terça-feira, 31 de janeiro de 2017

A finger, two dots, then me


Fotografia de Christer Strömholm

Lying together in the park on Seventh,
our backs smoosh grass and I say
I will love you till I become a child again,
when feeding me and bathing me is no longer romantic,
but rather necessary.

I will love you till there is no till.
Till I die.
And when that electroencephalogram shuts down, baby
that’s when the real lovin’ kicks in.

Forgive me for sounding selfish
but I won’t be able to wait under the earth for you
(albeit a romantic thought for groundhogs,
gophers and the gooey worms).
I will not be able to wait for you…

but I will meet up with you
and here’s where you will find me:
get a pen–

Hold your finger up
(two fingers if your hands are frail by now)
and count two stars directly to the left
of the North American moon.
You will find me there.
You will find me darting behind amazing quasars
Behind flirtatious winks
of bright and blasting boom stars!

Sometimes charging so far into space
the darkness goes blue.
I will be there chasing sound waves
riding them like two-dollar pony ride horses
that have finally broken free and wild.
I will be facing backwards, lying sideways,
no hands, sidesaddle, sometimes standing
sometimes screaming zip zang zowie!
My God, it’s good to be back in space… Where is everybody?

You will recognize my voice.
You will see the flash of a fire trail
burning off the back of me
burning like a gasoline comet kerosene sapphire.
This is my voice.
Don’t look for my body or a ghost.
I’ll resemble more a pilot light than a man now.

I’m sure some will see
this cobalt star white light from earth
and cast me a wish like a wonder bomb.
And I’ll think “Hmmph. people still do that?”

I’m sure I’ll take the light wonder bombs
to the point in the universe
where sound does end.
The back porch of God’s summer home.

It’s so quiet here, you float.
It feels the way cotton candy tastes.

I say to him… why do I call you God?
He says ‘Because Grand Poobah sounds ridiculous.’
(Who knew he was so witty?)
I ask him ‘Lord, so many poets have tried to nail it and missed, what is holy?’

At that moment,
the planets begin to spin and awaken
and large movie screens appear on Mars, Saturn and Venus
each bearing images I have witnessed
and over each and every clip flashes the word holy.

armadillos–holy
magic tricks–holy
cows’ tongues–holy
snowballs upside the head–holy
clumsy first kisses–holy
sneaking into movies–holy
your mother teaching you to slow dance
the fear returning
the fear overcome–holy
eating top ramen on upside-down frisbees
cause it was either plates or more beer–holy
drunk beach cruiser nights–holy
the $5.00 you made in vegas
and the $450.00 you lost–holy
the last time you were nervous holding hands–holy
feeling God at a pool hall but not church–holy
sleeping during your uncle’s memorized dinner prayer–holy
losing your watch in the waves and all that signifies–holy
the day you got to really speak to your father cause the television broke–holy
the day your grandmother told you something meaningful
cause she was dying–holy
the medicine
the hope
the blood
the fear
the trust
the crush
the work
the loss
the love
the test
the birth
the end
the finale
the design
in the stars
is the same
in our hearts
the design
in the stars
is the same
in our hearts
in the rebuilt machinery of our hearts

So love, you should know what to look for
and exactly where to go…

Take your time and don’t worry about getting lost.
You’ll find me.
Up there, a finger and two dots away.
If you’re wondering if I’ll still be able to hold you
…I honestly don’t know

But I do know that I could still fall for
a swish of light that comes barreling
and cascading towards me.

It will resemble your sweet definite hands.
The universe will bend.
The planets will bow.
And I will say “Oh, there you are. I been waitin’ for ya. Now we can go.”

