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sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Panorama*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Começo aqui o ano a lembrar, mais uma vez, que esta coluna aplica o método de Norberto Bobbio: devemos escolher uma parte, depois dessa escolha feita há que exercer o juízo crítico com severidade, especialmente com a nossa parte.

Isto é cada vez mais raro. A maior parte dos ditos “fazedores de opinião” já só escreve a dizer bem da sua tribo e a dizer mal das tribos adversárias.

2. O tribunal de contas, como lhe compete, fez as contas: entre ganhos e perdas, os bancos já custaram aos contribuintes 16,7 mil milhões de euros, 12% do PIB.

Os ganhos, que já acabaram, vieram dos empréstimos supervisionados pela troika ao BCP (919 milhões de lucro), ao BPI (167 milhões) e a três banquetas (5 milhões).

As perdas, que ainda não acabaram, têm sido colmatadas com os políticos a irem aos nossos bolsos: CGD (um rombo de 5,535 mil milhões), BES/Novo Banco (4,607 mil milhões), BPN (4,134 mil milhões), Banif (2,978 mil milhões), BPP (588 milhões).

Ora, como se sabe, uma boa parte do dinheiro destes resgates serviu para tapar buracos causados por ladroagem e não por negócios bancários legítimos. E, como não há ninguém preso, o mínimo dos mínimos era sermos informados dos nomes desses grandes devedores que andam para aí a rir-se na nossa cara. Devíamos, ao menos, saber quem “emprestadou” a quem, quanto e porquê.

Nem isso os políticos fazem. A geringonça não deixa que se saiba nada da festança socrática na CGD e, por extensão, não se sabe nada das negociatas nem no banco público nem nos bancos privados. Hoje há mais uma teatrada no parlamento sobre este assunto.

3. Festas e festinhas é com António Almeida Henriques. Já quanto a obras fica-se por anúncios mais anúncios, noves-fora-nada.*

No seu último “agora-é-que-vai-ser” no Mercado 2 de Maio, o edil viseense anunciou elevadores panorâmicos. 
Daqui
Pode lá pôr já um que suba muito alto. 
Para que dele se possa ver o Rossio e o panorama paralítico que vai naquela câmara.

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* Por lapso meu, na edição impressa saiu: 
"Já quanto a obras fica-se por anúncios, anúncios, noves-fora-nada."

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Jovens velhos*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Os inconseguimentos da justiça no combate à corrupção são uma bomba relógio no coração da terceira república.

É necessário criminalizar o enriquecimento ilícito, meter logo na cadeia os corruptos após condenação em segunda instância, instituir a colaboração premiada para quebrar a omertá corrupta. É necessário, mas o cartel partidário não vai fazer nada disso.

Depois de terem corrido com Joana Marques Vidal, os partidos passaram à fase seguinte: querem domesticar a PGR. Começaram por tentar o controlo político do conselho superior do ministério público, só que, perante a reacção pública, o PS fez um recuo táctico e deixou Rui Rio a fazer o papel de “idiota útil”. Mas ambos vão voltar à carga.

2. A nova líder da JS, em 28 meses de assessorias, recebeu 110 mil euros da câmara de Lisboa. Foram 3928 euros por mês. Quase sete salários mínimos.


Editada a partir de uma fotografia de João Porfírio
 (daqui)
Perante isto, o poderoso Pedro Nuno Santos lembrou, em pleno congresso jotinha, que “a avença que a Maria Begonha recebe não a distingue de nenhum outro assessor das dezenas de assessores” da câmara da capital.

E isso é verdade. É mesmo aquela a tabela dos 124 boys e girls ao “serviço” dos dezassete vereadores alfacinhas. Para se perceber a dimensão desta cadeia alimentar, refira-se que os avençados de um só vereador com pelouro, num mandato, custam 1,3 milhões de euros. E todos os partidos têm lá Begonhas a facturar desta maneira.

3. Os congressos jotas quando não são um bocejo são uma anedota. O último da JS que elegeu Maria Begonha conseguiu ser as duas coisas ao mesmo tempo.

As jotas partidárias deixaram de ter interesse. Dali não sai uma ideia nova, uma proposta articulada, um sobressalto, uma chispa. Ali habita só o conformismo e a ganhuça.

Os seus dirigentes, sempre ao lado do chefe partidário de turno, ficam mais velhos e mais chatos do que ele. É gente que, com a vida tão facilitada, deixa de saber o que custa a vida. Gente que é um atraso de vida.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Monocultura*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Está a ser publicado nos jornais, como publicidade paga, um “Manifesto por uma Floresta não Discriminada” ilustrado com uma fotografia XXL de um eucalipto com a legenda: “o bode expiatório”.

O documento anuncia “duas páginas de factos sobre a floresta que vale a pena ler” e é subscrito por académicos, câmaras, entidades da indústria e da produção florestal, ex-políticos e dois no activo: o eurodeputado Fernando Ruas e Vasco Estrela, o presidente da câmara de Mação.

Das oito câmaras que o subscrevem, a maioria tem fábricas de papel nos seus territórios. Não é o caso da câmara de Mortágua, mas não é surpresa nenhuma a sua presença ao lado deste lóbi. Mortágua sempre apostou forte na silvicultura industrial.

