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quarta-feira, 19 de junho de 2019

Rossio*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 19 de Junho de 2009

1. Os Estados Unidos (o maior devedor mundial) e a China (o seu maior credor) estão obrigados a cooperarem e tentarem segurar a cotação do dólar. Isso foi acordado em Londres, em Abril, entre Obama e Hu Jintao.

Desde então, o corrupio entre Pequim e Washington não pára.

No início do mês, o secretário do tesouro Timothy Geithner descreveu esta estratégia bilateral num notável discurso na universidade de Pequim que teve grande destaque noticioso em todo o mundo. Em Portugal os media ignoraram-no.

No período de debate, um dos estudantes fez a pergunta óbvia:
«Os investimentos chineses na dívida americana estão seguros?»

«Muito seguros» - respondeu Timothy Geithner.

A audiência riu-se-lhe na cara.

Fotografia Olho de Gato
2. As obras no Rossio foram, globalmente, positivas.

Merece aplauso a forma como a praça ficou amiga dos invisuais.

Os novos candeeiros são adequados. Espera-se a internet sem fios. Música ambiente não, por favor. É uma parolice. Quem quiser que traga som de casa e use auscultadores.

A iluminação do edifício da câmara trata diferentemente as paredes brancas e o granito. Contudo, os focos de luz em contra-picado não estão a resultar. Demasiadas sombras parasitas.

Agora é preciso:

i) Fazer um pequeno café com uma boa esplanada no sítio onde está o carrossel e demolir o actual café deixando o Rossio respirar, abrindo-o a sul para a Avenida 25 de Abril.

ii) Pedonalizar o troço à frente do Banco de Portugal e do painel de azulejos, criando um contínuo livre de carros entre o Rossio, a Rua da Paz e a Rua Formosa. Ganha-se sossego e espaço.

3. Atenção! As tílias do Rossio estão quase, quase no máximo do seu perfume…

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Porque falham as nações*

* Hoje no Jornal do Centro


Em Julho de 1985, Bernie Sanders, então presidente de uma câmara nos EUA, fez uma visita à Nicarágua a convite dos sandinistas, visita que agora está a ser usada contra ele no debate das primárias democratas que hão-de escolher o próximo adversário de Trump.

Ora, a visita de Sanders naquele ano merece aplauso. Depois de terem derrubado a ditadura sanguinária de Somoza, os sandinistas de Daniel Ortega estavam no poder através de eleições justas e livres, tinham reduzido metade da mortalidade infantil e baixado o analfabetismo de 50 para 15%. Além disso, tinham devolvido ao controlo público 40% da riqueza do país roubada pela dinastia Somoza e seus apaniguados.

Só que, quatro anos depois, os sandinistas, em risco de perderem as eleições, fizeram um golpe que ficou conhecido por “la piñata” (nome de um jogo em que os putos partem um pote para chegarem às gulodices). Foi mesmo isso: a cúpula sandinista sacou para si própria centenas de empresas públicas. Ficaram riquíssimos, a começar pelo seu líder.

O sandinismo começou com preocupações com o povo mas transformou-se numa nódoa cleptocrática em que Daniel Ortega é o presidente e a mulher dele... vice-presidente. Se agora Sanders aceitasse um convite desta gente, merecia um banho de alcatrão e penas.

O que aconteceu na Nicarágua é a regra não é a excepção. Uma elite que chega ao poder, normalmente, acaba a fazer o mesmo que a que substituiu.

Daron Acemoglu e James A. Robinson, no seu obrigatório “Porque Falham as Nações”, explicam estes mecanismos. Uma nação pode prosperar se tiver instituições inclusivas, com elites que aceitem limites ao seu poder. Uma nação falha se, pelo contrário, tiver elites extractivas que não aceitam limites ao seu poder.

A Angola de João Lourenço tem agora acesa a mesma luz de esperança que tinha a Nicarágua quando foi visitada por Sanders. 
Fotografia daqui
Irá o novo presidente angolano recusar ser um Eduardo dos Santos II? 
Só o tempo nos dirá se acontece esse milagre.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Boomerang*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos,  em 12 de Junho de 2009 


1. No dia 8 de Dezembro de 2006, escrevi aqui no Olho de Gato:
“O desgaste da imagem dos professores junto da opinião pública feito pela Ministra da Educação é um boomerang que vai cair na cabeça do PS e do governo. É só deixar passar a água debaixo das pontes.”



A água passou debaixo das pontes. O boomerang caiu na cabeça do PS e do governo.

Foi nas eleições do domingo passado.

2. O código genético do PS é a liberdade.

A liberdade de as pessoas poderem pôr sal no pão sem o estado estar a meter o nariz no assunto.

A liberdade das pessoas poderem circular sem serem chipadas.

A liberdade de se poder dizer que a barbárie marilurdista gosta de bufos e delatores.

A liberdade de se poder dizer que nem tudo o que é bom para o senhor António Mota Coelho Engil é bom para o país.

A liberdade de se poder dizer que o secretário de estado que disse querer trucidar os funcionários públicos devia arranjar outro emprego.