And the two pilot lights go zoooooooom
into the black construction paper night

as somewhere else
two other lovers lie down on their backs and say
“What the hell was that?”
Derrick Brown


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Como o rio, ou como o vento

Fotografia de Mario Testino


Como o rio, ou como o vento,
vão passando os dias.
Há dois dias que me são indiferentes:
O que foi ontem, o que virá amanhã.
Omar Khayyam





domingo, 29 de janeiro de 2017

Remorso

Fotografia de Sarah Moon


Durante a leitura nocturna
descia, às vezes, as escadas
e procurava no escuro, dentro
de um cesto, uma forma
redonda. Na quadra iluminada
do quarto, mordia depois a maçã
vermelha escura. Era enorme o ruído
dos dentes, no silêncio dessa hora
tardia e irremediável a culpa
de ter destruído aquela polpa húmida
de onde pendia o descarnado pé
no íntimo saber de pequenas sementes
que podia perfeitamente
ter apodrecido em paz.
Inês Lourenço


sábado, 28 de janeiro de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#128)

Subida aos céus

Daqui



Quero ser amada só por mim e não por andar enfeitada, ser adorada mesmo assim, careca, nua, descarnada. Com perfumes a presa é fácil, com jóias, casacos de peles - gosto do amor quando é difícil e cheiro o meu hálito reles. Quero ser amada à flor da pele, não quero peles de vison; amada pelo sabor a mel e não pela cor do baton. Com cabeleira a presa é fácil, há quem se esconda atrás dos pêlos - gosto do amor quando é difícil e ser amada sem cabelos. Quero que me beijem a caveira e o meu ossinho parietal, que se afoguem na banheira pelo meu belo occipital. Com carne viva a presa é fácil, é ordinário e obsoleto - gosto do amor quando é difícil, quando me aquecem o esqueleto. Quero ser amada pela morte, pelos meus ossos de luar; quero que os cães da minha corte passem as noites a ladrar. Engano de alma ledo e cego, ó linda Inês posta em sossego imortal… diz adeus; sobe aos céus.
Regina Guimarães


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Oportunidade perdida*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. As PPP rodoviárias (desde sempre aqui chamadas PPPPP — Parcerias-Prejuízos-Públicos-Proveitos-Privados) são um roubo de futuro aos nossos filhos, netos e bisnetos, já que há encargos assumidos até 2083 (!), e são um jackpot para os rentistas (à data da bancarrota socrática, a “nossa” A25 rendia-lhes 17,35% ao ano, enquanto a “nossa” A24 borbulhava 11,23%).


Fotografia Olho de Gato

Estes números pornográficos, apurados pela Ernst & Young, foram conhecidos quando ainda estava cá a Troika. Seguiu-se uma renegociação dos contratos liderada por Sérgio Monteiro de que nada se sabe. Os políticos e os grandes escritórios da advocacia de negócios, com a Troika fora, regressaram à opacidade do costume.

A chegada do PCP e do bloco à área do poder também não trouxe mais transparência. O bloco de esquerda contesta as PPP na saúde que têm funcionado bem e sem desvarios nas taxas internas de rentabilidade, mas, infelizmente, não parece preocupado com as PPPPP rodoviárias. Esta semana o JN revelou que os gastos do estado com elas “dispararam” 77%.


Daqui
No início de 2015, sugeri aqui que Portugal fosse aos mercados buscar dinheiro para resgatar as PPPPP. Na altura tal era possível. Tínhamos acabado de fazer um empréstimo a 30 anos à taxa de 4,1%. Durante 2015 e parte de 2016, as condições de financiamento da república foram muito favoráveis. Agora já não são. Perdeu-se a oportunidade.

Estes três anos de campanha eleitoral — 2015, 2016 e 2017 — vão ficar-nos muito caros.

2. Em Setembro, todos os meninos do 1º ciclo das escolas públicas, quer sejam de famílias ricas, remediadas ou pobres, vão ter livros pagos pelo estado.

Em Setembro, todos os meninos do 1º ciclo das escolas privadas, quer sejam de famílias ricas, remediadas ou pobres, não vão ter livros pagos pelo estado.

Para a geringonça, os primeiros são filhos, os segundos enteados.

Senhores presidentes das câmaras, usem os vossos orçamentos e impeçam esta discriminação vergonhosa.

