sexta-feira, 31 de março de 2017

Autárquicas (#3)*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. As eleições autárquicas deverão ser marcadas para o primeiro dia de Outubro, daqui a meio ano. A última edição do Jornal do Centro revelou já a quase totalidade dos candidatos a presidente da câmara no distrito de Viseu.

Seguir-se-á a feitura das listas municipais e de freguesia, uma festa da democracia que envolve centenas de milhares de cidadãos por esse país fora. Nunca é demais lembrar: o poder local, com menos de dez por cento do orçamento de estado, fez e faz muito pela qualidade de vida dos portugueses e é a nossa mais importante escola de aprendizagem e participação democrática.


Daqui
Apesar de haver várias câmaras falidas, não foram os municípios que puseram a dívida do estado acima dos 130% do PIB, nem foram eles que nos levaram à bancarrota. Foram os governos centralistas de Lisboa, cuja codícia e corrupção “o reino nos despovoa”, tal como Sá de Miranda via o “cheiro da canela” fazer ao país no século XVI.

2. As autárquicas deste ano vão ser diferentes das anteriores em dois aspectos principais:
(i) em 2013, a lei da limitação de mandatos correu com os muitos dinossauros autárquicos que ainda sobreviviam (nome mais sonante no distrito: Fernando Ruas);
(ii) há quatro anos, o país estava em recessão, nas mãos dos credores, e as pessoas, zangadas com os partidos, votaram em força em candidaturas independentes e mais que duplicaram os votos brancos e nulos. No concelho de Viseu, os brancos e nulos chegaram aos 9,4% e, nas freguesias mais urbanas, ultrapassaram a fasquia dos 12%.

Ora, desta vez, já não há dinossauros para correr e o voto anti-sistema vai diminuir. As candidaturas independentes vão ter a vida mais difícil e muitos dos votos de raiva de há quatro anos vão regressar agora ao redil partidocrático. No concelho de Viseu, esses votos vão ser mais de três mil, valem mais de meio vereador.

Formulas for oblivion

Daqui



1. Casting the first stone after which the hands cast
         themselves and the arms and so on until you feel
         you have cast yourself after the first stone
         into oblivion.

2. Eating your own words by which you will grow thin,
         depleted, finally, of even a mouth to care for
         the orphaned tongue or the tired foot.

3. Turning yourself inside out so the features you are
         known by become obvious secrets and the hidden
         parts of yourself become a mask of honesty.
         Thus you will never know who you are; oblivion
         has begun to tell you who you are

4. Lending the helping hand and keeping the other one
         to yourself. The helping hand will feed your
         friend, the other one will feel abandoned.
         What happens is clear: you lose your friend
         and die alone, a victim of the helping hand’s
         selfish refusal to aid the other one.

5. Cutting off your nose to spite your face. For the
         beauty of absence is catching and the face will
         want to spite the nose by having it back and then
         will beg to be cut off from it. This will go on.

6. Taking everything to heart and allowing yourself no
         rest but what is impossible to take, which is
         oblivion.

7. Killing the thing you love and spending each night
         with its ghost. Forcing your passion into an
         absence is a common approach to oblivion.

8. Sticking your head in the lion’s mouth and seeing
         the remnants of your past: the tongue of your
         father, the teeth of your mother, your own head
         grinning back.

9. Saving the best for last while consuming the worst
         at the start. For the worst tastes better when
         you know the best is to come. Doubts will arise.
         After a while you may not believe the best will
         be last and oblivion will take you for better
         or worse.

10. Giving yourself the benefit of the doubt which is the
         surest and truest formula for oblivion.
                 Mark Strand



quinta-feira, 30 de março de 2017

Calhaus (Parte 2)*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 30 de Março de 2007



1. O Presidente da República, Cavaco Silva, arranjou forma de não ter Mário Soares, no Palácio de Belém, na comemoração dos 50 anos da União Europeia.

