Mostrar mensagens com a etiqueta Liberdade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Liberdade. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Pinderiquices*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Apesar da oposição de várias organizações ciganas, alguns activistas que se dizem “racializados”, comandados pelo sr. Mamadou Ba do bloco de esquerda, têm feito tudo para prantar uma pergunta sobre origem étnica no Censos de 2021.

Ora, uma pergunta deste tipo é racista. Como explica o sociólogo Rui Pena Pires, um departamento do estado usar a "categoria 'raça' reforça os fundamentos cognitivos do racismo”.

Os identitarismos têm muito poucos usos nobres. Este não é de certeza um deles.

2. Durante três longos anos, o parlamento teve uma “Comissão Eventual para o Reforço da Transparência” para, alegadamente, transparentar aquela casa.

Resultado dos trabalhos da comissão:
— vamos continuar a ter deputados em part-time a romperem os fundilhos das calças no parlamento de manhã e na advocacia de negócios de tarde;
— os deputados que fizeram ou venham a fazer viagens patrocinadas por empresas podem apanhar o avião à vontade.

Como se vê, enquanto o voto for sempre nos mesmos, o cartel partidário não deixa que nada mexa.

3. Como contou este jornal na sua última edição, dezenas de militantes do PCP-Viseu assinaram uma carta dirigida ao comité central em que se manifestavam contra a geringonça.

Este descontentamento das bases comunistas é incomum e, tudo indica, vai aumentar. É que, a seguir à perda de dez câmaras nas últimas autárquicas, das quais nove para o PS, o PCP vai perder um eurodeputado nas eleições deste mês.

Os tempos pós-Jerónimo que aí vêm adivinham-se turbulentos.


Fotografia de Nuno André Ferreira
Editada a partir daqui

4. Na última assembleia municipal de Viseu, o presidente da câmara culpou a geringonça por não haver Jardins Efémeros, porque o governo não teria dado 15 mil euros àquele festival.

Tendo presente as centenas e centenas e centenas de milhares de euros que o vereador Sobrado vai espatifando por ano em festas e festinhas, António Almeida Henriques vir desta maneira tentar atirar as culpas para terceiros é pindérico.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

A paisagem*

* Hoje no Jornal do Centro


1. No último Olho de Gato, descrevi que a nossa relação com a internet agora é, como se diz no Facebook, complicada. Isso está a mudar-nos pessoal e colectivamente.

A esperança acendida com a primavera árabe, à excepção da Tunísia, virou pesadelo. As novas formas de participação democrática online ou falharam ou ficaram-se pelos orçamentos participativos da treta com que se entretêm os nossos autarcas e os jotinhas.

Este desencanto das pessoas é uma alegria para os estados. Os governos sempre quiseram controlar a internet e agora, perante o faroeste em que ela se tornou, aproveitam.

No domingo de Páscoa, logo depois dos atentados no Sri Lanka, o governo desligou as redes sociais. Foi só mais um episódio de uma tendência que vai aumentar.


2. Portugal é Lisboa, o resto é paisagem. Todos os governos sem excepção têm sido centralistas, mas o actual abusa.

No dia 1 de Setembro, estava ainda a ser cozinhado o orçamento de estado nos bastidores, já Fernando Medina anunciava 60 milhões de euros para passes fofinhos para os alfacinhas. Depois, perante o clamor do resto do país, o governo lá arranjou mais umas dezenas de milhões de euros para diluir na paisagem.


Posto Galp, Praça Carlos Lopes, Viseu, 17 de Abril
Fotografia Olho de Gato
Agora, no dia 16 de Abril, como havia o risco de a greve dos motoristas secar os postos de combustível, a Resolução do Conselho de Ministros n.º 69-A/2019 prescreveu os seguintes serviços mínimos: “abastecimento de combustíveis aos postos de abastecimento da grande Lisboa e do grande Porto, tendo por referência 40% das operações asseguradas em dias em que não haja greve.”

Foi mesmo em letra de lei. Para o governo, a paisagem que ande a pé. Ou de burro.

Há aqui um padrão que o comportamentalista Ivan Petrovich Pavlov descreveu em laboratório em 1920: quem tem o verdadeiro poder na geringonça, como poliu durante muitos anos as cadeiras da câmara de Lisboa, como casou entre si, como se foi empregando mutuamente, tem um reflexo condicionado — saliva sempre primeiro por Lisboa.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Se alguém se engana com o seu ar sisudo

Fotografia de Eduardo Gageiro



Os vampiros

No céu cinzento sob o astro mudo
Batendo as asas pela noite calada
Vêm em bandos com pés de veludo
Chupar o sangue fresco da manada

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada (2x)

A toda a parte chegam os vampiros
Poisam nos prédios poisam nas calçadas
Trazem no ventre despojos antigos
Mas nada os prende às vidas acabadas

São os mordomos do universo todo
Senhores à força mandadores sem lei
Enchem as tulhas bebem vinho novo
Dançam a ronda no pinhal do rei

Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada (2x)

No chão do medo tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos na noite abafada
Jazem nos fossos vítimas dum credo
E não se esgota o sangue da manada

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhe franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada (2x)
José Afonso


















sexta-feira, 19 de abril de 2019

A lua-de-mel acabou*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Há uns dias, um amigo do Facebook escreveu um post melancólico intitulado “Polícia de Costumes” onde confessou que não ia repetir uma publicação de 2012 de um cartoon com “uma fantasia sexual comum entre homens e mulheres”. É que, há sete anos, aquela brincadeira teve muitos likes e “meia dúzia de comentários” bem-humorados, mas, se a republicasse agora, ia ter que perder tempo com as “cabeças púdicas e policiais que andam por aí a voar aos círculos”.

É verdade: em poucos anos ficámos assim, a medir o que se pode dizer e o que não se pode dizer. As nossas sociedades estão mais crispadas, mais sectárias, mais puritanas, e o primeiro alvo dessa fúria intolerante é a liberdade de expressão em geral e o humor em particular.

Imagem daqui
Não é por acaso que a maioria do tráfego de haters no FB do Jornal do Centro acontece nos comentários às peças da sua página de paródia, o Centro Leaks - Tintol & Traçadinho.

