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sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Portugal e Espanha*

* Hoje no Jornal do Centro


Fotografia editada
a partir daqui
1. Portugal vai a votos em 6 de Outubro. Espanha vai um mês e quatro dias depois, numa overdose eleitoral - é a quarta vez em quatro anos.

É que a crise do ladrilho de 2007 estoirou com o sistema bipartidário espanhol e fez aparecer novos partidos, à esquerda e à direita, incapazes de se coligarem.

Esta instabilidade política de "nuestros hermanos" não tem sido má para a sua economia: em 2015, Espanha cresceu 3,6% (o que compara com 1,5% de Portugal); em 2016, Espanha 3,2% (Portugal 1,4%); em 2017, Espanha 3% (Portugal 2,7%); em 2018, Espanha 2,6% (Portugal 2,1%).

Isto é, a instabilidade do lado de lá de Vilar Formoso deu um banho de 4,7% à estabilidade do lado de cá. Se tivessemos crescido como os espanhóis o nosso país era mais rico 9,5 mil milhões de euros.

Nada que espante nestes tempos de impotência do poder. Os governos já não conseguem fazer o bem. O ideal é que, ao menos, não tenham força para fazer o mal. Se forem fracos estragam pouco. Lembremos os 541 dias em que a Bélgica esteve sem governo, felicidade só interrompida quando as agências de notação ameaçaram desqualificar a dívida pública do país.

António Costa tem alertado para o perigo de contágio da instabilidade espanhola. Subliminarmente, o primeiro-ministro está a avisar para o risco de Catarina Martins e as manas Mortágua virarem uma espécie de "unidas bloquemos", à moda do que tem feito Pablo Iglesias.

E já se sabe: o mantra da estabilidade, repetido dia-sim-dia-sim por António Costa, é forte e dá votos.

Pena é não nos dar os crescimentos da instável Espanha.

2. O Museu Grão Vasco de Viseu prolongou, até 13 de Outubro, a exposição temporária "Identidades, pronomes e emoções - as regras do retrato".

É uma excepcional exposição, para visitar sem pressa. Atarde-se na severidade de D. Virgínia Pinto Guedes, pintada por Villaça, ou nos olhos castanhos da senhora pintada por António Joaquim de Santa Bárbara, ou na..., ou no...

Imperdível.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Eleições 2009 (VI)*

 * Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 25 de Setembro de 2009 



Daqui
1. Depois de o DN ter publicado um e-mail comprometedor, Cavaco Silva despediu o seu assessor Fernando Lima. A poucos dias das eleições legislativas, a presidência da república deu um tiro em cheio no pé.

Fala-se muito das consequências políticas deste caso. As consequências mediáticas não são menos graves: ter sido revelado assim, desta forma miserável, o nome de uma fonte, vai pôr todas as potenciais “gargantas fundas” deste país a fecharem a boca quando virem um jornalista por perto.

O resultado vai ser só um: vamos ter no futuro ainda menos escrutínio mediático sobre as traficâncias entre o poder político e o poder económico.

Portugal é, cada vez mais, um paraíso para a corrupção.

2. No concelho de Viseu, Fernando Ruas tem que se resguardar à direita já que Francisco Mendes da Silva, o candidato do CDS, mostra um pensamento muito bem estruturado.

Francisco Mendes da Silva não fala politiquês, a língua de trapo dos políticos profissionais. Ele tem, de facto, uma voz que merece ser ouvida sobre os problemas e os bloqueios de Viseu. Há muito tempo que o CDS não aparecia com tanto potencial para poder atrair novos eleitores, abstencionistas e uma fatia do eleitorado laranja.

Já à esquerda não há competição.

A candidatura da CDU ainda não disse nada.

Quanto a Graça Marques Pinto, do Bloco de Esquerda, o melhor que conseguiu fazer foi uma denúncia à IGAL, a inspecção das autarquias, coisa que para estas eleições autárquicas, como se diz nas beiras, “não aquenta nem arrefenta”.

A esquerda à esquerda do PS, até ao momento, tem sido uma autêntica nulidade política. Isso é bom para Miguel Ginestal que só tem que se concentrar na tarefa de tirar votos a Fernando Ruas.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Vem-lobo!*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Durante a silly-season deste ano, o comentariado luso atirou-se com fúria ao projecto de criação de um Centro Interpretativo do Estado Novo, em Santa Comba Dão.

Era muito fácil de prever. Uma semana antes de ter sido tornada pública a petição que abriu aquele circo mediático, já o autarca de Santa Comba Dão era avisado aqui, no Olho de Gato, que nenhum "fusível" podia "evitar fortes descargas eléctricas naquele simpático concelho onde nasceu um antipático ditador".

Aquela petição pôs as pessoas a assinar contra um "Museu Salazar" e não está previsto "Museu Salazar" nenhum. Como explicar tamanho logro? Terá sido má-fé? Incúria?

Não se sabe. Sabe-se é que um dos redactores da petição é "investigador" no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Bastava o homem ter telefonado aos responsáveis científicos do projecto, seus colegas do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da mesma universidade, para perceber que, ao contrário do que é mentido na petição, o que está para ali previsto será tudo menos "um instrumento ao serviço do branqueamento do regime fascista".