Pode o actual PR fazer a ginástica que quiser, pode arranjar a “lista de convidados” que mais lhe der jeito, que a verdade das coisas não se altera: a adesão à UE deve-se a Mário Soares. Neste capítulo da História de Portugal, para Cavaco, nem uma nota de rodapé.

2. Já se sabe que Cavaco não gosta de partilhar o palco com ninguém. Quando era primeiro-ministro, impediu que o então Presidente da República, Mário Soares, estivesse presente na Assinatura dos Acordos de Bicesse, entre a Unita e o MPLA.
Este episódio aconteceu em Maio de 1991, poucos meses depois da tomada de posse de Mário Soares para o seu segundo mandato, e revelou qual era o entendimento do então primeiro-ministro Cavaco Silva sobre a “cooperação estratégica” do seu Governo com o Presidente da República.

Soares, na altura, foi completamente ignorado. Cavaco semeou ventos e, depois, colheu as respectivas tempestades. Vieram, a seguir, as “presidência abertas” e os anos gloriosos da demolição do cavaquismo.

A celebração dos 50 anos da União Europeia foi uma coisa burocrática e triste em toda a Europa e a nossa Presidência da República não destoou.

Entretanto, já há “Miguéis Coelhos” no PS prontos para apoiar Cavaco em 2011.

3. A Rotunda à frente dos Bombeiros Municipais já não tem os seixos com que foi inicialmente “equipada”. Quando foi inaugurada, aqueles calhaus pindéricos ficavam tão feios que até faziam mal aos olhos. O caso mereceu aqui um reparo no Olho de Gato de 19 de Janeiro.

Agora tem relva. Não tem calhaus. Está bonita. Registe-se.

O que será (à flor da pele)



O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os unguentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo
Chico Buarque


 

quarta-feira, 29 de março de 2017

Girrl

Fotografia de Javier Gutierrez

Find one thing to love
inside yourself
carry it like a gun
in guerilla hands
and when government
defeats you, mountains fall
lovers leave, and the words
of women before come
crashing to the ground
hold this love between
your hands, sing its name
like the alphabet
and shoot woman. Shoot.
Niki Herd




terça-feira, 28 de março de 2017

Cascata

Fotografia Olho de Gato



não concedo o meu beijo à cascata
senão no extremo ponto da sua queda
Hassan Abdullah al-Quraishi


segunda-feira, 27 de março de 2017

Womanizer

Pintura de Kristen Liu Wong


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
Carlos Drummond de Andrade


domingo, 26 de março de 2017

Carpe Diem

in Ancient Marks: The Sacred Origins of Tattoos and Body Marking

Daqui a alguns anos,
todas as novidades serão velhas.

E ainda mais tarde, quando os calendários
marcarem outro século,
e quando esse outro século for velho,
lápides testemunharão nossa passagem,
efêmera passagem pelo mundo.

É incrível admitir que este momento,
este instante de agora,
novo, atual, moderno,
será passado um dia...

os últimos modelos de automóvel
(que já hoje raros chamam de automóvel)
e os mais modernos aviões
(que um dia se chamaram aeroplanos),
tudo será futuramente
atracção de museu...

Colhamos (doce ou amargo) o momento presente
antes que ele se torne antigamente...
Sânzio de Azevedo

sábado, 25 de março de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#136)


Díptico




No hay luz sino estupor de luz
en este jardín abrasado
de frío y lenta escarcha donde
alguien cuya sombra te evoca
remueve sin prisa la tierra
y deja en los surcos un hilo
de luz fría donde mis ojos
desde esta página te anuncian
y dicen verte, aunque no estés.

Hago inventario de tu ausencia:
ojos no usados, aire intacto,
las horas como lumbre escasa
que el aire no aventa ni excita.
En todo espío transparencias,
temblor que es tu cuerpo inasible.
Hago inventario de tu ausencia
para que sepas de tu vida
a mi lado, cuando no estás.
Jordi Doce





sexta-feira, 24 de março de 2017

O homem do escadote*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


No domingo passado, pelas quinze horas, um homem subiu a um escadote...

