sexta-feira, 9 de março de 2018

Mato*

* Hoje no Jornal do Centro


Fotografia Olho de Gato
1. Depois de terem varrido tudo à frente, os incêndios de Outubro modificaram a paisagem. A cobertura vegetal ardeu e ficaram visíveis as pedras, os muros, até os marcos que dividem as propriedades.

Isto é mau porque os terrenos, como estão nus, sofrem muito mais erosão. Contudo, agora consegue ver-se e chegar-se a sítios que, antes de 15 de Outubro, estavam escondidos por um matagal impenetrável.

Perto da aldeia de Covas, no concelho de Vouzela, há um menir fabuloso com mais de dez metros de altura, tão grande que nem Obelix podia com ele. Chama-se Bicão dos Conqueiros e consegue chegar-se a ele marinhando por entre troncos carbonizados de giestas. Aproveite enquanto elas não crescem outra vez.

2. Assim como nos nossos montes, depois dos incêndios, se vêem melhor as pedras, também depois do fogo que pôs as nossas maiores empresas em mãos estrangeiras vêem-se muito melhor os familismos das nossas elites.

Os nossos políticos ficaram sem o mato da PT, da EDP, do BES, onde iam prantando sem dar muito nas vistas os cônjuges, os manos, os primos, os... Agora, como há menos jobs disponíveis, os familiares estão a ser postos em lugares de mais escrutínio. Dá muito mais nas vistas ter a mulher do ministro num lugar electivo do que num lugar técnico. Mas, que fazer? O mato ardeu.

E depois, como se sabe, os exemplos no topo são imitados pela pirâmide partidária abaixo. Como se viu em janeiro, e se vai ver outra vez não se sabe quando, naquele processo maninho que resultou numa nova eleição na concelhia do PS de Viseu.

3. “Claro que limpo o mato. Na terceira semana de setembro. Até lá tenho os dias todos marcados”, disse o patrão das roçadoras ao proprietário que teve o azar de lhe terem posto uma casa ao lado do seu terreno.

Não é dono da casa, não foi tido nem achado por quem emitiu a licença de construção, mas é ele agora que tem de entrar em despesas.

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