O manifesto apresenta argumentos pró-eucalipto que merecem leitura e escrutínio atento e sem preconceitos. Só assim podemos evitar que este lóbi compre a decisão política e faça da região uma monocultura de eucaliptos.

Há uma característica daquela árvore que até estes seus defensores concedem que é má — a “regeneração natural por via seminal”. Esta é a designação técnica para os rebentos que estão a surgir em força nas áreas ardidas e que, diz o manifesto, “devem ser objecto de acções de controlo e arranque”.


Fotografia Olho de Gato 
Ora, esse controlo não está a ser feito em lado nenhum. Há uma ou outra acção de relações públicas, uma ou outra iniciativa da sociedade civil, mas não há remoção sistemática daquela praga.

2. Depois do episódio em que a vereadora/deputada socialista Lúcia Silva chegou, assinou e bazou, a assembleia municipal de Viseu passou a querer disciplinar o pagamento das senhas de presença dos seus membros.

Faz bem: os deputados municipais só devem receber quando estiverem presentes no debate e votação dos pontos da ordem de trabalhos.

Já o período de antes da ordem do dia, esse looongooo bocejo de mesmice e sexo dos anjos, não deve ser obrigatório. A presença que fique a depender da maior ou menor pulsão masoquista de cada um.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Assessorias*

* Hoje no Jornal do Centro


Imagem daqui
1. O dichote “Portugal é Lisboa e o resto é paisagem” descreve coisa muito antiga. Já Eça de Queirós, no seu Os Maias, depois de entalar um vidro no olho de João da Ega, fê-lo bradar deslembrado do seu Minho natal: «Portugal é Lisboa. Fora de Lisboa não há nada.»

Novo, novo, é o nível de centralismo que atingimos. Virado o milénio, todos os governos passaram a usar o mesmo pretexto e a mesma ferramenta para meterem tudo na capital. O pretexto foi a necessidade de controlo do défice, a ferramenta foi a informática. Esta tornou possível processar nos gabinetes ministeriais aquilo que, antes, as burocracias descentralizadas decidiam nos distritos e nos concelhos. Agora é Lisboa que coloca um professor numa escola de Portalegre ou um médico num centro de saúde de Chaves, é Lisboa que compra uma carga de um extintor do tribunal de Viseu e que paga uma factura do hospital de Portimão.

Ora, como é óbvio, Lisboa, como parte e reparte, não precisa de muita arte para ficar com a melhor parte, como todas as estatísticas mostram. Já não será tão óbvio perceber que isto faz aumentar a corrupção. Como a decisão está toda no mesmo sítio, os lóbis que precisam de a comprar têm a vida facilitada. Não surpreende que as “centrais de compras” do estado sejam coutada privativa de grandes empresas rentistas, como demonstrou um estudo da Universidade do Minho que acaba de ser tornado público.

2. Para além de meio ano de “assessoria de programação” ao vereador da cultura, o encenador Nuno Cardoso está, por estes dias, também em Viseu a fazer um evento sem especial novidade ou atenção pública. Por estes dois serviços, o futuro director artístico do Teatro Nacional S. João cobra, e muito bem, 112 mil euros ao município.

O mesmo não se poderá dizer da câmara que, ao aceitar pagar-lhos, se esquece da frugalidade que impõe, e muito bem, a outras iniciativas culturais com muitíssimo mais impacto na cidade, na região e no país.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Ao trabalho?*

* Hoje no Jornal do Centro


1. A detenção do presidente do turismo do Norte, Melchior Moreira, teve um estilhaço mediático que atingiu o presidente da câmara de Viseu. António Almeida Henriques (AAH) afirmou logo a sua disponibilidade para colaborar com os tribunais e assegurou aos viseenses que não deve nem teme.

Não há movimentações da justiça que levem a pensar o contrário e ainda bem que assim é. Contudo, militantes do PSD-Viseu, em declarações a este jornal sob anonimato, já põem em causa a candidatura de AAH ao terceiro e último mandato. O autarca responde-lhes: «eu estou de pedra e cal.»

No PS, João Paulo Rebelo e Rosa Monteiro, que sempre fizeram as suas contas para uma eventual candidatura à câmara de Viseu só em 2025, fazem figas para que não haja nenhuma antecipação de calendário.

E oxalá que sim, oxalá que as nuvens sobre o município de Viseu se dissipem e AAH recupere energia para tratar da nova barragem. Precisamos de uma câmara de Viseu forte capaz de impedir que os boys socialistas da Águas de Portugal ou os capitalistas da Águas do Planalto nos imponham transvases e nos salguem as facturas mensais do precioso líquido.

Os presidentes das câmaras de Mangualde, de Penalva do Castelo e de Nelas inviabilizaram uma solução intermunicipal, com oito municípios, que nos resolvia a todos o problema sem interferências exteriores. Como não é crível que algum deles queira ser no futuro boy da Águas de Portugal, deixo aos três aqui um apelo: regressem às negociações, promovam uma solução nossa, pública, capaz de nos abastecer sem problemas nos próximos cinquenta anos. Ao trabalho?