Fotografia Olho de Gato
... e compôs os painéis azuis e brancos da agência da Caixa Geral de Depósitos, sita na intersecção entre a Rua do Comércio e a Rua Formosa, da formosa cidade de Viseu.

O homem cumpriu com brio e profissionalismo a encomenda do dr. Paulo Macedo, esse mau-carácter que, durante o passismo, tentou destruir o serviço nacional de saúde (fazendo fé nos avisos da esquerda, brinco do dr. Galamba incluído), perdão!, a encomenda do dr. Paulo Macedo, esse messias que agora, durante o costismo, vai salvar a CGD (fazendo fé na mesmíssima esquerda, brinco do dr. Galamba incluído).

Encomenda urgente aquela, não há tempo a perder, é necessário esticar as telas retro-iluminadas da CGD, perdeu-se um ano com aquele Domingues, um calaceiro que só serviu para derreter tempo com éssiémiésses para o ministro Centeno, para regozijo do dr. Lobo Xavier, esse direitolas, e para escândalo do competente dr. Jorge Coelho (produtor de bom queijo e bom requeijão junto à ermida de Santo António dos Cabaços, em Mangualde) e do flexível dr. Pacheco Pereira (guru do autoritarismo do dr. Cavaco, guru uns anos depois da asfixia democrática da dra. Manuela, guru agora da geringonça do dr. Costa, e guru no futuro do músculo populista do dr. Rio).

Pena é já não ser possível ao homem do escadote tratar das telas azuis da caixa na sua agência La Seda (de onde se impariram 476 milhões de euros), ...



... nem na agência Efacec (de onde se escafederam 303 milhões), ou na agência Vale do Lobo (de onde se desvararam 283 milhões), ou na agência Espírito Santo (de onde se salgadaram 237 milhões), para não falar da agência Lena (de onde se offchoraram 225 milhões) ou da agência Berardo, ou...

Pena é o homem do escadote ter andado, no último domingo deste inverno do nosso descontentamento, a esticar as telas de um dos 180 balcões da CGD que já não vão fazer outro inverno.

Deixar de ser

Daqui


Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Cecília Meireles


quinta-feira, 23 de março de 2017

Abaixo

Fotografia de Sebastião Salgado



É abaixo de todos os seres humanos, em último lugar, que colocamos a criada!
Há-de haver alguma razão.
Não nos esqueçamos disto.
Patti Smith



quarta-feira, 22 de março de 2017

A mais estreita linha

Fotografia de Ren Hang


Da terra não,
da terra não poderia falar,
apenas da estreita linha
em que o meu vestido passa
por demais perto do chão

dessa linha
um pouco suja
e tão mais do que eu real
onde o tecido arrasta
e guarda o rasto do passar

dessa leve coincidência
entre o que está
e o que passa
entre o que ondula
e o que estaca

entre uma coisa e outra
passa levíssima a aragem
e eu passo
e nada se abre nem fecha
nessa estrada

disso —
de um saber sem perguntar
— talvez um dia

nem da terra nem de mim
— dessa linha tão precisa
que imagino eu
há-de ter por nome
uma palavra como perto
Rosa Maria Martelo


terça-feira, 21 de março de 2017

Mujer de azul

Fotografia de Parker Day


Busco una mujer
entre todas ellas
capaz de ver belleza
en el grito de un naufragio,
la belleza
de las innumerables tragedias cotidianas
o del maullido moribundo
del gato del tejado.

Quiero que sea capaz de romper
el destino de un mordisco
de convertir el miedo en migajas
dibujar un mantel
y pegarse un festín.
Una mujer a la que le hagan cosquillas las religiones
que sepa desde siempre
que vamos a encontrarnos
pero que en lo único en lo que crea
sea en el azar.