I live in the twentieth century


I live in the twentieth century
and you lie here beside me. You
were unhappy when you fell asleep.
There was nothing I could do about
it. I felt hopeless. Your face
is so beautiful that I cannot stop
to describe it, and there's nothing
I can do to make you happy while
you sleep.
Richard Brautigan




quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Tudo foi dito cem vezes

Daqui


Tudo foi dito cem vezes
E muito melhor que por mim
Portanto quando escrevo versos
É porque isso me diverte
É porque isso me diverte
É porque isso me diverte e cago-vos na tromba
Boris Vian


quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

"La Cathédrale engloutie", de Debussy

La Cathédrale Engloutie, por Hans van der Vloed (2012)


Creio que nunca perdoarei o que me fez esta música.
Eu nada sabia de poesia, de literatura, e o piano
era, para mim, sem distinção entre a Viúva Alegre e Mozart,
o grande futuro paralelo a tudo o que eu seria
para satisfação dos meus parentes todos. Mesmo a Música,
eles achavam-na demais, imprópria de um rapaz
que era pretendido igual a todos eles:
alto ou baixo funcionário público,
civil ou militar. Eu lia muito, é certo. Lera
o Ponson du Terrail, o Campos Júnior, o Verne e o Salgari,
e o Eça e o Pascoaes. E lera também
nuns caderninhos que me eram permitidos
porque aperfeiçoavam o francês,
e a Livraria Larousse editava para crianças mais novas
do que eu era,
a história da catedral de Ys submersa nas águas.

Um dia, no rádio Pilot da minha Avó, ouvi
uma série de acordes aquáticos, que os pedais faziam pensativos,
mas cujas dissonâncias eram a imagem tremulante
daquelas fendas ténues que na vida,
na minha e na dos outros, ou havia ou faltavam.

Foi como se as águas se me abrissem para ouvir os sinos,
os cânticos, e o eco das abóbadas, e ver as altas torres
sobre que as ondas glaucas se espumavam tranquilas.
Nas naves povoadas de limos e de anémonas, vi que perpassavam
almas penadas como as do Marão e que eu temia
em todos os estalidos e cantos escuros da casa.

Ante um caderno, tentei dizer tudo isso. Mas
só a música que comprei e estudei ao piano mo ensinou
mas sem palavras. Escrevi. Como o vaso da China,
pomposo e com dragões em relevo, que havia na sala,
e que uma criada ao espanejar partiu,
e dele saíram lixo e papéis velhos lá caídos,
as fissuras da vida abriram-se-me para sempre,
ainda que o sentido de muitas eu só entendesse mais tarde.

Submersa catedral inacessível! Como perdoarei
aquele momento em que do rádio vieste,
solene e vaga e grave, de sob as águas que
marinhas me seriam meu destino perdido?
É desta imprecisão que eu tenho ódio:
nunca mais pude ser eu mesmo - esse homem parvo
que, nascido do jovem tiranizado e triste,
viveria tranquilamente arreliado até à morte.
Passei a ser esta soma teimosa do que não existe:
exigência, anseio, dúvida e gosto
de impor aos outros a visão profunda,
não a visão que eles fingem,
mas a visão que recusam:
esse lixo do mundo e papéis velhos
que sai dum jarrão exótico que a criada partiu,
como a catedral se iria em acordes que ficam
na memória das coisas como um livro infantil
de lendas de outras terras que não são a minha.

Os acordes perpassam cristalinos sob um fundo surdo
que docemente ecoa. Música literata e fascinante,
nojenta do que por ela em mim se fez poesia,
esta desgraça impotente de actuar no mundo,
e que só sabe negar-se e constranger-me a ser
o que luta no vácuo de si mesmo e dos outros.

Ó catedral de sons e de água! Ó música
sombria e luminosa! Ó vácua solidão
tranquila! Ó agonia doce e calculada!

