sabem bem isso e tratam de, ao mesmo tempo que dão a matéria, manter debaixo de olho os alunos. Eles sabem que é cada vez mais difícil manter os alunos atentos, mesmo na ecologia ideal de uma sala de aulas em que os papéis e os tempos para os vários emissores e receptores estão bem definidos. Vamos lá ver se conseguem recuperar os 9A 4M 2D que a geringonça lhes quer roubar.

Fora das escolas o panorama é pior. Há para aí cada vez mais gente a falar sozinha sem dar conta disso. Muitos dos que dão conta, em desespero por audiências, até fazem o pino em posts no Facebook.

Já o devo ter dito aqui mas repito-o: como a atenção é cada vez mais rara, ela ainda vai ser paga. E, como sempre, quando isso acontecer, os ricos vão receber mais do que os pobres.


Fotografia de Lacie Slezak

2. A professora N. Katherine Hayles identificou dois tipos de atenção:

— a “atenção profunda”, que se concentra num só objecto durante um longo período de tempo, é capaz de ignorar estímulos externos e perseverar em objectivos de longo prazo, como por exemplo na leitura de um livro;

— a “hiperatenção”, sempre “a mudar de foco entre várias tarefas”, a fazer zapping, prefere “fluxos múltiplos de informação”, procura “um nível elevado de estimulação e tem uma tolerância baixa” à seca, ao chato.

É claro que umas vezes funcionamos em “atenção profunda”, outras vezes em “hiperatenção”, e que ambos “estilos cognitivos” têm vantagens e têm inconvenientes. Mas não é arriscado afirmar que a primeira maneira de conhecer o mundo está a perder terreno para a segunda e que essa perda é maior nas novas gerações.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

A morada estável, a morada de família e a morada de contacto do deputado Pedro Soares



Façam o favor de investirem 2'36'' do vosso precioso tempo nesta reportagem da RTP: 




Resumo do dito:

1 — Pedro Soares tem uma "morada estável" na sede do bloco em Braga; 

2 — O deputado tem uma "morada de família" em Vouzela;

3 — O eleito bloquista tem uma "morada de contacto" em Lisboa que serviu, até 9 de Abril pp, para "facilitar o contacto" do Tribunal Constitucional;

4 — Afirma-se ainda que era mais caro ao parlamento se tivesse indicado a "morada de família", em Vouzela, em vez de ter indicado a "morada estável", em Braga.

Porque será que o deputado sentiu necessidade de ir mudar, há um mês, a "morada de contacto" no TC?

Porque será que o deputado esfaqueia tão flagrantemente a geografia? Vouzela é mais perto 60 km de Lisboa do que Braga, pelo que a "morada estável" minhota dá-lhe mais dinheiro do que a "morada de família" lafonense.

É pena os media escrutinarem tão pouco o bloco de esquerda. Se o fizessem mais, os dirigentes bloquistas estariam mais treinados e não metiam tanto os pés pelas mãos como este morador de Braga, perdão, de Vouzela, perdão, de Lisboa.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Sacos azuis*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. O livro “Porque falham as Nações”, de Daron Acemoglu e James A. Robinson, explica “as origens do poder, da prosperidade e da pobreza” usando a seguinte grelha de análise: povos com instituições inclusivas prosperam, povos com elites extractivas sem limites ao seu poder caranguejam na corrupção e na pobreza.

Vou socorrer-me da síntese que li neste livro sobre a corrupção da dupla Alberto Fujimori, presidente do Peru de 1990 a 2000, e do seu braço direito Vladimiro Montesinos.

Este Montesinos registava meticulosamente o “quando”, o “quem” e o “quanto” gastava nas suas compras de pessoas. Várias dessas aquisições foram filmadas e, mais tarde, acabaram nas televisões e ainda são acháveis na internet.

Com aquela “contabilidade” de Montesinos ficou a saber-se a cotação dos subornados: juízes e políticos ficavam entre 5 a 10 mil dólares por mês; já uma manchete de um jornal podia valer entre 3 a 8 mil dólares e os donos de televisões e de jornais levavam milhões de dólares. É que Fujimori e Montesinos achavam o poder mediático muito mais perigoso para eles do que o político ou o judicial.


