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sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Classe média*

* Hoje no Jornal do Centro


1. O World Data Lab, dirigido por Kristofer Hamel, está há anos a aperfeiçoar a caracterização de quatro grupos sociais — pobres, vulneráveis, classe média, ricos — usando bases de dados de 188 países.

Hamel e Homi Kharas acabam de publicar o estudo “Um ponto de inflexão global: metade do mundo é agora da classe média ou rica”, cujos resultados não devem admirar os leitores habituais desta coluna. Bastas vezes tenho feito notar aqui que as narrativas dos media e das nossas universidades sobre a globalização não descrevem o que está a acontecer no mundo.

A verdade é que “pela primeira vez desde que começou a civilização baseada na agricultura, há dez mil anos, a maioria da humanidade já não é pobre nem está em risco de cair na pobreza.” Três mil e oitocentos milhões de pessoas vivem em casas de classe média ou rica e um número ligeiramente inferior em casas pobres ou vulneráveis à pobreza.

E este processo está a ser rápido: “no mundo de hoje, há uma pessoa a escapar da pobreza extrema em cada segundo, enquanto, no mesmo segundo, cinco pessoas entram na classe média. Os ricos estão a aumentar também, mas a um ritmo menor (um em cada dois segundos).”

Campeão de bilheteiras este ano, não vai estrear em Portugal 

 A nova classe média é, sem surpresa, predominantemente asiática (nove em cada dez) e, a continuar esta tendência, este grupo vai ter 4 mil milhões daqui a dois anos e 5,3 mil milhões em 2030.

Ora, como se sabe, a classe média é sempre um sarilho para os governos: onde está a crescer exige mais infra-estruturas e serviços do estado, onde está a recuar protesta e vota anti-sistema. Aconteceu no último domingo no Brasil.



2. Eclodem eucaliptos por tudo quanto é terreno ardido há um ano.

O governo, claro, não quer saber. Os autarcas é mais festas e festinhas. Nem para o problema da água se mobilizam. Temos água com fartura nos nossos rios mas os boys socialistas da Águas de Portugal e os capitalistas da Águas do Planalto vão mexendo os cordelinhos. Para depois nos vampirarem nas contas mensais.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Inflação*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 10 de Outubro de 2008



A inflação é o mais injusto dos impostos porque corrói o rendimento dos mais pobres e dos mais fracos. Quando se transforma em hiperinflação, então, é uma tragédia social. Essa tragédia aconteceu na Alemanha depois da I Guerra Mundial, tendo sido uma das causas que levou ao nazismo e a Adolf Hitler.

O que aconteceu é muito bem contado em “O Obelisco Negro”, um divertido livro de Erich Maria Remarque que conta as aventuras de uns cangalheiros durante a República de Weimar.


Entre Janeiro de 1922 e Dezembro de 1923, os preços aumentaram mil milhões de vezes. A cavalgada dos preços era de tal forma que até a “cotação” de uma refeição num restaurante não parava quieta. Era conveniente comer depressa. Quanto mais se demorava, mais a conta final podia ser multiplicada por cem ou por mil.

Havia uma pausa nesta desgraça: a subida dos preços parava nos fins-de-semana porque a bolsa estava fechava.

Na crise actual acontece algo parecido. Ao fim-de-semana, a cotação do petróleo e das outras commodities não inquieta. Ao fim-de-semana, o Dow Jones e a Euribor estão parados. Ao fim-de-semana, não precisamos de ter medo do subprime nem dos ainda mais tóxicos credit default swaps.

Os bancos centrais têm injectado doses obscenas de dinheiro no sistema bancário. Como se sabe, mais massa monetária significa mais inflação.

O cidadão alemão comum não gosta do euro e ainda tem saudades do velho marco. Não surpreende, portanto, que Angela Merkel ligue pouco ao que diz o sr. Sarkozy. A chanceler alemã prefere verificar se o sr. Trichet no BCE mantém o euro forte e a inflação controlada.

Como é a Alemanha que paga a “Europa”, tenhamos alguma esperança.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

O faqueiro*

* Hoje no Jornal do Centro

1. O prémio Escolha do Consumidor deu a Viseu “sete das 30 categorias que estiveram em análise”, noticiava, num cantito de uma página, a última edição deste jornal.

