sábado, 5 de maio de 2018

entras, não tens medo

Fotografia de Clem Onojeghuo



entras, não tens medo
rodeado de olhares com sono que ainda não sabem
que as palavras são sempre as mesmas
(uma espécie de cerimónia onde te repetes para evitar a morte)

mentimos os dois sobre uma história feita de fragmentos

dizes que nem sempre o guião é o mesmo
mas repetes-me o teu monólogo ao ouvido

“deixa-me sair” vou abandonar a personagem
que balança no vazio

última tentativa: observo-te e tu já não me vês
conheces-me tão pouco, não, isto…
isto não é um dueto, é um duelo

friamente o silêncio cai sobre nós
não há vozes nem adereços
(a cena está vazia)


há apenas uma cortina de vento onde as palavras
nunca se moldaram
Maria Sousa


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