2. Mal Graça Fonseca, a nova ministra da cultura, desafiou a Gulbenkian a recriar uma “biblioteca móvel adaptada ao século XXI”, logo alguém muito divertido no Facebook lembrou que tal já existe: chama-se internet.

O que não existe é uma biblioteca online e de acesso gratuito a toda a nossa literatura sob domínio público. Cara ministra, ao trabalho?

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

“Matar” o pai*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 7 de Novembro de 2008


1. Depois das eleições dos líderes distritais do PS em 2006, Marcos Perestrello, o homem forte do aparelho socialista, mostrou pena por só terem mudado oito presidentes de federação. Isso foi há dois anos. Agora, nas eleições internas de 2008, nenhum responsável nacional falou de renovação. O melindre eleitoral do próximo ano aconselhava a deixar tudo o mais possível na mesma.

Ora, como se sabe, a mesmice não é mobilizadora. Em Viseu, aconteceu mais uma candidatura de José Junqueiro - um filme que se repete desde os anos 80 do século passado. Este ritual fossilizado fazia adivinhar umas eleições mais frias que um glaciar.

Foi por isso que António Borges, o socialista viseense com mais influência nacional, veio para o terreno tentar impulsionar as coisas. O presidente da câmara de Resende só não levou ao colo José Junqueiro porque este é demasiado grande.

A eleição, naturalmente, não correu bem: em cada cinco militantes socialistas, quatro não foram votar. Os votos expressos deram uma matemática que já nem na Albânia se usa.

2. Num evento recente do partido, António Borges fez o seguinte aviso à navegação: «Na política, como na vida, é feio “matar” o pai.»

Esta referência directa a Sigmund Freud é fácil de perceber. O congresso distrital do PS, que vai decorrer depois de amanhã em Mangualde, representa a primeira etapa do pós-junqueirismo.

Perfilam-se, na grelha de partida para a sucessão, várias cópias de José Junqueiro que são muito piores que ele. Só sabem acartar-lhe a pasta. Não têm pensamento próprio. Fazem recados enquanto recheiam a agenda do telemóvel. Esperam o dia das partilhas e do testamento.


Daqui
Avisou-os António Borges: «É feio “matar” o pai.»

É, de facto, feiíssimo.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Cochichos*

* Hoje no Jornal do Centro



1. Os partidos vivem de dinheiros públicos, mas são pouco escrutinados. Os media raramente abordam o seu funcionamento e o Tribunal Constitucional deixa prescrever tudo. As leis regulatórias dos partidos têm que ser aprovadas por eles na assembleia da república e, por artes mágicas e azares diversos, atrasam, atrasam, atrasam...

Esses "atrasos", neste Verão, fizeram prescrever multas a todos os partidos e aos seus responsáveis financeiros. Mais uma vez, impunidade total. A todos eles.

A lógica partidária separa o "cá dentro" do "lá fora", para que o "fora" não saiba nada do "dentro". Quem não cumprir esta regra é marginalizado. Esta "omertá" convém aos nano-chefes locais que tratam dos tachitos e serve aos macro-chefes nacionais que controlam os melhores lugares e gerem, na base do ajuste directo, muitos milhões de euros recebidos do orçamento do estado.


Imagem daqui
2. Nas últimas eleições para a concelhia do PS-Viseu, não houve nenhuma ideia política nem nenhum debate entre os candidatos. Lúcia Silva socorreu-se da conversa de pé-de-orelha arregimentadora de votos e Gonçalo Ginestal confiou nos nomes sonantes da sua lista. Foi uma eleição entre o PS do cochicho e o PS das famílias, como na altura aqui escrevi. Ganhou o cochicho.

Agora, por causa da convocatória de uma comissão política com duração de meia hora, uns "socialistas indignados", sob anonimato, vieram queixar-se a este jornal do "autoritarismo" da facção do cochicho. Que havia "assuntos internos algo delicados" que, se "tratados à porta aberta", lhes retirava a "liberdade de expressão suficiente para se manifestarem".

Depois das eleições e das queixas-crime no ministério público, há finalmente sintonia total na concelhia de Viseu. O PS das famílias está igual ao PS do cochicho: zero ideias, um muro alto a esconder o "dentro" do "fora", cochichos para os militantes e para os jornais, ninguém a dar a cara.

António Almeida Henriques agradece.


sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Classe média*

* Hoje no Jornal do Centro


1. O World Data Lab, dirigido por Kristofer Hamel, está há anos a aperfeiçoar a caracterização de quatro grupos sociais — pobres, vulneráveis, classe média, ricos — usando bases de dados de 188 países.

Hamel e Homi Kharas acabam de publicar o estudo “Um ponto de inflexão global: metade do mundo é agora da classe média ou rica”, cujos resultados não devem admirar os leitores habituais desta coluna. Bastas vezes tenho feito notar aqui que as narrativas dos media e das nossas universidades sobre a globalização não descrevem o que está a acontecer no mundo.