O sr. Google, que sabe tudo, explica-nos que esse prémio, em 2018, já foi atribuído à Caras, ao Global Media Group, à WiZynk, à Huawei, ao Dinheiro Vivo, ao Millennium BCP, à Glassdrive, à Fidelidade, à Multicare, à Samsung, à Repsol, à..., ao...

Dá para perceber: há mais vips a receberem o prémio Escolha do Consumidor do que velhinhos, em hotéis, a comprarem a prestações faqueiros, serviços de loiça e colchões ortopédicos.

No Facebook, há um vídeo patusco deste evento que decorreu numa embarcação de cruzeiros em Lisboa. Na cerimónia pingam dezenas e dezenas de prémios, alguns delirantes: “Cascais é o melhor concelho para se ter vida social”, “Sintra, o melhor para namorar”, “Portimão para fazer praia”, “Viseu para ser feliz”.

Um solitário conhece uma tia de Cascais, acende-se uma paixão ali ao lado em Sintra e, depois de um bronzeamento na praia da Rocha, vão ser felizes para sempre em Viseu.

Seja como for, o dr. Sobrado e o dr. Almeida Henriques lá subiram a bordo e...
... tiraram uma fotografia com o faqueiro, perdão, com o prémio. Depois, fizeram-na chegar aos jornais.


2. Os “vencidos da globalização” que deram a vitória a Trump, aqueles a quem, num momento infeliz, Hillary Clinton chamou “deploráveis”, continuam a sobressaltar as democracias. Agora é a vez do Brasil.

Como explicou o sociólogo Vinicius Mota no Folha de S. Paulo, os eleitores de Bolsonaro são pequenos proprietários e empresários, empregados mal pagos, polícias e militares de baixa patente, reformados, povo que “não tem a pele clara e está mais próximo do cotidiano violento das cidades”, que despreza os políticos e as elites bem pagas, odeia jornalistas e intelectuais, e deseja a “restauração da ordem corrompida”.

Segundo as sondagens, no domingo, essa gente vai valer um terço dos votos.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Contas de cabeça*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Há quatro semanas, espalhei-me ao comprido quando previ aqui cheio de certezas: “António Costa e Rui Rio não querem a recondução de Joana Marques Vidal. Paciência. Vão ter que a gramar.”


Editada a partir daqui
Contra o expectável, Marcelo Rebelo de Sousa não quis tirar uma selfie com a popularíssima procuradora, a primeira que começou de facto a incomodar gente importante. Marcelo, o poderoso Marcelo, borregou. Porque terá sido?

Há teorias conspirativas e teorias psi para este falhanço presidencial: que Marcelo não perdoa a JMV ter indiciado o seu amigo Ricardo Salgado, que se irritou com aquele “irritante” processo ao ex-vice angolano, que ele é mais fraco psicologicamente do que Costa.

Não creio que tenha sido nada disso. Marcelo está nos primeiros cinco anos de uma presidência de dez. Nos primeiros cinco, os presidentes só pensam na sua reeleição e fazem tudo o que os primeiros-ministros querem. Soares deixou o PM Cavaco fazer tudo, Cavaco deixou o PM Sócrates fazer tudo (até uma bancarrota), Marcelo está a deixar o PM Costa fazer tudo.

Marcelo, o popular Marcelo, tem uma meta para a sua reeleição — ultrapassar os 70,35% de Mário Soares em 1991. Para tal conseguir, precisa que Costa o apoie e não apresente nenhum candidato socialista em 2021, da mesma maneira como Cavaco, então, prescindiu de um candidato laranja e apoiou Soares.

Foram estas contas de cabeça que despediram Joana Marques Vidal. Nos primeiros cinco anos, tem havido sempre em Belém um sacristão do primeiro-ministro e só nos segundos cinco um presidente. Para evitarmos a fase sacristã, há que constitucionalizar um mandato presidencial único de sete anos.

2. Em Singapura, a Huawei chegou junto de uma fila de compradores para o ultimíssimo iPhone e deu-lhes uma caixa com uma bateria externa onde se podia ler: “Aqui está um powerbank. Você vai precisar dele.”