Editada a partir daqui
2. Quando foi interrogado, Ricardo Salgado descreveu a ES Enterprises como uma “sociedade de disponibilidade transitória de capitais”. Deve ser assim que se diz saco azul em banqueirês.

Ora, para mexer naquela “disponibilidade transitória de capitais” do espírito santo, o banqueiro também tinha um meticuloso braço direito que registava tudo: o suíço Jean-Luc Schneider.

Já são conhecidos alguns dos milhões que foram sendo off-chorados por Jean-Luc para políticos, testas de ferro, gestores e fauna equivalente, mas ainda há muito nevoeiro naqueles números. Ainda não dá para destrinçar bem as cotações daquele mercado peculiar do dr. Ricardo Salgado. Bava valia mais que Granadeiro? Pinho menos do que o testa dura?

E os fluxos azuis para os media? Cadê a anunciada lista de avençados do BES que escrevem nos jornais e parlapiam nas televisões?

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Para lamentações*

* Hoje no Jornal do Centro

O título deste Olho de Gato assume o nada original jogo de palavras: a nossa vida parlamentar é para lamentar.

Cada vez há mais berbicachos com o fim do mês dos deputados. São sarilhos e mais sarilhos que a comissão de “ética” do parlamento e os visados tentam remendar com o costumeiro: “não houve incumprimento da lei”. Desta dupla negativa não sai nada de positivo para a casa da democracia que devia ser a primeira dar o exemplo.

Há uns anos, Inês de Medeiros, eleita por Lisboa, só não pôs o parlamento a pagar-lhe os bilhetes semanais de avião para Paris porque houve um escarcéu danado. Casos de deputados com casinha em Lisboa mas que dão uma morada no círculo por onde foram eleitos são mais do que as mães. O último — apanhado literalmente na casa da mãezinha — foi Feliciano Barreiras Duarte. Mas há mais.


Fotografia de Pedro Nunes
Lusa (daqui)
O Expresso divulgou o extraordinário caso de oito deputados, o poderoso Carlos César incluído, todos eleitos pelas ilhas, que, além de abicharem quinhentos euros por semana para deslocações, ajuntam em cima deste pecúlio o valor dos bilhetes de avião.

Um dos apanhados, o deputado Paulino Ascensão, confessou ter tido uma “prática incorreta” (rima com “forreta”, mas a culpa é do acordês com que escreveu o comunicado). E o bloquista, “após reflexão”, diz que desforreta o dinheiro indevidamente recebido para o entregar a instituições sociais da Madeira. E comunica que renuncia ao lugar.

Mal li este comunicado, elogiei o homem nas redes sociais e mandei uma ferroada em Carlos César. A ferroada foi justa, o panegírico, uma precipitação. Elogiar esta gente é uma imprudência. Afinal o bloquista, lá na sua prosa, absteve-se de referir que já tinha previsto sair de Lisboa para ir para um lugar político no Funchal. Afinal, como tinha sido apanhado com a boca na botija, tinha só antecipado a saída.

Vamos lá ver, agora, se o bloco deixa o Paulino Ascensão ascender ao lugar que lhe tinha reservado na Madeira.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Zombie*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 11 de Abril de 2008 

Daqui
1. No dia 4 de Abril, o Washington Post trazia um artigo - “Every click you make”, de Peter Whoriskey - que explica como alguns fornecedores de acesso à net processam a informação acerca dos nossos hábitos, das nossas pesquisas, dos nossos mails, dos sites e dos blogues que consultamos. Eles usam sistemas com algoritmos cada vez mais sofisticados para fazerem os perfis de cada cliente. Aquele artigo do Post é um bom ponto de partida para quem quiser aprofundar o tema.

Para melhor compreensão do que está em causa, deixo-lhe só um exemplo do que já é possível com as tecnologias disponíveis: às 17 horas, o cidadão X procura no Google preços de um GPS; às 17H15, o mesmo cidadão, de clique em clique, chega ao site de um jornal português e aparece-lhe, a ele e só a ele, um anúncio da TomTom.

E se toda esta informação, que acaba por saber mais de nós que nós próprios, cai em mãos erradas?

2. Quatro dias depois da manifestação de cem mil professores em Lisboa, o ministério recuou na “avaliação dos professores”. Aprovou um memorando que fala em “processos de avaliação (…) simples”e em “diferentes ritmos e condições para a concretização”; fala, como não podia deixar de ser, da criação de um grupo de trabalho e termina a prometer futuras “compensações” para os avaliadores.