E essa censura não vem, como diz Nassim Nicholas Taleb, “do Estado em si” mas de “uma monocultura intelectual” imposta “por uma polícia do pensamento hiper-activa nos meios de comunicação social e na vida cultural.”

Eu tenho chamado aqui “chuis da linguagem” à malta dessa “polícia do pensamento”, sempre a ver “discursos de ódio” em tudo, sempre a censurar tudo, até o capuchinho vermelho. E essa repressão é feita nos dois mundos em que nós agora habitamos: o mundo real e o mundo virtual.

2. Há um texto de Jesse Weaver, intitulado “Uma teoria unificada de tudo o que está errado na internet”, que descreve muito bem o conflito entre esses dois mundos e a forma como o nosso cérebro actua num e no outro.

De facto, a nossa lua-de-mel com a internet acabou. O fascínio já lá vai. Agora é só problemas: fake-news, trolls, cyber-bullying, pop-ups chatos, viciação tecnológica e as malditas bolhas de filtro — os algoritmos que usam os históricos de navegação para darem às pessoas sempre coisas semelhantes, fechando-as nas suas certezas, até as tribalizar.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Quem dera que...*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Já foram recuperadas e entregues aos donos quase todas as casas ardidas em Outubro de 2017. Na região, felizmente, não houve nada parecido com Pedrógão. Os nossos autarcas merecem aplauso.

A paisagem também está a recuperar. Já quase não há negro nos montes ardidos.

Quem dera que se tratasse agora da eclosão espontânea de eucaliptos, essa bomba-relógio a espalhar-se com força nos concelhos do sul do distrito.

2. Tratei aqui do familismo na política há mais de um ano, ainda não se conhecia, nem de perto nem de longe, a dimensão da endogamia que vai na cúpula socialista.

A tese que defendi então foi a seguinte: a bancarrota socrática, ao ter-nos levado as grandes empresas (a banca, a PT, a EDP, os CTT, ...) onde os nossos políticos costumavam prantar os familiares sem dar muito nas vistas, obriga-os agora a pôr os parentes em lugares de mais escrutínio.

Como estão mais visíveis, os media repararam e os parentes caíram na lama. Ainda há um ou outro comentador mais geringoncista e um ou outro aparelhista mais canino que refere a putativa “competência” especial desta fauna, mas vozes de burro não chegam ao céu.

Quem dera que todo este escrutínio resulte em listas menos nepóticas nas próximas legislativas.

3. Os “técnicos” de som das festas, em vez de confinarem a música aos recintos, abrem de tal maneira as goelas aos equipamentos que estes são ouvidos quilómetros e quilómetros em redor. Este costume bárbaro é particularmente nefasto no Verão porque as pessoas precisam de ter as janelas abertas para refrescarem as casas e, com o barulho, não conseguem descansar.


Daqui
Na semana passada, uma festa no Politécnico de Viseu não deixou dormir ninguém à volta, o que fez com que o vice-presidente da câmara lhe cortasse o pio no último dia. Muito bem!

Quem dera que Joaquim Seixas continue a controlar os decibéis festivos do Verão. A começar pelas festas e festinhas organizadas pela sua câmara.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Tear the fascists down

Daqui
There's a great and a bloody fight
'round this whole world tonight
And the battle, the bombs and shrapnel reign
Hitler told the world around he would tear our union down
But our union's gonna break them slavery chains
Our union's gonna break them slavery chains

I walked up on a mountain in the middle of the sky
Could see every farm and every town
I could see all the people in this whole wide world
That's the union that'll tear the fascists down, down, down
That's the union that'll tear the fascists down

When I think of the men and the ships going down
While the Russians fight on across the Don
There's London in ruins and Paris in chains
Good people, what are we waiting on?
Good people, what are we waiting on?

So, I thank the Soviets and the mighty Chinese vets
The Allies the whole wide world around
To the battling British, thanks, you can have ten million Yanks
If it takes 'em to tear the fascists down, down, down
If it takes 'em to tear the fascists down

But when I think of the ships and the men going down
And the Russians fight on across the Don
There's London in ruins and Paris in chains
Good people, what are we waiting on?
Good people, what are we waiting on?
So I thank the Soviets and the mighty Chinese vets
The Allies the whole wide world around
To the battling British, thanks, you can have ten million Yanks
If it takes 'em to tear the fascists down, down, down
If it takes 'em to tear the fascists down
Woody Guthrie 




sábado, 30 de março de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#230)

As criaturas da tesoura, agora, são os chuis da linguagem, os chibos politicamente correctos sempre prontos a acharem em tudo "discurso do ódio"


quarta-feira, 27 de março de 2019

Hanami*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 27 de Março de 2009

Fotografia Olho de Gato
1. Hanami é uma tradição milenar japonesa que leva multidões para debaixo das cerejeiras a admirarem a beleza das suas flores. 

Ainda pode fazer hanami este fim-de-semana no vale do Douro, entre a Régua e Resende, onde há milhares de cerejeiras floridas à sua espera.
     
2. “A tendência do homens (…) a imporem aos outros como regra de conduta a sua opinião e os seus gostos, está tão energicamente sustentada por alguns dos melhores e alguns dos piores sentimentos inerentes à natureza humana que quase nunca se detém a não ser por lhe faltar poder.”
     
Quando escreveu isto há 150 anos, Stuart Mill estava longe de imaginar deputados, no século XXI, a parirem leis sobre o sal no pão nosso de cada dia.
     
3. Começo este ponto com uma declaração de interesses: integro um órgão não executivo do Cine Clube de Viseu (CCV).
     
Apesar disso, é com objectividade que afirmo: o CCV tem uma actividade cultural competente e consistente. O seu trabalho com as escolas já envolveu mais de 20 mil alunos. O Ministério da Cultura acaba de o colocar, pelo terceiro ano consecutivo, em primeiro lugar na rede nacional de exibição não comercial de cinema.
     
O CCV está bem mas há nuvens no horizonte. A evolução tecnológica vai fazer desaparecer as cópias de filmes em celulóide e a cidade ainda não tem uma sala não comercial com projecção digital.
     
Era importante que o futuro Centro de Artes do Espectáculo de Viseu (CAEV) tivesse uma sala com essa funcionalidade. Quanto mais modular, flexível e multidisciplinar o CAEV for, melhor.
     