Esta inventona é mais um prego no caixão dos "antifascistas" profissionais que andam, há décadas, a gritar o seu "vem-lobo!" pífio.

2. Em 16 de Março de 2017, no Observador, José Carlos Fernandes, num excelente texto intitulado "Um mundo cheio de porcos fascistas?", analisa com profundidade esta tendência actual para ver fascismo em todo o lado.

Imagem daqui
O autor começa por lembrar que os muito sociáveis macacos-vervet vocalizam alarmes de perigo diferentes consoante o predador à vista é uma serpente, ou um leopardo ou uma águia.

Aqueles macacóides têm rigor semântico nos alarmes. Quando gritam "águia!" está mesmo perigo a vir do céu e o bando corre a abrigar-se.

Já nos humanóides, o grito "vem-lobo!", de tão gasto, não vai ser ouvido por ninguém quando houver mesmo um perigo real para a democracia.

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Viriato*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 18 de Setembro de 2009 

Na Hispânia, as coisas continuavam acesas entre os romanos e os lusitanos. Guerras, saques, fome, miséria. Roma desesperava.
Faltavam ainda 150 anos para Jesus Cristo nascer quando o pretor Sérvio Sulpício Galba fez saber por toda a Lusitânia que iria distribuir terras novas e férteis. Juntaram trinta mil lusitanos em idade de pegar em armas e Galba, hábil tribuno, fez-lhes um discurso a anunciar leite e mel, jurando desejar respeitá-los e viver em paz com eles.

A seguir, Galba dividiu os lusitanos em três grupos a pretexto de assim ser mais fácil a distribuição das terras.

Depois, chegou-se ao primeiro grupo e pediu-lhes que entregassem as armas. «Entre amigos não há lugar para armas», disse. A seguir, encurralou-os numa cerca e mandou-os matar. Os lusitanos em vão lhe recordaram as juras de amizade e desesperaram daquela traição. Galba, implacável, fez também o mesmo ao segundo e ao terceiro grupo.

Foram assassinados nove mil lusitanos, vinte mil foram vendidos como escravos e mil escaparam. Um dos que escapou foi Viriato que nunca mais se esqueceria ou perdoaria a desonrosa conduta de Galba.

Viriato, a seguir, assumiu o comando da resistência dos lusitanos, instalando o seu refúgio no Monte de Vénus, actual Sierra de San Pedro, na província de Cáceres.

Esta é a principal tese de “Lusitanos no Tempo de Viriato”, de João Luís Inês Vaz, livro escrito com excelente sentido da narrativa e que se lê de um fôlego.

A pesquisa histórica de Inês Vaz desconecta Viriato de Viseu.

É assim: enquanto Almeida Fernandes “põe” D. Afonso Henriques em Viseu, Inês Vaz “tira” Viriato de Viseu.

Não me canso de repetir: não há nada mais instável que o passado.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Sexta-feira 13*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Esta não é a primeira nem a segunda vez que brinco aqui com a sexta-feira-treze, dia do azar em que ninguém acredita, assim como ninguém acredita em bruxas, pero que las hay, las hay...

Os media e as redes sociais em dias como os de hoje enchem-se com as recomendações desazarosas do costume: não passar debaixo de uma escada, não abrir o guarda-chuva dentro de casa, pregar uma ferradura na porta, dar três pancadas na madeira, evitar os olhos amarelos dos gatos pretos. Pobres felinos tão lindos, os gatos pretos, difamados desta maneira.

Mas não há azar, é para nos rirmos uns com os outros, enquanto vão passando estes amáveis dias de Setembro.

2. Hoje, dia de azar, conforme bamboleiam os cartazes espalhados no Minho, o palco do Multiusos de Guimarães tem a sorte de contar com “Gipsy Kings BY Andre Reyes”. Traduzindo: “Gipsy Kings POR Andre Reyes”.

Amanhã, dia sem azar, conforme bailam os cartazes espalhados nas Beiras, o palco da Feira de S. Mateus vai ter a sorte de contar com “Gipsy Kings FEAT Andre Reyes”. Traduzindo: “Gipsy Kings COM A PARTICIPAÇÃO DE Andre Reyes”.

Esta publicidade diferente fez com que este jornal tivesse que fazer uma notícia a traduzir os cartazes. Deve dizer-se que o BY de Guimarães percebe-se melhor do que o FEAT de Viseu.

Enfim, importante mesmo é que os ritmos ciganos do “Bamboleo” façam “Volare” pessoas felizes pela feira fora. E que, com a participação de todos, haja muita diversão e alegria, ...
Fotografia Olho de Gato
... mesmo naqueles a quem a barraca da Sumol tapar a visão do palco. 

3. A câmara de Viseu já anunciou que, em 2020, a sua feira franca vai começar mais cedo, a 6 de Agosto, e, portanto, vai acabar também mais cedo, muito antes de 21 de Setembro, dia de S. Mateus, dia do santo que foi despejado da feira que foi sua durante mais de seiscentos e vinte anos.