A liberdade de se poder lembrar aos militantes do PS que congressos “albaneses” – como os de Mangualde e de Espinho - são o cemitério da política.

A liberdade de se poder dizer que é um erro moral fazer política a promover a inveja e a schadenfreude, atirando as pessoas umas contra as outras.

A liberdade de se poder dizer que Portugal precisa de um estado honrado e frugal que deixe as pessoas tratarem da sua vida e tentarem ser felizes.

3. O boomerang das europeias vai doer durante semanas.

Boys intranquilos. “Ai que ainda perco o tacho…”

Depois, os negócios do costume vão ser acelerados.

Na minha freguesia — Coração de Jesus, Viseu — o PS teve 18,5%.

A classe média está atenta.

Não é seguro que já tenha descarregado a bílis toda.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

RIPismos e rascunhos*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Quando morre um artista importante, os media e as redes sociais ficam monotemáticos e entram em modo RIP (“requiescat in pace”, “rest in peace”, “riposi in pace”). Não há descanso nem paz enquanto não contarem tudo sobre o falecido e a transcendência da sua obra.

Este RIPismo, feito por especialistas mais ou menos instantâneos, divide-se em dois grandes grupos:

— o RIPismo que se foca nos feitos do génio que nos acabou de deixar e nos ajuda a compreender a sua obra;

— o RIPismo em que o vivo usa o óbito como pretexto para falar de si próprio (o dia em que encontrou o falecido, ou jantou na mesa dele, ou teve uma epifania com um seu poema, …); este RIPismo narcísico qualquer dia começa a tirar selfies junto aos caixões e publica-as no Instagram.


Fotografia de Alfredo Cunha — Daqui
2. O RIPismo desta semana foi sobre Agustina Bessa-Luís.

Li textos muito bons sobre a romancista e o melhor deles foi de Rui Catalão que, no Facebook, lembrou que Agustina foi “a maior escritora de mão quente de todos os tempos: tudo o que dela conhecemos foi escrito ao primeiro rascunho, sem trabalho de edição nem reescrita”. Ela escrevia à mão, numa letra pequenina, ao “first take”, quase sem emendas nem rasuras.

É claro que nenhuma obra é feita “à primeira”, Agustina não fazia rascunhos no papel, fazia-os dentro da sua cabeça.

Aquilo que é o histórico de edições, as encruzilhadas narrativas, as hesitações, as personagens expulsas da história, as versões abandonadas, os esboços, aquilo a que Leibniz chamou «o grande mistério do que podia ter acontecido», tudo isso ficava-se pela cogitação interior de Agustina.

3. Paulo Ribeiro desistiu de tentar sacar em tribunal 53 mil euros ao Teatro Viriato por “despedimento ilícito” e o teatro municipal não vai pedir uma indemnização por aquele ataque ao seu bom nome.

RIP! Este caso faleceu quando ainda era só um esquisso esquisito, um esboço, um rascunho. Se nunca tivesse saído da cabeça do coreógrafo teria sido muito melhor. Especialmente para ele.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Chega*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 5 de Junho de 2009


1. O El País, no último domingo, trazia uma notícia com o seguinte título: “Banca a la deriva en Portugal”. De facto, os casos BPP e BPN são uma vergonha. E a nossa supervisão bancária também.

Os banqueiros implicados devem ser postos a ler livros debaixo do mesmo tecto que abriga o senhor Oliveira e Costa.

E o Banco de Portugal precisa de novo governador. Deste já chega.
Vítor Constâncio é a estátua mais bem paga do país.


Ficou imóvel durante anos enquanto os bancos atropelavam os clientes nos arredondamentos dos juros.

A sua quietação não conheceu nenhuma inquietação durante os anos de gatunagem no BPN. E isso ficou caro ao país. Muito caro.
Já chega.

2. Há cinco anos, as europeias tiveram em Viseu um ponto alto com Sousa Franco a fazer uma intervenção política brilhante, pontuada com a exibição de cartões amarelos ao então primeiro-ministro Durão Barroso. A sala foi ao rubro.

Dias depois, Sousa Franco faleceu em plena campanha eleitoral, em circunstâncias dramáticas, em Matosinhos.

As europeias de 2004 foram importantes e levaram à deserção de Barroso para a “Europa”. Este ano, as eleições europeias são a feijões.

Sete em cada dez portugueses não devem ir votar. Os partidos à esquerda do PS vão passar de três eurodeputados para quatro e os partidos à direita do PS ficam com os mesmos nove ou aumentam para dez.

3. Tanto José Sócrates como Manuela Ferreira Leite têm mostrado humildade e realismo.

Sócrates veio em força para o terreno porque teve a humildade de perceber que o candidato que escolheu, Vital Moreira, está muito enferrujado.

