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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Étês há muitos, no turismo são praí uns 27 ou coiso - e afirmo três vezes para que não haja dúvidas: a única coisa que interessa neste post foi escrita pelo Rui Macário Ribeiro




A ET27 é a Estratégia Para o Turismo 2027 e o Rui Macário Ribeiro leu aquele "referencial estratégico para o Turismo de Portugal na próxima década".

Coisa asseada, para "executar" (isto é, matar fundos comunitários, homicídio que só acontecerá se, entretanto, a senhora dona Catarina Martins não nos ejectar fora da "Europa" com a bênção da senhora dona Marine Le Pen e o exemplo da senhora dona Theresa "Brexit means Brexit" May).

O caso é sério, e o caso é técnico,  e o caso é político, e o caso tem lá dentro massa cinzenta que nos vai trazer 'charteres' de turistas para os aeroportos mais próximos.

Repito: o Rui Macário leu aqueles papéis e contou a sua leitura atenta na última edição do Jornal do Centro, de 29 de Julho, página 32.


Sem estrépito, "trepito" mais uma vez para que não haja dúvidas — o que interessa neste post está a itálico e só a itálico, e foi escrito pelo grande Rui Macário Ribeiro e não por mim, e é o que se segue:


 
Rui Macário Ribeiro
(fotografia abduzida do FB do autor
e sem a sua prévia permissão
e o mesmo abuso já tinha
sido feito aqui em Janeiro
)
(...) dos 7 documentos de trabalho para o [Turismo do] Centro, só 2 estão disponíveis (malditos pdf's que fogem dos links). Um deles é uma análise SWOT e nela se afirma, como "Vantagem", a proximidade do Porto e de Lisboa (se estivermos em Fátima, talvez) e a A25 entre outras redes viárias. 

Nas "Fraquezas", as portagens complicadas de compreender. Nem é a portagem em si, ou o custo das mesmas, é mesmo a dificuldade em poder compreendê-las. Os turistas não gostam de não entender e fogem.

Há mais um elemento maroto, segundo o relatório: o território é grande (fala-se do Centro, NUT II, onde coexistem 12 NUT's III) mas é complementar e o mal é que os "players" teimam em não cooperar. 

Então não poderiam os de Viseu vender praia, os da Nazaré vender chocolate alheio, e os de Óbidos vender Viriato? É só um saltinho. O país é pequeno. Garantidamente que vão de Alcobaça via aeroporto de Lisboa subirão ao Douro com paragem em Viseu.


Então se andarem à caça de Pokémons, é um corrupio.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Consumos*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 12 de Maio de 2006


1. Numa cadência anual, tenho recebido várias cartas de Maria Ramos, directora dum auto-designado “Inquérito Nacional de Consumo”. A deste ano já chegou.

Logo na primeira página, fiel ao princípio de que uma imagem vale mais que mil palavras, Maria Ramos apresenta-se numa agradável fotografia a preto e branco, tipo passe, e informa-me que, se responder a este inquérito, fico habilitado num concurso. São 10.000 euros o primeiro prémio deste concurso devidamente autorizado pelo Governo Civil de Lisboa.

2. Não resisto a fazer um parêntesis: autorizar concursos é um acto burocrático nada simplex e que, só por si, dá sentido à existência de quem o tramita. São mal intencionadas as vozes que querem acabar com os Governos Civis.


Daqui
3. Regresso a Maria Ramos. Neste Inquérito ela faz-me 139 perguntas sobre mim e os meus. Se gosto mais do Continente ou do Lidl. Se visto Gant se Massimo Dutti. Se faço compras pela Internet ou por catálogo; se faço jogging ou me fico pelo golf. Maria Ramos quer saber qual é o meu champô; que comida dou ao meu gato; que região demarco para o vinho que bebo; que carro guio e de que ano é; qual é a marca do meu telemóvel; se a minha ligação à Internet é de banda larga ou afunilada. Ela quer saber quando termina a minha hipoteca; qual é a cor dos meus cartões de crédito; se tenho ar-condicionado e home-cinema; consegue ainda perguntar-me se tenho piscina e horta.

Ela quer saber tudo: nome completo, morada e a data do meu aniversário e dos meus familiares. Ainda por cima, enquanto o Ministro das Finanças se fica pelo meu rendimento bruto anual, ela vai mais ao pormenor, e quer saber qual é o rendimento líquido mensal da minha família.