A verdade é que “pela primeira vez desde que começou a civilização baseada na agricultura, há dez mil anos, a maioria da humanidade já não é pobre nem está em risco de cair na pobreza.” Três mil e oitocentos milhões de pessoas vivem em casas de classe média ou rica e um número ligeiramente inferior em casas pobres ou vulneráveis à pobreza.

E este processo está a ser rápido: “no mundo de hoje, há uma pessoa a escapar da pobreza extrema em cada segundo, enquanto, no mesmo segundo, cinco pessoas entram na classe média. Os ricos estão a aumentar também, mas a um ritmo menor (um em cada dois segundos).”

Campeão de bilheteiras este ano, não vai estrear em Portugal 

 A nova classe média é, sem surpresa, predominantemente asiática (nove em cada dez) e, a continuar esta tendência, este grupo vai ter 4 mil milhões daqui a dois anos e 5,3 mil milhões em 2030.

Ora, como se sabe, a classe média é sempre um sarilho para os governos: onde está a crescer exige mais infra-estruturas e serviços do estado, onde está a recuar protesta e vota anti-sistema. Aconteceu no último domingo no Brasil.



2. Eclodem eucaliptos por tudo quanto é terreno ardido há um ano.

O governo, claro, não quer saber. Os autarcas é mais festas e festinhas. Nem para o problema da água se mobilizam. Temos água com fartura nos nossos rios mas os boys socialistas da Águas de Portugal e os capitalistas da Águas do Planalto vão mexendo os cordelinhos. Para depois nos vampirarem nas contas mensais.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Eventos*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 26 de Setembro de 2008




1. A última edição do Jornal do Centro trazia dois artigos dos deputados José Junqueiro e Miguel Ginestal...


... que desvendam qual vai ser o argumento principal que vai ser usado para tentar justificar a enésima candidatura de Junqueiro a presidente da federação do PS: vai ser repetido em todos os cantos do distrito que tivemos dois anos muito bons porque o PS-Viseu trouxe cá vários membros do governo e organizou com eles sessões públicas.

Toda a gente sabe que José Sócrates não dorme em serviço e que pôs os ministros a prestarem contas políticas pelo país fora e não só nos superlativos eventos organizados em Viseu, só que isso não importa ao junqueirismo que nunca deixa que a realidade dos factos atrapalhe as suas histórias.

Desta vez o que vai ser dito tem este grau de elaboração: Junqueiro foi um bom promotor de eventos, logo foi um bom líder distrital, logo deve continuar.

2. Debrucemo-nos então sobre os três passos do raciocínio junqueirista:

1º) Eu sou o maior porque organizo eventos com ministros;

2º) Quem esteve lá e não disse nada aos ministros não pode falar cá fora;

3º) Se falar cá fora, não tem “nobreza de carácter” e só sabe “atirar de costas” [estes entre aspas são citações].

Segundo esta lógica, àqueles eventos aplicava-se a célebre fórmula: “Se alguém tem algo a dizer, que o diga agora ou, então, que se cale para sempre.”

Estamos, portanto, com um problema: muitos ilustres cidadãos de todo o distrito, incluindo vários líderes de opinião, foram àqueles eventos e não disseram nada. Não conheciam as regras. Ninguém os avisou que ali era obrigatório falar. E, agora, ai deles se abrirem a boca…

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Carta aberta*

* Publicada no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 12 de Setembro de 2008


Caros António Borges, João Paulo Rebelo e Miguel Ginestal:

Dirijo-vos esta carta aberta porque penso que são capazes de fazer no PS de Viseu aquilo que José Sócrates fez no PS de Castelo Branco: torná-lo o primeiro partido do distrito.

Como sabem, aproximam-se eleições distritais no PS. Tudo indica que José Junqueiro pretende continuar como presidente da federação. Como sabem melhor do que ninguém, isso seria muito mau para Viseu.

Mais uma vez teríamos um distrito peso pluma no contexto do PS nacional.

Mais uma vez o PSD teria um seguro de vida para a sua hegemonia nas autarquias do distrito.

Mais uma vez teríamos uma liderança incapaz de atrair os melhores quadros, aqueles que não precisam da política para terem biografia.

Teríamos, ainda, uma liderança muito fragilizada pois já é público e notório o conflito de interesses em que caiu José Junqueiro, ao ter aceitado ser consultor remunerado de um grupo económico que recebe dinheiros públicos. Os colégios privados desse grupo receberam 12 milhões e 867 mil euros do Ministério da Educação no segundo semestre de 2007.

Como é possível um líder distrital, ainda por cima do partido do poder, não se dedicar em exclusivo à defesa do interesse público?
Em Viseu, precisamos de um PS renovado, com ambição e sem telhados de vidro.

Caros António Borges, João Paulo Rebelo e Miguel Ginestal: os militantes do PS do distrito de Viseu olham para vós com esperança.

Lembro-vos um pensamento de Peter Singer: "Somos responsáveis não só por aquilo que fazemos, mas também por aquilo que poderíamos ter impedido."

Com amizade
Joaquim Alexandre Rodrigues

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Utilizadores-não-pagadores*

* Hoje no Jornal do Centro


Ele é borlas para o IRS dos emigrantes, ele é saldos dos passes sociais, ele é isto, ele é aquilo, os políticos estão lelés da cuca, como dizia há uns anos Marcelo Rebelo de Sousa.