Quiero que sea a la vez
un sueño y un recuerdo
que llegue con la sonrisa en punto
del mediodía
y con la alegría
imprecisa de un jilguero
-que sepa, como se sabe en los libros-
que el amor romántico es una mentira
sobre un castillo de naipes
-pero que intuya, como se intuye en los sueños-
que juntos podemos ser sencillamente felices.

Una mujer de viento y espada
de beso y hoguera
que cuanto mas la aten
mas se aleje
una mujer de hacha de guerra
de yesca y alumbre
que cure las heridas con sal.

Una mujer con la que todo se peleé
pero nada se rompa
que tras cada tropiezo
se gire en el aire y se ponga a bailar
que invente palancas
con las que mover los otoños
que su lengua sea un río de lava
y su saliva espuma de mar.

Una mujer cuyas piernas inspiren los dogmas
y sus pisadas los aplasten uno tras otro.

Una mujer cuyos labios fabriquen las nubes
y sus besos no paren de llover.

Una mujer cuyas manos sean de arcilla
y sus caricias de agua

o simplemente una mujer sencilla
tal vez, una mujer de azul.

Busco una mujer, para empezar,
— y esto es lo único innegociable —
que sea capaz de mirar de frente
estos versos
y no les tenga miedo.

Una mujer así o nada.

No pienso conformarme con menos.
Cysko Muñoz


segunda-feira, 20 de março de 2017

Pas de deux



A flor e o vento começam o seu pas-de-deux intemporal
Felizes um com o outro e sem sentirem a falta de nada
Enquanto o nosso mundo mortal embarca ainda e outra vez num novo dia
Kalikiano Kalei



Pas de deux, de Norman McClaren (1967), from National Film Board of Canada on Vimeo.


«Para mim, na verdade, num filme abstracto as formas mais agradáveis são aquelas que mais se aproximam da música.
Deve haver equivalência visual.»
Norman McLaren

domingo, 19 de março de 2017

Hasta los huesos — de René Castillo

Es la historia de un hombre y su llegada al mundo de los muertos, donde es recibido por un gusano, calacas sonrientes y la mismísima Catrina.

Poco a poco nuestro personaje descubre que, salvo algunos inconvenientes, estar muerto no es tan malo.



4'45" aos 7'40" — "La Llorona", por Eugenia León

O charme discreto da blogomania

Gif Olho de Gato


presa nesta aritmética
do dia-a-dia
consulto a estatística
como quem dedilha uma sonata
num teclado incerto
conheço todos os atalhos
que me levam às notas mais agudas
e entro e saio
abro e fecho páginas
para viciar o Stats for December:
faço contas plos dedos
impróprios
e aplico a prova dos nove
pra verificar o resultado
– que já sei
Ana Paula Inácio




sábado, 18 de março de 2017

Le Mépris (O Desprezo) - Jean-Luc Godard

Le Mépris (O Desprezo) - Jean-Luc Godard  (1963)


Le cinéma substitue à notre regard un monde qui s'accorde à nos désirs.
Le Mépris est l'histoire de ce monde.
André Bazin





"And Now For Something Completely Different" (#135)

American porn

Yayoi Kusama —  Infinity Mirror Rooms 


The first time I saw a woman in a porn with nipples as small as mine
          I thought: Thank god.

I must have been about 10 at the time because I remember trying to
dodge the babysitter and still tune the satellite TV to channels 85, 98, or 99
while always keeping one finger on the pre-programmed "Nickelodeon" button.
I lost my virginity to that flickering image and nearly muted sound.

I grew up in Van Nuys, California (the un-official porn capital of the United States)
So I had a vague notion of what to expect when, in 9th grade,
I brought home the first boy with a mowhawk.
As we sat with out backs up against the white picket fence in my front yard,
waiting for his mother to pick him up, he slipped two painted finger
up into someplace I didn't know I had. I thought:
          I know this. I've seen this before.