É necessário evitar que o CAEV se transforme em mais um elefante branco. É agora na fase de concepção que se pode evitar esse risco bem real.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Autocitações*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 20 de Março de 2009

1. “Cito-me muitas vezes. Isso apimenta a minha conversa.”, disse uma vez Bernard Shaw, numa blague que não deve ser levada a sério já que a autocitação é só um sinal de preguicite aguda. É o principal defeito desta crónica.

2. Em 2005, Maria de Lurdes Rodrigues começou o seu mandato a desaconselhar os trabalhos de casa. Agora acabou a dizer sim à confederação de pais que quer as escolas abertas 12 horas por dia.

Escrevi aqui no Olho de Gato de 13.10.2006: “Maria de Lurdes Rodrigues, a Ministra da Educação, tem sido autoritária com as escolas, despesista com as autarquias, facilitista com os alunos e titilante com as famílias.”

Este entre aspas a mim próprio não é, como dizia Bernard Shaw, para apimentar esta crónica. É só o balanço do marilurdismo.

3. Escrevi na última semana: «A quase primavera é a voz de Ney Matogrosso a cantar a epiderme "por debaixo dos pano".»

Um leitor atento chamou-me a atenção que aquele “por debaixo dos pano” não tem nada a ver com epidermes, nem amores da primavera, mas sim com corrupção, com dinheiros por “debaixo das mesa”.

Transcrevo o refrão:
O que a gente faz
É por debaixo dos pano
Prá ninguém saber
É por debaixo dos pano
Se eu ganho mais
É por debaixo dos pano
Ou se vou perder
É por debaixo dos pano

Provou-se em tribunal que o dono da Bragaparques quis comprar o vereador José Sá Fernandes. Pena aplicada a Domingos Névoa: 5000 euros de multa.

Esta pena é uma anedota mas o tribunal aplicou as leis anti-corrupção que temos.

Entretanto, no parlamento, insossa-se o pão. Dos tentáculos do polvo ninguém trata.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Dor*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 6 de Março de 2009


Peter Singer é professor de Bioética na Universidade de Princeton. O seu pensamento é muito controverso e combina profundidade com clareza.

Lê-se no seu livro Escritos Sobre Uma Vida Ética [D. Quixote, 2008]: “A dor é má e quantidades similares de dor são igualmente más, seja quem for aquele que sofre.” 
     
A dor de que fala Peter Singer não é só a dor humana. Ele fala da dor de todos os seres sencientes pois os animais também sentem dor. Muitas vezes, é necessário causar dor a outros seres ou a nós próprios. Mas, se possível, a dor deve ser evitada.

Por vezes, a dor causada por uma doença torna a vida insuportável e desprovida de qualidade e de perspectivas. Nesses casos há um dilema ético e pensa-se na eutanásia.

Precisamos conhecer as melhores práticas mundiais. Na Holanda, conforme se explica no livro citado, a eutanásia só é possível:
     
i) se for efectuada por um médico a pedido explícito do paciente (pedido que não deixe nenhuma dúvida sobre a sua vontade de morrer);
     
ii) se a decisão do paciente for informada, livre e persistente;
     
iii) se o paciente estiver numa condição irreversível que lhe cause sofrimento que ele considere insuportável:
     
iv) se não existir alternativa razoável para lhe aliviar o sofrimento;
     
v) se o médico tiver consultado outro profissional independente que concorda com o seu juízo.

 A eutanásia não pode nem deve ser aplicada já. Primeiro há que debater de uma forma alargada e serena este tema que encerra em si todas as angústias do mundo.

Para já o país precisa de uma rede nacional de cuidados paliativos, com equipas multidisciplinares, capazes de diminuir o mais possível a dor dos doentes e das suas famílias porque diminuir o sofrimento é obrigação de uma sociedade decente.

sexta-feira, 1 de março de 2019

Carnaval, entrudo, liberdade*

* Hoje no Jornal do Centro


Estão a chegar os três dias de entrudo. E, segundo prevê a meteorologia, depois da primavera antecipada que tivemos, no carnaval vai estar frio para arroxear as carnes das matrafonas mais descascadas.

Dulce Simões, num texto académico intitulado “Carnaval em Lazarim: máscaras, testamentos e práticas carnavalescas”, caracteriza o que se passa nestes dias como “um sistema simbólico associado à transição do Inverno para a Primavera, do velho para o novo, da morte para a vida”, um sempre repetido “ciclo de renovação cósmica e social, tempo de utopia e transgressão, onde o marginalizado busca uma libertação catártica, vencendo simbolicamente a hierarquia, a ordem, a opressão, e o sagrado.”

No carnaval, ninguém leva a mal. No entrudo, vale tudo. Mas será que ninguém leva a mal? Mas será que vale mesmo tudo?

No ano passado contei aqui o caso de Carlos Santiago, cujo “Pregón de Entroido” que fez em Santiago de Compostela pôs aquele excelente monologuista debaixo de tiro da igreja e da direita espanhola mais retrógada.


Fotografia daqui
Já este ano, Bruno Melo, o escultor que pôs uma “Nossa Senhora da Bola” num monumento ao Carnaval de Torres Vedras, viu a paróquia da terra muito zangada a obrigar o município a retirá-la.

Pois, é isso: é carnaval mas há quem leve a mal, é entrudo mas não vale tudo.

Nestes tempos tão ásperos para a liberdade de expressão, às repressões antigas provenientes da religião e dos autoritarismos, há que somar também agora a repressão dos chuis da linguagem do politicamente correcto.

O que é dito nos testamentos do Entrudo de Lazarim já desfez casamentos, já deu querelas em tribunal, mas nunca ninguém se zangou por uma comadre chamar “paneleiro” a um compadre, ou este chamar àquela “fressureira”. Isso em outros tempos. Agora, com os chuis da linguagem e os seus ofendidinhos politicamente correctos, é capaz de ser perigoso.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

DREN*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 27 de Fevereiro de 2009


1. Continuam as anedotas da DREN. Desta vez não é uma história de bufaria. Desta vez Margarida Moreira impôs que fosse feito um desfile de carnaval em Paredes de Coura, actividade que o agrupamento de escolas do concelho tinha decidido não fazer.
Eis, ipsis verbis, o último ponto do documento que Margarida Moreira enviou a desautorizar o conselho pedagógico de Paredes de Coura:

"Sendo certo que muitos professores não se aceitam o uso dos alunos nesta atitude inaceitável, acompanharemos de muito perto a defesa do bom nome da escola, dos professores e de toda uma população que muito tem orgulhado o nosso país pela valorização que à escola tem dado."