Ainda faltam nove meses para as europeias e mais de um ano para as legislativas, mas, apesar de toda esta lonjura, a bolha em que vivem os políticos já só pensa numa coisa — votos.

E onde é que há votos? Pois, já se sabe, votos, votos a sério, há no litoral. No distrito de Viseu, se as pessoas estiverem contentes com o PS dão-lhe quatro deputados, se estiverem zangadas dão-lhe três. Não aquenta nem arrefenta. Já nos grandes círculos as coisas piam mais fino.

Foi por isso que o PS se saiu, no último fim-de-semana, com a ideia de uns passes fofinhos para os transportes em Lisboa. Coisa para uns sessenta milhões de euros a pagar por todos, alfacinhas ou não.

Depois, aquele eleitoralismo centralista foi diluído com um acrescentamento carinhoso de quinze milhões para os passes dos tripeiros e um afago de cinco milhões para os outros, entenda-se, para os passes de Coimbra e Braga.

Falta ver se estas águas de bacalhau cativam, ou não, o ministro Centeno. Esperemos sentados a trautear aquela cantiga do Sérgio Godinho que espera pelo comboio na paragem do autocarro. Os nossos poucos comboios, avariados ou atrasados, periclitam-se nos carris, enquanto os novos autocarros amarelos de Viseu...


Fotografia Olho de Gato
... ganham pó há meses em Coimbrões, à espera de uma decisão judicial. Mas, mesmo que estivessem a andar, não havia carinhos nem afagos do orçamento de estado nos passes de ninguém.

Quanto mais longe do mar, mais se sente o chicote implacável do princípio do utilizador-pagador, o mesmo que ergueu pórticos nas nossas auto-estradas. Sem alternativas, lá temos de atestar os nossos carros com 40% de combustível e 60% de impostos. Impostos que, depois, vão financiar transportes metropolitanos, com passes fofinhos para utilizadores-não-pagadores.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

700*

* Hoje no Jornal do Centro

1. No último dia deste querido mês de Agosto, um número redondo: este é o septingentésimo Olho de Gato.

Este Agosto teve um calor bravo nos primeiros dias mas, depois, lá amansou e ficou querido como todos os anos. Dava jeito uma chuvinha em cima das nossas vinhas e dos pinhais. Pinhais que, mais para o Outono, hão-de dar míscaros e sanchas e tortulhos e gasalhos e centieiros.

Os nossos queridos emigrantes já regressaram às terras onde fizeram vida, a nossa classe média mais manienta chama-os aveques, eles estão-se bem nas tintas, gozaram cá as merecidas férias, para o ano regressam, abençoados sejam.

Os apoios e os descontos de IRS anunciados pelo primeiro-ministro não são para eles, não são para as Lindas de Suza. António Costa só quer pôr o fisco a mimar os “mochilas-de-cartão”, licenciados e de smartphones cheios de apps, ...

Fotografia daqui
... que emigraram nos anos a seguir à bancarrota, esses e mais ninguém.

Esta “ideia” do governo vai contribuir tanto para o regresso de quadros qualificados como o cheque-bebé de Sócrates, há oito anos, contribuiu para o aumento da natalidade. Mas vai entreter o pagode.

2. Esta semana, o jornal Público alegrava-se em letras garrafais na primeira página: “Novas regras para matrículas acabaram com fraudes das moradas falsas”.

Agora só falta o parlamento aplicar as mesmas regras das matrículas dos alunos às casinhas dos senhores deputados.

3. Com o fim do querido mês de Agosto, vai-se a bonomia e o sossego. Chegam as contas dos cartões de crédito e as despesas do “regresso às aulas”.

Há que cair na real e enfrentar os problemas. Na política, está a chegar o tempo da única decisão verdadeiramente importante de 2018 — a designação do Procurador-Geral da República.

Como é consabido, António Costa e Rui Rio não querem a recondução de Joana Marques Vidal. Paciência. Vão ter que a gramar. Era só o que mais faltava regressarmos aos tempos em que tínhamos um arquivador-geral da república às ordens das cliques partidárias.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Mochilas e envelopes*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Quase tudo já foi dito na comunicação social e nas redes sociais sobre o caso das três lojas e dos onze apartamentinhos que o bloquista Ricardo Robles arranjou no seu prédio, comprado por tuta-e-meia à segurança social, e que fez dele um milionário instantâneo.

Só ainda não vi em lado nenhum uma reflexão sobre o que terá levado a cúpula do bloco de esquerda a vir com teorias da cabala (olá, Sócrates!) e a atacar os media (olá, Trump!), quando os factos já conhecidos eram evidentes e facilmente verificáveis.

O que terá levado aquelas criaturas a reagirem tão toscamente? Encontro duas razões:

— por desábito: o bloco nunca foi escrutinado nos media, por isso, os seus líderes fizeram uma asneira de principiante;

— por causa da “bolha de filtros”: os políticos, depois de algum tempo, deixam de viver no mundo e passam a viver numa bolha só deles; é que os chefes gostam de viver rodeados por sacristãos, por gente que depende deles, que lhes filtra a realidade e lhes diz só o que eles gostam de ouvir.