Traduzido para língua de gente, aquele memorando quer dizer que, na “avaliação de professores”, ficou tudo menos a avaliação. Ficou uma palhaçada que vai custar dezenas de milhar de horas de trabalho inútil, a fazer até Julho, e que vai dar “Bom” a todos os avaliados.

As escolas vão ter de fazer uma tarefa estéril só para “salvar a face” à ministra. E, afinal, para quê? Maria de Lurdes Rodrigues, agora, já pouco mais é de que um zombie político.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Pachona*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 4 de Abril de 2008


1. As televisões têm de preencher muitas horas de espaço informativo e, por isso, quando não acontece nada de especial, “enchem chouriços”.

Quando surge um assunto com drama, com emoção, uma “Maddie”, um “Entre-os-Rios”, uma “Casa Pia”, é uma felicidade para os programadores e editores. As televisões multiplicam então os directos, fazem “breaking news” à americana. As vozes sobem de tom, arfam, urgem, arrebatam-se.


Escola Secundária Carolina Michaëlis

Aconteceu isso agora, enquanto andávamos entretidos com o pão-de-ló pascal. Foi o caso do 9º C da Escola Secundária Carolina Michaëlis e do filme feito por um aluno com o seu telemóvel; esse filme tem uma punchline que merece a eternidade: “Ó gorda, ó pachona, sai daí!”

Infelizmente, como de costume, aquelas imagens e aqueles sons foram repetidos até à náusea. Durante vários dias as televisões não mudaram “nem de assunto nem de ideia” (Winston Churchill dizia assim dos fanáticos). Resultado: já ninguém suporta mais ver aquela cena ou falar do caso. Fico-me, portanto, por aqui.

De qualquer forma, podemos todos ficar descansados: a resolução do problema foi entregue àquela senhora da DREN - sim, essa mesma, a do bufo.

2. Até aos anos 90, o cidadão comum sentava-se no seu sofá a ver a vida das pessoas importantes na televisão; depois a vida dos “Zés Marias” invadiu os monitores mas eram ainda os profissionais que controlavam.

Agora há uma câmara de filmar em cada bolso. As pessoas tomam conta da narrativa: ligam o telemóvel; editam o filme; põem-no no YouTube.

“Ó gorda, ó pachona, sai daí!”

sexta-feira, 2 de março de 2018

Cinzas*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. Um dos truques mais usados para desconversar é deslocar o foco da mensagem para o mensageiro. O sr. A faz uma afirmação, mas o sr. B, em vez de tratar dos méritos ou deméritos da dita afirmação, põe é um carimbo mau no sr. A.

Há mais formas de desconversar mas deitar abaixo o mensageiro é o exercício preferido nas querelas de opinião dos media e das tribos das redes sociais. E, claro, para denegrir o mensageiro, chovem ataques ao seu carácter.

O padre Gonçalo Portocarrero de Almada não concedeu coragem nenhuma ao político Adolfo Mesquita Nunes por este ter assumido a sua homossexualidade. Coragem seria o político fazer “essas mesmas declarações na Arábia Saudita”, escrevinhou o clérigo para, com este truque retórico manhoso, apoucar o vice-presidente do CDS.

2. A ascensão meteórica de Elina Fraga no PSD de Rui Rio diz muito sobre a natureza leninista dos nossos partidos. Em nenhum deles há dinâmicas de baixo para cima. As políticas são definidas em cima e seguidas em baixo. E os lugares de influência são monopolizados pelo topo que controla também as sobras para a restante cadeia alimentar.

Portanto, para se ter poder e influência no nosso sistema partidário, ou se faz o complicado e demorado caminho para chegar a chefe ou se escolhe um muito mais fácil e rápido: ser guru do chefe. A fatal Elina usou este atalho.

3. Na noite de 15 para 16 de Outubro, o inferno varreu a nossa região. Há um antes e um depois daquela tragédia. Que não pode ser esquecida.


Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo

E há um registo visual daquela devastação que é obrigatório ver: a exposição do fotógrafo Miguel Valle de Figueiredo denominada “Cinzas”. Está na Galeria da Acert, em Tondela, até 31 de Março.