Ah como havia em ti, tão só prelúdio,
tamanho alvorecer, por sob ou sobre as águas,
de negros sóis e brancos céus nocturnos?
Eu hei-de perdoar-te? Eu hei-de ouvir-te ainda?
Mais uma vez eu te ouço, ou tu, perdão, me escutas?
Jorge de Sena




terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Misery is the river of the world



If there's one thing you can say about mankind
There's nothing kind about man
Tom Waits



Animação: Ben Grau
Script: Ben Grau com Scott Waldren

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Negro Y azul*

Mais info aqui





La ciudad se llama Duke, Nuevo Mexico el estado
Entre la gente mafiosa, su fama se ha propagado
Causa de una nueva droga, que los gringos han creado.

Dicen que es color azul y que es pura calidad
Esa droga poderosa, que circula en la ciudad
Y los dueños de la plaza, no la pudieron parar.

Anda caliente el cartel,
Al respeto le faltaron
Hablan de un tal Heisenberg,
Que ahora controla el mercado
Nadie sabe nada de el,
Porque nunca lo han mirado.

El cartel es de respeto y jamás ha perdonado
Ese compa ya esta muerto, nomás no le han avisado

La fama de Heisenberg ya llegó hasta Michoacán
Desde allá quieren venir a provar ese cristal
Ese material azul ya se hizo internacional.

Ahora sí le quedo bien, a Nuevo Mexico el nombre
A Mexico se parece en tanta droga que esconde
Solo que hay un capo gringo, por Heisenberg lo conocen.

Anda caliente el cartel,
Al respeto le faltaron
Hablan de un tal Heisenberg,
Que ahora controla el mercado
Nadie sabe nada de el,
Porque nunca lo han mirado.

A la furia del cartel,
Nadie jamás a escapado
Ese compa ya esta muerto,
Nomas no le han avisado.
Los Cuates de Sinaloa


domingo, 22 de janeiro de 2017

Carrossel ecológico

Feira do Pinhão - Carregal do Sal
GIF Olho de Gato

És uma fruta dourada

Fotografia de Peter Lindbergh


És uma fruta dourada, uma banana madura.
Se uma borboleta te roça, eu não me afasto de ti.
- Todo aquele que morre por amor de sua amada
é um pequeno caimão que a própria mãe devora,
e que regressa ao ventre de que tem toda a ciência.
Poema de Madagáscar
Versão: Herberto Helder


sábado, 21 de janeiro de 2017

Ciumeiras



Ele: «Tu tens o teu Facebook cheio de gajos...»
Ela: «E tu tens o teu Facebook cheio de gajas...»
















"And Now For Something Completely Different" (#128)

Cenas de fim do mundo:



1) 2012 (2) Armageddon (3) Deep Impact (4) The Rapture (5) The Day After Tomorrow (6) The Road (7) Terminator 2: Judgment Day (8) Independence Day (9) Children of Men (10) The Matrix (11) Blindness (12) Day of the Dead (13) 28 Weeks Later (14) Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb (15) 4:44 Last Day on Earth (16) The Day After (17) Last Night (18) Beneath the Planet of the Apes (19) Kaboom (20) A Boy & His Dog (21) Delicatessen (22) I Am Legend (23) Planet of the Apes (24) Resident Evil (25) Night of the Living Dead (26) Miracle Mile (27) Save The Green Planet (28) Vanishing on 7th Street (29) The Hitchhiker's Guide to the Galaxy (30) Knowing (31) Zombieland (32) Dead or Alive: Hanzaisha (33) Seeking a Friend for the End of the World (34) Sunshine (35) The Quiet Earth (36) WALL·E (37) On the Beach (38) Melancholia.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Autárquicas (#2)*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Este é o segundo texto que dedico integralmente às autárquicas deste ano. O primeiro foi em 6 de Maio de 2016.

Recordo algumas ideias dessa crónica: (i) no PS, estava a começar um bombardeio dos seguristas de Viseu à concelhia costista de Adelaide Modesto; (ii) o dr. Ruas estava e está bem no parlamento europeu e não vai regressar; (iii) no PSD, António Almeida Henriques vai gerir o processo autárquico à vontade; e, (iv) quanto ao CDS, disse então: “depois do absentismo e afonia do vereador Hélder Amaral, os centristas vão ter muitas dificuldades, mesmo que candidatem algum ex-membro das equipas do dr. Ruas.”