Maria Ramos é curiosa. Muito. Espero com impaciência a cartinha do próximo ano.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Educação: duas constatações, duas irritações e dois olhares para o futuro

Sobre o assunto do momento, duas constatações:
— o ensino superior público é percepcionado como melhor do que o ensino superior privado, pelo que o primeiro tem mais procura do que o segundo;
— o ensino não superior público é percepcionado como pior do que o ensino não superior privado, pelo que o primeiro tem menos procura do que o segundo.

Sobre o assunto do momento, duas irritações:
— os professores do ensino público que põem os filhinhos nos colégios (esta irritação triplica quando os protagonistas são apoiantes da geringonça);
— os professores reformados do ensino público a darem aulas nos colégios privados (esta irritação triplica quando os protagonistas são apoiantes da geringonça).

Sobre o assunto do momento, dois olhares para o futuro:
— é evidente que o "ministro" da educação é uma desgraça, um incompetente, o caos que ele criou na avaliação externa dos alunos é razão para despedimento com justa causa;
— é evidente que o assunto do momento fez emergir a substituta natural do, infelizmente ainda, "ministro" da educação: Alexandra Leitão (secretária de estado adjunta e da educação).
O "ministro" da educação e Alexandra Leitão, secretária de estado adjunta e da educação

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Ca-martelo*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



Wikipédia
1. A Estrada Nacional 2 (N2) é a coluna vertebral do país, atravessa-o de Chaves a Faro. São 738,5 quilómetros de rectas, curvas, subidas, descidas, planuras, paisagens belíssimas.

Depois de 8 de Dezembro de 2011, data em que foram accionados os pórticos da A24, a N2 reganhou trânsito. Sempre que posso é por lá que circulo.


Ora, no início daquele fatídico ano da bancarrota, na descida de Vale de Azia para a Ponte Pedrinha de Castro Daire, houve uma parte da N2 que colapsou talqualmente o país. Metade da estrada desapareceu. Um perigo: numa zona de curvas e pouca visibilidade, sobraram uma faixa de rodagem e um abismo.

Passou 2011. Passou 2012. Passou 2013. Passou 2014. Vários acidentes aconteceram ali. Felizmente, não morreu lá ninguém. Foi só no passado Verão, quatro anos depois, que a “Estradas de Portugal” (será este o nome? estão sempre a mudar o nome às instituições, nem vale a pena fixá-los...) avançou o concurso para acabar com aquela armadilha. Quatro anos. O caso foi contado na altura por este jornal. Sabe qual foi o custo daquilo? Um “balúrdio”. Trinta mil euros. Aquelas criaturas precisaram de quatro anos para fazer uma obra de... trinta mil euros.

2. Entretanto, em 14 de Outubro, saiu a portaria nº 357/2015 a fixar as taxas a pagar pelos “usos privativos do domínio público rodoviário do Estado”.

Precisa de compor um muro à beira de uma estrada nacional? Prepare 500 euros para abertura do processo, mais €146,50 para autorização da obra e mais cinco euros por cada metro de muro. Tem um acesso de garagem para a N2 ou para a N222? Prepare duzentos euros por ano para a “autoridade pública” das estradas.


Ó ministro Mário Centeno, o senhor que tem sido um campeão a martelar contas mude agora de ferramenta. 

Largue o martelo e pegue num camartelo. 

Faça o favor de demolir esta desvairada portaria da sua predecessora, a “sodona” Maria Luís Albuquerque.

sábado, 23 de janeiro de 2016

O gajo tem piada

João Soares podia ter feito um «alô! alô!, Centeno, tá lá?», podia ter mandado um "e-mail" a lembrar a célebre e esquecida reivindicação de 1% do orçamento para a cultura, mas, népias...


João Soares, ministro da cultura, 8.1.2016
Fotografia Museu Nacional Grão Vasco — Viseu
... em vez disso, o novo ministro da cultura preferiu aproveitar um microfone à sua frente no Museu Nacional de Grão Vasco de Viseu, e pediu a "ajuda divina" para que o seu orçamento fosse reforçado.

Este pedido de intercessão do altíssimo só pode ter uma interpretação: João Soares conta que Ele, o altíssimo, a seguir, faça um forward para o Terreiro do Paço, para o gabinete do ministro da fazenda e dos cabedais. Uma espécie de cunha. 