In 10th grade I smiled familiar at the stoner who went down on me for the first time,
(As the family dog looked on)
Smiled, because the view down my bare belly looked just like it did in the movies.
And in 11th grade, I knew all the right things to moan for the girl with the goldilocks
who bit like whiskey and broke me like promises.
We were crossing things off a list. Any beauty in this was accidental.
There was no magic. Only small favors.

The only conversation my mother and I ever had about masturbation
Occurred after she caught me in the act. It went like this:
          What the hell do you think you're doing? You look like a dog.
We never spoke of it again, but for the next 10 years I would run the shine
into this newly-minted shame, taking solace only in the porn,
at least I knew I wasn't the only one disappointing their mother.

So I watched.
I studied.
It was my addiction.
It was my permission.

I lost my virginity to American Porn.
Those naked cocks and tan lines, the thick-necked boys and breakable girls,
the absences of time, hesitation and lube, the forbidden ubiquity,
the empty passion, the adulthood shaved bare, but at least this sex, this
imitation of sex, when pounded from our bored, frightened bodies
smelled honest.

Honest?
I lost my virginity
On the 4th of July
In the back of a Chevy suburban
In parked traffic.

When it was all over I walked two blocks to the Marriot, locked myself
in a bathroom stall and stared down at the burning between my legs,
sure that I would see my aborted uterus floating in a pink bath,
Convinced he must have broken something.
I used some wet paper towel to cool down
the nothing that had apparently happened.

We slept that night in an empty parking lot next to where the boy scouts
were selling off the last of their fireworks. He kissed me on the mouth
so thick I choked on his gratitude. Coughed up my shame.
And that was like nothing I had ever seen before.
Emily Kagan Trenchard


sexta-feira, 17 de março de 2017

Tempos amáveis*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. A prensa tipográfica com caracteres móveis foi inventada por Gutenberg em 1445 e em poucas décadas espalhou-se pela Europa.

No poderoso império otomano é que aquela modernice não entrou. Em 1485, o sultão Bayezid II proibiu a impressão, proibição só levantada em 1727 quando Ahmed III autorizou Ibrahim Müteferrika a montar uma prensa, mas tudo sujeito ao assentimento prévio de três estudiosos da religião, os cádis. A família Müteferrika, em setenta anos, só foi autorizada a imprimir vinte e quatro livros e acabou por desistir do negócio.

O medo das elites de que o saber e o novo possam pôr em causa o seu poder sempre foi uma desgraça para os povos. Tayyip Erdoğan não tem feito menos mal ao conhecimento turco do que fizeram os sultões otomanos. Desde 15 de Julho, o autocrata já fechou mais de duas mil escolas e universidades, demitiu 7316 académicos, fechou 149 órgãos de comunicação social e prendeu 162 jornalistas.

Erdoğan tentou fazer comícios na Holanda. Com isso, o “sultão” turco quis beneficiar o islamófobo e putinista Geert Wilders. A ajuizar pelas sondagens, pode ter-lhe saído o tiro pela culatra. Oxalá!

2. Vivem-se tempos amáveis e distendidos no Portugal político. Até a crispação dos rebanhos partidários nas redes sociais anda mais branda.

A geringonça lá vai cumprindo com brio o seu “não-há-vida-para-além-do-défice”. Depois de, em 2009 e 2010, termos tido dois buracos sucessivos de uns loucos vinte mil milhões de euros, o país tem vindo a diminuir o défice público ano após ano. Em 2016, ficou abaixo dos quatro mil milhões de euros. Há que continuar este esforço.

A seguir ao “para-além-da-troika” de Passos, temos agora o “para-além-do-tratado-orçamental” de Costa. 


Daqui
O sr. Moscovici e o sr. Dijsselbloem estão contentes com as cativações de António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. E assistem, com bonomia, à retórica anti-europeia, para consumo interno, das lideranças bloquistas e comunistas .