Já Manuela Ferreira Leite ficou mais por casa porque teve a humildade de perceber que a sua presença só desajuda Paulo Rangel.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Europeias*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Com Fernando Ruas fora da lista do PSD, o único protagonista viseense com algum relevo nestas eleições foi João Azevedo.
O competente director do marketing socialista, com a ajuda do CEO António Costa, apesar de ter um produto mau para vender, lá conseguiu que o eleitorado o comprasse.

2. As sondagens estiveram globalmente bem. Conseguiram até rastrear o esvaziamento do PSD após o psicodrama dos professores. Se tivessem detectado o crescimento do PAN, tinham estado perfeitas.

3. Como aqui previsto, os resultados portugueses foram exactamente os mesmos de há cinco anos: foram eleitos dezassete deputados europeístas (PS, PSD, CDS e PAN) e quatro deputados eurocépticos (Bloco e PCP).

Os europeístas do PS vão continuar nos S&D que perderam 39 lugares; os do PSD e do CDS permanecerão no PPE que perdeu 36 lugares. O deputado europeísta do PAN vai enfileirar nos pujantes Verdes, que subiram de 50 para 69 lugares.

Os eurocépticos do Bloco e do PCP vão mesmizar-se na Esquerda Unitária, que murchou de 52 para 38 eurodeputados.

4. Quando há muita abstenção aparece sempre um coro grego a defender o voto obrigatório.

No início desta semana surgiu, até, uma petição pública intitulada “A ditadura da abstenção” (sic), que não acha “admissível que sob o pretexto da libertinagem” (sic), “o desinteresse, o comodismo falem mais alto que o cumprimento das obrigações eleitorais” (sic), e exige “medidas que acabem com o estado de impunidade que gozam atualmente os eleitores faltosos” (sic).

À hora a que escrevo estas linhas, este lixo autoritário já foi subscrito por 220 “anti-libertinos”.

5. Uma boa medida de combate à abstenção foi a novidade do voto antecipado que permitiu a uns milhares de eleitores votarem no domingo anterior, 19 de Maio.

Para eles não houve o tradicional sábado em que pára tudo e os media não podem falar “naquilo” que está na cabeça de toda a gente. Ficou ainda mais evidente quão absurdo é o chamado “dia de reflexão”.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Tempo*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 29 de Maio de 2009 


O tempo leva os corpos de novos para velhos.

O tempo põe musgo nas pedras e depois ele - o tempo - seca o musgo. Pode-se lutar contra o tempo mas ele acaba sempre por ganhar.

O tempo põe o ontem antes do hoje, e põe o hoje antes do amanhã. Depois de amanhã logo se há-de ver…

Só a imaginação dos homens consegue fugir a estas implacáveis leis e é capaz de colocar os relógios a andarem para trás. Vê-se isso em dois filmes recentes:

1. A história de “O Estranho Caso de Benjamin Button” é bem conhecida. Benjamin Button nasceu num corpo velho e fez a viagem da vida de trás para a frente.




Os anos tiraram-lhe a artrite e o reumatismo e deram-lhe vigor. Morreu com corpo de bebé, pequenino, consolado, ao colo do seu amor.

Foi a imaginação de F. Scott Fritzgerald que escreveu o conto “The Curious Case Of Benjamin Button”, nos anos de 1920, agora adaptado ao cinema por David Fincher.

2. Em “Uma Segunda Juventude”, o professor de linguística Dominic Matei, já com mais de 70 anos, sente-se incapaz de terminar a obra da sua vida sobre a origem da linguagem humana.

No dia em que se ia suicidar, foi atingido por um raio e acordou no hospital 30 anos mais novo e capaz de falar todas as línguas do mundo. Aquela faísca deu a Dominic uma nova vida para poder partilhar com a mulher da sua vida (também “abençoada” por um relâmpago).

Esta história, adaptada ao cinema por Francis Ford Coppola, saiu da imaginação de Mircea Eliade.

Este filósofo das religiões romeno esteve em Viseu, no Outono de 1941, a estudar os quadros de Grão Vasco. Será que foi ao olhar para aqueles quadros mágicos que Mircea Eliade foi atingido pela faísca da ideia para esta história extraordinária?

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Golpe publicitário*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Parecia tão certa a vitória dos trabalhistas nas eleições do último fim-de-semana na Austrália, que a agência de apostas Sportbets decidiu fazer um golpe publicitário: distribuiu, dois dias antes dos votos, prémios aos apostadores no resultado trombeteado por todas as sondagens.

Foi um caso flagrante de foguetes antes da festa. Mais uma vez, as elites urbanas e os media não perceberam a angústia dos “vencidos” da globalização. Estes, como vai sendo costume, calaram-se bem calados, fintaram as empresas de sondagens, e reelegeram um conservador “trumpista”.

A Sportbets, com aquela ejaculação eleitoral precoce, perdeu um milhão e trezentos mil dólares, mas o boss da empresa não perdeu o sentido de humor e informou que, além de ir cortar na qualidade do papel higiénico, ia também ligar o aquecimento só duas horas por dia nos escritórios.

