terça-feira, 13 de junho de 2017

Os olhos luciferinos dos anjos

Der Himmel über Berlin, de Wim Wenders (1987)


Os olhos luciferinos dos anjos.

Quero dizer: têm uma luz — possuem a qualidade
veemente mas fria da espera, da promessa: sim?, da anunciação.

Penso nas estátuas brancas,
com seus olhos desprovidos de pupilas.
Colocadas assim nas trevas, essas estátuas
ressaltam com uma doçura dolorosa e intempestiva
e parecem indicar outro tempo: a luz, ou a treva maior,
aquela que nem somos capazes de presumir.

Deste modo é que ela surgira no pórtico,
e havia os pequenos e fortes cornos
que irrompiam ao cimo da testa,
acompanhando com maligna e rápida subtileza
o movimento da cabeleira.

Aérea, a cabeleira.
Existia ainda uma boca para todo o silêncio.
Porque se tratava de silêncio, evidentemente.
Era esse o tema — é esse o tema das aparições.

Além do longo vestido, o tema branco — que obliquamente se insinuava,
como se insinuam os múltiplos planos — no tema das trevas.

Ah, sim: era o tema branco,
e as mãos não traziam nenhum lírio pictórico,
a haste comprida, a corola consagrada à alta e luminosa
representação do angelismo.

Os braços caíam ao longo do vestido
e as mãos estavam coladas às pernas.

Era quase um emblema ambíguo — sê-lo-ia,
se o tempo houvesse parado antes,
e eu apenas tivesse ali chegado
como se chega à história antiga, ao facto de pedra:
um monumento, uma capela, um túmulo,
a casa do príncipe que criara a concentração dos seus mitos tumultuosos
na matéria adormecida.

Porque andava, eu, andava de um lado para outro,
na penumbra em que se erguia a sobreposição de cilindros,
de diâmetro cada vez menor,
conforme se levantava a vista até ao cimo — e no cimo,
no último pequeno cilindro, estava um longo mastro nu,
sem bandeira de cidade ou nação.

Era difícil pôr-se a imaginar o serviço de todos os pórticos
abertos à roda de cada cilindro — não se esperasse,
como seria possível, que em cada pórtico surgisse uma árvore
assim direita, uma figura, aquela mensagem silenciosa e vibrante
coisa mineral, vegetal: o coração dos dias desabitados.

Uma diferente figura em cada pórtico,
ou a proliferação, numa momento inflacionista,
de imagens todas iguais, como múltiplos avisos,
múltiplos sinais da trepidação interior?

Por quantos lados ressuscita a vida enterrada?

É apenas para que se saiba:
há muitos pórticos,
e em cada pórtico tu próprio podes aparecer,
para o primeiro passo em direcção ao teu lugar de trevas
ou à cidade de Deus.

Mas ela era só uma e tinha para si um só pórtico,
e ali estava, e a sua beleza contraditória e veloz
acabava agora mesmo de ferir-me no que eu andava:
por que eu andava de cá para lá, à frente do edifício.

Acorda-se, há um dia em que se acorda
— e então a gente põe-se a andar.
Herberto Helder

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