Para já, não se sabe se o altíssimo ajudou. No rascunho do orçamento só se sabe que a "gasosa" sobe cinco cêntimos, o "gasóil" quatro e que fumar continua a matar, mas mais caro. Não se sabe se, naquele draft — é assim que se deverá dizer em europês —, o livro de cheques do ministro João Soares engrossa ou não engrossa. 

Passemos dos entretantos aos finalmentes, e cheguemo-nos ao que importa: aquele pedido de intercedência da providência serviu de tema a Rui Macário, na edição de 15 de Janeiro do Jornal do Centro, num excelente texto intitulado: "O GAJO TEM PIADA" [OUVE-SE DE ALGUÉM ENTREDENTES]

Transcrevem-se os parágrafos finais:
"(...)
Posso incorrer num engano mas a "piada" do sr. "gajo" indicia três grandes linhas orientadoras quanto ao que esperar do Ministério da Cultura e sua acção:

Rui Macário
(fotografia abduzida do FB do autor
e sem a sua prévia permissão)
1. O desafio da pasta foi entregue não a um "agente cultural" mas sobretudo a um político; sem desvarios de Vogue (como Gabriela Canavilhas) ou estrépitos de economicidade da língua portuguesa (como Pinto Ribeiro). JS vem com peso político e tarimba q.b.

2. Garante que há um Ministério da Cultura (a esquerda a isso obriga); e um ministro que consiga ir por esse país fora, dizer aos municípios que têm feito pela vida sem o Estado que o continuem a fazer — verdade seja dita, Viseu tem por onde recolher os benefícios de uma boa comunicação e algumas boas apostas neste domínio (falta, ainda e ainda, uma estratégia para a Cultura e para o Património).

3. Não negociará políticas culturais — leia-se o programa eleitoral do PS e a imagem não esmorece — antes políticas locais de valência cultural. Ou seja, vem aí uma legislatura de "Patrocínios Morais" sem comparticipação financeira, para lá da mínima obrigatória (em Óbidos disse que a nova Cidade Criativa da UNESCO pode esperar tudo menos dinheiro).

Se o supra indicado estiver correcto, JS vai ficar a conhecer o país como ninguém e terá começado a Nova Vaga de municipalização do que poderia ser um sector de referência."

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

É já a 24?*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. A avaliação nas escolas mudou mais uma vez. Mudou sem nenhuma reflexão séria, apenas pelo palpite e preconceito ideológico do poder de turno. O costume.

Depois de Catarina Martins ter acabado com o “exame” do quarto ano, António Costa ainda garantiu no parlamento, em 16 de Dezembro, que as provas finais do 6º e 9º ano iam continuar. Só que o que o primeiro-ministro diz agora conta pouco. O PCP não podia ficar atrás do bloco e o PS acabou por ceder.

A meio do ano lectivo, as escolas e as famílias são confrontadas com novas regras, novos prazos. Sem quê nem para quê, é interrompida uma década e meia de recolha de informação sobre as aprendizagens no final do 1º e do 2º ciclo.

Ao mesmo tempo, o ministro decidiu parir uma ridícula “aferição” nos 2º, 5º e 8º anos, umas provas que os alunos vão fazer sabendo que não contam para nada.

Aliás, é importante que seja dito aos alunos que a aferição não conta para nada. Por ser verdade e para seguir a doutrina dos novos “donos-disto-tudo”: se não podíamos “traumatizar-para-toda-a-vida” as meninas e os meninos de dez anos do 4º ano, muito menos podemos traumatizar as meninas e os meninos de oito anos.


2.  Marcelo Rebelo de Sousa conseguiu dois objectivos estratégicos que lhe permitem sonhar com a vitória à primeira volta: não tem concorrência à direita e apresenta-se como o seguro de vida da “geringonça” de António Costa.

Marcelo soube apresentar-se como o “ajudador” número um do governo e mudou de pele: em vez do Marcelo buliçoso e hiper-cinético a que nos habituámos, temos agora um homem calmo e até, aqui e ali, com uma quietude que chega a ser chata. Este Marcelo do “novo tempo” respira, por todos os poros, a gravitas do poder.


