sexta-feira, 2 de junho de 2017

Fazer o jantar*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


A recente cimeira da NATO mostrou um Donald Trump que tanto empurra o primeiro-ministro do Montenegro para ficar melhor nas fotografias como dá caneladas nos países que não investem em forças armadas.



O homem é tudo menos subtil. Contudo, essa casca-grossice deu visibilidade a um grave problema: a Europa habituou-se a viver protegida debaixo do guarda-chuva norte-americano, deixando para os ianques o trabalho e a despesa da sua protecção. Durante a guerra-fria este arranjo fazia algum sentido, depois da queda do muro de Berlim deixou de fazer.

A “Europa”, o maior bloco económico mundial, é um anão militar e isso é mau, já o demonstrei aqui várias vezes, como, por exemplo, em “Loiça” (Novembro de 2006) e “A Pá e a Corda” (Setembro de 2014).

Nos anos de 1990, como não tinha músculo, a Europa passou pela vergonha de ter de pedir a Bill Clinton para vir resolver a barbárie nos Balcãs. Há três anos, a mesma falta de músculo deixou que Putin fizesse, impune, uma anexação de território ucraniano, o que lançou o pânico nos países de leste.

A velha divisão de tarefas descrita pelo neo-conservador Robert Kagan no seu livro “O Paraíso e o Poder, A América e a Europa na Nova Ordem Internacional”, em que o hard-power norte-americano “fazia o jantar” e o soft-power europeu “lavava a loiça”, funcionou na antiga Jugoslávia. Os Estados Unidos fizeram o trabalho duro dos combates e os europeus, depois, trataram de manter a paz com as botas no terreno.

Só que, anos depois, quando em 2011 era imperioso salvar a primavera árabe na Líbia, a cobardia de Sarkozy e de Cameron não deixou que o mesmo se repetisse, a “Europa” já nem para “lavar a loiça” serviu.

Obama nunca mais confiou em nenhum líder europeu a não ser em Angela Merkel. Esta acaba de apelar à mobilização do continente. Vale mais tarde do que nunca.

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