Fica uma sugestão para o director daquele certame, o anglófono Jorge Sobrado — o melhor é, nos cartazes do próximo ano, escrever “Feira WITHOUT FEAT S. Mateus”.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Eleições 2009 (V)*

* Publicado há exactamente dez anos, em 11 de Setembro de 2009

Luís Paixão Martins
Fotografia daqui
1. Luís Paixão Martins dirige a LPM, a agência de comunicação que esteve ligada à vitória de Sócrates em 2005 e à de Cavaco, em 2006. Em Junho, o jornal I. entrevistou-o, em plena ressaca da derrota do PS nas europeias, as primeiras eleições nacionais em que aquele partido ficou abaixo de um milhão de votos.

Luís Paixão Martins começou por largar umas farpas ao apoio que Vital Moreira tem dado ao lobbie das farmacêuticas e deixou um recado claro: “O marketing vai valer muito pouco nas próximas eleições.”

Sobre o falhanço das sondagens disse: “Não [é] por culpa, certamente, de quem as faz, mas em consequência da frustração, da perplexidade e do cinismo dos eleitores.”

O PS, depois das europeias, achou suficiente calar o sr. Vitalino Canas, mandar o ministro Santos Silva malhar menos, e pôr um homem de negócios chamado António Vitorino a tratar do programa eleitoral.

Para já, muita da nomenclatura socialista precata as “costas” e põe-se no “seguro”. Para cumprir calendário, lança diatribes atrás de diatribes contra Manuela Ferreira Leite, como se viu na apresentação da lista de candidatos a deputados do distrito de Viseu.

Daqui a umas semanas, se for caso disso, essa mesmíssima gente estará na primeira linha a defender um governo de bloco central com Manuela Ferreira Leite.

2. O “dia a seguir” no PS já tem nomes e já tem assunto. Os nomes são os óbvios: António Costa e António José Seguro. E o assunto também é óbvio: a barbárie marilurdista na educação.

É bom que o PS fique à frente do PSD em 27 de Setembro. É que, caso contrário, as coisas podem ficar bravas dentro do partido. Mesmo muito bravas.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

As paixões são assim*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Quando a Comissão Nacional de Eleições mandou retirar os cartazes autárquicos por causa das europeias, o presidente da câmara de Viseu ficou destroçado. É que, como se sabe, António Almeida Henriques (AAH) tem uma paixão irreprimível pela publicidade e todo o apaixonado odeia que o contrariem no seu amor.

Só esse afecto insofreável explica a resposta estúpida da autarquia àquela deliberação estúpida da CNE. Os cartazes publicitários, em vez de terem sido retirados, foram tapados com uma tela amarela com a seguinte confissão em letras pretas:
Fotografia Olho de Gato

Aquela poluição visual amarela, além de conter uma desnecessária sigla entre-parêntesis, tinha um lapso freudiano: a câmara assumia que os seus cartazes são para “publicitar” e não para “informar”.


Os fornecedores de outdoors agradecem, claro. E devem agradecer muito já que há dois mil cartazes publicitários (!) espalhados no concelho, conforme informou AAH num programa de televisão.

Caro leitor viseense, vá à sua liquidação do IRS e procure a verba correspondente ao “benefício autárquico”. Viu quanto é? Fique a saber que, nos termos da lei, esse “benefício” podia e devia ser o quíntuplo. Só não o é porque AAH ama com uma paixão irrefreável tudo quanto é marketing, mas não ama nem respeita o dinheiro dos contribuintes.

2. A câmara de Viseu acaba de lançar o concurso para o Viseu Arena, pelo valor de 6,7 milhões de euros mais IVA, para inaugurar, disse AAH, “no segundo semestre de 2021”.

A Comunidade Intermunicipal Viseu Dão Lafões acaba de lançar o concurso para os 55 quilómetros da Ecopista do Vouga, pelo valor de 3 milhões de euros mais IVA, para estar pronta, anunciou a CIM, “em 2021”.

Qual das duas obras vai ficar pronta primeiro logo se vê. Uma coisa é certa: a obra da câmara de Viseu vai derreter muito mais dinheiro em publicidade do que a obra da CIM.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Personhagens*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 4 de Setembro de 2009 



1. Em Agosto, publiquei aqui uns Ele e Ela que justificam o velho “precautório”: naquelas histórias qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

Preciso de ser ainda mais explícito: embora em Viseu haja muitos quebra-corações, não é verdade que me estivesse a referir a alguém em concreto ao ter criado a personagem Chico, no Ele e Ela de 21 de Agosto.

Portanto, por favor, não me perguntem mais quem é o Chico.

2. No último sábado, no lançamento do romance “A Revolução de António e Oriana”, de Joaquim Sarmento, houve intervenções de qualidade. Numa delas, José Mário Ferreira de Almeida, presidente da assembleia municipal, disse que via rostos de Lamego em quase todas as personagens do romance.