Fotografia daqui
Depois de ter abanado nos debates com Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém, Marcelo reza agora para que apareçam sondagens a dar-lhe menos de 50%. É que ele precisa mobilizar o voto à direita que, de tão confiante, conta abster-se.

sábado, 23 de maio de 2015

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Metapolítica*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



Eis as três grandes marcas da actual vida autárquica do distrito:

1. O novo quadro comunitário — os autarcas vão tratar das infra-estruturas ainda em falta e fazem lobby pelas que competem ao governo.

No fundo, sonham com o país de antes da bancarrota e vão tendo delírios como o já referido aqui, vindo do PSD de Santa Comba Dão, a querer um comboio paralelo à ecopista do Dão.

2. A diminuição dos passivos — as câmaras estão menos endividadas e pagam mais rápido aos fornecedores. Agora há mais rigor e, é claro, a hiper-receita do IMI criado pelo dr. Ruas e pela dra. Manuela em 2003 ajuda muito.

Esta diminuição dos passivos é uma lição à administração central.

3. A metapolítica — a decisão dos eleitos está a ser escondida ou empaliada. A ferramenta mais na moda é a dos orçamentos participativos (OP). Todos os presidentes de câmara e de junta querem um “participativo”. Onde a “situação” não avança para um OP, a “oposição” propõe um. Onde a “situação” toma a iniciativa, a “oposição” brada que é pouco.

Esta moda não deve admirar ninguém: no ano passado, com 75 mil euros (ao fim e ao cabo, o preço de um T0 nos subúrbios), António Almeida Henriques teve palmadinhas nas costas das jotas partidárias, aplausos da oposição e páginas e páginas de boa imprensa. Foi um paraíso político por pouco dinheiro.
Fotografia Olho de Gato

Valha a verdade, o presidente da câmara de Viseu é um especialista em metapolítica. Para além do OP, ele usa todos os instrumentos que pode para empaliar ou lançar nevoeiro sobre a decisão política e respectiva responsabilidade. As únicas obras do seu mandato são comissões de “estratégia”, são “júris”, são “fóruns”, são concursos de “ideias”.

A oposição socialista percebeu-o e decidiu metapoliticar também: acaba de propor um referendo sobre o Mercado 2 de Maio, a ensombrada obra de Siza Vieira onde este, há 15 anos, plantou umas magnólias que nem assombram nem desassombram, antes pelo contrário.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Personalidades de 2014 *

*Texto publicado hoje no Jornal do Centro



Abu Bakr al-Baghdadi (daqui)
1. Debaixo de que calhau esteve escondido o ISIS? 

Como foi possível deixarem-no conquistar tanto território na Síria e no Iraque? 

Como é possível só ter sido notícia quando começou a decapitar jornalistas?

Abu Bakr al-Baghdadi, o líder do ISIS, foi a personalidade internacional de 2014.


2. O dia 15 de Setembro de 2014 fica na história da nossa justiça: pela primeira vez um ex-governante foi condenado por um seu acto governativo.

Os factos são conhecidos: Maria de Lurdes Rodrigues decidiu encomendar uma inútil compilação legislativa ao irmão de Paulo Pedroso. O trabalho não foi feito mas arderam 265 mil euros.

Helena Susano, a presidente do colectivo de juízes que condenou a ex-ministra, foi a personalidade nacional de 2014.


Isabel Castelo Branco
Imagem editada a partir daqui
3. Com o fim da cláusula travão, os viseenses em 2015 vão pagar mais 1,8 milhões de euros de IMI.

O presidente da câmara queria gastar essa massa extra, mas a secretária de estado do Tesouro determinou que os acréscimos de receita em IMI sejam aplicados na redução da dívida municipal. Contrariado, António Almeida Henriques até a chama "empertigada".

Sem dúvida nenhuma, Isabel Castelo Branco merece uma distinção especial: é a personalidade governamental de 2014.


4. O fatal doutor Relvas, antes de se ir embora, reforçou os poderes das comunidades intermunicipais, estruturas onde o PS e o PSD coabitam felizes longe do escrutínio dos eleitores.


José Morgado
Imagem editada a partir daqui
Ora, saber que a liderança da CIM Viseu Dão Lafões está entregue ao presidente da câmara de Vila Nova de Paiva dá algum descanso.

