sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Subida aos céus

Fotografia de Mario Cravo Neto



Quero ser amada só por mim e não por andar enfeitada, ser adorada mesmo assim, careca, nua, descarnada. Com perfumes a presa é fácil, com jóias, casacos de peles - gosto do amor quando é difícil e cheiro o meu hálito reles. Quero ser amada à flor da pele, não quero peles de vison; amada pelo sabor a mel e não pela côr do baton. Com cabeleira a presa é fácil, há quem se esconda atrás dos pêlos - gosto do amor quando é difícil e ser amada sem cabelos. Quero que me beijem a caveira e o meu ossinho parietal, que se afoguem na banheira pelo meu belo occipital. Com carne viva a presa é fácil, é ordinário e obsoleto - gosto do amor quando é difícil, quando me aquecem o esqueleto. Quero ser amada pela morte, pelos meus ossos de luar; quero que os cães da minha corte passem as noites a ladrar. Engano de alma ledo e cego, ó linda Inês posta em sossego imortal… diz adeus; sobe aos céus.
Regina Guimarães


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