Fotografia Olho de Gato

2. No PS, a segurista Lúcia Silva já é candidata a candidata. Deu, nessa qualidade, uma entrevista ao Jornal do Centro, onde informou que já “sentiu” o apoio do secretariado da concelhia e que, tudo que seja dito em contrário, é “hipocrisia humana”.

Ao mesmo tempo, declarações anónimas de militantes destacados a este jornal vão destilando: “pouco ambiciosa”; “ausência de bandeiras”; “direcções políticas fracas”; “ninguém se quer incomodar”.

Os “vips” do PS-Viseu estão esta nulidade cívica. Muito veneno cochichado aos jornais, nenhuma coragem para assumirem no partido e publicamente o óbvio: como se viu na entrevista, Lúcia Silva é um vazio de ideias sobre a cidade e o concelho, um vazio que até já pede socorro ao bloco e ao PCP.

3. António Almeida Henriques está à vontade.

Tem, contudo, uma decisão estratégica para tomar: se é para dar tanto poder ao seu adjunto Jorge Sobrado, se é para o pôr a tomar decisões à solta (ver o caso da Viseu Marca), é mais transparente para com os viseenses pô-lo na lista como candidato a vice-presidente.

4. Quanto ao CDS, sim, o “ex-membro das equipas do dr. Ruas” em que estava a pensar há oito meses e meio era mesmo Américo Nunes. Ele acaba de ser “convidado” pelo presidente da concelhia centrista.

Adivinha-se um ano muito divertido.

P&B

Auto-retrato
Gif Olho de Gato



O mundo é a cores, mas a preto e branco é mais realista
Wim Wenders


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Calhaus*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 19 de Janeiro de 2007


1. O artigo 140º do Código Penal determina: «A mulher grávida que der consentimento ao aborto praticado por terceiro, ou que, por facto próprio ou alheio, se fizer abortar, é punida com pena de prisão até 3 anos.»

Um aborto dói à mulher no corpo e na alma. Um aborto é um mal dramático e dilacerante. Perseguir quem fez um aborto é fazer um mal em cima de outro mal.

É por isso que, no próximo referendo, vou votar “sim”.

Wikipédia
2. Já passaram exactamente cinco anos, quatro meses e oito dias sobre o 11 de Setembro de 2001. Nesse dia George W. Bush prometeu a cabeça de Bin Laden aos americanos. De uma forma bárbara, Saddam Hussein foi pendurado agora na ponta duma corda. Só que a barba que Saddam deixou crescer no fim da vida não é confundível com a barba longa de Osama Bin Laden.

Em 28 de Fevereiro de 2003, poucas semanas antes da vergonha da Cimeira das Lajes e do sequente início da Guerra do Iraque, escrevi aqui no Olho de Gato: “Se as coisas tenderem para o pesadelo e Bush avançar para uma acção unilateral, o mundo ficará muito mais perigoso. E é escrita a primeira página da decadência da América.”

O plano de Bush para o Iraque, anunciado em 11 de Janeiro, que passa pelo envio de mais 20 mil militares e por tentar passar a “batata quente” para o governo xiita de Bagadad, não traz nada de muito promissor. Bush já só quer comprar tempo até à chegada do novo inquilino (ou inquilina) à Casa Branca, daqui a dois anos.

3. Em vez de relva, prantaram uns seixos horrorosos em várias rotundas de Viseu; pode vê-los, por exemplo, na Rotunda da Quinta do Galo ou na nova rotunda à frente dos Bombeiros Municipais.

Para que servem aqueles calhaus nas rotundas? Para servirem de munições numa intifada?

Cuando mi error y tu vileza veo

Fotografia de Wingate Paine

Cuando mi error y tu vileza veo,
contemplo, Silvio, de mi amor errado,
cuán grave es la malicia del pecado,
cuán violenta la fuerza de un deseo.