José Morgado é o responsável político pelo acontecimento cultural do ano na região — a digressão de "A Viagem do Elefante" da ACERT pelos catorze concelhos da CIM.

Mais notável ainda: ele decidiu desistir da construção de um centro escolar que a demografia ia tornar desnecessário. Defender o interesse público assim é raro e merece reconhecimento.

José Morgado foi a personalidade regional de 2014.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Pinóquios *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos em 31 de Dezembro de 2004


1. Fernanda Montenegro é uma actriz brasileira, com uma longuíssima e premiada carreira no cinema, no teatro e na televisão. Tem 74 anos de uma vida rica e de uma vida bem aprendida. 

Percebi isso melhor, ao ler uma entrevista dela, numa publicação de Setembro do Teatro Nacional de S. João, do Porto.

A certa altura, perguntaram-lhe: “Entre um bom carácter e um grande artista, que escolha faria?” Fernanda Montenegro respondeu: “Particularmente, o bom carácter. O bom carácter não se trai a si mesmo, não trai o seu amigo, não trai o seu lar. Não trai a sua vida.”

2. Esta resposta de Fernanda Montenegro fez-me lembrar uma história acontecida com Luis Buñuel e Salvador Dali. Para avivar a memória, acabo de a ir reler num texto de João Bénard da Costa, publicado pela Cinemateca Portuguesa:

Luis Buñuel, que nasceu numa família rica, passou pela primeira vez dificuldades económicas em 1940. Tinha 40 anos, mulher e dois filhos. A Guerra Civil espanhola tinha acabado pelo que ele não podia regressar a Espanha onde os franquistas lhe tinham posto a cabeça a prémio. Luis Buñuel conheceu, então, Iris Barry, fundadora da Cinemateca do Museu de Arte Moderna de Nova York, que o convidou para trabalhar lá, com magníficas condições. Assim aconteceu de 1940 a 1943, anos em que Buñuel fez milhares de documentários anti-nazis, em versões inglesas, espanholas e portuguesas.

Salvador Dali conseguiu que ele fosse despedido ao publicar umas memórias em que perguntava como era possível haver uma instituição americana que pagasse a um comunista e a um ateu como Buñuel. Este, nos anos seguintes, passou muitas dificuldades. Acabou por continuar a sua carreira no México, país onde fez filmes geniais e onde se naturalizou em 1949.

Mal vi Fernanda Montenegro dizer que preferia um bom carácter a um grande artista, lembrei-me logo de Salvador Dali e Luis Buñuel.
Salvador Dali, grande artista? Talvez; mas um mau carácter. Prefiro e preferirei sempre Buñuel.

Pinóquio, espectáculo da Acert (2009)
Fotografia de Zé Tavares
3. A Science News, de 31 de Julho, trazia um artigo intitulado “Detecção de enganos – psicólogos tentam perceber como localizar um mentiroso”.

Os investigadores chegaram às seguintes conclusões: os aldrabões tendem a mover menos as mãos, os braços e os dedos; pestanejam menos e têm a voz ligeiramente mais tensa e/ou mais alta. Segundo este estudo, o esforço extra necessário a dar consistência às suas histórias, leva os mentirosos a restringirem os movimentos, a fazerem pausas entre as palavras e a darem menos erros discursivos que as pessoas que estão a dizer a verdade.

O problema é que, como sempre nas Ciências Humanas, o estudo só nos dá tendências estatísticas e há mais incertezas que certezas perante um determinado caso concreto. É que não existe o nariz do Pinóquio, embora haja Pinóquios. Estes, até porque não têm nariz, vão continuar a passar entre os pingos da chuva.

4. A Grande Área Metropolitana de Viseu (GAMVis) continua dentro do guião aqui antevisto no Olho de Gato, de 26 de Setembro de 2003.

Na cerimónia de constituição da GAMVis, há três meses, em plena crise das portagens das nossas auto-estradas, crise inventada pelo governo de Santana Lopes, não se ouviu uma voz de defesa da região, não se ouviu uma voz na defesa dos interesses das 350 mil pessoas desta Área Metropolitana e que vão ser servidas pelas futuras A25 e A24. Ouvimos, e só, mercearia política.

Em Novembro, formou-se uma Comissão Instaladora, de bloco central, para dirigir a GAMVis.