É evidente que quem escreve com esta qualidade pensa com esta qualidade.

Os professores de Paredes de Coura foram humilhados até ao que há de mais fundo na sua dignidade profissional.

Como se costuma dizer no Minho, perante tal desaforo, aqueles professores ou mandavam a DREN abaixo de Braga (e não compareciam ao desfile) ou mandavam a DREN abaixo de Braga (e aproveitavam o desfile para mostrarem a sua indignação).
Escolheram a segunda opção. 
Daqui
As imagens em todos os media de professores vestidos de preto e de boca amordaçada foram bem eloquentes.

2. Antigamente, em várias comunidades piscatórias, quando morriam pescadores no mar, as viúvas e os outros familiares apedrejavam as capelas. Com o desespero, pegavam nos santos, lapidavam-nos, insultavam-nos e enterravam-nos na areia. Eram os santos, que não tinham culpa nenhuma das inclemências do mar, que pagavam.

A economia mundial afundou-se por causa da ganância do capital especulativo. Cresce o desespero e o desespero não é bom conselheiro. Quem é que vai ser apedrejado?

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Deepfakes*

* Hoje no Jornal do Centro 
in Centro Leaks — Tintol & Traçadinho,
página de humor do Jornal do Centro,
edição de hoje 

1. No ano passado, o presidente da câmara de Penedono não fez nada que se visse para evitar o encerramento da estação de correio daquela bela vila do distrito de Viseu.

Agora, o ministério da saúde quis colocar um médico dentista e um assistente no centro de saúde local, num programa que carece do envolvimento das autarquias, mas o presidente da câmara pôs-se outra vez de fora, alegando que já lá há dentistas privados.

Se não é para defender a sua terra, se não é para defender a saúde dos seus munícipes mais pobres, para que raio é que o homem julga que foi eleito?

2. Os verdes do parlamento europeu fizeram as contas aos custos da corrupção em Portugal: todos os anos escoam-se pelo ralo 18,2 mil milhões de euros, mais do que o SNS (16,1 mM€), mais do dobro do orçamento da educação (8,7 mM€), mais de metade de todas as despesas sociais do estado. Aquele balúrdio que vai para o bolso dos corruptos dava para pagar a cada português 1763 euros. A conta foi feita também em Big Macs, mas só pensar nisso engorda.

Perante este cenário, de que a ladroagem na CGD é só a ponta do icebergue, a verdade verdadinha é que ninguém vai preso. Armando Vara parece-se cada vez mais com o boi de piranha dado em sacrifício para que o resto da manada atravesse incólume o rio.

O PS, o PSD e o CDS — que contaminaram a CGD com os seus boys — no mínimo dos mínimos deviam pedir desculpa ao país.

3. Deepfakes são vídeos manipulados que põem pessoas a dizer e fazer coisas que elas nunca fizeram ou disseram. Estes vídeos estão cada vez mais realistas e de produção acessível a cada vez mais gente.




Escusado será dizer que um deepfake pode desfazer uma reputação, pode estraçalhar um político. Pior: ao ser indistinguível a verdade da mentira, tudo nos parecerá mentira.

Vai haver tecnologia de detecção de deepfakes mas que será sempre imperfeita. O mais importante é não sermos impulsivos nas partilhas nas redes sociais e usarmos canais com um histórico de rigor.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Multitarefas*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 20 de Fevereiro de 2009

1. Nós conseguimos fazer várias coisas ao mesmo tempo.

Há uns anos no IP3 foi apanhado pela GNR um condutor que ia a conduzir a 160 à hora e a fazer a barba. O facto é que o homem não se esbarrou.


Daqui
Já vi num multibanco uma mulher a levantar dinheiro da máquina enquanto falava ao telemóvel e comia um croissant. Ela não se enganou. Não falou para o multibanco nem comeu o telemóvel nem levantou o croissant.

Dizia-se que o presidente americano Gerald Ford não era capaz de caminhar e mascar chiclet ao mesmo tempo mas isso era só uma maldade dos seus inimigos políticos.

Nós somos multitarefas.

Portanto, por favor, não me digam que os portugueses não são capazes de votar para as autárquicas e para as legislativas no mesmo dia. Então as pessoas são capazes de votar em três papelinhos diferentes mas em quatro já não?

Ultimamente tenho ouvido muito o argumento que o que é preciso é atacar a crise económica em vez de se estar a pensar em problemas de minorias como o casamento gay. Ora, este argumento não tem em conta que os políticos também são multitarefas. Numa manhã de trabalho e sem madrugarem muito, os deputados podem perfeitamente resolver o problema do casamento entre homossexuais e ainda ficam com a tarde toda para lutarem contra a recessão.

2. Às vezes, na cabeça das pessoas, forma-se a ideia que a felicidade está sempre noutro lugar ou noutra circunstância, nunca no lugar ou na circunstância em que se está.

É disso que trata Revolutionary Road, de Sam Mendes, um filme amargo que vai aumentar a taxa de divórcios do mundo.

3. No último sábado foi lançado o primeiro número da Viseu.M. É uma revista excelente e imperdível.

Parabéns ao Grupo de Missão do Museu Municipal de Viseu.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Acabou o Natal*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 16 de Janeiro de 2009


1. Acabou o Natal.

Em Viseu, já tiraram a passadeira alaranjada da Rua Formosa e foi-se o Porsche do sorteio do Forum. A neve da última sexta-feira fez da cidade um presépio branco lindo mas atrasado.

É tempo de fazermos uma aterragem na crise. Que seja suave…

2. Há novidades na política de estacionamento em Viseu.

A câmara anunciou uma descida forte nas tarifas dos parquímetros (de 64 cêntimos para 40, na primeira hora). É uma notícia excelente.

Estão a decorrer concursos para a construção e exploração de dois parques de estacionamento no centro histórico. Oxalá esses concursos não fiquem vazios.