2. O Europeade foi excelente. O folclore (leia-se: tradição, costumes locais), aliado à globalização (leia-se: modernidade, ferramentas globais), fez das ruas e praças de Viseu um fascínio de diversidade, um encantamento.

Dito isto, importa saber quanto custou esta festa cosmopolita. A câmara deve, com transparência e verdade, dar essa informação aos cidadãos. Para ver se é possível, realisticamente, tentar repetir no futuro estes dias felizes que vivemos.

3. No último Jornal do Centro, Fernando Ruas lembrou que uma boa descentralização de competências da administração central precisa de vir acompanhada da respectiva “mochila financeira”. Por sua vez, Álvaro Amaro avisou que esse processo só pode avançar acompanhado do respectivo “envelope financeiro”.

Ao que tudo indica, Mário Centeno discorda de Ruas e concorda com Amaro. Em vez de uma mochila de dinheiro, o ministro vai querer é dar aos autarcas um envelope. Tamanho A5.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Casinhas*

* Publicado hoje no Jornal do Centro



1. A última edição deste jornal informou-nos que o tribunal de Viseu tem extintores sem manutenção, fora do prazo e rejeitados por empresas de segurança.

Esmiuçados os detalhes, chega-se à conclusão do costume: os responsáveis locais não têm autonomia nem para resolver este problema tão pequenino. “Não podemos fazer nada localmente”, assume Maria José Guerra, juiz presidente do Tribunal de Viseu. A coisa, para avançar, tem que percorrer a via-sacra dos pedidos de autorização a uma direcção-geral qualquer.

Com o pretexto do controlo do défice, o centralismo alargou o seu poder o mais que pôde. Lisboa agora manda em tudo.

Em Setembro de 2016, o ministro Cabrita anunciou 155 medidas concretas para valorizar o interior. Dois anos depois, na Pampilhosa, o ministro Siza acaba de anunciar mais uma pilha de medidas tão “concretas” como as do seu colega Cabrita.

Só que o interior, até para carregar a porcaria de uns extintores, vai continuar a ter de pedir autorização a Lisboa.

2. Foram recuperadas casas em Pedrógão que não eram primeira habitação. Gente oportunista a gozar com a solidariedade dos portugueses. Depois de devidamente comprovadas as vigarices, das duas uma: ou os espertalhões devolvem os apoios ou as novas casinhas devem pura e simplesmente ser terraplanadas.

Entretanto, nas redes sociais e não só, o caso foi visto e comentado pelas pessoas assim: casinhas de Pedrógão, casinhas dos deputados, os mesmos truques.

Já se sabe que os senhores deputados tratam de arredondar o seu fim do mês, que o parlamento vai encomendando pareceres jurídicos que lixiviam tudo e, quando um ou outro deputado é apanhado pelos media, faz-se de morto durante uns tempos até as coisas arrefecerem, e os 36 cêntimos por quilómetro continuam a pingar-lhe na sua conta.

Mas, pela reacção das pessoas esta semana, a coisa arrefece mas nunca esquece. As casinhas de Pedrógão trouxeram para a actualidade, mais uma vez, as casinhas dos deputados.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Mornices tépidas*

* Hoje no Jornal do Centro


1. O teatro do IP3 não pára. Depois das prestações inesquecíveis de José Sócrates e Pedro Passos Coelho, foi agora a vez de António Costa. No início do mês, o actual primeiro-ministro fez uma performance tépida como este Verão no palco erguido junto ao nó de Raiva.

A raiva ficará para quando, na próxima bancarrota, forem instalar pórticos nos troços que venham eventualmente a ser duplicados. Não é o caso das obras agora lançadas que já estavam projectadas há muito tempo e que vão manter as duas vias.

2. O impacto conseguido pelo “Movimento pelo Interior”, onde não figurava nenhum político viseense, fez ressaltar a mornice irrelevante dos deputados e das cúpulas distritais dos partidos.

Num jogo de soma nula a que ninguém dá atenção, eles vão-se marcando uns aos outros como se tem visto nos problemas do hospital de Viseu. À falta de melhor, o deputado social-democrata Pedro Alves até já se mete com... os voluntários do hospital.

3. No concelho de Viseu, a omnipresença de Jorge Sobrado leva ao eclipse parcial do presidente da câmara e ao eclipse total dos outros vereadores.

Para deseclipsar a situação, António Almeida Henriques tem duas hipóteses: ou dilui Xanax nas bebidas do seu vereador da cultura ou contrata uma equipa alargada para a comunicação da câmara. 

Claro que a primeira hipótese não é defensável por ninguém e a segunda — que, ao que consta, está a ser cozinhada — é cara e de eficácia duvidosa.

4. Pelo que se leu na imprensa e nas redes sociais, os Jardins Efémeros foram tão tépidos como o Verão e a cidade não repetiu a chuva de críticas do ano passado ao evento. Ainda bem.