Um dia destes, Xi Jinping, num gesto magnânimo, entrega uma caixa destas a Donald Trump.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Encomendas*

* Hoje no Jornal do Centro


1. No dia 27 de Setembro de 2010, o secretário-geral da OCDE, sr. Ángel Gurría, apareceu em todos os media portugueses a recomendar um aumento vigoroso dos impostos sobre o imobiliário. Para além do IMI, a criatura queria também um aumento no IMT, o imposto que, quando ainda se chamava sisa, foi carimbado por Guterres como “o imposto mais estúpido do mundo”.
Durante dias a comunicação social não falou de outra coisa. Aquela conversa sintonizava-se tanto com a conversa do governo Sócrates que até parecia uma encomenda.

No dia 14 de Maio de 2013, o secretário-geral da OCDE, sr. Ángel Gurría, recomendou a Portugal que aumentasse impostos, tesourasse pensões, cortasse nos subsídios e indemnizações dos desempregados e carregasse nos combustíveis.
Durante dias a comunicação social não falou de outra coisa. Aquela conversa sintonizava-se tanto com a conversa do governo Passos que até parecia uma encomenda.

No passado dia 11 de Setembro de 2018, foi publicado um relatório da OCDE do eterno senhor Gurría, relatório esse que fez com que os nossos media desatassem a “informar” que os professores portugueses ganham dinheiro que nunca mais acaba.
Durante dias a comunicação social não falou de outra coisa. Aquela conversa sintonizava-se tanto com a conversa que o governo Costa gostaria de ter se tivesse coragem que até parecia uma encomenda.

Em 2010, a OCDE acarinhou Sócrates. Em 2013, mimou Passos. Agora quis fazer o mesmo a Costa mas as coisas não correram bem. Nem a perorar nove anos, quatro meses e dois dias seguidos, o sr. Ángel Gurría conseguiria convencer os portugueses que os seus professores são uns nababos.

2. Em vez de fazer como Bill Murray no filme “Os Caça-Fantasmas”, o bloco de esquerda, para tentar exterminar o fantasma Robles, propôs um “adicional ao IMT”, propôs um aumento da velhinha sisa.

Isto é, se o deixassem, o bloco adicionava ainda mais estupidez ao “imposto mais estúpido do mundo”.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Porque será?*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 5 de Setembro de 2008



1. Em Agosto, o preço do barril do petróleo aliviou ligeiramente mas ninguém sabe o que vai acontecer no futuro. Para o caso, as previsões dos economistas têm-se mostrado tão úteis como os horóscopos da Maya.

Num ponto de vista ecológico, o fim do crude barato não é mau. Os consumidores vão poupar mais, vão procurar alternativas mais eficientes e as energias renováveis vão ganhar mercado.

Daqui
Há quatro meses atrás, todos os partidos da oposição culpavam o governo pela subida dos combustíveis. Evidentemente, não tinham razão. Portugal não tem poços de petróleo. José Sócrates esteve bem durante a crise: deixou o mercado funcionar, acudiu aos sectores mais fragilizados e correu a apertar a mão aos Chavez, Kadhaffis e Eduardos dos Santos deste mundo, essa fauna peculiar que tem petróleo.

Este último choque petrolífero revelou que o nosso mercado precisa de muito mais concorrência. Há que aproveitar esta pequena acalmia para tomar medidas. Porque não licenciar mais postos de abastecimento nos hipermercados?

2. Jorge Coelho, Manuel Maria Carrilho e Correia de Campos têm muita coisa em comum: (i) os três são de Viseu; (ii) os três são militantes do PS; (iii) os três foram ministros de governos do PS; (iv) os três fizeram a sua militância partidária longe, bem longe, da federação distrital de Viseu.

De facto, por mais dedicado ao interesse público e mais competente que seja, nenhum socialista do distrito tem conseguido chegar a um lugar de relevo na política portuguesa. Para que tal aconteça, é necessário fazer vida partidária longe, bem longe, da Rua 5 de Outubro de Viseu.

Porque será?