Estas imagens rigorosas, magistrais, são “um murro no estômago”. Precisam de circular pelas nossas galerias. E, depois, deviam ser postas nas paredes do Conselho de Ministros para lembrarem este governo e os próximos que o país não é só Lisboa e o litoral.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Da irrelevância política… — por JB

Comentário de JB a Palimpsesto


Ontem houve um jogo de futebol importante. Uma final de taça. A taça – CTT (não sei se será o epitáfio dessa empresa…).

Não falo do jogo; falo do final do mesmo. Habitual entrega da taça com os jogadores, treinadores…, a passarem na tribuna de honra. Cumprimentos, festejos, abraços.


Fotografia José Coelho — daqui


Eis senão quando vislumbro Tiago Rodrigues entre os presentes na fila de individualidades.

Tiago Rodrigues? Não sabe quem é sr leitor?
Não se preocupe, pois nem jogadores, nem treinadores, nem dirigentes, nem massagista, nem roupeiro, nem…., mostraram a mínima empatia, cumplicidade, satisfação, sei lá…., ao cumprimentarem o mais alto responsável governativo, pelo desporto.
Da irrelevância política…, até no desporto. Palimpsesto para ti também, Tiaguinho!

Na educação, vai-se confirmando a sua irrelevância (e sou simpático…).
Irá cumprir a legislatura pois o seu papel é manter o sector educativo: calmo, calado, tranquilo e entretido. Com a conivência de todos os sindicatos, óbvio!

Aqui se falou de irrelevância política e nunca de irrelevância pessoal.

É a diferença entre um espaço limpo, escorreito e livre (Olho de Gato) e um conselho de opinião (ou lá como se chama) na RTP, subjugado, domado e que faz juízos pessoais sobre Nuno Artur Silva e realiza “um auto de fé” público.

A geringonça não fica bem na fotografia e “Limpa o cesto bem limpo”.

Da irrelevância política dos “três compadres Galambas” da Caranguejola!
JB

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Dor de cotovelo*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. No último domingo, o La Voz de Galicia trazia um artigo cheio de elogios a Portugal. O título — “Portugal, los nórdicos del sur de Europa” — era inspirado numa expressão do nosso presidente da república que oxalá se mantenha em boa saúde e cheio de afectos, especialmente por este interior nada nórdico.

É que, se não for Marcelo, não somos prioridade para ninguém — até as portagens das nossas auto-estradas tiveram um aumento maior do que as do litoral.

Elogios vindos de galegos não surpreendem, eles gostam muito de nós. Mas não foram só eles. Também o Ara, um jornal independentista catalão, numa peça dominical da secção de economia — “El misterí portuguès” — afirma: “Portugal està de moda. El turistes inunden Lisboa i Porto, ja comencen a descobrir la costa alentejana i fins e tot les illes de Madeira i les Açores gràcies a la pluja de vols low cost.”


Fotografia de Gonçalo Rosa da Silva, daqui
Os dois artigos são muito amáveis. Madonna é referida como “el ejemplo más llamativo” que se está a aproveitar da fiscalidade vip para “extranjeros”. Se eles acrescentassem que, por causa dos impostos fofinhos e a luz de Lisboa, também temos cá a Monica Bellucci, então, do lado de lá da fronteira, em vez de bonomia, sopraria o mau vento da inveja.

2. Onde os jornais espanhóis não conseguem esconder a dor de cotovelo é nos triunfos diplomáticos portugueses. Barroso, Guterres, agora Centeno, nomes que os põem a constatar o clássico “el tamaño no importa.”

Fiquemo-nos por três razões explicativas deste sucesso sintetizadas por Javier Martin del Barrio, no El Pais:

(i) a carreira diplomática em Portugal é eficaz e experiente porque, ao contrário de Espanha, não muda quando mudam os governos;

(ii) a “fúria” espanhola começa logo por dizer “no”, enquanto os portugueses, pacientes, respeitosos, avessos à confrontação directa, nunca dizem “não”;

(iii) as elites políticas portuguesas são poliglotas, as espanholas não, e isso acaba por ser decisivo.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

#MeToo*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Num programa do Canal+ francês, um dos animadores, Laurent Bafie, na brincadeira, levantou um pouco a saia de Nowellnn Leroy e repetiu a graça resvalando a mão no joelho dela. A cantora riu-se muito, pegou-lhe na mão, disse que eram amigos há muito tempo e elogiou-o. De nada valeu. As redes sociais chamaram-no de tudo: «machista», «grande porco», «misógino», «grosseiro», por aí fora.