Nada de especial, portanto: o homem, durante uns tempos, vai imitar os directores das escolas portuguesas. As escolas, por cá, mesmo com os professores maltratados pelo governo e os alunos de pés frios no inverno, lá vão sobrevivendo. A Sportbets também há-de sobreviver.

2. Para as europeias que aí vêm, as sondagens prevêem um cenário favorável a uma geringonça entre socialistas e liberais/macronistas, o que fez desenvolver, nas últimas semanas, uma amizade enorme entre o presidente francês e António Costa, especialista nessas coisas.

Fotografia de Philippe Wojazer (Reuters)
Editada a partir daqui
Por cá e no que interessa à UE, as sondagens prevêem o mesmo resultado de 2014: quatro deputados eurocépticos (do PCP e do bloco) e dezassete europeístas (dos outros partidos).

Se as projecções se confirmarem, o golpe publicitário de Costa contra os 9A 4M 2D dos professores parece ter dado um eurodeputado mais ao PS.

Mas lembremo-nos da Sportbets. Domingo se verá se Costa afastou, ou não, o pesadelo da “vitória poucochinha”. Domingo se verá se ele obtém, ou não, substancialmente mais do que os 31,4% que deram, há cinco anos, só oito eurodeputados a António José Seguro.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Direitos de autor*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em  22 de Maio de 2009


1. Alegre decidiu ficar no PS, o que é bom para Sócrates mas ainda melhor para Louçã. Um partido alegrista fazia muito mais estragos eleitorais ao Bloco que ao PS.

Foi importante Manuel Alegre ter lutado contra o autoritarismo e a insensatez marilurdista na educação. Teve a coragem que faltou ao rebanho de deputados do PS que também são professores.

2. Bob Geldof, em 12 de Maio, entrou em vídeo numa conferência de imprensa em Portugal. Foi uma incursão na política portuguesa que pode ser vista em www.gdaie.pt.

Em causa está o seguinte: o parlamento europeu aprovou a extensão dos direitos de autor das gravações sonoras de 50 para 70 anos (nos Estados Unidos a protecção é de 95 anos). Essa directiva precisa de ser ainda aprovada no conselho da UE e o ministro da cultura português era um dos seis a bloqueá-la.

Nesse notável vídeo, Bob Geldof lembra que falar da arte ou falar da alma de um país é a mesma coisa.

Por isso, o músico irlandês termina o vídeo a “bombardear” o ministro José António Pinto Ribeiro: “Portugal precisa de apoiar os seus artistas, precisa de apoiar a sua cultura e, se não o fizer, deve livrar-se do seu ministro da cultura.”

Não vai ser preciso. Cinco dias depois deste “raide irlandês”, o ministro mudou de ideias e Portugal, agora, já aceita o novo limite dos 70 anos.

Guillermo Cabrera Infante
3. Ouvi esta história numa entrevista a Miriam Gómez, viúva do premiado escritor cubano Guillermo Cabrera Infante.

A ditadura castrista perseguiu o mais que pôde o autor de “Três Tristes Tigres” mas declarou-o “património nacional de Cuba”.

Esse cinismo serviu para o poder cubano publicar sem autorização toda a sua obra e, ainda por cima, não pagar direitos de autor.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Falsificar o passado*

* Hoje no Jornal do Centro

Não há país europeu em que a memória histórica cause tanta controvérsia como na Polónia, onde políticos e “académicos” estão sempre a reescrever o passado para obterem ganhos no presente.

Christian Davies, na última edição da London Review of Books, conta uma dessas querelas, num texto intitulado “Debaixo da linha de comboio”.

Davies começa por descrever uma cerimónia na capital polaca, em Outubro de 2017, em que, na presença de autoridades civis, militares e religiosas, foi descerrada uma placa que dizia: “Em memória dos 200.000 polacos assassinados em Varsóvia no campo de morte alemão de KL Warschau”.

Daqui
Nunca se tinha avançado com uma cifra de mortes deste tamanho, até Maria Trzcińska, uma juíza que tinha trabalhado na Comissão de Investigação dos Crimes Nazis na Polónia, ter publicado uma monografia em 2002, em que, entre várias fantasias, afirmava que um túnel rodoviário que passa debaixo de uma estação de comboios de Varsóvia tinha sido transformado pelos alemães numa gigantesca câmara de gás onde teriam sido executados os tais duzentos mil polacos, na sua maioria não-judeus (pormenor importante nesta narrativa).

A partir daí, a extrema direita nacionalista e anti-semita e o partido PiS, no poder, nunca mais largaram aquele osso, com a tese de o país ter sido vítima de um “Polocausto” (termo deles).

Ora, a verdade é que não foram assassinados duzentos mil polacos em KL Warschau. O campo existiu de facto no gueto de Varsóvia depois de este ter sido destruído por Himmler, em 1943, e recebeu muitos judeus exactamente para serem usados como mão-de-obra escrava para limpar as ruínas. As estimativas apontam para a morte ali de vinte mil pessoas.