Digo rostro de arena

Fotografia de Robert Doisneau


Digo rostro de arena
y digo labios
y párpados de arena.
Digo dolor de arena
y digo manos
y caricias
de amor, de arena.
Y digo viento.
Dulce Chacón


quinta-feira, 16 de março de 2017

Cantar na rua*

*Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 16 de Março de 2007


1. Na sexta-feira passada, na Antena 1, no programa do Provedor do Ouvinte, foi lida uma carta a “dar nas orelhas” de Ana Sá Lopes. Pelos modos, num programa de debate político, aquela jornalista disse que: «A Câmara de Lisboa não tem dinheiro nem para mandar cantar um cego». Um ouvinte da RDP não gostou. A sua fúria nada teve a ver com a secura dos cofres do município lisboeta (inevitável depois dos anos Santana / Carmona). O ouvinte não gostou foi da parte do “nem para mandar cantar um cego” e fê-lo saber numa prosa violenta.

O problema deve ter ficado resolvido já que, para “não bater mais no ceguinho”, Ana Sá Lopes acabou por pedir desculpa ao reclamante.

Foi pena. Os aforismos populares são “politicamente incorrectos”. Metem “sal” na linguagem. Esse “sal” é bom mesmo que cause “hipertensão” a algumas almas mais sensíveis.




2. Rosa Francelina Dias Martins ficou cega aos 4 anos, começou a pedir aos 9, a vender lotaria aos 21 e a cantar na rua aos 30. No Verão de 1999 foi descoberta por Andrea Heller, produtor de World Music, tendo cantado em toda a Europa e editado um CD chamado “Dona Rosa”. O CD inclui um muito instrutivo texto de Nuno Pacheco sobre a tradição dos “cegos andantes” ou “cegos papelistas” (assim eram conhecidos no século XIX).

No Natal de 2002, Dona Rosa queixou-se dos altifalantes que Santana Lopes semeara nesse ano pela baixa de Lisboa. Dona Rosa ficou cheia de dores de cabeça e de garganta. «Como se não bastasse o frio e o vento, ainda tive de levar com a música concorrente» - desabafou ela ao Expresso.




Como se vê, Ana Sá Lopes não devia ter abjurado a sua ideia. Ela tinha intuído bem. Há bastante tempo que a Câmara de Lisboa não se dá bem com o cantar dos cegos.

A bela do bairro

Red Light District — Amsterdam 


Ela era muito bonita e benza-a Deus
muito puta que era sempre à espera
dos pagantes à janela do rés-do-chão
mas eu teso e pior que isso néscio desses amores
tenho o quê? quinze anos
tenho o quê uns olhos com que a vejo
que se debruçava mostrando os peitos
que a amei como se ama unicamente
uma vez um colo branco e até as jóias
que ela punha eram luzentes semelhando estrelas
eu bato o passeio à hora certa e amo-a
de cabelo solto e tudo não parece
senão o céu afinal um pechisbeque

ainda agora as minhas narinas fremem
turva-se o coração desmantelado
amando-a amei-a tanto e sem vergonha
oh pecar assim de jaquetão sport e um cigarro
nos queixos a admiração que eu fazia
entre a malta não é para esquecer nem lá ao fundo
como então puxo as abas da farpela
lentamente caminho para ela
a chuva cai miúda
e benza-a Deus que bonita e que puta
e que desvelos a gente
gastava em frente do amor
Fernando Assis Pacheco


quarta-feira, 15 de março de 2017

Boxes

Fotografia Olho de Gato

Vejo do topo das escadas os 140 lugares indisponíveis
para as palavras de amor.
Como o que eu procuro não se encontra catalogado
ando aqui por cima,
entre o gás
as nuvens
e os pequenos sofás verdes
à espera de entrar.
Encontro o meu lugar vago
todos os lugares vagos com livros que ninguém lê.
Joana Serrado