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Um pesadelo*

* Hoje no Jornal do Centro


1. A constituição democrática do Brasil foi promulgada em Outubro de 1988, um ano antes da queda do muro de Berlim. Na altura, o Partido dos Trabalhadores (PT) era anti-sistema e não quis participar no processo de passagem da ditadura militar para a democracia. Não estava de acordo com as regras da “democracia-burguesa” mas depois usou-as impecavelmente e conseguiu eleger Lula da Silva, alcandorando o Brasil a uma posição de destaque e respeito no mundo.


Fotografia de Marcelo Sayao
Lula foi um bom presidente e chegou ao fim do seu último mandato com taxas de aprovação de 90%. Na altura muita gente queria que ele mudasse a limitação constitucional de mandatos de forma a poder continuar, mas Lula recusou. Fez bem. Lula foi, então, um democrata, contrastando, por exemplo, com o que estava a fazer o funesto Chavez na Venezuela.

2. Entretanto, Lula mudou. Para pior. Escrevo este texto no dia em que o PT o registou como seu candidato oficial a presidente, ao mesmo tempo que candidatava a vice-presidente Fernando Haddad, ex-prefeito de S. Paulo.

Estamos perante um padrão comportamental: mal começou a ter sarilhos no Lava Jato, Lula arrastou Dilma até ao chão e está agora a fazer o mesmo ao PT, levando-o a desrespeitar uma lei que a cidadania brasileira impôs à sua corrupta classe política.

Recorde-se: a lei da ficha limpa, que proíbe um condenado em segunda instância de ir a votos, foi aprovada pelo Congresso, após uma petição de 1,6 milhões de brasileiros, e foi promulgada por Lula, no seu último ano de presidência.

Lula, em 2010, respeitou as regras. Em 2018, a criatura não respeita nem tão pouco uma das leis que promulgou. Lula é agora um projecto de autocrata. Uma ameaça à democracia.

Se Haddad fosse eleito, trataria logo de conceder perdão a seu superior hierárquico. O Brasil virava uma Venezuela ou uma Nicarágua. Um pesadelo. Não pode acontecer.

Tal como em 1988, a democracia brasileira vai ter que avançar sem o PT.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Coragem*

* Hoje no Jonal do Centro



1. Há exactamente duas semanas e dois dias, a polícia iraniana irrompeu pela casa de Nasrin Soutoudeh e levou para a prisão aquela advogada defensora dos direitos humanos. Não foi a primeira vez que tal aconteceu a esta Mulher corajosa - já tinha estado presa pelo regime teocrático do Irão de 2010 a 2013. Foi durante esses amargos anos que ela recebeu, e muito bem, o Prémio Sakharov.

Desta vez, a advogada estava em casa com sua filha de 18 anos que preparava os exames para a entrada na universidade. Foi dito a Nasrin que ela tinha sido condenada à revelia a cinco anos de prisão. Foi-lhe dito isso e mais nada do que isso. Ela não faz ideia do que se passou no julgamento. Não sabia, tão pouco, que o mesmo estava a acontecer.

Sabe-se que, nas semanas que precederam a sua prisão, Nasrin Soutoudeh tinha tomado uma posição firme contra uma norma do código de processo penal iraniano de 2015 que, em determinados "crimes", proibe os acusados de terem acesso a advogados independentes, só podem ser "defendidos" por advogados autorizados pelo regime.

Por exemplo, em Teerão, dos sessenta mil advogados activos só há vinte a poderem "representar" as mulheres que cometem o "crime" de aparecerem sem hijab em público. E, como se sabe, muitas têm sido as Mulheres que têm lutado contra a obrigatoriedade dos véus. Cheias de coragem, destapam a cabeça, sobem às caixas de electricidade espalhadas pelas ruas e publicam esses actos de liberdade nas redes sociais. Muitas têm sido presas pela sinistra polícia moral dos aiatolas.


Fotografia AFP/Getty Images
2. Durante o jogo Portugal-Irão, duas mulheres lindas, de cabelo negro ao vento, uma delas a sorrir, a outra a gargalhar, ambas com o verde, o branco e o vermelho da bandeira iraniana pintados nas suas caras, apareceram, sem véu nenhum, nos écrãs de todo o mundo. Nos do Irão também.