Foi bom também que, ao contrário dos anos anteriores, os JE não se tenham sobreposto ao Tom de Festa que precisa de bilheteira mais do que nunca, depois do corte de 24% feito pela geringonça à Acert. A pulseira custa cinco euros e a 28ª edição daquele festival de músicas do mundo prossegue hoje e amanhã em Tondela.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Liberdade*

* Publicado no Jornal do Centro em 18 de Julho de 2008


Em Abril de 2007, critiquei aqui a criação de uma super base de dados destinada ao combate à fuga fiscal dos funcionários públicos. Para além do perigo da informação recolhida poder cair em mão erradas, é iníquo segmentar a sociedade em funcionários públicos (os “maus”) e não funcionários públicos (os “bons”).

Também nesta legislatura, foi aprovada uma lei em que se um cidadão reclamasse ao fisco perdia imediatamente direito ao sigilo bancário. Na assembleia da república só o actual líder parlamentar do PSD, Paulo Rangel, levantou a voz contra esse abuso. Só ele. Felizmente, essa aberração foi travada por Cavaco Silva e o tribunal constitucional.

Agora, querem pôr um chip em todos os carros. A última edição do Expresso dizia que o chip vai ser uma maravilha, que vai facilitar nos engarrafamentos e nas operações stop e que nos vai colocar na vanguarda da telemática mundial. Enfim: balões de ensaio e marketing.

Esta ideia é má. Tecnologia “big brother”, não, obrigado!



Não está a ser fácil a Mário Lino colocar praças de portagens nas SCUTs e, por isso, quer pôr-nos a pagar as portagens electronicamente.

Ora, eu quero chegar a uma portagem e poder pagar com cartão, ou com via verde, ou com notas ou moedas. Como me apetecer. Ninguém tem nada que saber se estou em Espinho ou na Guarda.

Sei que dizer isto não é popular. As pessoas acham que “quem não deve não teme”. É por causa desse “quem não deve não teme” que deixamos os governos espreitarem cada vez mais as nossas vidas. E, como se vê, a curiosidade dos governos é insaciável.

Se o chip for posto à venda, as pessoas vão correr para as filas para o comprarem. Os portugueses gostam muito de modernices. E pouco da liberdade.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

PPPPP*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 11 de Julho de 2008


1. No início deste mês, o IVA passou de 21 para 20%. Podia ter descido mais qualquer coisinha. De qualquer forma: “Saravah!” - “Axé!” - “Shalom!” - “Salaam!” - “Ámen!” – “Iupi!”

Nunca é demais repetir esta ideia: é feliz o povo que tem um governo pequeno e moderado nos impostos.

Era bom que os impostos descessem mais e, para isso, há que cortar na gordura do estado. Porque não se privatiza a RTP? Se nem conseguimos manter urgências abertas nas vilas do interior, para que raio queremos uma televisão pública que faz rigorosamente o mesmo que fazem as televisões privadas?

Pergunta Jorge Fiel, no Diário de Notícias de domingo: “porque é que a telenovela "Dança Comigo" é "serviço público" e "Ciranda de Pedra" (SIC) e "A Outra" (TVI) não são?”

A RTP custa-nos meio por cento das receitas do IVA; 240 milhões de euros por ano; metade desta verba vem do orçamento de estado, a outra metade duma taxa que pagamos meio escondida na conta da luz.

2. É possível descer mais os impostos sem aumentar o défice. No estado, além de gordura inútil, há desperdício criminoso. Vamos pagar 485,5 milhões de euros pelo sistema de comunicações das forças de segurança, o SIRESP, cujo preço de mercado fica entre 70 e 105 milhões de euros. Não há ninguém preso por causa disto. Nem vai haver.

Fotografia de Carlos Manuel Martins
Daqui
Em Portugal, as PPP (Parcerias Público-Privadas) transformam-se em PPPPP (Parcerias Prejuízos Públicos Proveitos Privados).
Numa PPP, enquanto do lado empresarial há pensamento a longo prazo, no lado político mora um calendário eleitoral qualquer. Por vezes, as mesmas caras ora estão de um lado da mesa, ora estão do outro.

Aconteceu isso na PPP do SIRESP. Arderam 400 milhões de euros do nosso dinheiro. Quanto é isso em IVA?

sexta-feira, 6 de julho de 2018

O lobo no saco*

* Publicado hoje no Jornal do Centro

Fotografia de Miguel A. Lopes

1. Os pesos pesados da política portuguesa subiram ao palco do Rock in Rio e xutaram a cantiga eterna: «as saudades que eu já tinha da minha alegre casinha, tão modesta como eu.» Por causa destes pontapés, Marcelo e os seus companheiros políticos de performance foram chamados de ridículos ou populistas ou as duas coisas.

Ridículos talvez tenham sido, populistas não. "Populista" é o "vem-aí-lobo!", é o novo nome do "homem-do-saco" que vem levar as criancinhas que não comem a sopa. Houve uma altura em que se chamava a tudo o que não agradava "fassista", agora é "populista".

Escusado será dizer que quando chegarem os lobos populistas, e eles vão mesmo chegar, a palavra já estará gasta, metida no fundo do saco da indiferença.


2. Os deputados da nação têm alegres casinhas, tristes casinhas, modestos primeiros andares, opulentos primeiros andares, é lá com eles.