terça-feira, 14 de março de 2017

Ó César

Daqui

não sou uma mulher moderna
não me ligo à net
gosto de compras ao vivo
cujas listas faço em cadernos de argolas
que depois esqueço
e só me lembro de elixir para aclarar a voz,
tenho tantas embalagens
como Warhol de Tomato Soup
ou de detergente Brillo,
para que ao chegares a casa
te envolva, te abrace e te queira
mas nem só de voz vive o homem
dizes tu,
e então a minha saúda-te
como a daqueles que vão morrer
Ana Paula Inácio


segunda-feira, 13 de março de 2017

Os teus pés

Fotografia de Eric Kellerman

Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada púrpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouco levantaram voo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.
Pablo Neruda


domingo, 12 de março de 2017

resina

Fotografia de Rafael Gonzalez 


asa de anjo
lua peregrina
estalagmite água
resina por vir
A. Khimm

sábado, 11 de março de 2017

Luzes — por JB*

* Comentário de JB à crónica de ontem "Águas municipais"

"Não hei de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.”
Jorge de Sena


A recente polémica do cancelamento da conferência de Jaime Nogueira Pinto (intitulada “Populismo ou Democracia: O Brexit, Trump e Le Pen”) deixou-me perplexo; ler o artigo de Joaquim Alexandre remeteu-me para as Luzes (Iluministas) seus valores e o meu tempo de liceu fascista (com Mocidade Portuguesa, e tudo…).


Na verdade, quando vinte e quatro alunos numa RGA (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas) votam favoravelmente uma moção que exigia o cancelamento da conferência de Jaime Nogueira Pinto, devemos questionar como pode um grupo minoritário e radical ter força suficiente para calar um conferencista, com opiniões antagónicas às minhas, que considero bafientas, mas que foi um facto que não me deixou indiferente. Não entendi! Não percebi! Não compreendo!

Felizmente que tive um excelente professor de Filosofia que muito nos “massacrou” com o Voltaire, Pascal, Montesquieu, Diderot, Rousseau…, e os seus ideais. Arriscou, pois estávamos no tempo do “Liceu do sr. Reitor”, e os valores da livre discussão e liberdade de expressão estavam proibidos. Não mais esquecemos a frase escrita no quadro negro: "Não concordo com o que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito a dizê-lo”, da escritora britânica Evelyn Beatrice Hall (embora atribuída a Voltaire). Não mais esquecemos a lição de John Stuart Mill: “Silenciar uma opinião é roubar a humanidade do seu mais valioso património, pois se essa opinião estiver certa perdemos uma oportunidade de corrigir a nossa própria opinião, e se essa opinião estiver errada perdemos uma oportunidade de denunciar a sua falsidade.”

Não me identifico com os ideais de Rafael Pinto Borges, um dos promotores do grupo Nova Portugalidade, responsável pela organização da conferência que assume: “Eu sinto estima pessoal, política e intelectual por Salazar” e não partilho do passado de direita radical de Jaime Nogueira Pinto. Por tudo isso, não esqueço o ambiente estudantil difícil, de Coimbra, antes do glorioso 25. Nos anos 70, a direita estudantil coimbrã tinha locais de culto e de organização, tais como a denominada Cooperativa Livreira Cidadela, na rua Alexandre Herculano, quase a chegar à Praça da República, da autoria do grupo nacional-revolucionário da Faculdade de Direito, chefiado por José Miguel Júdice. A este se juntavam mais dois organismos (Orfeon e OTUC - Oficina de Teatro da Universidade de Coimbra) tradicionalmente controlados pela direita, que constituirão os três pilares de acção dos nacionalistas em Coimbra.