Infelizmente, ainda não foi desta vez que a câmara municipal anunciou lugares de estacionamento reservados aos moradores. Foi pena. É uma medida tão necessária para dar vida ao centro histórico como a tão falada loja do cidadão.

3. Depois das votações à tangente no parlamento na semana passada, a avaliação dos professores ficou assim:

i) até 31 de Agosto, continua em vigor a versão simplex (um faz-de-conta desassisado);

ii) a partir de 1 de Setembro, regressa a versão complex (um labirinto sádico infecundo).



4. As eleições autárquicas e legislativas devem ser feitas no mesmo dia. É um 2 em 1 cheio de vantagens: poupa-se tempo e dinheiro.

Dizer-se que as pessoas não sabem distinguir o voto local do voto nacional é um insulto à inteligência dos portugueses.

Uma democracia saudável respeita os calendários eleitorais. Há duas boas datas para irmos a votos e aviarmos logo tudo de uma vez: 27 de Setembro e 11 de Outubro. O domingo 4 de Outubro não é tão bom por causa do fim-de-semana prolongado.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Bodes expiatórios*

* Hoje no Jornal do Centro



“O homem é a criatura que não sabe o que desejar e que se vira para os outros para se decidir. Nós desejamos o que os outros desejam porque imitamos o seu desejo.”
Renė Girard

É esta teoria do desejo mimético de René Girard que explica o sucesso das redes sociais. As pessoas desejam o que os outros desejam e odeiam o que os outros odeiam e essa imitação materializa-se em likes e partilhas.

As sociedades ligadas em rede como as nossas, apesar de toda a tecnologia que usam, são comandadas, como explica o filósofo francês, pelas pulsões primitivas de sempre — a alcateia de “haters” a uivar em cada indignação do Facebook parece-se muito com os antigos ritos sacrificiais, em que eram sangrados e queimados em aras os bodes expiatórios (os inimigos, as bruxas, os sacrílegos, ...)

A sociedade foi partida em grupos identitários que criam para si uma história de agravos e de ressentimentos, reais ou imaginários, sempre a querer fazer ajustes de contas. Isso permite à política viver do fabrico de bodes expiatórios que vão sendo entregues para sacrifício ao vampirismo identitário. Enquanto ardem as redes sociais, e elas estão sempre incendiadas, os políticos lá vão tratando das suas vidas.

A criança Trump precisa do “traficante” do lado de fora do muro com o México enquanto o seu clã faz negócios com os sauditas, o boçal Bolsonaro necessita da “petralhada” enquanto os filhos abrem a boca e sai asneira, o sinistro Puigdemont depende da diabolização do “espanhol” para que os catalães não vejam a sua mediocridade, o aflito Macron carece do “casseur” para ver se se safa daquele colete de onze varas em que está metido.


Daqui
Até a nossa pacífica geringonça, pelo que se tem visto com a reacção à ida de um suástico a um programa de televisão, anseia por um “fascista” que possa ocupar o lugar de bode expiatório que está vago desde que saiu de cena Pedro Passos Coelho.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Web 2.0*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 9 de Janeiro de 2009


1. Em 2008, os media tradicionais perderam audiência para a Web 2.0, a internet dos blogues, das redes sociais, do YouTube, da wiki, …
     
É conhecida a diferença entre eles: enquanto nos media tradicionais temos “um a falar para muitos”, na Web 2.0 temos “muitos a falar para muitos”.
     
Na Web 2.0 milhões e milhões de “formigas” produzem e disseminam informação. Isto é novo e tem consequências no “formigueiro”.
     
Obama foi um campeão da Web 2.0. Os seus vídeos no YouTube foram vistos por 50 milhões de pessoas. Os donativos angariados através da net permitiram a Obama dispensar até o uso de fundos públicos.

Paulo Guinote
Em Portugal, o entendimento assinado em Abril entre os sindicatos e o ministério da educação foi estilhaçado pelos blogues dos professores. Foram os blogues que mostraram o labirinto sádico do modelo de avaliação de professores engendrado por Maria de Lurdes Rodrigues. Foi nos blogues que se fez a mobilização total da classe. Antes dos media e, muitas vezes, contra os media, foram os blogues dos professores que deram informação credível a mostrar as escolas à beira de um ataque de nervos.
     
Escusado será dizer que a Web 2.0 vai ter um grande papel nas três eleições que vão acontecer em Portugal este ano.


Uma vénia ao 
2. No nosso regime semipresidencialista, o presidente da república exerce o poder moderador, poder reservado aos reis nas monarquias constitucionais (em Portugal, de 1826 a 1910).
     
Diz Slavoj Žižek, em As Metástases do Gozo: “o direito do rei a dois vetos consecutivos era essencial porque lhe permitia render-se aos desejos da assembleia (…) sem perder a sua dignidade e majestade.”
     
É a esta luz que deve ser vista a acção de Cavaco Silva durante o processo legislativo do estatuto dos Açores.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Dito no Jornal do Centro em 2018*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


5 de Janeiro
De Lisboa não se espere muito. Nem depois da tragédia [dos incêndios] foi aprovada uma fiscalidade mais favorável para as pessoas e as empresas do interior.

13 de Abril
A geringonça aumentou as verbas nacionais para apoio à cultura mas cá diminuiu-as fortemente. O ministério quer tirar 130 mil euros por ano à Acert e 93 mil ao Teatro Viriato. Onde estão os eleitos com os nossos votos capazes de evitar que tal aconteça?

4 de Maio
Deixámos que a A25 nos estragasse o IP5 porque acreditámos quando nos disseram que a A25 não ia ter portagens. Vamos repetir a asneira? Vamos deixar que nos estraguem também o IP3? Depois, na próxima bancarrota, para fugirmos aos pórticos, regressamos às curvas do Luso?

25 de Maio
O centralismo tem duas peles muito ásperas: a pele política, manhosa, cheia de retórica na defesa do interior mas que aplica todos os recursos no litoral onde estão os votos; a pele tecnocrática, untuosa, que já começou a levantar espantalhos nos media contra a “província”.

8 de Junho
A multiplicação de eventos borliantes, promovidos directa ou indirectamente pelo município de Viseu, descura a medida do impacto dos mesmos e do retorno dos dinheiros públicos envolvidos. Impede também que se gere um mercado, com público habituado a pagar o seu bilhete.