Já não é com eles a espertalhonice com que arredondam o fim-do-mês ao declararem uma casinha longe do parlamento, mesmo quando pagam IMI alfacinha. 

Enquanto as pessoas andavam distraídas com o futebol, o parlamento excretou um "parecer jurídico" que passa uma esponja nesta espertalhonice. Uma anedota.


3. No domingo passado, a diocese de Viseu despediu-se do bispo D. Ilídio Leandro com uma merecida homenagem.

Homem bom, tolerante, atento, sensível, D. Ilídio foi uma lufada de ar fresco numa cidade e numa diocese enclausuradas demasiados anos no mundo reaccionário e ultramontano do bispo D. António Monteiro.

Para além desta oxigenação vivificadora da diocese, D. Ilídio iniciou uma mais que necessária recuperação patrimonial, muito bem sucedida na vertente dos bens culturais, não muito bem na parte imobiliária por causa da crise pós-2008.

Saneou, ainda, moralmente o Jornal da Beira. Aquele órgão de comunicação da diocese cumpre agora o seu papel, não é mais o pasquim alaranjado que era no virar do milénio.

Obrigado, D. Ilídio!

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Part-time*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 13 de Junho de 2008


Fotografia de Tiago Caramujo
(daqui)
1. Manuela Ferreira Leite ganhou as eleições no PSD. A partir de agora vamos passar a ter o presidente, o partido do governo e o principal partido da oposição a dizerem o mesmo e isso não é bom.

Os sindicatos e as associações empresariais tentam moderar e enquadrar o descontentamento — veja-se o que se passou com os professores e o que se passa agora com os camionistas — mas a pressão está a acumular-se. Há um risco elevado de incêndio na “rua” e, infelizmente, Cavaco não sabe fazer de válvula de escape.

Já se começa a falar num governo Sócrates / Manuela para depois das eleições de 2009. É uma ideia péssima. O bloco central é estéril. Basta ver os resultados obtidos com o pacto de justiça que foi celebrado entre o PS e o PSD. Nada de bom aconteceu — os nossos tribunais estão na mesma como a lesma.

2. Marques Mendes defendeu a descida dos impostos e a moralização da política. Foi ele que libertou o PSD de criaturas como Valentim Loureiro e Isaltino Morais.

Não se imagina Manuela a baixar impostos e não se lhe conhecem ideias sobre a ganhuça em que se tornou boa parte da actividade política. Espera-se que, no mínimo, mantenha longe o seu antigo protegido, António Preto, o homem da mala cheia de dinheiro.

Durante a campanha interna do PSD, Manuela Ferreira Leite não disse nada. Agora vai ter que falar, especialmente para a classe média, os reformados e o funcionalismo que são quem tem pago, com língua de palmo, a redução do défice. Será que eles a vão ouvir?

3. A edição de 2 de Junho do Correio da Manhã trazia uma análise dos registos de interesse dos deputados. Em cada dois, um é deputado em part-time.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

A comprativa*

* Hoje no Jornal do Centro


1. No documentário sobre a ocupação durante a reforma agrária da “Torre Bela”, uma das maiores herdades do país, há um diálogo célebre em que o líder tenta convencer um trabalhador que a sua enxada já não é mais dele mas da cooperativa.

Enxuto de carnes e desconfiado, o Zé Quelhas teima: «a farramenta é minha, não é da comprativa»; e prevê: «daqui a nada também o que eu visto e o que eu calço é da comprativa (…) e eu fico nu.»

Karl Marx não percebeu a natureza humana tão bem como o Zé Quelhas.

2. A multiplicação de eventos borliantes, promovidos directa ou indirectamente pelo município de Viseu, descura a medida do impacto dos mesmos e do retorno dos dinheiros públicos envolvidos. Impede também que se gere um mercado, com público habituado a pagar o seu bilhete.

Há que criar esse hábito até porque o concelho tem já muitas pessoas a trabalharem na cultura e que precisam que ela tenha sustentabilidade.

Dessa pecha não pode ser acusada a exemplar “comprativa” Acrítica/Carmo'81. Está a realizar o multidisciplinar e desafiante “Solos & Solidão”, dedicado em Junho ao teatro. Este fim-de-semana leva ao palco, no Carmo'81 (sete euros) e em Mundão (quatro euros), “Um esqueleto de baleia na casa dos avós”, de Leonor Keil, Rui Catalão, Bruno Pernadas e Cristóvão Cunha.


Editada a partir daqui
3. Tramitado o concurso “Viseu Cultura'2018”, deixo duas sugestões de aperfeiçoamento ao vereador da cultura Jorge Sobrado:

— promova só mais um concurso trienal que abranja o resto deste mandato autárquico (2019, 2020, 2021), com calendário decisional até ao fim deste ano;

— reserve os bons milhares de euros que poupa ao fazer este três-em-um para aplicar em projectos que entenda responderem ao interesse público; um eleito não precisa de se esconder atrás de um júri; não repita a tosquice deste ano em que pertenceu a um júri que atribuiu 17 valores, numa escala de 0 a 20, no critério “histórico do promotor”, a um que tinha... dias de existência.