Há evidências fotográficas e testemunhais de que aquele túnel por baixo da estação esteve sempre aberto ao trânsito, que, portanto, nunca foi uma câmara de gás, mas há sempre maluquinhos prontos a acreditar em qualquer patranha e construir, à volta dela, uma teoria da conspiração.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Eleições 2009 (II)*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 15 de Maio de 2009 


1. Este ano vai haver alguma renovação do pessoal político com a eleição de mais mulheres e, em 2013, graças à lei da limitação de mandatos, saem os dinossauros autárquicos.

Este avanço democrático deve-se, em exclusivo, ao PS. Depois de Ferro Rodrigues ter imposto a limitação de mandatos dentro do partido, José Sócrates avançou com a mesma medida para o país e avançou também com a lei da paridade.

Só que agora, em matéria de moralização política, o PS perdeu a iniciativa. Sócrates deixou-se ultrapassar por Manuela Ferreira Leite que proibiu as candidaturas simultâneas no PSD.

O PS está enredado nas candidaturas de Ana Gomes e Elisa Ferreira ao parlamento europeu e a câmaras municipais.

Elisa Ferreira já sentiu isso na pele. Iniciou a sua pré-campanha nos bairros do Porto e isso implicou logo prejuízos para a candidatura às europeias.

2. Vai ser pior no Outono. As legislativas e as autárquicas vão ser quase simultâneas, o que tornará as bicandidaturas ainda mais esquizofrénicas.

Com que cara é que um candidato a uma câmara vai pedir o voto das pessoas se antes – não vá o diabo tecê-las! – tratou de assegurar o lugarzito no aconchego duma lista de deputados?

Esse candidato-de-largo-espectro como é que faz campanha? De manhã, na feira semanal, passeia a sua gravata autárquica e, à tarde, nas ruas da cidade, mostra um fato com deputado dentro?

Está-se mesmo a ver esse político-vai-a-todas a dizer ao povo:

A asneira cometida com as multi-candidaturas de Ana Gomes e Elisa Ferreira já não tem remédio. Que sirva de lição para as eleições do Outono. Ao PS e aos outros partidos.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

A guerra aos professores*

* Hoje no Jornal do Centro


Os professores foram felizes durante quinze anos, desde a primavera de 1990, quando viram aprovada a carreira única por Roberto Carneiro, até à primavera de 2005, quando Maria de Lurdes Rodrigues iniciou uma guerra contra eles em duas frentes: retirar-lhes o controlo do seu trabalho (com uma nova gestão das escolas, a multiplicação da burocracia e do eduquês facilitista) e retirar-lhes dinheiro (com a avaliação e o congelamento da carreira).

A partir de 2005, as agências de comunicação governamentais nunca mais pararam de instigar a hostilidade da comunicação social contra os professores, cumprindo a estratégia que José Sócrates enunciou: “perdi os professores mas ganhei a opinião pública”.

A partir de 2005, os teóricos do eduquês instalados nos gabinetes governamentais, nas faculdades, nas escolas superiores de educação, que fogem das salas de aula como o diabo da cruz, nunca mais pararam de infernizar a vida de quem nelas trabalha.

A partir de 2005, os políticos nunca mais pararam o massacre, sempre a mudarem as leis, os regulamentos, os currículos, a avaliação dos alunos, sempre a arranjarem mais obrigações para as escolas e menos para as famílias e para os alunos indisciplinados.

Ora, toda esta pressão acumulada acabou por achar a válvula de escape que todo o país conhece: os 9A 4M 2D.

Para os profs, estes 9A 4M 2D são muito mais do que dinheiro ou tempo de serviço congelado, os 9A 4M 2D são uma sublimação emocional, são a saudade e a esperança no regresso aos anos em que foram felizes.


Fotografia de António Cotrim (editada a partir daqui)
Como é sabido, António Costa acaba de concluir a guerra iniciada, em 2005, por José Sócrates. O primeiro-ministro acaba de dizer aos professores que, com ele, os tempos felizes não voltam mais. O PS gosta de donos de restaurantes e de banqueiros. De profs não.

A partir de agora, só irá para professor quem não puder fazer mais nada. Daqui a poucos anos, vai haver falta de professores.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Simulação de afogamento*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 8 de Maio de 2009

1.“Geralmente os pés do indivíduo estão elevados. É colocado um pano sobre a testa e olhos. É aplicada água no pano e este é descido até cobrir tanto o nariz como a boca. Desde que o pano esteja saturado de água e cubra completamente a boca e o nariz, o fluxo de ar é restringido. Isto causa um aumento de nível de CO2 no sangue do indivíduo e obriga-o a um maior esforço para respirar. Este esforço e o pano produzem uma sensação de afogamento e de pânico...”


Daqui

Esta descrição vem num documento de 57 páginas da administração Bush, datado de 1 de Agosto de 2002, que acaba de ser tornado público. Há provas de que esta forma de tortura foi usada, pelo menos, 266 vezes pela CIA.

Perante esta indignidade, Barack Obama lembrou Winston Churchill que, mesmo com o seu país a ser destruído pela força aérea nazi durante a segunda guerra mundial, nunca deixou que fossem torturados prisioneiros alemães.