Tão belas. Tão belas como a trivela de Ricardo Quaresma.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Israel - Irão*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 20 de Junho de 2008


1. A edição de 15 de Junho do Times dá notícia que George W. Bush está empenhadíssimo numa última tarefa antes de deixar o emprego: apresentar aos americanos, numa bandeja, as barbas do líder da al-Qaeda. Mesmo que consiga esse jackpot e Osama Bin Laden saia agora de debaixo duma pedra, Bush já não perde o título de pior presidente da história dos Estados Unidos.

A aliança Irão, Hezbollah, Hamas e Iraque (dominado pelos xiitas com apoio americano) criou um desequilíbrio estratégico no Médio Oriente. O presidente iraniano Mamoud Ahmadinejad, sempre que abre a boca, é para ameaçar varrer Israel do mapa e essas ameaças são levadas a sério em Telavive.

Joshka Fichler, o bem informado ex-ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, acaba de avisar que há cada vez mais sinais que Israel prepara um ataque às instalações nucleares iranianas ainda antes de Bush se ir embora.

É mesmo: 2008 é o ano de todos os pesadelos.

2. Deve haver verdade no preço dos combustíveis. Por razões ecológicas e económicas. As empresas e as pessoas devem receber os sinais certos. Se a energia está cara, há que mudar comportamentos e consumos.

Sócrates está a fazer melhor que Guterres que, em 1999, congelou os preços dos combustíveis.

A Galp tem-se revelado insolente. É possível e desejável introduzir mais concorrência no mercado dos combustíveis. 

Mas convém lembrar: nós não temos petróleo. É preciso investir cada vez mais em energias renováveis e na eficiência energética.

No curto prazo, há que cerrar os dentes, aguentar a tempestade e ir acudindo aos sectores mais fragilizados pela subida dos preços. É o que José Sócrates está a fazer.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Guiné-Bissau*

* Publicado no Jornal do Centro ha exactamente dez anos, em 30 de Maio de 2008


A edição do último domingo do Washington Post trazia uma reportagem sobre a Guiné-Bissau intitulada a “Rota do Mal”. Conforme conta Kevin Sullivan, a situação daquele país lusófono é catastrófica. A Guiné está à beira de se tornar um narco-estado dominado pelos cartéis colombianos.

A cocaína “viaja” cada vez mais para a Europa por causa da valorização da libra e do euro. Há muita procura em Inglaterra, Espanha e Itália. Em Londres, Madrid ou Milão os preços do “pó branco” são o dobro dos praticados em Nova York ou San Francisco. Sem surpresa, percebe-se que o comércio dos estupefacientes segue as regras da economia global.
     
A Guiné ocupa o antepenúltimo lugar do Índice de Desenvolvimento Humano da ONU. A maioria das pessoas não tem água nem electricidade. O país tem 63 agentes de investigação mas mais de metade nem arma tem. Os prisioneiros dormem num edifício decrépito a que se chama prisão; sair ou ficar depende deles.
     
Apesar deste cenário, na rua vêem-se Porshes e BMWs luzidios. Os carros são pagos nos stands com dinheiro vivo. Quando um traficante é incomodado, o juiz liberta-o. Os jornalistas ou se calam ou levam um tiro. É a economia da cocaína a funcionar.
     
A droga é largada nas várias ilhas da Guiné-Bissau. Depois, pequenos aviões e “mulas” transportam o produto para a Europa. Em Amsterdão, só num voo proveniente de Bissau, foram apanhadas 32 pessoas com cocaína escondida no corpo.
     
Não há que errar: Portugal vai ser afectado pela existência deste entreposto de cocaína a funcionar num PALOP. É preciso ajudar a Guiné-Bissau a construir a autoridade do estado. Para já, ainda deve ser só um caso de polícia. No futuro, se nada for feito, pode vir a ser um caso militar.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Ressaca*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 2 de Maio de 2008



1. Este ano está a haver uma corrida aos resgates de PPRs; o saldo entre resgates e subscrições, no final de Março, já era de 171 milhões de euros; entre os primeiros trimestres de 2007 e 2008, a situação degradou-se 274 vezes.

A situação económica está brava. Só diz o contrário “alguém que está a olhar através de uma janela fechada e não consegue explicar a si mesmo os estranhos movimentos de um transeunte na rua. Esse alguém desconhece a tempestade que vai lá fora e portanto que essa pessoa está apenas a fazer um grande esforço para se conseguir aguentar em pé” (palavras do filósofo Ludwig Wittgenstein para sua irmã).