Ao ouvir aquilo, pensei logo:
«Pronto! O Sarmento está ainda mais ensarilhado que eu. Eu é só o Chico. Ele tem um romance cheio de criaturas a cirandarem e a fazerem cócegas aos lamecenses…»

Sorri e esperei.

Sábio, Joaquim Sarmento, na intervenção final, vincou bem vincado que as personagens do romance tinham saído em exclusivo da sua imaginação e do seu sonho. Portanto, aquelas personagens são só o que se espera que sejam: personhagens.

3. Setembro e Outubro são meses de eleições. Há que olhar para “o que se passa” e, infelizmente, “o que se passa” não anda bom de ver.

Vemos partidos ricos num país pobre, partidos que vão gastar 13 milhões de euros nas legislativas e 78 milhões nas autárquicas. Ao todo 91 milhões de euros. “Ostentação pornográfica” chamou-lhe Henrique Monteiro, o director do Expresso.

Já aqui o escrevi – as eleições legislativas e autárquicas deviam ser no mesmo dia. Poupava-se tempo e dinheiro. E evitava-se muita abstenção.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Biopolítica*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Nos tempos que correm, uma boa parte dos assuntos da agenda mediática e política têm a ver com o corpo. São assuntos de biopolítica.

São as imposições alimentares, que tanto passam pela redução do sal e do açúcar como pelo crescente activismo veg que se vai radicalizar e tornar agressivo.

É, até, a construção do corpo dos políticos e a afirmação descomplexada das suas sexualidades: os peitorais de um deputado laranja, a tatuagem de uma deputada rosa que está no Tinder, a saída do armário da ministra da cultura e de um vice-presidente do CDS. E a este panorama só não se junta José Castelo Branco porque ele desistiu de ser candidato.

Atenção: este hedonismo corporal curte metodicamente o presente mas vive cheio de angústias com o futuro. As pessoas esculpem abdominais no ginásio enquanto vigiam o colesterol, fazem selfies à frente de sítios distantes a que chegaram com uma grande pegada de carbono enquanto se afligem com as catástrofes ecológicas, reais ou imaginárias, anunciadas todos os dias nos media e nas redes sociais.

2. Uma boa parte da direita na Europa, inspirada no papa Francisco e com uma pulsão anti-islâmica, assumiu o combate biopolítico contra as elites da globalização. Rejeita a UE, o casamento do mesmo sexo, os migrantes, os mercados desregulados, a austeridade, o consumismo e as GAFA (Google, Amazon, Facebook, Apple).

A direita está cada vez mais desconfortável com os valores cosmopolitas das grandes cidades e vai-se ruralizando. Algumas minorias, em coerência, abandonam as metrópoles e optam por uma agenda ecológica agressiva, instalando-se em pequenas comunidades com famílias e modos de vida tradicionais.

Por cá, a reacção do CDS e do PSD à lei da identidade de género nas escolas parece indicar que acordaram para estas querelas do corpo, onde o bloco e a ala esquerda do PS têm pontificado sem contraditório.

Com o atraso pátrio do costume, também entre nós a biopolítica vai passar a ser muito mais dura.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Equidade e desigualdade*

* Hoje no Jornal do Centro


1. O PCP e o Bloco fizeram-se de mortos durante a recente greve dos motoristas de matérias perigosas. Até mesmo depois de serem conhecidos os horários desumanos que são impostos àqueles trabalhadores.



Esta inacção perante esta luta não deve surpreender ninguém. As esquerdas, nas democracias liberais do ocidente, ainda vão entregando alguns resultados aos trabalhadores do sector público, mas já não fazem nada que se veja pelos jovens à procura do primeiro emprego, pelos precários, pelos trabalhadores do sector privado.

Durante a greve, publiquei nas redes sociais uma reflexão sobre este problema estrutural. Partilho-a também aqui no ponto seguinte.

2. O Bloco de Esquerda já se sabia que é para defender as causas identitárias da classe média urbana, cosmopolita e que trabalha no Estado.

O PCP é que era suposto defender quem recebe 630 euros de salário-base e que, para levar 1200 euros para casa, tem que trabalhar 60/65 horas, quase o dobro do horário da função pública.

Julgava-se que o Bloco, inchado de identitarismos, era pela equidade, e o PCP, orgulhoso da sua tradição operária, era pela igualdade.

Como descreveu Guy Standing, em “O Precariado - A Nova Classe Perigosa”, “uma característica da perda de dinamismo da agenda social-democrata (...) foi que a ênfase colocada na igualdade se deslocou para a equidade social. A redução da discriminação e das diferenças salariais com base no género tornaram-se objectivos prioritários, enquanto a redução das desigualdades estruturais foi remetida para segundo plano.”

Em suma, já se sabia que o Bloco de Esquerda é uma espécie de PS fashion, mas ainda se julgava que o PCP era o partido dos que sofrem, dos colarinhos azuis, dos descamisados.

Esta greve dos motoristas de matérias perigosas veio mostrar que afinal já nem o PCP serve para defender os trabalhadores do sector privado, os mais explorados deste país.