2. Nestes sete últimos desgraçados anos, fez-se muita política com base na inveja e na schadenfreude. Aprendizes de feiticeiro atiçaram os portugueses uns contra os outros, principalmente contra os funcionários públicos.

O resultado está à vista: o país está deslaçado. Há pólvora no ar. Nem há 25 anos, quando Portugal esteve à beira da bancarrota, havia tanto mal-estar social como há agora.

Há que perceber o perigo e atacar todos os focos de intolerância logo no seu início. Sem hesitações nem sociologias da treta. Por isso, não pode haver nem um miligrama de compreensão para com as criaturas que molestaram Vital Moreira no 1º de Maio.

3. Vi e revi, no Teatro Viriato, MITODÓPOLUS, direcção artística de Jorge Fraga, com alunos das escolas secundárias de Viseu.

Numa palavra: “poderoso!”

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Autárquicas 2009 (I)*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 1 de Maio de 2009


Correia de Campos vai ser, de novo, o candidato do PS à presidência da assembleia municipal de Viseu (AMV). Esta recandidatura ainda vai passar por escrutínio na comissão política concelhia, onde deverá ser aprovada sem sobressaltos.

Daqui
Escrevi aqui em 6 de Janeiro de 2006: “A candidatura do ministro Correia de Campos à Assembleia Municipal de Viseu foi um erro. O PS local perdeu autonomia estratégica e tem que defender o governo, quer este se porte bem ou se porte mal com Viseu. O PSD ficou com a sua tarefa facilitada. O Dr. Ruas só precisa de sublinhar as clivagens, reais ou imaginárias, entre Lisboa e Viseu.”

No essencial, esta minha previsão confirmou-se: o PS-Viseu na AMV ficou remetido a uma posição defensiva, deixando que os problemas nacionais fossem usados pelo PSD como biombo dos problemas locais.

Contudo, o PSD não aproveitou tanto como lhe era possível a oportunidade de ouro que lhe foi oferecida numa bandeja. Ainda por cima aconteceu o “corram-nos à pedrada!” de Fernando Ruas, em plena sessão da assembleia municipal, que o fragilizou muito. Depois deste episódio das pedradas, Fernando Ruas afonizou. A sua voz deixou de ter o mesmo impacto nacional que tinha.

A candidatura em 2009 de Correia de Campos à AMV tem um enquadramento político diferente de a de há quatro anos. Há quatro anos Correia de Campos era ministro. Agora, felizmente, já não é.

Apesar de, muitas vezes, o pensamento e a acção política de Correia de Campos ultrapassarem a direita pela direita, o seu conservadorismo não vai conseguir tirar votos ao PSD e ao CDS. Mas deve ser respeitado o direito de Miguel Ginestal escolher quem quiser para seu companheiro de candidatura.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

A paisagem*

* Hoje no Jornal do Centro


1. No último Olho de Gato, descrevi que a nossa relação com a internet agora é, como se diz no Facebook, complicada. Isso está a mudar-nos pessoal e colectivamente.

A esperança acendida com a primavera árabe, à excepção da Tunísia, virou pesadelo. As novas formas de participação democrática online ou falharam ou ficaram-se pelos orçamentos participativos da treta com que se entretêm os nossos autarcas e os jotinhas.

Este desencanto das pessoas é uma alegria para os estados. Os governos sempre quiseram controlar a internet e agora, perante o faroeste em que ela se tornou, aproveitam.

No domingo de Páscoa, logo depois dos atentados no Sri Lanka, o governo desligou as redes sociais. Foi só mais um episódio de uma tendência que vai aumentar.


2. Portugal é Lisboa, o resto é paisagem. Todos os governos sem excepção têm sido centralistas, mas o actual abusa.

No dia 1 de Setembro, estava ainda a ser cozinhado o orçamento de estado nos bastidores, já Fernando Medina anunciava 60 milhões de euros para passes fofinhos para os alfacinhas. Depois, perante o clamor do resto do país, o governo lá arranjou mais umas dezenas de milhões de euros para diluir na paisagem.


Posto Galp, Praça Carlos Lopes, Viseu, 17 de Abril
Fotografia Olho de Gato
Agora, no dia 16 de Abril, como havia o risco de a greve dos motoristas secar os postos de combustível, a Resolução do Conselho de Ministros n.º 69-A/2019 prescreveu os seguintes serviços mínimos: “abastecimento de combustíveis aos postos de abastecimento da grande Lisboa e do grande Porto, tendo por referência 40% das operações asseguradas em dias em que não haja greve.”

Foi mesmo em letra de lei. Para o governo, a paisagem que ande a pé. Ou de burro.