Finalmente, na semana passada, fez-se a eleição duma lista única para a Assembleia Metropolitana. Esta eleição foi indirecta já que a opinião dos cidadãos, no caso, não conta para nada.

A Grande Área Metropolitana de Viseu continua um zombie político.

Será que vai animar na fase seguinte, a fase das remunerações, dos empregos e dos tachos?

5. Um bom 2005 para todos.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Irritações *

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. Este jornal, na semana passada, deu-nos conta dos prejuízos causados às pessoas pelos atrasos nas cartas de condução.

Recorde-se: o governo de Sócrates deve ter achado que se passou a ficar pitosga e a perder reflexos mais novo, pelo que antecipou as idades de renovação obrigatória das cartas.

Mas fez ainda pior: a validade das cartas de condução já emitidas foi tornada desválida. Os incautos (e houve muitos...) que se fiaram na data inscrita naquele documento oficial tiveram enormes dissabores.

A este sadismo socrático soma-se, agora, a incompetência passista que leva meses e meses de atraso no envio do documento. Uma irritação.

2. A “requalificação” da estrada Viseu-Sátão foi um fiasco. Onde havia uma estrada má, há agora uma rua engarrafada. Uma irritação.

Aquelas obras mereceram sempre o repúdio do dr. Ruas. Já o presidente da câmara do Sátão deixou-se na altura calar com a promessa que lhe iam fazer, mais a leste, uma estrada nova.

Ora, no mês passado, de fininho, o secretário de estado Sérgio Monteiro veio “prometer” que o governo fazia a tal estrada nova desde que os municípios do Sátão e Viseu pagassem. Pediu-lhes que estivessem “disponíveis para comparticipar”.

Em Viseu, estranhamente, ninguém se opôs a esta ideia peregrina do secretário de estado das infraestruturas. 


Fotografia Olho de Gato
Nem a "situação” — que vai entretendo os viseenses com propaganda e orçamentos participativos da treta. 

Nem a "oposição" — cuja maior preocupação é o chá de António Almeida Henriques nas inaugurações.

Mas há pior, muito pior: a seguir, o presidente da câmara de Viseu mostrou-se disponível para entrar com dinheiros municipais na tal estrada nova. António Almeida Henriques propõe-se derreter dinheiro dos impostos municipais em obras do governo.

Sem esconder a sua irritação, o dr. Ruas acaba de reafirmar a vontade de regressar em 2017. Com muitas destas, o homem regressa em ombros. A uma câmara falida.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Corujinhas

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 23 de Julho de 2010


1. No ano passado, muitas pessoas estavam preocupadas com o licenciamento das captações de água. O prazo imposto pelo Decreto-Lei n° 226-A/2007 queimava em 31 de Maio de 2009.

Era necessário entregar uma “peritagem técnica de captação” feita por um especialista em “hidrogeologia”. Coima mínima para os faltosos: 25 mil euros.

Uma pessoa amiga, radicada na Alemanha, marcou as férias em Maio para “tratar dos papéis” do pequeno poço que tinha no quintal.

É que na Alemanha as leis são para levar a sério. Chegado cá, percebeu que afinal a “licença dos poços” era para esquecer.

Felizmente, esteve bom tempo. O nosso emigrante fez praia em Maio e foi a Fátima no dia 13 acender uma velinha para alumiar os nossos paridores de leis.


Fotografia daqui
Uma família de emigrantes na Alemanha, ao chegar a sua casa em Portugal, percebeu que tinha na chaminé um ninho cheio de corujas e corujinhas que faziam um barulho infernal toda a noite.

Como bons cidadãos preocupados e ecológicos, eles decidiram tratar do assunto “à alemã” e foram apresentar o caso à GNR.

Resultado: durante estas férias não conseguiram dormir uma noite sequer por causa do barulho dos bichos. Estão proibidos de tocar nas corujas. É uma espécie protegida. Não sabem se no próximo verão vão ter o problema resolvido. Já foram avisados que vão ser eles a pagarem todas as despesas.


2. Com disse Alberto Gonçalves no DN, o secretário de estado Paulo Campos foi um “firme propagandista dos chips nas matrículas”. O governante tem razões para estar feliz. E o seu ex-assessor, que tem o jackpot da venda dos “chispes” e dos pórticos, também.

Lisboa olha para este Big-Brother com bonomia. Pensa: «se nós pagamos portagens, que pague também a ‘província’.»