O actor Adam Sandler pôs a mão no joelho de Claire Foy numa entrevista na BBC. 
Daqui
A actriz emitiu um comunicado a dizer que não se sentiu nada ofendida. De nada valeu. Adam foi chamado de tudo nas redes sociais que, como se sabe, estão sempre a arder com uma indignação qualquer.

Só mais um caso. Em 2002, o político britânico Michael Fallon pôs a mão no joelho da jornalista Julia Hartley-Brewer. Esta mandou-o parar e ele parou. A seguir, pediu desculpas pelo incidente e reconheceu publicamente numa conferência que “tinha ultrapassado as marcas”. Só que agora, quinze anos depois, na sequência do movimento #MeToo, o caso borbulhou outra vez, e ele acabou por se demitir de ministro da defesa. A própria dona do joelho achou “doida” aquela demissão.

2. Tantos casos com joelhos fizeram-me lembrar o filme “O Joelho de Claire”, um dos seis contos morais de Eric Rohmer. A ligação é óbvia e deve ter ocorrido a muitos milhares de pessoas por esse mundo fora. Por exemplo, Paulo Almeida Sande já deu também este salto cinéfilo no Observador.

Vi esta obra-prima da nouvelle vague há mais de trinta anos numa sessão do Cine Clube de Viseu, ainda faltava muito para chegarmos ao neo-puritanismo hipócrita que estamos a viver agora. O protagonista do filme, um diplomata trintão chamado Jerome, passa umas férias fixado no joelho de Claire. Todo o filme é construído à volta dessa obsessão.

Ora, no velho Auditório da Feira de S. Mateus, quando Jerome, finalmente, pôs a mão no joelho de Claire, uma boa parte da assistência pôs-se a bater palmas de aplauso. Eu também.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

FB*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


O Facebook foi criado em 2004 e atingiu o seu primeiro milhar de milhão de utilizadores em 2012, com 55% deles a usarem-no diariamente. E ainda não parou de crescer: agora já há mais de dois milhares de milhões de “feicebuqueiros” e 66% deles vão lá todos os dias.

Nenhum invento, nenhuma realização, nenhuma ideia, nada teve uma propagação tão rápida e avassaladora na história da humanidade como esta rede social.

O FB é um grande negócio que, depois de alguns anos em afinações, se tornou uma máquina de fazer dinheiro. Os lucros depois de impostos têm aumentado brutalmente: 2,9 mil milhões de dólares em 2014; 3,7 em 2015; 10,2 em 2016; e as projecções para 2017 apontam para um lucro líquido acima dos 16 mil milhões de dólares. Nos últimos três anos, os lucros mais que quadriplicaram.

Mas, ao fim e ao cabo, que raio de produto vende o FB? A resposta é curta e grossa e está logo no título de uma longa recensão de John Lancaster no London Review of Books: “You Are The Product”. É mesmo isso: nós somos o produto do FB, Mark Zuckerberg vende-nos aos anunciantes.

E, há uns anos, o New York Times fez as contas. A rede social ainda só tinha metade dos utilizadores que tem agora e, por dia, já lá eram gastos 39757 anos colectivos de trabalho à borla. É informação fornecida por nós que, depois de devidamente tratada pelos algoritmos da rede social, serve para vender aos anunciantes em publicidade personalizada.

Mark Zuckerberg
Ao FB não interessa nada o conteúdo, se se trata de vídeos de gatinhos, memes com corações a sangrar ou notícias falsas. Ele limita-se a fazer o perfil de cada utilizador a partir da sua actividade na rede e a definir o público-alvo para cada anúncio.

Zuckerberg, no início deste ano, disse que ia tentar proteger o FB do “abuso, do ódio e da interferência dos estados” para que o tempo gasto nele “seja bem gasto.”

Ele tem esse poder. Mas será que tem mesmo vontade de perturbar a actividade poedeira desta galinha de ovos de ouro?