Há muita gente sem dinheiro e que está a vender os últimos anéis. Gente desesperada, no meio de uma tempestade, a fazer um grande esforço para se aguentar em pé.

2. Vivemos um clima “escassamente propício à jubilação colectiva”, conforme dizia o texto deste ano da Associação 25 de Abril que foi assinado, entre outros, por Mário Soares, Vieira da Silva, Ferro Rodrigues e António Costa.

O nosso 11 de Setembro foi uns meses antes do americano; foi em 4 de Março de 2001, quando a Ponte de Entre-os-Rios caiu nas águas do Douro. Estamos em ressaca desde então.

Não correu bem a ideia de fazer de Portugal um país de eventos. A Expo 98 e o Euro 2004 não nos ajudaram. Erguer estádios aumentou-nos o IVA e fechou-nos urgências. 

F
Leiria, falência com vista para o castelo — daqui

Ainda por cima, infelizmente, o grego Haristeas marcou-nos aquele golo de cabeça na final… Cristiano Ronaldo e José “special one” Mourinho consolam-nos alguma coisa, mas não chega.


Continuamos de ressaca. Levamos já sete anos deste tempo “escassamente propício à jubilação colectiva.”

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Sacos azuis*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. O livro “Porque falham as Nações”, de Daron Acemoglu e James A. Robinson, explica “as origens do poder, da prosperidade e da pobreza” usando a seguinte grelha de análise: povos com instituições inclusivas prosperam, povos com elites extractivas sem limites ao seu poder caranguejam na corrupção e na pobreza.

Vou socorrer-me da síntese que li neste livro sobre a corrupção da dupla Alberto Fujimori, presidente do Peru de 1990 a 2000, e do seu braço direito Vladimiro Montesinos.

Este Montesinos registava meticulosamente o “quando”, o “quem” e o “quanto” gastava nas suas compras de pessoas. Várias dessas aquisições foram filmadas e, mais tarde, acabaram nas televisões e ainda são acháveis na internet.

Com aquela “contabilidade” de Montesinos ficou a saber-se a cotação dos subornados: juízes e políticos ficavam entre 5 a 10 mil dólares por mês; já uma manchete de um jornal podia valer entre 3 a 8 mil dólares e os donos de televisões e de jornais levavam milhões de dólares. É que Fujimori e Montesinos achavam o poder mediático muito mais perigoso para eles do que o político ou o judicial.


Editada a partir daqui
2. Quando foi interrogado, Ricardo Salgado descreveu a ES Enterprises como uma “sociedade de disponibilidade transitória de capitais”. Deve ser assim que se diz saco azul em banqueirês.

Ora, para mexer naquela “disponibilidade transitória de capitais” do espírito santo, o banqueiro também tinha um meticuloso braço direito que registava tudo: o suíço Jean-Luc Schneider.

Já são conhecidos alguns dos milhões que foram sendo off-chorados por Jean-Luc para políticos, testas de ferro, gestores e fauna equivalente, mas ainda há muito nevoeiro naqueles números. Ainda não dá para destrinçar bem as cotações daquele mercado peculiar do dr. Ricardo Salgado. Bava valia mais que Granadeiro? Pinho menos do que o testa dura?

E os fluxos azuis para os media? Cadê a anunciada lista de avençados do BES que escrevem nos jornais e parlapiam nas televisões?

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Dor de cotovelo*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. No último domingo, o La Voz de Galicia trazia um artigo cheio de elogios a Portugal. O título — “Portugal, los nórdicos del sur de Europa” — era inspirado numa expressão do nosso presidente da república que oxalá se mantenha em boa saúde e cheio de afectos, especialmente por este interior nada nórdico.

É que, se não for Marcelo, não somos prioridade para ninguém — até as portagens das nossas auto-estradas tiveram um aumento maior do que as do litoral.

Elogios vindos de galegos não surpreendem, eles gostam muito de nós. Mas não foram só eles. Também o Ara, um jornal independentista catalão, numa peça dominical da secção de economia — “El misterí portuguès” — afirma: “Portugal està de moda. El turistes inunden Lisboa i Porto, ja comencen a descobrir la costa alentejana i fins e tot les illes de Madeira i les Açores gràcies a la pluja de vols low cost.”