Há aqui um padrão que o comportamentalista Ivan Petrovich Pavlov descreveu em laboratório em 1920: quem tem o verdadeiro poder na geringonça, como poliu durante muitos anos as cadeiras da câmara de Lisboa, como casou entre si, como se foi empregando mutuamente, tem um reflexo condicionado — saliva sempre primeiro por Lisboa.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Bermudas*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 24 de Abril de 2009 


Daqui



1. A eventual recandidatura de Durão Barroso à presidência da comissão europeia está a dividir o PS e a animar as europeias.
Recordemos três factos:

Facto um: no dia 16 de Março de 2003, George W. Bush, Tony Blair e José María Aznar reuniram-se nos Açores a prepararem a guerra do Iraque. Foi uma cimeira contra o direito internacional, contra a verdade e contra a opinião pública mundial. A servir os cafés, naquela cimeira celerada, José Manuel Durão Barroso.

Facto dois: nas eleições europeias de 2004 os portugueses mostraram a Durão Barroso um severo cartão amarelo (o pior resultado de sempre da direita portuguesa). Poucas semanas depois, Durão Barroso apareceu indigitado para presidente da comissão europeia, deixando o seu partido e o país entregues a Santana Lopes, o “menino guerreiro”.

Facto três: Nos últimos 15 anos, os anos de Santer–Prodi–Barroso, a “Europa” foi capturada por uma elite burocrática arrogante, que vive virada para o seu umbigo, e que despreza os cidadãos europeus. Estes, claro, pagam na mesma moeda aos eurocratas. A “Europa” está cada vez mais distante dos problemas das pessoas.
Durão Barroso fez um mau trabalho. Não defendo a sua recondução.

2. Uma curiosidade:

O El Pais revelou que a cimeira da guerra do Iraque inicialmente estava prevista para as Bermudas mas Aznar disse a Bush: "el solo nombre de esas islas va asociado a una prenda de vestir que no es precisamente la más adecuada para la gravedad del momento en que nos encontramos".

A razão era poderosa: o encontro não podia ser nas Bermudas, pois podiam surgir associações malévolas a umas bermudas.

Foi por isso que a cimeira se fez nos Açores e Barroso apareceu no retrato. Por causa de umas calças arregaçadas…

sexta-feira, 19 de abril de 2019

A lua-de-mel acabou*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Há uns dias, um amigo do Facebook escreveu um post melancólico intitulado “Polícia de Costumes” onde confessou que não ia repetir uma publicação de 2012 de um cartoon com “uma fantasia sexual comum entre homens e mulheres”. É que, há sete anos, aquela brincadeira teve muitos likes e “meia dúzia de comentários” bem-humorados, mas, se a republicasse agora, ia ter que perder tempo com as “cabeças púdicas e policiais que andam por aí a voar aos círculos”.

É verdade: em poucos anos ficámos assim, a medir o que se pode dizer e o que não se pode dizer. As nossas sociedades estão mais crispadas, mais sectárias, mais puritanas, e o primeiro alvo dessa fúria intolerante é a liberdade de expressão em geral e o humor em particular.

Imagem daqui
Não é por acaso que a maioria do tráfego de haters no FB do Jornal do Centro acontece nos comentários às peças da sua página de paródia, o Centro Leaks - Tintol & Traçadinho.

E essa censura não vem, como diz Nassim Nicholas Taleb, “do Estado em si” mas de “uma monocultura intelectual” imposta “por uma polícia do pensamento hiper-activa nos meios de comunicação social e na vida cultural.”

Eu tenho chamado aqui “chuis da linguagem” à malta dessa “polícia do pensamento”, sempre a ver “discursos de ódio” em tudo, sempre a censurar tudo, até o capuchinho vermelho. E essa repressão é feita nos dois mundos em que nós agora habitamos: o mundo real e o mundo virtual.

2. Há um texto de Jesse Weaver, intitulado “Uma teoria unificada de tudo o que está errado na internet”, que descreve muito bem o conflito entre esses dois mundos e a forma como o nosso cérebro actua num e no outro.

De facto, a nossa lua-de-mel com a internet acabou. O fascínio já lá vai. Agora é só problemas: fake-news, trolls, cyber-bullying, pop-ups chatos, viciação tecnológica e as malditas bolhas de filtro — os algoritmos que usam os históricos de navegação para darem às pessoas sempre coisas semelhantes, fechando-as nas suas certezas, até as tribalizar.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

A culpa

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 17 de Abril de 2009 



1. Está em exibição nos cinemas O Leitor, de Stephen Daldry. Este filme conta a história de Michael, um adolescente que conhece e ama com as hormonas aos saltos uma mulher com mais do dobro da sua idade. Essa mulher é Hanna, interpretada por Kate Winslet (merecidíssimo óscar de melhor actriz). É uma mulher enigmática que se relaciona com Michael, que o quer, fazendo parte desse querer ouvir a voz dele horas e horas a ler-lhe livros. Daí o título deste excelente filme – O Leitor.


Um amor de verão, um amor de uma vida.

Hanna tinha sido guarda num campo de concentração e é levada a tribunal. Centenas de prisioneiros tinham morrido fechados num lugar em chamas e Hanna assume essa culpa. Disse ela ao tribunal: “se as portas fossem abertas, dava-se o caos e os prisioneiros fugiam”. Ao fim e ao cabo, foi esse baixar de braços perante regulamentos e leis iníquas que oleou a máquina nazi.