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Ano novo

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. Na primeira crónica do ano é bom recordar mais uma vez que uso e pratico o método de Norberto Bobbio: devemos escolher uma parte, depois dessa escolha feita há que exercer o juízo crítico com severidade, especialmente com a nossa parte.

As unhas do Olho de Gato têm atingido metodicamente tanto socratistas, como passistas ou geringoncistas — os de Lisboa e os locais —, especialmente quando eles põem em causa a liberdade.

Isso é cada vez mais raro nos media. Vivemos num tempo em que os ditos “fazedores de opinião” já nem se preocupam em fingir independência, têm medo da solidão que esta implica e já só falam para a sua tribo.

Tribo essa que, por sua vez, só lê e só pensa aquilo que é a favor do seu clã ou aquilo que é a desfavor do clã adversário, numa cavalgada sectária que é depois partilhada aos uivos nas redes sociais, tornando cada vez mais crispada a nossa vida em comum.

2. Este novo ano tem três fins-de-semana prolongados e três pontes, dizem os jornais.

O que eles não dizem é que o dia dos namorados calha na quarta-feira de cinzas e que a Páscoa é no dia das mentiras.

3. Os partidos reuniram-se durante meses para arranjar uma nova lei de financiamento para si próprios, num processo secreto sem actas nem registos de espécie nenhuma.

Tudo já foi dito sobre esta opacidade devidamente vetada esta semana pelo presidente da república. Contudo, depois deste episódio, importa perguntar: quantas vezes esta pouca-vergonha já terá sido usada pelo cartel partidário no passado?

4. Ano novo, vida nova. Borbulha água de novo nos nossos montes ainda negros dos incêndios mas já com algum verde. Postes novos substituem os que arderam.

De Lisboa não se espere muito. Nem depois da tragédia, nem com um orçamento de vacas gordas que deu de mamar a todos os lóbis, nem assim foi aprovada uma fiscalidade mais favorável para as pessoas e as empresas do interior.

Para nos reerguermos contemos, acima de tudo, com a nossa força.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Não aos trolls!

Peer Gynt na Gruta do Rei da Montanha
Aguarela de Theodor Kittelsen (1913)


Eles entram juntos no salão do rei da montanha. 
Este promete converter Peer num “troll” se ele casar com a sua filha. 

Ele não aceita e tenta fugir, mas os "trolls" não o permitem...





quinta-feira, 14 de setembro de 2017

17 – X - 2003*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 14 de Setembro de 2007


1. Entra amanhã em vigor o novo Código de Processo Penal que proíbe a divulgação de escutas telefónicas, sem a autorização dos visados, mesmo que essas escutas já não estejam em segredo de justiça.


É caso para perguntar: porquê esta dureza do legislador?


Daqui
Talvez seja bom lembrar o que aconteceu em 17 de Outubro de 2003, um dos dias mais negros da história do jornalismo português. Nesse dia, foi tornada pública uma frase dita ao telemóvel por Ferro Rodrigues. A frase escolhida cirurgicamente foi: «Estou-me a cagar para o segredo de justiça.» Quase todos os “fazedores de opinião” criticaram duramente as palavras de Ferro Rodrigues; poucos condenaram a sua divulgação.

Eram os tempos do caso Casa Pia. Contra a histeria justicialista que se vivia nos media, ouviu-se, na altura, a voz corajosa de Miguel Sousa Tavares (MST). Na TVI, teve um diálogo bem vivo com Manuela Moura Guedes (MMG):

MST: «Estava eu a dizer que o meu primeiro trabalho, quando saí da faculdade, foi na Comissão de Extinção da Pide, onde tive ocasião de folhear muitos processos que a Pide tinha instruído aos antigos resistentes…»

MMG: «Ó Miguel, por amor de Deus, não vais comparar o que agora vivemos com a Pide!»

MST: «Não vou comparar porque há uma diferença grande: é que as escutas da Pide não apareciam nos jornais e agora aparecem...»

A conversa continuou azeda. Miguel Sousa Tavares foi firme a explicar que não é nas televisões nem nos jornais que se fazem julgamentos.

Por princípio, um telefonema é entre duas pessoas. E só entre elas.