6 de Julho
“Populista” é o “vem-aí-lobo!”, é o novo nome do “homem-do-saco” que vem levar as criancinhas que não comem a sopa. Houve uma altura em que se chamava a tudo o que não agradava “fassista”, agora é “populista”.

9 de Novembro
Precisamos de uma câmara de Viseu forte capaz de impedir que os boys socialistas da Águas de Portugal ou os capitalistas da Águas do Planalto nos imponham transvases e nos salguem as facturas mensais do precioso líquido.

21 de Dezembro
É necessário criminalizar o enriquecimento ilícito, meter logo na cadeia os corruptos após condenação em segunda instância, instituir a colaboração premiada para quebrar a omertá corrupta.

-------------


Os Olhos de Gato publicados no Jornal do Centro podem ser lidos aqui neste blogue clicando na etiqueta Jornal do Centro.

Segue-se a primeira leitura para esta selecção de fim-de-ano que, depois, foi devidamente tesourada para os necessários menos de 2000 caracteres:

[5Jan] 
De Lisboa não se espere muito. Nem depois da tragédia, nem com um orçamento de vacas gordas que deu de mamar a todos os lóbis, nem assim foi aprovada uma fiscalidade mais favorável para as pessoas e as empresas do interior.
Para nos reerguermos contemos, acima de tudo, com a nossa força.

[2Mar] 
O sr. A faz uma afirmação, mas o sr. B, em vez de tratar dos méritos ou deméritos da dita afirmação, põe é um carimbo mau no sr. A.
Há mais formas de desconversar mas deitar abaixo o mensageiro é o exercício preferido nas querelas de opinião dos media e das tribos das redes sociais. E, claro, para denegrir o mensageiro, chovem ataques ao seu carácter.
-----
A ascensão meteórica de Elina Fraga no PSD de Rui Rio diz muito sobre a natureza leninista dos nossos partidos. Em nenhum deles há dinâmicas de baixo para cima. As políticas são definidas em cima e seguidas em baixo. E os lugares de influência são monopolizados pelo topo que controla também as sobras para a restante cadeia alimentar.
Portanto, para se ter poder e influência no nosso sistema partidário, ou se faz o complicado e demorado caminho para chegar a chefe ou se escolhe um muito mais fácil e rápido: ser guru do chefe. A fatal Elina usou este atalho.

[9Mar] 
Assim como nos nossos montes, depois dos incêndios, se vêem melhor as pedras, também depois do fogo que pôs as nossas maiores empresas em mãos estrangeiras vêem-se muito melhor os familismos das nossas elites.
Os nossos políticos ficaram sem o mato da PT, da EDP, do BES, onde iam prantando sem dar muito nas vistas os cônjuges, os manos, os primos, os...

[16Mar] 
Os eleitores comunistas elegeram Fernando Loureiro para a assembleia municipal de Viseu mas o lugar acabou por ficar para Filomena Pires. Os eleitores socialistas do distrito elegeram deputados Maria Manuel Leitão Marques, António Borges e João Paulo Rebelo mas saíram-lhes na rifa Marisabel Moutela, José Rui Cruz e Lúcia Silva.
António Costa e Rui Rio, já que estais virados para “acordos de regime”, aqui está um a sério: é urgente acabar com esta vigarice política que leva as pessoas a votarem em A para depois o lugar ficar para B.

[23Mar] 
Foram desmatados muitos terrenos antes de 15 de Março. Respeitaram o prazo absurdo de uma má lei centralista, estúpida, que não sabe nem quer saber nada do mundo rural e que não tem em conta nem as diferenças regionais nem as condições meteorológicas. Além disso, obriga a limpar 50 metros em redor de casas, um exagero que impõe custos enormes a proprietários que não foram tidos nem achados sobre as construções junto dos seus terrenos.
Entretanto, os sarilhos atirados para as costas dos donos dos terrenos foram atirados também para cima das autarquias. Estas que poupem em festas e gastem em desmate, foi com esta mordidela que o ministro da agricultura sacudiu o capote governamental.
Infelizmente, muitas pessoas mal informadas e com medo das multas estão a cortar tudo a eito, o necessário e o desnecessário. O que faltou em informação competente sobrou em ameaças com a GNR. O ministro Cabrita transplantou para a administração interna a mesma incompetência com que dirigiu o dossier da regionalização em 1998, ou tutelou a pulsão censórica da CIG em 2016 e 2017.

[6Abril] 
Em Lisboa e Vale do Tejo, as actividades culturais vão receber €1.75 por habitante. A capitação desce para €1.08 na região centro, no norte fica-se por €0.95 e na Madeira afunda-se para €0.78, menos de metade do subsídio por alfacinha.
Lisboa parte e reparte e abarbata sempre a melhor parte.

[13Abril] 
A chegada de um partido populista ao poder não é, em si, uma tragédia. Por vezes, é até bom que as suas receitas simplistas choquem com a realidade. Veja-se o caso do Syriza. Depois de meio ano de desvario que culminou na vigarice do referendo OXI, Tsipras ganhou juízo. O mesmo há-de acontecer em Itália se chegar a haver um governo do Cinco Estrelas.
O populismo só se torna um fungo letal quando, chegado ao poder, tem força para anular os contra-pesos de uma democracia — a independência dos media e dos tribunais. Quando tal acontece, alapam-se, pelo voto não saem, só através da força.
--------------
a geringonça aumentou as verbas nacionais para apoio à cultura mas cá diminuiu-as fortemente. O ministério quer tirar 130 mil euros por ano à Acert e 93 mil ao Teatro Viriato.
Onde estão os eleitos com os nossos votos capazes de evitar que tal aconteça?

[4Maio] 
Deixámos que a A25 nos estragasse o IP5 porque acreditámos quando nos disseram que a A25 não ia ter portagens. Vamos repetir a asneira? Vamos deixar que nos estraguem também o IP3? Depois, na próxima bancarrota, para fugirmos aos pórticos, regressamos às curvas do Luso?