Estes, quando surgirem populismos à direita, vão votar neles. Vai ser feio de ver.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Ele e Ela (IX)*

* A série "Ele e ela" saiu nos verões de 2008, 2009, 2011 e 2012 no Jornal do Centro.
Este #9 foi publicado há exactamente dez anos, em 21 de Agosto de 2009.


— Olá! Há tanto tempo que não te via… ainda te lembras de mim?
     
— Claro, fomos da mesma turma no liceu…
     
— Eras o melhor aluno da turma.
     
— Sim, mas quem tirava as melhores notas era o Chico.
     
— Então que fizeste nestes anos todos?
     
— O trivial: ganhei dinheiro, perdi cabelo.
     
— Casaste? Tens filhos?
     
— Eu?! Eu sou um solitário…
     
— Não acredito!

    
— Verdade. Estou mais sozinho que a eólica que se vê na A25, junto ao nó de Talhadas. Gosto de chamar aventoinhas às eólicas.
     
— Aventoinhas? Bonito!
    
— As aventoinhas são sempre muitas, umas ao pé das outras. Só conheço uma aventoinha solitária, aquela na A25. Aquela aventoinha é como eu, sozinha, a abanar ao vento…
     
— Então e a tua namorada do liceu? Tu continuaste com ela na faculdade…
     
— Só que entretanto o Chico comprou um Porsche descapotável…
     
— …?!
     
— Depois, aos 35 anos, ainda estive noivo de uma dentista.
     
— Alguém do nosso tempo do liceu?
     
— Não. Era lisboeta. As coisas estavam encarreiradas. Data marcada para o casório e tudo…
     
— Que aconteceu?!
     
— …o Chico teve um problema num dente e foi lá ao consultório…
     
— …?!
     
— A partir daí não quis mais nada a sério com ninguém…
     
— Fico triste. Se há alguém que merecia ter tido sorte, és tu. Sempre te admirei muito…
     
— Foi uma surpresa tão boa ver-te ao fim destes anos todos! Tu estás óptima! Podíamos ir jantar…
     
— Gostava muito, mas não posso. Há bocado encontrei o Chico. Prometi que ia jantar com ele… 

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Frank Zappa*

* Hoje no Jornal do Centro


1. O sr. Google não me achou uma frase de Frank Zappa em que ele defendeu que a escolha do inquilino da Casa Branca devia ser votada por todos os países do mundo.

Não encontrei a tal frase, mas apareceu-me muita informação sobre o genial músico norte-americano que era tudo menos um hippie virado para o umbigo. Pelo contrário: Zappa era um freak irrequieto, movido a tabaco, café e manteiga de amendoim, com uma intervenção política permanente em defesa da liberdade e da participação democrática, especialmente dos jovens. Era bom que estes procurassem as suas músicas e atentassem nas suas palavras.

A tal frase dele que eu procurei foi mais ou menos assim: “como as decisões dos presidentes dos Estados Unidos afectam todo o planeta, deviam ser todos os cidadãos do planeta a votar na sua escolha.»

Vinte e seis anos depois da morte de Frank Zappa, o mundo interfere mesmo nas eleições presidenciais dos EUA e isso é assumido, com todas as letras, por políticos norte-americanos de topo:

— em Julho de 2016, Trump fez o seguinte pedido numa conferência de imprensa: “Rússia, se estás a ouvir, espero que sejas capaz de apanhar os 30 mil e-mails que faltam. Eu penso que serás fortemente recompensada pela nossa imprensa”. Putin, como se sabe, fez-lhe a vontade e os e-mails comprometedores de Hillary Clinton apareceram mesmo;

— há três meses, numa entrevista, Hillary sugeriu que um dos candidatos às primárias democratas faça o seguinte apelo: “China, se estás a ouvir, porque é que não consegues as declarações de rendimento de Trump? Tenho a certeza que os nossos media te davam uma rica recompensa.” Não se sabe se Xi Jinping vai fazer aparecer as ditas declarações.

Uma coisa é certa: a Rússia e a Arábia Saudita vão mexer os cordelinhos por Trump e a China e o Irão pelo candidato democrata.

2. Com a saída de Joaquim Seixas da câmara de Viseu, quem é que defende agora os viseenses dos decibéis em excesso produzidos pelo seu ex-colega Jorge Sobrado?




quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Ele e ela (#8)*

* A série "Ele e ela" saiu nos verões de 2008, 2009, 2011 e 2012 no Jornal do Centro.
Este #8 foi publicado há exactamente dez anos, em 14 de Agosto de 2009


— Cuidado, vai devagar!
— É a primeira vez que andas no meu carro. Aviso-te já: eu sou um bom condutor. Guio há muitos, muitos anos, e nunca bati…
— Estou nervosa. Simpatizei contigo logo quando te vi na FNAC. Atenção à curva…
— Foi tão giro! Em milhares de livros que lá havia e ambos a querermos o mesmo livro.
— Sim. Eu tinha lido “na palma da tua mão” num blogue. Queria o livro que tivesse esse poema. Trava! Olha o TIR amarelo…
Imagem daqui