Fotografia de Gonçalo Rosa da Silva, daqui
Os dois artigos são muito amáveis. Madonna é referida como “el ejemplo más llamativo” que se está a aproveitar da fiscalidade vip para “extranjeros”. Se eles acrescentassem que, por causa dos impostos fofinhos e a luz de Lisboa, também temos cá a Monica Bellucci, então, do lado de lá da fronteira, em vez de bonomia, sopraria o mau vento da inveja.

2. Onde os jornais espanhóis não conseguem esconder a dor de cotovelo é nos triunfos diplomáticos portugueses. Barroso, Guterres, agora Centeno, nomes que os põem a constatar o clássico “el tamaño no importa.”

Fiquemo-nos por três razões explicativas deste sucesso sintetizadas por Javier Martin del Barrio, no El Pais:

(i) a carreira diplomática em Portugal é eficaz e experiente porque, ao contrário de Espanha, não muda quando mudam os governos;

(ii) a “fúria” espanhola começa logo por dizer “no”, enquanto os portugueses, pacientes, respeitosos, avessos à confrontação directa, nunca dizem “não”;

(iii) as elites políticas portuguesas são poliglotas, as espanholas não, e isso acaba por ser decisivo.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Há sempre qualquer coisa*

* Hoje no Jornal do Centro**



Numa das suas mais sublimes canções, José Mário Branco canta: “Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer, qualquer coisa que eu devia perceber, porquê não sei, porquê não sei, porquê não sei ainda.” A canção chama-se “Inquietação”, e inquietação é o que se sente quando se tenta perceber o que “está pra acontecer” no mundo.

A crise sistémica global que se seguiu ao estoiro, em Setembro de 2008, do Lehman Brothers deslocou o centro de gravidade do planeta para a Ásia. A classe média asiática acaba de ultrapassar a soma da classe média norte-americana com a europeia. 


Xangai (daqui)
Estes ganhos e perdas estão a causar sarilhos em todo o lado. As classes médias dos países ascendentes lutam por mais infraestruturas e serviços públicos e as classes médias em perda, no ocidente, protestam contra os cortes e fazem crescer o voto populista e iliberal.

Isto é o que tem estado a acontecer desde 2008. Olhemos agora para o que não está a acontecer.

Em primeiro lugar, não está a acontecer inflação, como era costume quando os bancos centrais faziam injecções maciças de liquidez. Em segundo lugar, apesar de todas as tensões sociais, políticas e geo-estratégicas causadas pela crise, não houve nenhum fechamento do comércio internacional. O motor mental do livre-comércio e da convertibilidade das moedas permanece pujante.

A globalização e o seu fluxo de pessoas, conhecimento, ideias, mercadorias, capitais, vai prosseguindo imperturbável. Isto apesar do bulício dos micro-nacionalismos que querem desenhar novas fronteiras mas, paradoxalmente, precisam de um mundo sem elas.

Por exemplo, as movimentações dos curdos e dos catalães (que fizeram referendos independentistas na mesma semana) só acontecem porque existe o mercado global: os curdos dependem da venda do petróleo de Kirkuk e os catalães necessitam da “independência sem fronteiras” fornecida pela União Europeia e pelo BCE.



** Este texto deve muito a "O Fim do Poder", de Moisés Naím, e a "A Era do Imprevisível", de Joshua Cooper Ramo

domingo, 30 de julho de 2017

O senhor Maduro e o "professor" Boaventura

Fotografia Olho de Gato

1. 
Senhor Nicolás Maduro, a eleição da Assembleia Constituinte que promove hoje é uma palhaçada anti-democrática e mais um passo a caminho do abismo.

2.
"Professor" Boaventura Sousa Santos, o sr. é professor exactamente de quê?* 

"Professor" Boaventura Sousa Santos, o sr. ainda defende o regime autoritário que levou a Venezuela à hiperinflação e que bate e prende eleitos

"Professor" Boaventura Sousa Santos, o sr. ainda defende o regime que derreteu, durante os anos que leva de poder, US$ 2 000 000 000 000 de proventos petrolíferos 
(o equivalente a 30 bancarrotas socráticas) e tem o povo com fome?