[18Maio] 
As casas dos políticos vão adquirindo adjectivos cada vez mais delirantes. O deputado bloquista Pedro Soares, apanhado também a arredondar o fim do mês, afirmou-se à RTP com:
— uma “morada estável” (sic) na sede do bloco de esquerda em Braga;
— uma “morada de família” (sic) em Vouzela, nunca registada porque, disse o deputado e escreveu o bloco num comunicado, o custo seria “mais elevado” para o parlamento;
— uma “morada de contacto” (sic) em Lisboa nunca indicada à AR mas registada no tribunal constitucional para “facilidade de contacto” deste.

[25Maio] 
A verdade é que, das três alternativas estudadas pela Infraestruturas de Portugal, o governo quer escolher a pior só porque é a mais baratinha. E a região não pode deixar que se repita no IP3 a asneira que foi feita no IP5. É que depois, na próxima bancarrota, não vai haver força para impedir portagens nos troços que venham, eventualmente, a ser duplicados.
---------
O centralismo tem duas peles muito ásperas:
— a pele política, manhosa, cheia de retórica na defesa do interior mas que aplica todos os recursos no litoral onde estão os votos;
— a pele tecnocrática, untuosa, que já começou a levantar espantalhos nos media contra a “província”.

[1Junho] 
Certo, certo, é que, na noite de 15 para 16 de Outubro, a estrada regional 230 entre Carregal do Sal e Tondela foi varrida pelos ventos doidos e crestos da tempestade Ophelia, e o fogo furioso fez fenecer tudo à frente.
Queimou tudo menos aquela declaração de amor naquela parede.
-------
Os actores principais deste teatro mínimo que é a presença do estado no interior não existiram naquela noite trágica, só existem quando é para cobrarem impostos ou para fazerem leis mal paridas como aquela que obrigava a limpar o mato até 15 de Março, mato que, entretanto, já cresceu outra vez.

[8Junho] 
A multiplicação de eventos borliantes, promovidos directa ou indirectamente pelo município de Viseu, descura a medida do impacto dos mesmos e do retorno dos dinheiros públicos envolvidos. Impede também que se gere um mercado, com público habituado a pagar o seu bilhete.
Há que criar esse hábito até porque o concelho tem já muitas pessoas a trabalharem na cultura e que precisam que ela tenha sustentabilidade.

[15Jun] 
Há para aí cada vez mais gente a falar sozinha sem dar conta disso. Muitos dos que dão conta, em desespero por audiências, até fazem o pino em posts no Facebook.
Já o devo ter dito aqui mas repito-o: como a atenção é cada vez mais rara, ela ainda vai ser paga. E, como sempre, quando isso acontecer, os ricos vão receber mais do que os pobres.

[6Julho] 
"Populista" é o "vem-aí-lobo!", é o novo nome do "homem-do-saco" que vem levar as criancinhas que não comem a sopa. Houve uma altura em que se chamava a tudo o que não agradava "fassista", agora é "populista".
Escusado será dizer que quando chegarem os lobos populistas, e eles vão mesmo chegar, a palavra já estará gasta, metida no fundo do saco da indiferença.
------
Homem bom, tolerante, atento, sensível, D. Ilídio foi uma lufada de ar fresco numa cidade e numa diocese enclausuradas demasiados anos no mundo reaccionário e ultramontano do bispo D. António Monteiro.
Para além desta oxigenação vivificadora da diocese, D. Ilídio iniciou uma mais que necessária recuperação patrimonial, muito bem sucedida na vertente dos bens culturais, não muito bem na parte imobiliária por causa da crise pós-2008.
Saneou, ainda, moralmente o Jornal da Beira. Aquele órgão de comunicação da diocese cumpre agora o seu papel, não é mais o pasquim alaranjado que era no virar do milénio.
Obrigado, D. Ilídio!

[20Julho] 
No concelho de Viseu, a omnipresença de Jorge Sobrado leva ao eclipse parcial do presidente da câmara e ao eclipse total dos outros vereadores.
Para deseclipsar a situação, António Almeida Henriques tem duas hipóteses: ou dilui Xanax nas bebidas do seu vereador da cultura ou contrata uma equipa alargada para a comunicação da câmara. Claro que a primeira hipótese não é defensável por ninguém e a segunda — que, ao que consta, está a ser cozinhada — é cara e de eficácia duvidosa.

[3 Agosto] 
Só ainda não vi em lado nenhum uma reflexão sobre o que terá levado a cúpula do bloco de esquerda a vir com teorias da cabala (olá, Sócrates!) e a atacar os media (olá,Trump!), quando os factos já conhecidos eram evidentes e facilmente verificáveis.
O que terá levado aquelas criaturas a reagirem tão toscamente? Encontro duas razões:
— por desábito: o bloco nunca foi escrutinado nos media, por isso, os seus líderes fizeram uma asneira de principiante;
— por causa da “bolha de filtros”: os políticos, depois de algum tempo, deixam de viver no mundo e passam a viver numa bolha só deles; é que os chefes gostam de viver rodeados por sacristãos, por gente que depende deles, que lhes filtra a realidade e lhes diz só o que eles gostam de ouvir.
--------
O Europeade foi excelente. O folclore (leia-se: tradição, costumes locais), aliado à globalização (leia-se: modernidade, ferramentas globais), fez das ruas e praças de Viseu um fascínio de diversidade, um encantamento.
Dito isto, importa saber quanto custou esta festa cosmopolita.

[10Agosto] 
Há que impedir os nossos eleitos de privatizarem a água e de a encarecerem com aumentos e aumentinhos, taxas e taxinhas. É preciso que eles peguem na energia que gastam em festas e festinhas e, literalmente, a canalizem para a modernização das redes e para o rigor na cobrança dos consumos.


[31 Agosto] 
Os nossos queridos emigrantes já regressaram às terras onde fizeram vida, a nossa classe média mais manienta chama-os aveques, eles estão-se bem nas tintas, gozaram cá as merecidas férias, para o ano regressam, abençoados sejam.

[7 Setembro] 
Quanto mais longe do mar, mais se sente o chicote implacável do princípio do utilizador-pagador, o mesmo que ergueu pórticos nas nossas auto-estradas. Sem alternativas, lá temos de atestar os nossos carros com 40% de combustível e 60% de impostos. Impostos que, depois, vão financiar transportes metropolitanos, com passes fofinhos para utilizadores-não-pagadores.