“E na palma da tua mão
busco ternura
sem contar meses,
anos, dias
sem saber dizer”…
— … “sem saber dizer
se já te chorei
por inteiro
o suficiente
para não voltar a perder-te”. 
Tão lindo! Tão triste! Gosto tanto da poesia de Vasco Gato! Estamos a chegar à cidade. Abranda.
— Deixa-me apertar a tua mão. E eles na FNAC foram ver à base de dados e só havia aquele exemplar em todas as lojas da rede.
— Foste tão simpático. Deixaste que eu ficasse com ele. Já o li tanta vez! Devagar! Olha a passadeira…
— … parecia o destino. Estava ali aquela mulher linda, linda, linda, que gostava de poesia… deixa-me sentir a palma da tua mão…
— Gostei de te conhecer ali. Os disparates que dissemos no café da FNAC! Cuidado, devagar!, a rotunda está com água…
— “Voa comigo nos ombros da noite
enlaçados como dedos e dedos
Imagem daqui
na ternura completa das mãos”.
Quero-te desde aquele dia. Sonho com esta noite desde aquele dia. Desejo-te agora. Quero-te tanto!
— Acelera! Rápido! Ainda só está no amarelo…


sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Fusíveis*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Título de uma notícia neste jornal, em 19 de Julho: Mercado 2 de Maio, Praça Ganha Cobertura “Amiga do Ambiente”.


Fotografia Olho de Gato
No virar do milénio, Siza Vieira prantou uma eira no centro da cidade de Viseu e o dr. Ruas, paralisado pela reverência ao arquitecto, não fez nada para a melhorar.

Nos seis anos que já leva de presidência, António Almeida Henriques, que foi a votos com a promessa de dar uma volta àquele espaço, nada fez também. É verdade que, em 2015, avançou com um concurso de ideias cheio de ideias erradas, que até pretendia escarafunchar no granito para fazer ali um parque de estacionamento, mas aquilo foi um rascunho que só derreteu dinheiro e tempo.

Agora, em Julho, António Almeida Henriques saiu-se com este teaser sobre uma putativa cobertura fotovoltaica para o Mercado 2 de Maio. É um fusível político. É o truque “Greta Thunberg”. Para tentar evitar sarilhos com um projecto, nada melhor do que carimbá-lo à partida como “amigo do ambiente”.


2. Título de uma notícia neste jornal, em 2 de Agosto: Projecto do Centro Interpretativo do Estado Novo Agrada a Marcelo Rebelo de Sousa.

Leonel Gouveia, o presidente da câmara de Santa Comba Dão, é um homem determinado. Pegou no município mais falido do distrito, viu-o ser devastado em 15 de Outubro de 2017, quando até arderam as máquinas municipais, e está a recuperá-lo financeira e animicamente.

Como se isso não fosse pouco, o autarca tem também que fazer a gestão da memória de António Oliveira Salazar. Para tentar atravessar este campo minado, Leonel Gouveia deita mão não a um mas a dois fusíveis: avisa que o centro interpretativo é um projecto “científico” supervisionado por três catedráticos da universidade de Coimbra e sublinha que a “ideia foi muito bem aceite por Marcelo Rebelo de Sousa”.

O segundo fusível é melhor do que o primeiro, mas nem um nem outro vão evitar fortes descargas eléctricas naquele simpático concelho onde nasceu um antipático ditador.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Ele e ela (#7) *

* A série "Ele e ela" saiu nos verões de 2008, 2009, 2011 e 2012 no Jornal do Centro.
Este #8 foi publicado há exactamente dez anos, em 7 de Agosto de 2009

Imagem daqui

— Hmmmm… bom…

— Estava cheio de saudades.

— Estavas nada, mentiroso…

— Saudades muitas. Tu sabes. Tens lume?

— Não se fuma no quarto.

— Antes não dispensávamos um cigarrinho depois…

— Disseste “antes cigarrinho depois”… lol...

— Lol?! O que é isso?!

— Internet. Esquece…

— Já estás com os teus enigmas outra vez, é? Apetece-me um cigarro…

— Aqui no quarto, já te disse, agora não se fuma.

— Que está a dar na televisão?

— Deixa lá a televisão. Abraça-me.

— Como tem sido este último ano?

— Trabalho muito para me esquecer de tudo. Tomo comprimidos para dormir e tenho ajudado a minha mãe nas doenças dela…

— A tua mãe? Muito do que aconteceu foi por culpa dela…

— A minha mãe ajudou-me sempre nos meus problemas.

— A tua mãe é o teu único problema.

— Não digas isso…

— A tua mãe é uma víbora.

— Não te admito isso…

— É uma víbora. Espalha veneno em todo o lado. Até foi dizer mal de mim para a empresa.

— Isso não é verdade!

— Foi. Teve azar a velhadas, viram-na entrar para o gabinete do meu chefe.

— Se foi lá, foi tratar de algum assunto…

— Foi largar veneno, a víbora.

— Abraça-me. Preciso de carinho.

— Tenho um compromisso. Tenho que me ir embora.

— És sempre o mesmo. Um egoísta! Um merdas! Quero divorciar-me de ti!