Com 17/18 anos, ter o baptismo político significava acompanhar e ouvir as discussões políticas dos irmãos mais velhos, com os seus amigos e amigas, na Praça da República; significava poder frequentar (sempre) o Café Tropical ou eventualmente o Moçambique, o Piolho ou a Clepsidra, na Praça da República. No Café Tropical era fácil encontrar os “duros dinossauros” resistentes Orlando de Carvalho, Joaquim Namorado (meu professor de Matemática) ou Louzã Henriques, entre outros. Todos sabíamos da presença da PIDE, e jovens ainda não comprometidos com uma verdadeira acção antifascista, receavam muito mais do que aqueles que já lutavam contra o regime.

Concluindo, o que irrita mesmo é que agora abriram as portas e os tempos de antena à extrema-direita de retórica neonazi.
E voltamos a ter na Memória que os valores da tolerância e liberdade de expressão nunca estão adquiridos, são uma luta perpétua.
JB

"And Now For Something Completely Different" (#134)


Hoje apresenta uma solução mais fácil

Ontem caminhei nos campos de chuva

Daqui




Ontem caminhei
Nos campos de chuva; hoje
chove dentro de mim.
Casimiro de Brito



sexta-feira, 10 de março de 2017

Águas municipais*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Foi numa noite escura do Inverno de 1933 que o sr. Percy Shaw teve uma intuição que o ia tornar rico. Ia ele a guiar pelas ruas de Yorkshire quando percebeu que as linhas do eléctrico, iluminadas pelos faróis do seu carro, pareciam olhos de gato a brilhar na escuridão e que aquele brilho facilitava a condução no nevoeiro.

No ano seguinte, o sr. Percy registou a patente dos cravos reflectores no asfalto — a que chamou “olhos de gato” — e tratou de fundar uma empresa para os comercializar.

Esta coluna — que faz este mês quinze anos — nunca pagou direitos de autor ao sr. Percy Shaw pelo uso do nome Olho de Gato mas já prestou várias vezes o merecido tributo a estes simpáticos dispositivos de segurança rodoviária. Sempre que, em Viseu, a câmara procede a uma sementeira de “olhos de gato”, este espaço de opinião sente-se honrado. Homenageado até.

Foi o caso agora. As passadeiras da Circunvalação acabam de receber 296 olhos de gato fotovoltaicos que tremeluzem no chão tanto nos dias claros como nas noites escuras. Lembrando a célebre canção da Ruth Marlene, à ilharga e na vertical de cada passadeira, setenta sinais piscam-piscam à esquerda enquanto outros tantos igualinhos piscam-piscam, redundantes, à direita. 

Gif Olho de Gato
Tudo luminoso, tudo síncrono, os olhos de gato e os sinais, tudo a trabalhar na avisação das passadeiras, abençoados sejam, mesmo que evitem só um atropelamento já é bom.


2. Quando criou a empresa Águas de Viseu, António Almeida Henriques abriu a porta à privatização da água no futuro. Foi um erro político muito criticável por duas razões: porque um assunto de tal gravidade não foi tratado na campanha eleitoral que o elegeu e porque os Serviços Municipalizados sempre funcionaram bem e sempre foram auto-sustentáveis.

Este erro deve ser revertido: há que dizer não à privatização da água. Há que regressar aos Serviços Municipalizados. Mais planaltos beirões não, por favor.

Teu corpo principia

Fotografia de Christian Coigny


Dou-te
um nome de água
para que cresças no silêncio.

Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.

Invento do meu nada
esta pergunta.
(Nesta hora, aqui.)

Descubro esse contrário
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.

Silêncio e sol – verdade,
respiração apenas.

Amor, eu sei que vives
num breve país.

Os olhos imagino
e o beijo na cintura,
ó tão delgada.

Se é milagre existires,
teus pés nas minhas palmas.

Ó maravilha, existo
no mundo dos teus olhos.

O vida perfumada
cantando devagar.

Enleio-me na clara
dança do teu andar.

Por uma água tão pura
vale a pena viver.

Um teu joelho diz-me
a indizível paz.
António Ramos Rosa