[21 Setembro] 
Em vez de fazer como Bill Murray no filme “Os Caça-Fantasmas”, o bloco de esquerda, para tentar exterminar o fantasma Robles, propôs um “adicional ao IMT”, propôs um aumento da velhinha sisa.
Isto é, se o deixassem, o bloco adicionava ainda mais estupidez ao “imposto mais estúpido do mundo”.

[28 Setembro] 
Marcelo está nos primeiros cinco anos de uma presidência de dez. Nos primeiros cinco, os presidentes só pensam na sua reeleição e fazem tudo o que os primeiros-ministros querem. Soares deixou o PM Cavaco fazer tudo, Cavaco deixou o PM Sócrates fazer tudo (até uma bancarrota), Marcelo está a deixar o PM Costa fazer tudo.
----
Nos primeiros cinco anos, tem havido sempre em Belém um sacristão do primeiro-ministro e só nos segundos cinco um presidente. Para evitarmos a fase sacristã, há que constitucionalizar um mandato presidencial único de sete anos.

[6 Outubro]
Há mais vips a receberem o prémio Escolha do Consumidor do que velhinhos, em hotéis, a comprarem a prestações faqueiros, serviços de loiça e colchões ortopédicos.
No Facebook, há um vídeo patusco deste evento que decorreu numa embarcação de cruzeiros em Lisboa. Na cerimónia pingam dezenas e dezenas de prémios, alguns delirantes: “Cascais é o melhor concelho para se ter vida social”, “Sintra, o melhor para namorar”, “Portimão para fazer praia”, “Viseu para ser feliz”.
Um solitário conhece uma tia de Cascais, acende-se uma paixão ali ao lado em Sintra e, depois de um bronzeamento na praia da Rocha, vão ser felizes para sempre em Viseu.
Seja como for, o dr. Sobrado e o dr. Almeida Henriques lá subiram a bordo e tiraram uma fotografia com o faqueiro, perdão, com o prémio. Depois, fizeram-na chegar aos jornais.

[12 Outubro] 
Eclodem eucaliptos, daninhos, por tudo quanto é zona que ardeu há um ano.
O governo, sem surpresa, não quer saber. Os autarcas é mais festas e festinhas, nem para o problema da água se mobilizam.

[19 Outubro] 
Nas últimas eleições para a concelhia do PS-Viseu, não houve nenhuma ideia política nem nenhum debate entre os candidatos. Lúcia Silva socorreu-se da conversa de pé-de-orelha arregimentadora de votos e Gonçalo Ginestal confiou nos nomes sonantes da sua lista. Foi uma eleição entre o PS do cochicho e o PS das famílias, como na altura aqui escrevi. Ganhou o cochicho.

[26 Outubro] 
Quais foram os primeiros-ministros que fizeram mais mal ao país? Pois. Foram mesmo esses dois em que está a pensar.
E repare: tanto Cavaco Silva como José Sócrates foram eleitos com maiorias absolutas de que resultaram governos arrogantes, autoritários e negocistas.

[2 Novembro] 
Foram as urgências, os tribunais, a CGD, agora são os CTT. A sangria do interior não pára. Os autarcas bem a tentam anular, atrasar, bloquear, sabotar, estancar, reverter, num esforço muitas vezes inglório mas que merece todo o nosso apoio e solidariedade.

[9 Novembro] 
Precisamos de uma câmara de Viseu forte capaz de impedir que os boys socialistas da Águas de Portugal ou os capitalistas da Águas do Planalto nos imponham transvases e nos salguem as facturas mensais do precioso líquido.
Os presidentes das câmaras de Mangualde, de Penalva do Castelo e de Nelas inviabilizaram uma solução intermunicipal, com oito municípios, que nos resolvia a todos o problema sem interferências exteriores. Como não é crível que algum deles queira ser no futuro boy da Águas de Portugal, deixo aos três aqui um apelo: regressem às negociações, promovam uma solução nossa, pública, capaz de nos abastecer sem problemas nos próximos cinquenta anos. Ao trabalho?

[23 Novembro] 
Para além de meio ano de “assessoria de programação” ao vereador da cultura, o encenador Nuno Cardoso está, por estes dias, também em Viseu a fazer um evento sem especial novidade ou atenção pública. Por estes dois serviços, o futuro director artístico do Teatro Nacional S. João cobra, e muito bem, 112 mil euros ao município.
O mesmo não se poderá dizer da câmara que, ao aceitar pagar-lhos, se esquece da frugalidade que impõe, e muito bem, a outras iniciativas culturais com muitíssimo mais impacto na cidade, na região e no país.

[7 Dezembro] 
Depois do episódio em que a vereadora/deputada socialista Lúcia Silva chegou, assinou e bazou, a assembleia municipal de Viseu passou a querer disciplinar o pagamento das senhas de presença dos seus membros.
Faz bem: os deputados municipais só devem receber quando estiverem presentes no debate e votação dos pontos da ordem de trabalhos.
Já o período de antes da ordem do dia, esse looongooo bocejo de mesmice e sexo dos anjos, não deve ser obrigatório. A presença que fique a depender da maior ou menor pulsão masoquista de cada um.

[14 Dezembro] 
O politicamente correcto é uma fábrica de ressentimento que produz flores de estufa, gente sempre ofendidinha, que não pode ouvir nada. Acaba de abrir mais uma frente censórica: inventou uma putativa “linguagem anti-animal”.


[21 Dezembro] 
Os inconseguimentos da justiça no combate à corrupção são uma bomba relógio no coração da terceira república.
É necessário criminalizar o enriquecimento ilícito, meter logo na cadeia os corruptos após condenação em segunda instância, instituir a colaboração premiada para quebrar a omertá corrupta. É necessário, mas o cartel partidário não vai fazer nada disso.
-----
As jotas partidárias deixaram de ter interesse. Dali não sai uma ideia nova, uma proposta articulada, um sobressalto, uma chispa. Ali habita só o conformismo e a ganhuça.
Os seus dirigentes, sempre ao lado do chefe partidário de turno, ficam mais velhos e mais chatos do que ele. É gente que, com a vida tão facilitada, deixa de saber o que custa a vida. Gente que é um atraso de vida.