É só dar tempo ao tempo. Estes pórticos hão-de dar óptimas portagens à entrada de cidades falidas.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Nariz vermelho*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 26 de Fevereiro de 2010

1. O governo anuncia nas Grandes Opções do Plano um organismo centralizado no Ministério das Finanças para “desenvolver, consolidar e aperfeiçoar” as PPP.

Já acrescentei aqui uma vez dois pês a estas parcerias. Fica um nome muito mais apropriado se lhes chamarmos PPPPP - Parcerias Prejuízos Públicos Proveitos Privados.

Na negociação de uma PPP, de um lado está o interesse público e do outro o interesse privado. Ora, há gente que negoceia do lado público e depois passa, alegremente, para o outro lado. Aconteceu no passado e vai acontecer no futuro. Por sua vez, quem redige estes contratos são os grandes escritórios de advogados da capital cujos sócios rodopiam da política para os negócios e dos negócios para a política, num carrossel despudorado.

As nossas elites não correm riscos nem produzem riqueza. Vivem anichadas no estado e estão a esgotá-lo como se não houvesse amanhã. Preparam-se para hipotecar o futuro dos nossos filhos e dos nossos netos. Até 2017, estão previstos mais 51 mil milhões de euros em PPPs.

2. Em 9 de Fevereiro de 2009, pus a José Sócrates – olhos nos olhos - o problema das portagens na A24 e na A25 e propus-lhe a criação do “Selo das SCUTs” em vez do intrusivo chip das matrículas obrigatório.

Infelizmente, a seguir, em nenhuma das três eleições de 2009 se falou mais no assunto. Em Viseu, toda a gente assobiou para o ar.
Agora, como explicou a jornalista Liliana Garcia na última edição do Sol, vêm aí as portagens.


Vamos ver gente eleita por nós a vir falar-nos, com voz delicodoce, na “generosidade” dos 20 quilómetros de borla que vão ser “dados” aos residentes.

Antes de virem dizer isso, senhores políticos, metam um nariz vermelho muito grande no meio da cara.

E devolvam-nos o IP5.


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Um aviso*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos em 18 de Ferereiro de 2010


1. Primeiro ano do QREN: 148 milhões de euros de fundos comunitários aplicados em Lisboa vão ser contabilizados como se tivessem sido investidos no Norte, Centro e Alentejo.

Este é o retrato do país. Nu e cru.

2. O secretário de estado Castilho dos Santos chamou ao discurso sindical “passadista, retrógrado e conservador”. Vê-se que o secretário de estado prefere sindicatos fracos a sindicatos fortes.

Ora isso é um erro. Por duas razões:

(i) O livro “A Consciência de um Liberal”, do prémio Nobel da economia Paul Krugman, tem dados muito sólidos que ligam os 40 anos de ouro de crescimento americano à existência de um sindicalismo forte e prestigiado. Foi só com a hostilização reaganista aos sindicatos, a partir de 1981, que as coisas começaram a piorar.

(ii) Há uma outra razão ainda mais forte: o governo português vai ter que tomar medidas muito duras. A situação social vai-se agravar e a “rua” vai falar cada vez mais alto.

Ora, quem pode tentar moderar e enquadrar o descontentamento das pessoas? Os sindicatos, claro.

3. A última campanha publicitária do Mini Preço à pergunta «tem saudades do escudo?» responde «não!»

Já na Alemanha há muita nostalgia do “velho” marco. Os alemães estão fartos de serem eles a financiar os países do sul, corruptos e esbanjadores de fundos comunitários.

A Grécia, que “vale” 2,5% do PIB da eurolândia, não representa nenhum risco sistémico para o euro. Então porque não veio ninguém de peso acalmar os mercados?

Barroso e Almunia, evidentemente, não contam. Já Angela Merkel - que é quem manda porque é quem paga - ao ficar calada tanto tempo enquanto o fogo da dívida grega se propagava a Espanha e a Portugal...
... quis deixar um aviso.

Desta vez foi só um aviso.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

SMS #1*

* SMS é uma rubrica que, a partir de hoje, passo a publicar no Correio Beirão



O troço Viseu-Sátão da N229, depois das obras, passou a ser uma rua sempre entupida. Demora-se agora mais tempo do que antes das obras.