A mi misma memoria apenas creo
que pudiese caber en mi cuidado
la última línea de lo despreciado,
el término final de un mal empleo.

Yo bien quisiera, cuando llego a verte,
viendo mi infame amor poder negarlo;
mas luego la razón justa me advierte

que sólo me remedia en publicarlo;
porque del gran delito de quererte
sólo es bastante pena confesarlo.


quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Alicante Lullaby

Daqui


In Alicante they bowl the barrels
Bumblingly over the nubs of the cobbles
Past the yellow-paella eateries,
Below the ramshackle back-alley balconies,
While the cocks and hens
In the roofgardens
Scuttle repose with crowns and cackles.

Kumquat-colored trolleys ding as they trundle
Passengers under an indigo fizzle
Needling spumily down from the wires:
Alongside the sibliant narhor the lovers
Hear loudspeakers boom
From each neon-lit palm
Rumbas and sambas no ear-flaps can muffle.

O Cacophony, goddess of jazz and of quarrels,
Crack-throated mistress of bagpipes and cymbals,
Let be your con brios, your capricciosos,
Crescendos, cadenzas, prestos and prestissimos,
My head on the pillow
(Piano, pianissimo)
Lullayed by susurrous lyres and viols.
Sylvia Plath

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A noite deixou-me outra vez transtornada

Daqui

A noite deixou-me outra vez transtornada
lentamente a manhã se enche
de palavras que eu sei de certeza que significavam alguma coisa, mas o quê?
que ontem significavam alguma coisa.

Andar é balançar sobre os pés,
vejo na rua os seres de sangue quente
que tiveram também a inexplicável coragem
de se levantarem
em vez de ficarem deitados.

Nunca ninguém tem a certeza de nada,
de ser amado, de ser abandonado
tudo é possível e tudo é permitido
tudo sucede em alternância.

Agora me lembro o que queria dizer:
enquanto isso não trouxer infelicidade
é uma sensação agradável. Mas no fundo
somos doces como Turkish Delight
numa lata cheia de pregos.
Judith Herzberg
Trad.: Ana Maria Carvalho Lemmens


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A chaga que, Senhora, me fizestes

Fotografia de Jonathan van Smit

A chaga que, Senhora, me fizestes,
não foi pera curar-se em um só dia;
porque crescendo vai com tal porfia
que bem descobre o intento que tivestes.

De causar tanta dor vos não doestes.
Mas, a doer-vos, dor me não seria,
pois já com esperança me veria
do que vós que em mim visse não quisestes.

Os olhos com que todo me roubastes
foram causa do mal que vou passando;
e vós estais fingindo o não causastes.

Mas eu me vingarei. E sabeis quando?
Quando vos vir queixar porque deixastes
ir-se a minha alma neles abrasando.
Luís Vaz de Camões



domingo, 15 de janeiro de 2017

Casa Crocodilo

Fotografia daqui


Se precisares de um bom artigo de couro,
uma carteira para toda a vida,
ou um cinto de fivela bem cromada,
vai à Batalha e desce a Rua Cimo de Vila.
Ignora a atmosfera de tempo suspenso,
e não te deixes intimidar pelas mulheres lânguidas
que te chamam filho, à porta das pensões.
Lembra-te que vais pelo couro.
À tua direita, verás a Casa Crocodilo.
- entra e diz que vais da minha parte.
Carlos Tê


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Vetocracia*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Mário Soares não gostava nada que o chamassem “pai da democracia” e, quando tal ouvia, respondia com a velha tirada de Vasco Santana: “vai chamar pai a outro!”

A verdade é que a nossa democracia, mesmo não sendo irmã de Isabel e João Soares, deve ao pai deles duas coisas inestimáveis: a liberdade e a “Europa”.

Ambas a precisarem de um novo Mário Soares que as defenda. A liberdade é posta em causa todos os dias por um estado pan-óptico que quer saber tudo da nossa vida e que mantém uma justiça disfuncional e um fisco fascista. Já a “Europa” está a ser atacada duramente pelos populismos patrioteiros, entre nós por enquanto mais de esquerda do que de direita.