O Leitor trata também da culpa de Michael que calou informação importante para o julgamento e para a sorte de Hanna.

Essa culpa individual e colectiva não é um exclusivo alemão, mas a Alemanha pagou-a bem caro, com o país retalhado durante décadas, e feridas que demoram a cicatrizar.

Como parte desse processo de exorcização da culpa, foram feitos na Alemanha milhares de filmes, séries de televisão e romances sobre Hitler e o Holocausto.

2. Portugal também tem duas páginas muito negras na sua história mas, estranhamente, não há grandes narrativas sobre a nossa culpa quer durante a inquisição quer durante o salazarismo.

Quanto a Salazar, o que tem aparecido são histórias que glamourizam o ditador, tornando-o uma espécie de arrasa-corações de botas, com direito a Soraia Chaves e tudo.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Não se sentiu...*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Há um mês, num texto intitulado “Quem não se sente...”, alertei aqui o presidente da câmara de Viseu que lhe ficava muito mal estar a dar gás ao coreógrafo Paulo Ribeiro depois de este ter abandonado, em 2016, por sua única e exclusiva vontade, a direcção do Teatro Viriato, e ter vindo agora, anos depois, alegar que foi vítima de um “despedimento ilícito” e tentar sacar, em tribunal, 50 mil euros àquela entidade municipal.

Como é evidente, um bom líder “sente-se” e, por isso, põe-se ao lado do que é seu e está a ser atacado, não se põe ao lado do atacante.

O facto é que António Almeida Henriques, mesmo depois de avisado, “não se sentiu...” E fez pior: para além de ter mantido a encomenda de um espectáculo ao litigante, ...
Fotografia de José Ricardo Ferreira
(editada)
... sentou-se ao seu lado numa conferência de imprensa no exacto teatro demandado em tribunal. E, apesar de ter ouvido o homem confirmar aos jornalistas que ia continuar a exigir os 50 mil euros, mesmo assim, afirmou que aquilo ia ser “um grande momento das comemorações dos 20 anos do Teatro Viriato”.

Este episódio, do princípio ao fim, foi tudo menos “um grande momento” do que quer que seja.

A esta deserção do autarca de Viseu na defesa do seu teatro municipal some-se o seu défice de rigor gestionário: acaba de saber-se que a câmara de Viseu, em 2018, teve um resultado líquido negativo de 3.573.148,97 euros.

2. As eleições europeias de Maio são feitas num quadro político inédito: a UE tem dois inimigos declarados, Trump e Putin.

O presidente norte-americano e o presidente russo estão a apoiar partidos soberanistas de direita e de esquerda, hostis à “Europa”. Enquanto Putin faz as coisas mais na sombra, Trump é menos subtil. O seu estratega, Steve Bannon, não sai do velho continente a organizar uma internacional de ultra-direita.

É um sinal dos tempos: os vários nacionalismos europeus sempre foram historicamente hostis aos norte-americanos e aos russos. Agora, são lacaios deles.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Gê Dois*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 10 de Abril de 2009 


1. A última cimeira dos G20 serviu para se atirar uma montanha de dinheiro para cima da crise e para se perceber que Barack Obama consegue moderar o fogo que lavra na economia mundial mas não é capaz de o apagar.

E a Europa?

A Europa mostrou-se como de costume: umas bravatas de Sarkozy, umas gaffes de Berlusconi e uma irrelevância chamada Durão Barroso.

Valha-nos a sensatez de Angela Merkel que não vai em keynesianismos de 25ª hora e, ao menos, tem uma ideia na cabeça para esta tempestade: apostar na solidez do euro.

Este G20 foi o décor londrino para mais um capítulo do drama a dois entre os Estados Unidos e a China.



Obama e Hu Jintao prosseguiram o seu G2 particular que está no epicentro desta crise global. O maior devedor mundial e o seu maior credor necessitam ambos que o valor do dólar não caia. Pelo menos muito depressa.

2. Recebi um mail de Lisa A. Saleh, senhora de quem nunca tinha ouvido falar.

Ela apresenta-se como “uma viúva de idade que sofre de doença prolongada” que herdou do seu “último marido” 3,5 milhões de dólares e que “precisa de uma pessoa honesta e temente a Deus que possa usar os fundos no trabalho de Deus a ajudar os menos privilegiados”.

Lisa A. Saleh reserva 1,2 milhões de dólares “para meu uso pessoal” neste trabalho misericordioso.

Depois pede-me dados pessoais bastante intrusivos e está à espera da minha resposta para o e-mail: mrslisa52@yahoo.co.th.

Pode esperar sentada numa cadeira confortável pela minha resposta. Deixo o e-mail da senhora para alguém interessado…

3. Está na fase de acabamentos uma nova rotunda no centro de Viseu que merece um especial carinho.

É um círculo perfeito.

À volta, bordejando toda a circunferência, tremeluzem dezenas de “olhos de gato”.

Esta coluna agradece a homenagem.