— Mas nós estamos divorciados já há um ano…

— Quero o divórcio outra vez!

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Baixa densidade*

* Hoje no Jornal do Centro


1. O politiquês, esse dialecto do politicamente correcto, deixou de chamar “interior” à parte do país a que não chega o cheiro do mar e agora prefere chamar-lhe “território-de-baixa-densidade”.

Já se sabe, os políticos são palavrosos, podendo usar quatro palavras não vão usar só uma e a nova designação faz algum sentido. Onde não chega o iodo e a maresia é cada vez mais baixa a densidade de serviços de saúde, de estações de correio, de agências da CGD, de transportes públicos com passes fofinhos, de estradas decentes não-portajadas.

2. O PS, o vencedor anunciado das próximas legislativas, dedica quatro páginas do seu programa eleitoral à “coesão territorial” onde se propõe “tomar medidas” para o “desenvolvimento harmonioso de todo o país, com especial atenção para os territórios de baixa densidade”.

Em sete sub-capítulos, cheios de clichês, são elencadas cinquenta “medidas” que querem “apostar no potencial” e “apoiar o aumento”, para além de “incentivar o surgimento” e “reforçar o diferencial”, de forma a “promover a obtenção” e “incorporar o desígnio”. Algures, claro, lá surge também o inevitável “incentivar o empreendedorismo”.

É uma lista de cinquenta eufemismos, escritos em língua-de-trapo, sem nenhuma quantificação ou calendarização, sem nenhum pensamento operativo sobre as cidades médias ou sobre o mundo rural, sem nenhum incentivo fiscal nem em IRS, nem IRC, nem IMI, sem nada palpável capaz de atrair pessoas ou investimentos para o interior.

3. À hora que escrevo este texto ainda não se sabe se o distrito de Viseu vai eleger oito ou nove deputados e também ainda não se conhece a lista do PSD.

Lúcia Silva e Rosa Monteiro
Já foi divulgada a lista socialista onde, em segundo lugar, em vez da secretária de estado Rosa Monteiro, o aparelho prantou Lúcia Silva. Percebe-se a lógica da batata da distrital socialista: para um “território-de-baixa-densidade”, uma deputada com densidade política equivalente.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Eleições 2009 (IV)

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 31 de Julho de 2009 


Quais dos nove deputados eleitos pelo distrito de Viseu merecem ser reconduzidos? Pela minha análise, três deputados e meio:

1. Hélder Amaral (CDS) – foi, sem dúvida, o melhor deputado de Viseu. Teve uma presença assídua nos media locais e nacionais e mostrou saber pensar pela própria cabeça.
Francisco Peixoto, há uns anos, deixou uma marca de qualidade na bancada do CDS. Hélder Amaral, agora, não lhe ficou atrás.

2. José Junqueiro (PS) – foi um vice-presidente subutilizado da bancada da maioria.
Paulo Rangel, no seu discurso de despedida do parlamento, chamou “diligente” a Junqueiro. Com justiça. A grande capacidade de trabalho do deputado do PS é a sua principal qualidade. Dos seus defeitos tem-se falado cabonde aqui no Olho de Gato.

3. António Almeida Henriques (PSD) – tem um longo currículo no associativismo empresarial. Mas não só: a sua recondução é apoiada por 23 das 24 concelhias do PSD.

Em 2013 será, muito provavelmente, candidato ao lugar ora ocupado por Fernando Ruas.

3,5. Carlos Miranda (PSD) – até Janeiro de 2008, enquanto tivemos a política errática de Correia de Campos, Carlos Miranda fez-lhe uma boa e aguerrida oposição.

Quando José Sócrates decidiu pôr sensatez no ministério da saúde e dar posse a Ana Jorge, Carlos Miranda passou a ser mais discreto. Por isso, merece só “meia” recondução. De qualquer forma, Carlos Miranda vai sair do parlamento por opção própria.

Quem não merece ser reconduzido é José Luís Arnault. Nestes quatro anos, não fez nada pelo distrito que o elegeu. Que vá pregar para outra freguesia.

O PS e o CDS já se livraram de pára-quedistas políticos. De que estão à espera José Cesário e o PSD-Viseu para fazerem o mesmo?

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Medo*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Todas as campanhas eleitorais usam o medo para ganhar votos. Umas mais, outras menos, nenhuma dispensa a retórica da guerra entre o “nós”, onde mora a virtude, e o “eles”, onde habita o perigo.

Até não há muito tempo, esta batalha na lama tinha que ser protagonizada por políticos, com o microfone à frente, à vista de toda a gente. Agora os políticos de primeira linha já raramente fazem essa triste figurinha. As mensagens mais mentirosas são deixadas para as redes sociais e para a comunicação mais endereçada (WhatsApp, Messenger e afins).

O impacto deste lixo mal-cheiroso na decisão de voto é muito difícil de avaliar e troca com frequência as voltas às sondagens, como se viu recentemente na Austrália, ou, em 2016, com o Brexit e Trump.

Por cá, o medo também vai ser usado na próxima campanha das legislativas, mas com pouco sucesso por duas razões óbvias: a geringonça descrispou o país e as eleições têm vencedor anunciado.