O último trabalho político que fiz foi na campanha de Mário Soares, nas presidenciais de 2006. Relembro o que escrevi aqui na altura em resposta aos estupores que tanto se alegraram com aquela amarga derrota do velho leão: “só há três nomes que vão ficar na história da república portuguesa: Afonso Costa, Oliveira Salazar e Mário Soares.”

2. Conforme notou Francis Fukuyama, o sistema político dos Estados Unidos da América evoluiu para uma vetocracia: os vários contra-pesos constitucionais “metastizaram-se” e bloqueiam o governo.

Esta “paralisia” de Washington, durante os oito anos de Obama, foi-se tornando cada vez mais evidente. Dois exemplos: apesar de todos os esforços de Barack, o offshore judicial de Guantánamo continua operacional e a venda de armas continua na mesma.

Agora, com Trump, é de esperar que o Congresso e o Senado continuem a fazer valer a sua força vetocrática. A vitória do milionário foi humilhante para os hierarcas do partido republicano. É expectável que estes, agora, não facilitem a vida ao novo inquilino da Casa Branca.

3. Aos 22 anos, Nuno Bico acaba de entrar na Movistar, a melhor equipa ciclista do mundo. Além de atleta de eleição, o jovem viseense, na excelente entrevista que deu a este jornal, mostrou ter uma cabeça bem arrumada.
Força, Nuno Bico!


A vida é líquida

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.

* * *




Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.

* * *




E bebendo, Vida, recusamos o sólido
O nodoso, a friez-armadilha
De algum rosto sóbrio, certa voz
Que se amplia, certo olhar que condena
O nosso olhar gasoso: então, bebendo?
E respondemos lassas lérias letícias
O lusco das lagartixas, o lustrino
Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos
E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.
Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me
Na noite navegada, e rio, rio, e remendo
Meu casaco rosso tecido de açucena.
Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.

* * *




Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito
Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado
Salpicado de negro, de doçuras e iras.
Te amo, Líquida, descendo escorrida
Pela víscera, e assim esquecendo
Fomes
País
O riso solto
A dentadura etérea
Bola
Miséria.
Bebendo, Vida, invento casa, comida
E um Mais que se agiganta, um Mais
Conquistando um fulcro potente na garganta
Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.
Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos
Quando não sou líquida.
Hilda Hilst


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O tempo acaba o ano, o mês e a hora

Daqui

O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora;

O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.

O tempo o claro dia torna escuro
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grã bonança.

Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.
Luís Vaz de Camões


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Uma geringonça

Daqui


O SACA-ROLHAS
Escultura mecânica de Rob Higgs


Feita a partir de objectos achados em sucatas, a escultura tem 383 peças móveis e pesa mais de 300 quilos.

O Daily Mail, de onde se tira a fotografia, avalia esta peça em 75.000 libras.

Entre ancas fecundas e minguadas cinturas

Daqui



Entre ancas fecundas e minguadas cinturas
Em regaços de trevas, noites que eu vivia!
E brancas e morenas me atravessavam a alma
Tal qual o gume branco ou a lança sombria;
No remanso do rio, que noites deleitosas
Com quem lua crescente em seu pulso trazia!
Do manto que tirava erguia esbelto ramo
Viçoso: uma flor que do cálice rompia.
Al-Mu'tamid (séc. XI)