* Créditos a Joaquim Vieira

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Comissões de festas*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. Se não fossem os outdoors que espreitam os automobilistas nas rotundas, nem parecia que estamos a pouco mais de dois meses das eleições autárquicas.

É verdade que está aí outra vez o clássico tremer de pernas das candidaturas que, de quatro em quatro anos, engarrafam os tribunais com queixas sobre os adversários, mas isso já não comove ninguém.

É verdade que, como sintetizou um amigo meu no Facebook, os autarcas de todas as cores estão a descarregar neste ano eleitoral doses maciças de “eventos”, os órgãos municipais parecem-se, cada vez mais, com “comissões de festas”.

Como já se devia saber depois da Expo 98 ou do Euro 2004, nada de estrutural ou positivo vem desta azáfama de “eventos”, borliantes ou não, pagos, no todo ou em parte, com o IRS que as câmaras não devolvem aos seus munícipes.

A câmara PSD de Viseu navega nestas águas, os socialistas nestas águas navegam. À falta de melhor, a candidata socialista, como não consegue pensar fora da caixa de propaganda da dupla Jorge Sobrado/António Almeida Henriques, até já propõe uma espécie de novo “ano-oficial-para-visitar-Viseu” em... 2027. Isto é, vai dando umas ideias não para o que o concelho precisa no presente, mas para um futuro distante que finalmente se acerte com a ausência de pressa de João Paulo Rebelo.

2. O PCP fez uma manif de apoio ao ditador venezuelano Nicolás Maduro abrilhantada com a presença da banda do exército.

“Viva Maduro!”, foi gritado por um coro de que fez parte o deputado João Oliveira. Para que conste. E não esqueça.

3. O chefe de estado maior general das forças armadas veio afirmar nas televisões que o material roubado em Tancos com “mais significado em termos de potencial de perigo” era quase sucata, sem condições para ser usado “com eficácia.”

Nas imagens, a ladear o general Artur Pina Monteiro, o primeiro-ministro e o ministro da defesa. Foi mais...
... “um soco no estômago” dos portugueses, ao verem-se a ser tomados, desta maneira, por estúpidos.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Fazer o jantar*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


A recente cimeira da NATO mostrou um Donald Trump que tanto empurra o primeiro-ministro do Montenegro para ficar melhor nas fotografias como dá caneladas nos países que não investem em forças armadas.



O homem é tudo menos subtil. Contudo, essa casca-grossice deu visibilidade a um grave problema: a Europa habituou-se a viver protegida debaixo do guarda-chuva norte-americano, deixando para os ianques o trabalho e a despesa da sua protecção. Durante a guerra-fria este arranjo fazia algum sentido, depois da queda do muro de Berlim deixou de fazer.

A “Europa”, o maior bloco económico mundial, é um anão militar e isso é mau, já o demonstrei aqui várias vezes, como, por exemplo, em “Loiça” (Novembro de 2006) e “A Pá e a Corda” (Setembro de 2014).

Nos anos de 1990, como não tinha músculo, a Europa passou pela vergonha de ter de pedir a Bill Clinton para vir resolver a barbárie nos Balcãs. Há três anos, a mesma falta de músculo deixou que Putin fizesse, impune, uma anexação de território ucraniano, o que lançou o pânico nos países de leste.

A velha divisão de tarefas descrita pelo neo-conservador Robert Kagan no seu livro “O Paraíso e o Poder, A América e a Europa na Nova Ordem Internacional”, em que o hard-power norte-americano “fazia o jantar” e o soft-power europeu “lavava a loiça”, funcionou na antiga Jugoslávia. Os Estados Unidos fizeram o trabalho duro dos combates e os europeus, depois, trataram de manter a paz com as botas no terreno.

Só que, anos depois, quando em 2011 era imperioso salvar a primavera árabe na Líbia, a cobardia de Sarkozy e de Cameron não deixou que o mesmo se repetisse, a “Europa” já nem para “lavar a loiça” serviu.

Obama nunca mais confiou em nenhum líder europeu a não ser em Angela Merkel. Esta acaba de apelar à mobilização do continente. Vale mais tarde do que nunca.