2. O acesso ao Hotel Ibis, em Viseu, está um desleixo total. Sinalização, piso, envolvente, tudo de meter medo ao susto.

A Câmara Municipal e a Junta de Freguesia do Campo andam muito distraídas.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Cartazes*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. As eleições autárquicas são “a” festa da democracia, festa com dezenas e dezenas e dezenas de milhares de candidatos às freguesias, às assembleias municipais e às câmaras.

O poder local democrático é lugar de aprendizagem e de realização cívica, é nele que reside a solidez da nossa democracia. Não é a primeira vez que faço aqui este merecido elogio ao poder mais próximo dos cidadãos e que melhor lhes responde.

O poder local fez um trabalho formidável de infra-estruturação do país, com menos de dez por cento do orçamento de estado. Embora haja algumas câmaras falidas, a dívida global das autarquias não é preocupante e tem vindo a ser diminuída nos últimos anos, ao contrário da dívida do estado central que é o que se vê: mês após mês, upa-upa.

2. A cinco semanas das eleições autárquicas, a única ferramenta de propaganda que tenta chegar às pessoas continua a ser o cartaz de rua — o cartaz de rotunda, na maior parte dos casos.

Ora, nestes tempos wiki em que toda a gente está a produzir informação para toda a gente nas redes sociais, o outdoor é inútil e politicamente perigoso. Não ganha um voto mas pode fazer perder muitos.

É que há uma guerra entre os marqueteiros da política e um exército à solta, de telemóvel em punho, pronto a transformar qualquer mensagem política num “tesourinho” risível. Não lhe tem faltado matéria-prima.

A política é atirada para o lugar da galhofa e, a seguir, os media escritos ou falados pouco mais fazem com impacto do que ruminar os casos que, como eles dizem, “estão a incendiar as redes sociais”.


Fotografia de Cecília Pereira
publicada em Tesourinhos das Autárquicas 2017
Quando, acabadinho de regressar de férias, o Governo Sombra vai a uma página de “tesourinhos” do Facebook buscar cartazes e pede ao público para ir virando os polegares para cima ou para baixo (gosto/não-gosto), o excelente programa da TVI está a dizer o óbvio: as eleições, agora, são coisa de redes sociais e não de grandes rectângulos photoshopados ao derredor das rotundas.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Daily Mail



Quem lê este pasquim só pode usar velcro nos sapatos, pois não tem capacidade mental para para dar um nó aos atacadores.
Amanda Palmer

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Métodos*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 20 de Julho de 2007


1. É um vídeo de dois minutos e cinquenta e um segundos, intitulado “Rock” que já foi visto quase 200 mil vezes no YouTube. Nele, um homem olha fixamente a câmara fixa. Olha para nós, portanto. Vêem-se umas árvores e um lago no enquadramento. O homem olha-nos, estático. Ouve-se barulho de tráfego. Uma mulher de óculos escuros passa atrás dele. Imperturbável, ele continua a olhar-nos; fica assim durante mais de um minuto; depois, vira-nos as costas, dá uns passos, agarra numa pedra e atira-a, com estrépito, para as águas do lago. O homem afasta-se. No écran forma-se a mensagem: “gravel2008.us”. A água passa do sossego para o desassossego. A superfície do lago fica encrespada. Vêem-se pregas concêntricas a fluírem e refluírem. O homem continua a afastar-se. Cada vez mais longe. Não é dita uma palavra.

O protagonista de “Rock” é Mike Gravel, candidato presidencial do Partido Democrático. Este zen de comunicação política pode ser visto em www.youtube.com/watch?v=0rZdAB4V_j8:



2. Durante a campanha para a Câmara de Lisboa, Paulo Portas levou em cima com uma história “jornalística” muito mal parida sobre submarinos e Marques Mendes foi atingido com lama proveniente de Oeiras acerca dumas senhas de presença.

Resultado: lá tivemos o sempiterno José Junqueiro a fazer a figura do costume nas televisões e nos jornais.

3. A jornalista Sandra Ferreira, do jornal As Beiras, perguntou a Jorge Carvalho: “Como faz a escolha dos artistas?”

Resposta do gerente e programador da Feira de S. Mateus: “Vou procurando, vejo os discos que são mais vendidos, falo com os jovens para ver quem está na berra. A minha neta também me dá umas dicas.”

Pois é: quando se conhecem os métodos, percebem-se melhor os resultados.