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Nuvens

Fotografia de Mark Sink


No dia triste o meu coração mais triste que o dia...
Obrigações morais e civis?
Complexidade de deveres, de consequências?
Não, nada...
O dia triste, a pouca vontade para tudo...
Nada...
Outros viajam (também viajei), outros estão ao sol
(Também estive ao sol, ou supus que estive),
Todos têm razão, ou vida, ou ignorância simétrica,
Vaidade, alegria e sociabilidade,
E emigram para voltar, ou para não voltar,
Em navios que os transportam simplesmente.
Não sentem o que há de morte em toda a partida,
De mistério em toda a chegada,
De horrível em todo o novo...
Não sentem: por isso são deputados e financeiros,
Dançam e são empregados no comércio,
Vão a todos os teatros e conhecem gente...
Não sentem: para que haveriam de sentir?
Gado vestido dos currais dos Deuses,
Deixá-lo passar engrinaldado para o sacrifício
Sob o sol, alacre, vivo, contente de sentir-se...
Deixai-o passar, mas ai, vou com ele sem grinalda
Para o mesmo destino!
Vou com ele sem o sol que sinto, sem a vida que tenho,
Vou com ele sem desconhecer...
No dia triste o meu coração mais triste que o dia...
No dia triste todos os dias...
No dia tão triste...
Álvaro de Campos


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Agora

Fotografia de Mark Olich



Desobedece
traça e sega
sob um coração
a nudez das coisas
agora. As coisas que só tu habitas
deflagram sem, a rigor, nada de ti
te obrigar a entregá-las
puras
agora. Há um riso
clandestino
deduz os olhos
embriaga o amor
agora. Reconheceste só
os olhos apodrecem-te
pássaros em metal
asas de cinza
agora. Ultrajadas as coisas habitam-te
tu dentro delas conflagras
poeira e sol
agora. O breve amor
ainda te pendura
no vento
gomos de sangue
agora. Faz uma lotaria
nos sentidos que dás
às coisas
armadilhas
a tua língua
agora. Dói beijar respirar
a boca sobre as coisas
útero de mel
agora. Não morras
sem me desprezar
remo na face
inundada
agora. Ninguém sabe
os nossos olhos
no corpo o desejo
do sexo
agora. Lavras os olhos
no fio a que atas as coisas
a cicatriz é varanda
molhada delas
agora. Sentir ciúme é fácil
nos olhos
perco o pranto mergulho
na piscina de pulgas
agora. Espesso das coisas
admito o coração
no salto
da carne
agora. Não há aquilo
a amizade um bem uma coisa
é uma coisa um bem a amizade
agora. Para não perder
as coisas mais pequenas nos olhos
vejo melhor
agora. Amo-te só
só te amo
aqui
só a morte
chega
amar-te
agora. Um disparate a lembrança
no coração
dilacera-te
agora. Lado a lado
sem esquecer
todas as coisas
prolongam-nos uma distância
agora. O amor sempre
doente
eu amei sempre
a imperfeição
agora. Sou simples
complico-te
tal como és
agora. Agora mesmo passa
por aqui entra fica,
guarda
os olhos
blindados
agora. Brinca com as pedrinhas
azambrado sob a lua
a concha na mão
o vazio a suster
agora. O frio delicadamente
revira dentro das camisolas
o corpo só isso
agora. Faço amor
dou contigo
corpo adentro
persigo-te
agora. Ajeito as lágrimas
ligeiramente feridas
ficam a jeito
agora. Tudo
dorme comigo
antes despenhando-se
contigo
agora. Apanho tudo
o fundo a pé-coxinho
cabra-cega a infância
agora. O véu cicatriza
a ignorância a justiça
o teu sexo crescendo
cerejeira
agora. Ultrapassa a loucura
escreve a vaidade
ultra-light
agora. Perdi o medo
custa-me andar
por aí
onde estás?
agora. Um desprazer
o elmo durando face
anagrama o ódio
gorila
agora. Desvio até
os olhos
que te viram dentro
segredos
agora. Passas tempo
sei aí
beber
para saciar
dói
agora. Faz o desespero
absoluto
não voltes
volta
agora. Essa densa apoderação
alarga a presença das coisas
os olhos HI-FI
recuperam-se
agora. Se a morte fosse uma flor
seria buganvília –
folha denuncia a delicadeza
em que dissimulas a vida
agora. Um sentido
partilha e esconde
a colheita a identidade
só o lume pulsa intacto
agora. Funâmbulo
no débil leme onde embriagas
a noite – escreves: antes pétala
embrumada num final perplexo.
Glória Martins