Entretanto, a prometida nova estrada Viseu-Sátão é uma dúzia de páginas em forma de “declaração de impacte ambiental”. Laracha. Empaliação.

Porque não se fazem vias de lentos nas subidas do Mundão e do Fojo?

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Convites*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 29 de Janeiro de 2010



1. Em duas semanas seguidas, este jornal publicou protestos de leitores contra a qualidade das obras na N229, no troço Viseu - Sátão. Fui ver. De facto, há ali muita falta de respeito pelas pessoas.

Para já - mais por causa do desleixo que por causa das obras - aquele troço parece uma picada. Depois, quando acabarem os trabalhos, como muito bem dizem aqueles dois leitores, vamos passar a ter uma rua entupida entre a rotunda do Betão Liz e a saída para Contige.

E, claro!, vai ficar a faltar uma estrada decente entre Viseu e o Sátão.

2. O concurso para o lugar de director do museu Grão Vasco teve uma tramitação demoradíssima e o novo director acabou por tomar posse só em Setembro de 2009.
António Filipe Pimentel (Fotografia Olho de Gato)

Nos quatro meses seguintes, António Filipe Pimentel criou expectativas na cidade e na região. Só que o novo director não teve tempo para criar mais nada. A ministra da Cultura veio cá abduzi-lo. Fez-lhe um convite para director do museu nacional de arte antiga.

Gabriela Canavilhas deixou o museu Grão Vasco, mais uma vez, sem director. Ora, ela tinha a obrigação de saber que lá as coisas não andam bem desde 2004 e que foi muito difícil e demorado arranjar uma solução directiva.

A câmara de Viseu, e muito bem, aprovou um voto de protesto contra esta instabilidade, voto de protesto que não foi apoiado pelos vereadores socialistas.

Depois de Miguel Ginestal ter desistido da câmara de Viseu, a oposição socialista que lá ficou não acerta uma. Quando as coisas aquecem, ou cala-se ou desconversa. Desta vez, achou bem António Filipe Pimentel ir-se embora porque “as pessoas têm direito às suas ambições”.

Ora, como é evidente, não se reprova ter sido aceite o convite. O que se reprova é ter havido convite.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

A mistura da política com os negócios

Onde formigas bem colocadas trabalham pouco mas aconicham-se bem em pinguentos lugares...


Dois exemplos desta notável infografia animada que pode e deve ser vista aqui:


quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Os partidos têm opinião? *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 13 de Novembro de 2009

1. Isabel Alçada, a nova Ministra da Educação, vai tentar compor o mal que o marilurdismo causou nas escolas. Está a começar pelo mais urgente e menos difícil - o estatuto e a avaliação dos professores.

Depois virá o tempo para dar atenção ao mais árduo e importante nas nossas escolas que não são os professores mas sim os alunos e os conteúdos que eles têm que aprender. Repito porque sei que isto irrita o eduquês que manda na “educação”: o essencial são os alunos e os conteúdos que eles têm que aprender.

Vai ser necessária uma terapia rigorosa. O resultado é muito incerto. Fizeram-se muitas asneiras. Nas escolas, como muito bem sintetizou António Barreto no Público, o marilurdismo causou um “desastre ecológico”.

Os quadros políticos do PS ligados à educação podiam e deviam ter tido mais coluna vertebral. Deviam ter pensado mais no interesse público e menos nas suas carreiras.

Da parte que me toca, estou de consciência tranquila.

Desejo boa sorte a Isabel Alçada.


2. Em 1992, Karl Popper deu uma conferência em Lisboa a convite de Mário Soares, onde defendeu a personalização dos votos.

Cito Popper: “E se as opiniões dos homens merecem sempre o maior respeito, os partidos políticos, enquanto instrumentos típicos de promoção pessoal e de poder, com todas as possibilidades de intriga que isso implica, não podem de forma alguma ser identificados com opiniões.”

Depois do que aconteceu nos últimos 17 anos, talvez agora se perceba melhor esta tese de Popper. De facto, as pessoas têm opiniões, os partidos não.

As opiniões de Maria de Lurdes Rodrigues sobre a escola eram uma desgraça mas tiveram muita gente atrás delas. Oxalá essa mesma gente vá agora atrás de opiniões boas.

Oxalá, agora, haja ideias boas.