É claro que poderão ser enviados para os telemóveis dos funcionários públicos memes toscos com um penteado de Assunção Cristas a dizer “vêm aí outra vez as 40 horas!”, ou produtos similares a flagelarem outros líderes, mas não é provável que se tornem virais.


Edição em cima de uma fotografia de Rui Ochoa

2. Deixemos as catacumbas da propaganda política e debrucemo-nos agora sobre o medo que está a ser debatido às claras no espaço público, e que descrevi aqui em Outubro de 2018: “no próximo ano só vai haver um assunto político — a maioria absoluta do PS. Os socialistas vão fazer tudo para a obter, os outros partidos vão fazer tudo para a evitar.”

A dez semanas das eleições, esse risco é mais visível. É que, à medida que Rui Rio se afunda e o bloco vai parecendo o novo dono disto tudo, mais aumenta a probabilidade de um jackpot eleitoral do PS.

E convém lembrar: uma maioria absoluta de um só partido mete mesmo medo, basta lembrar o negocismo arrogante e autoritário dos únicos primeiros-ministros que a obtiveram — Cavaco e Sócrates.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Decência*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 24 de Julho de 2009


Nesta legislatura, em matéria de luta contra a corrupção e defesa da ética política, o parlamento foi mais lento do que couves a crescerem numa horta. Que o diga João Cravinho deixado pelos seus pares a falar sozinho.

Reconheça-se que há gente na assembleia da república, em todos os partidos, que se dedica à defesa do interesse público com brio e com brilho.

Mas as coisas na casa da democracia não estão bem. Conforme contas feitas pelo Correio da Manhã, metade dos deputados exerce o seu mandato em part-time, recebendo dinheiro de outras proveniências.

Alguns deputados de topo abicham consultorias de topo, alguns deputados do meio da tabela ficam-se por avenças de meio da tabela e alguns dos de baixo pretendem subir nesta cadeia alimentar.

Que fazer para acabar com este pântano? Exclusividade obrigatória aos deputados? Se as coisas continuarem como estão, para lá temos de ir. Para já, ajudava os deputados terem algum auto-controle.

No início deste mês, num plenário de militantes, mesmo perante o evidente desconforto dos vips do PS-Viseu, defendi que os deputados eleitos pelo PS deviam assumir o seguinte compromisso: durante o período em que estão na AR, não recebem dinheiro de empresas ou grupos económicos que recebam fundos públicos, nem mesmo em situações permitidas na lei.

Assim mesmo. Um compromisso de decência. Sem ser preciso escrever isso em letra de lei.

Ao fim e ao cabo, o mesmo aconteceu com as bi-candidaturas. O PSD e o PS acabaram com as candidaturas simultâneas. O que impediu que uma mesma criatura seja candidata a deputado e a presidente da câmara não foi nenhuma lei. Foi a decência. E chegou.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Água no Rossio*

* Hoje no Jornal do Centro

1. O comentariado e as redes sociais começaram o ano à procura do “fascista português”.

Tudo começou quando um suástico foi à TVI, ao programa do Goucha. A partir daí, os líderes de opinião proclamaram que o país estava perdido. Que havia lepénicos em cada esquina pagos pelo Trump. Que a extrema-direita ia eleger vários deputados nas europeias.

Aquele “vem-lobo!” teve o seu ponto mais histérico no jornal Público, na forma de um manifesto subscrito por centenas de individualidades e colectivos, intitulado “O racismo e o fascismo não passarão!”, que exigia aos poderes públicos uma “sanção efectiva” a “todos os órgãos de comunicação social, empresas e pessoas” propagadores “de atitudes e discursos racistas, fascistas, homofóbicos e sexistas.” Eram solicitadas sanções efectivas, sanções mesmo à bruta, sanções mesmo mesmo à séria, a todos os hereges que não sigam a linguagem virtuosa dos signatários.

Entretanto, o mesmo Público publicou agora um texto racista de Fátima Bonifácio. Resultado: por causa dos parágrafos mal-enjorcados da Bonifácio, o comentariado e as redes sociais estão outra vez histéricos. Ainda sai praí outro manifesto a pedir, desta vez, fogueira para os ímpios que desrespeitem os comandamentos da santa madre igreja do politicamente correcto.

2. Os municípios de Viseu, Sátão, Nelas, Mangualde e Penalva do Castelo decidiram avançar para a construção de uma barragem que abasteça de água estes cinco concelhos. Excelente.

É importante fazer tudo para que sejam afastados, de vez, dois perigos: o de ficarmos dependentes da Águas de Portugal e dos seus boys e o de precisarmos de transvases provenientes de barragens de fora da região.

Fotografia Olho de Gato
3. Espera-se que a câmara de Viseu não esteja à espera da água da nova barragem para lavar o Rossio.

A “sala de visitas” da cidade nunca esteve tão porca e desleixada. Tem, em toda ela, uma gosma negra que se agarra aos sapatos de quem lá passa e à roupa de quem se senta nos bancos.